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ALERGIA CRÔNICA À POBREZA

Hoje, ao acordar, recebi um valor na minha conta. Não fiquei triste, tampouco feliz. Apenas fiquei. Há dias em que a existência não nos provoca coisa alguma; simplesmente acontece, como se o corpo continuasse obedecendo a uma rotina da qual a alma já tivesse se desligado. Ainda não quis almoçar. Não estou com muito apetite. Comprei alguns dos meus medicamentos, embora, confesso, ainda faltem outros. Depois, fui à rua. Vesti uma roupa, avisei à minha mãe, abri o portão, fechei-o atrás de mim e dobrei à direita. Fui conversando com a rua, ou comigo mesmo. Talvez não exista tanta diferença entre as duas coisas. Era a velha rua onde cresci, aquela que, de alguma maneira, também me viu crescer. Praticamente, continua a mesma. Havia um caminhão estacionado, diferente daqueles que eu conhecia antigamente, com outro desenho na parte traseira. A quadra próxima à praça, por sua vez, permanecia quebrada havia muito tempo, como se tivesse sido vencida por alguma catástrofe sobrenatural provocada pela própria natureza. Olhei e pensei: depois alguém conserta. Curioso como depositamos no futuro a responsabilidade de reparar aquilo que o presente já não consegue suportar.

Algumas coisas permanecem exatamente iguais; outras se modificam sem pedir licença. Durante a infância e uma parte da adolescência, havia parques naquela quadra. Eu gostava muito de frequentá-los. Hoje, já não os montam ali, embora continuem existindo em tantos outros lugares. Mas isso já não me desperta o mesmo interesse. E não é porque eu não possa ter dinheiro para comprar um bilhete, carimbar a mão e passar horas andando nos brinquedos. É porque certas vontades não desaparecem necessariamente quando nos falta alguma coisa; às vezes, elas simplesmente deixam de nos alcançar. A memória permanece, mas o desejo parece ter perdido o endereço. Segui até o posto de gasolina onde costumo comprar cigarros. Na volta, passei pela padaria para comprar um suco. Faltavam dez centavos. Foi então que minha alergia crônica à pobreza se manifestou em forma de raiva. Ainda assim, consegui comprá-lo. Voltei para casa, entreguei a bebida à minha mãe e recolhi-me ao quarto, como quem retorna de uma viagem que não o levou a lugar algum.

A pior pobreza, para mim, não é a de não ter dinheiro suficiente para comprar alguma coisa. Não é somente dessa pobreza que estou falando, embora também seja dela. Existe outra, menos visível, que não aparece no extrato bancário, não pode ser contada em moedas e tampouco se resolve com um depósito inesperado. É a pobreza da mente. A minha anda miserável. Ao mesmo tempo que mantém dez mil abas abertas, parece não encontrar conteúdo em nenhuma delas. Há um ruído incessante, mas quase nenhuma palavra que consiga me alcançar. Uma espécie de excesso vazio, um deserto abarrotado de coisas. Encontrei uma colega do tempo em que frequentava a academia, e ela me disse que eu estava muito bem. Entretanto, olhou para mim de um jeito que me fez pensar que talvez estivesse enxergando alguma coisa além daquilo que eu mostrava. Antigamente, eu me arrumava para sair mesmo quando o destino era apenas a rua. Hoje, quando a depressão e a melancolia ocupam quase todo o espaço, a aparência perde o sentido. A roupa deixa de ser escolha, o espelho deixa de ser companhia e a beleza, por mais que ainda exista aos olhos alheios, parece não encontrar morada dentro de quem a carrega. O dinheiro também perde parte de sua importância subjetiva, embora continue sendo uma necessidade concreta, porque é dele que depende, entre outras coisas, o pão sobre a mesa. Não romantizo a pobreza. Sei o que ela exige, o que limita e o que humilha. Mas há uma diferença entre não ter dinheiro e já não conseguir encontrar dentro de si alguma coisa que o dinheiro, por si só, jamais poderia comprar.

Recebi o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar aos vinte anos. Desde então, aprendi que existem palavras para nomear certas experiências, ainda que nenhuma delas consiga contê-las por inteiro. Às vezes, penso que ando por três mundos. O primeiro me escapa. O segundo é a hipomania; o terceiro, a euforia. E, quando tento compreender o primeiro, encontro a depressão, embora nem mesmo essa palavra pareça dar conta de tudo. Dizem que se trata de uma depressão específica. Talvez. Mas não escrevo para organizar meus dias dentro de uma classificação, nem para transformar cada sintoma em uma identidade. Não quero que os nomes me antecedam, que os laudos falem antes de mim ou que os diagnósticos se tornem uma espécie de sentença sobre aquilo que posso ou não ser. Reconheço o que me acontece, mas não aceito ser reduzido a isso. Não me recuso a compreender meus atravessamentos; recuso-me apenas a acreditar que sou inteiramente aquilo que se escreveu sobre mim. Há uma diferença entre receber um nome e entregar a ele a própria existência. Não nasci para ser adestrado por palavras, por mais científicas que sejam, como se a complexidade de um sujeito pudesse caber inteira em algumas linhas de um documento.

