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A Travessia da Falta

Há ausências que não pedem explicação. Apenas caminham conosco até que a escrita lhes ofereça um lugar onde possam existir sem fazer tanto barulho.

Viver não é apenas o coração pulsar.

Se viver fosse isso, bastaria que ele batesse. Bate. Bate. Bate. E, ainda assim, haveria quem atravessasse a existência sem jamais ter vivido.

Existe qualquer coisa que escapa ao movimento do peito. Mas não quero escrever sobre isso.

Queria deixar um eu meu em casa, sentado ao lado da minha alma, e sair sem destino, atravessar ruas, cidades, países, continentes, como quem parte apenas para descobrir se a saudade também pode sentir saudade.

E, quando eu voltasse, que esse eu ainda estivesse ali, cuidado pela própria alma, como uma casa que aprendeu a proteger quem mora dentro dela.

Queria encontrar uma paz que não precisasse ser conquistada. Uma paz que não dependesse do silêncio dos outros, nem do barulho que existe em mim.

Queria que nada mais me atravessasse. Que nenhuma lembrança aprendesse novamente o caminho do meu peito.

Há dores que não gritam. Elas apenas permanecem, como uma lâmina invisível esquecida dentro do corpo, lembrando que algumas feridas não sangram para fora.

A falta sempre chega.

Quando não mora em mim, aluga um espaço no mundo.

Se compro uma coisa, descubro outra ausência.

Se encontro uma resposta, a pergunta muda de lugar.

Talvez a falta nunca tenha sido falta.

Talvez ela apenas vista o nome que ainda não fui capaz de pronunciar.

E é por isso que continuo escrevendo.

Na esperança de que alguma palavra, cansada de fugir, decida morar em mim.

Mas talvez o destino da escrita não seja encontrar.

Talvez seja perder.

Perder certezas. Perder caminhos. Perder versões de si que já não cabem na própria alma.

Porque algumas travessias não levam a lugar algum.

Elas apenas nos devolvem a alguém que já éramos, mas que a dor havia escondido.

E talvez viver nunca tenha sido permanecer inteiro.

Talvez viver seja aceitar que a alma também se fragmenta, e que há uma estranha beleza em recolher, com as próprias mãos, os pedaços que ainda insistem em chamar o nosso nome.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 2 K leituras
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