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Sinto saudade de mim

Não consigo escrever enquanto estou ansioso. Sinto muita saudade de mim. Hoje acordei, tomei café e li boa parte de um livro. Peço perdão ao meu hoje por não estar colocando tantas palavras e versos no mundo. Peço perdão ao meu Word também, por não estar depositando nele tantas palavras e versos como antes. Peço perdão ao poder da palavra, mas é que a leitura me sucumbiu e me chamou para perto nesta semana.

Enquanto minha amiga me contava sobre quando nos conhecemos no hospital onde trabalho, lembrou-me de que costumava ficar me olhando no refeitório, na hora do almoço, porque eu era engraçado e meio autêntico. Autêntico eu? Não sei de onde ela tirou isso, mas preciso respeitar a lembrança que ela guarda de mim, não é mesmo?

E fui. As lágrimas desceram. Ela continuava falando, e meu pensamento, silenciosamente, perguntava: cadê aquele menino autêntico e sorridente? Aonde ele foi parar? Será que ainda existo? Quem sou eu?

Acordei querendo ficar recolhido, quieto, como se alguma coisa em mim tivesse pedido licença ao mundo para não precisar responder a nada. Talvez seja uma espécie de epifania, um estado de introspecção em que até a curiosidade se ausenta - nem por mim, nem pelo outro. Há dias em que olhar para dentro parece tão inútil quanto procurar uma palavra numa página que já não sabemos ler.

Até porque eu não conseguiria escrever mais. Primeiro, não sei quem sou. Segundo, quanto mais me procuro, menos me descubro. Terceiro, não sei. Quarto, perdoe-me.

Perdoe-me, sobretudo, por essa insistência em procurar alguém que talvez já não exista da maneira como me lembro. Até eu precisei me perdoar tantas vezes por não ser mais aquilo que um dia fui.

E talvez o mais doloroso não seja ter mudado, mas não reconhecer, em silêncio, o menino que os outros ainda conseguem enxergar em mim.

Sinto saudade de mim. E, por enquanto, não sei se escreverei para me encontrar ou se precisarei aceitar que há dias em que nem mesmo a palavra sabe me devolver.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 8 K leituras
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