Neste ano, meu psiquiatra me encaminhou ao INSS para que eu pudesse me afastar temporariamente do trabalho e, quem sabe, encontrar algum alívio. Entretanto, nenhum dos meus pedidos foi concedido. Acabei recorrendo à Justiça Federal, e meu pai ficou responsável por cuidar dessa parte. Ontem, porém, não sei dizer o que me levou novamente ao aplicativo do INSS. Não sei se era ansiedade, se era alguma inquietação difícil de nomear ou se simplesmente não conseguia deixar as coisas onde já estavam. Afinal, se o processo já estava na esfera judicial, por que eu precisava mexer novamente naquilo? Ainda assim, mexi. Iniciei um novo pedido de benefício por incapacidade, embora, a princípio, não pretendesse concluí-lo. Imaginei que meu pai ficaria irritado comigo. Mas, quando percebi que o sistema parecia ter mudado e que já era possível agendar uma perícia, fui até o fim. Fiquei feliz. Mandei a informação para ele, talvez com aquela alegria quase infantil de quem acredita ter encontrado uma saída depois de tantas portas fechadas. Pouco depois, porém, percebi uma divergência e cancelei o pedido. Para mim, o assunto havia terminado ali. Voltei à minha vida, ou àquilo que tenho chamado assim. Estava lendo um livro quando meu pai telefonou. O telefone tocou, e decidi que só atenderia depois de terminar a leitura. Naturalmente, imaginava que ele falaria sobre o ocorrido, mas não daquela maneira.

Quando atendi, encontrei a fúria do outro lado da linha. Ele gritava. Coloquei o celular no viva-voz e deixei que continuasse. Em determinado momento, mandou que eu o bloqueasse no WhatsApp, que nunca mais falasse com ele, porque ele também nunca mais falaria comigo. Disse, ainda, que eu não deveria pedir mais nada a ele. Permaneci mudo. Não argumentei, não me defendi, não tentei interromper a sequência de palavras que chegava até mim. Apenas escutei. Talvez eu já tivesse aceitado aquelas frases antes mesmo que ele terminasse de pronunciá-las. Talvez não tenha sido aceitação, mas cansaço. Há momentos em que a gente deixa de responder não porque concorda, mas porque já não encontra forças para participar de mais uma guerra. E, para ser sincero, até agora não sei dizer se aquilo me afetou. Como escrevi anteriormente, quando a depressão e a melancolia se tornam companheiras tão antigas, parece que nos acostumamos a ser tratados de qualquer maneira. Não sei se é costume, defesa ou uma espécie de anestesia que se instala sem pedir autorização. O fato é que aquilo não me doeu como imaginei que poderia doer. Não acabou com o meu dia, mas talvez porque os meus dias já não comecem nem terminem da maneira como costumavam começar e terminar. Às vezes, não há um acontecimento que inaugure a manhã ou encerre a noite. Há apenas a continuidade de alguma coisa que parece ter começado muito antes de mim. Em certos dias, não me sinto apenas cansado da vida que levo. Sinto-me acabado antes mesmo de ter terminado.

Eu só me sinto eu quando escrevo. Fora da escrita, sou uma presença que nem sempre reconheço. Talvez seja por isso que continuo voltando às palavras, mesmo quando não sei exatamente o que desejo encontrar nelas. Escrever não resolve tudo, não me retira automaticamente do lugar em que estou, tampouco transforma a dor em alguma coisa bonita. Mas, enquanto escrevo, alguma coisa acontece. O que estava disperso começa a adquirir contorno; aquilo que não encontrava lugar na fala encontra abrigo na página. Não sei se isso é elaboração, sobrevivência ou apenas mais uma maneira de permanecer. Sei somente que, entre tantas coisas que deixaram de fazer sentido, a escrita ainda me devolve, por alguns instantes, a impressão de que existo para além daquilo que me acontece.

Talvez a minha loucura, como tantas vezes nomeio aquilo que não compreendo inteiramente em mim, tenha se tornado, aos olhos dos outros, uma autorização para que me tratem com rispidez. Talvez, quando alguém nos percebe em um estado de fragilidade, passe a acreditar que pode nos oferecer menos delicadeza, como se a nossa dor nos retirasse o direito de sermos tratados com cuidado. Não sei. Sei que, em algum momento, passou pela minha cabeça a possibilidade de meu pai chegar em casa e me agredir. E o pensamento mais doloroso não foi sequer imaginar a agressão, mas perceber que, dentro de mim, existia a ideia de que eu permitiria que acontecesse. Como se merecesse. Como se todo o sofrimento acumulado tivesse produzido uma dívida que eu precisasse pagar com o próprio corpo. Mas, quando me detenho nisso, lembro que nunca escolhi sentir o que sinto. Não procurei passar anos tentando compreender a mim mesmo, buscar ajuda, consultar profissionais, receber diagnósticos e aprender a conviver com mudanças que nem sempre consigo antecipar. Fiz o que estava ao meu alcance. Continuo fazendo. E não há mérito extraordinário nisso, apenas a tentativa de continuar vivendo com aquilo que me acompanha.

O dinheiro, apesar de tudo, continua sendo necessário. Não ignoro sua importância, nem finjo que as necessidades materiais desaparecem quando a alma adoece. Entretanto, talvez o que eu espere, no fundo, não seja um depósito, uma solução imediata ou alguém que resolva a vida por mim. Talvez eu espere apenas um pouco de acolhimento. Um gesto que não me peça explicações. Uma voz que diga: calma, meu filho, não é assim; vamos resolver. Ou qualquer outra coisa que se aproxime disso. Não é preciso compreender toda a minha história para não me ferir enquanto tento atravessá-la. Não é necessário conhecer a origem de cada angústia para oferecer um pouco de humanidade a quem já está cansado de carregar o que sente. Mas também não exijo que alguém me ofereça aquilo que não consegue dar. Não quero transformar a minha necessidade em uma obrigação alheia. Apenas reconheço que, às vezes, a gente gostaria de encontrar no outro um lugar onde não precisasse permanecer em estado de defesa.

Nunca desejei que ninguém passasse pelo que já passei ou pelo que ainda estou passando. Como poderia desejar a alguém uma dor tão infernal, uma dor cuja origem nem sempre consigo localizar, que chega sem pedir licença e permanece mesmo quando já não sei o que fazer com ela? Nem mesmo àqueles que, em algum momento, possam ter dito que me odeiam. Há coisas que não precisam ser devolvidas na mesma medida em que nos foram oferecidas. O sofrimento não me tornou incapaz de reconhecer a humanidade dos outros, embora, em determinados dias, eu mal consiga reconhecer a minha própria. E talvez seja justamente por isso que ainda me espanta a facilidade com que uma palavra pode ferir alguém que já está ferido. Não porque eu espere que o mundo se torne cuidadoso comigo, mas porque continuo acreditando que a delicadeza não deveria ser um privilégio reservado a quem consegue demonstrar que está bem.

Meus caros leitores - se um dia alguém chegar a estas páginas -, não sei sequer por que estou escrevendo tudo isso. Talvez porque alguma coisa em mim tenha precisado sair, mesmo sem saber para onde ir. Não sei se o que escrevo pode ser chamado de crônica, autobiografia, poesia ou qualquer outra coisa que a literatura tenha inventado para organizar suas manifestações. Por enquanto, são apenas palavras. Palavras de alguém que não está bem e que, neste instante, não pretende fingir o contrário. Não quero oferecer uma lição, construir uma narrativa de superação antes que ela aconteça ou transformar a minha dor em um espetáculo digno de ser observado. Estou apenas registrando um momento da minha existência, com todas as contradições que ele carrega. E, se algum dia você estiver lendo estas linhas, talvez eu já não esteja exatamente como estou hoje. Não porque saiba o que virá, nem porque consiga prever a forma que a minha vida terá, mas porque o tempo modifica até aquilo que, durante muito tempo, acreditamos ser permanente. O jogo pode mudar. Eu também posso. E, se há alguma coisa que ainda reconheço como necessária, é fazer alguma coisa por mim, encontrar uma maneira de mudar a chave, interromper essa repetição e sair do lugar em que a depressão parece ter me instalado.

Enquanto isso, decidi guardar uma coisa comigo durante trinta dias. Inicialmente, serão trinta dias; talvez menos. Não vou explicar agora o que é, nem o que pretendo fazer com isso. Algumas coisas precisam permanecer em silêncio antes de adquirirem forma. Não se trata de esconder uma resposta, mas de permitir que a pergunta exista sem a interferência de outras vozes. Depois desse tempo, farei alguma coisa com ela. Ainda não sei exatamente o quê, e talvez seja melhor assim. Há momentos em que antecipar o desfecho é uma maneira de impedir que alguma coisa verdadeiramente aconteça. Por enquanto, deixarei que o tempo trabalhe onde a minha vontade já não consegue operar sozinha.

Se existe alguma coisa que aprendi ao longo da vida, é que tenho o hábito de recolher aquilo que me fere e tentar transformar a matéria dessa dor em alguma coisa que me pertença. Não faço isso porque o sofrimento seja necessário, tampouco porque a dor esconda alguma beleza secreta que precise ser descoberta. Faço porque, quando não consigo mudar o que me aconteceu, ainda tento encontrar uma maneira de não permanecer inteiramente submetido a isso. Talvez seja essa a minha forma de resistência: não vencer todas as batalhas, não compreender todos os sintomas, não encontrar respostas para cada pergunta, mas continuar procurando alguma possibilidade de criação onde antes só havia desordem.

Por enquanto, guardo comigo o que ainda não sei dizer.

Trinta dias. Talvez menos.

E, depois, veremos o que restou de mim - e o que, apesar de tudo, ainda pode nascer.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 9 K leituras
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