A MÁQUINA QUE AINDA NÃO TENHO
Escrevendo nas teclas de um teclado que teclou um sonho que talvez eu tenha sonhado. Há alguma coisa estranha em desejar uma máquina de escrever quando já tenho um computador diante de mim. Talvez porque o desejo nunca seja exatamente pelo objeto que anuncia querer. Talvez eu diga que quero uma máquina, mas esteja procurando aquilo que ela representa, aquilo que nela ainda não sei nomear. Uma máquina antiga, de datilografia, de telegrafia, de teclas pesadas, de papel entrando por entre as mãos. Uma máquina que não apenas registre o que penso, mas que me obrigue a permanecer diante daquilo que escrevo.
Eu me levanto, viro para a direita, preparo café e volto para o quarto com a caneca nas mãos. Coloco-a sobre o criado-mudo. Pego um livro, mas a máquina me chama mais. Tomo o café. Tomo outra caneca. E então começo a escrever nela. A máquina responde às minhas mãos e vai me devolvendo as palavras que eu mesmo coloquei diante dela. Há alguma coisa quase lacaniana nisso: eu penso que estou escrevendo, mas talvez seja a própria escrita que esteja me escrevendo. Eu aperto a tecla procurando uma palavra e, às vezes, encontro outra coisa.
Depois da terceira página, ligo a televisão. Coloco uma música moderna dos anos 60. Acendo o cigarro. Outro gole de café. A mão esquerda segura o cigarro. A direita continua escrevendo. A janela está aberta e o vento entra no quarto enquanto meus dois livros esperam para ser lidos. Mas a máquina não espera. Ela exige que eu continue.
E eu continuo.
Talvez seja isso que me fascine nela. A máquina não conversa comigo, mas responde. Não interpreta, mas devolve. Não pergunta o que quero dizer, apenas registra aquilo que minha mão decide fazer. E, nesse movimento, alguma coisa misteriosa acontece. As palavras deixam de ser apenas minhas. Depois de colocadas no papel, passam a ter uma existência própria. Já não sou somente aquele que escreve. Também sou aquele que lê aquilo que acabou de escrever.
Uma máquina de escrever parece, de algum modo, uma máquina do inconsciente. Ela recebe pequenos golpes e devolve marcas. Uma tecla depois da outra, uma letra depois da outra, até que alguma coisa que estava escondida começa a aparecer. Talvez eu esteja doido para ter uma justamente por isso. Porque quero descobrir o que minhas mãos fariam se tivessem diante delas uma máquina que não pudesse apagar tão facilmente aquilo que acabou de nascer.
Dá para escrever muito nessa máquina. Muito mais do que aquilo que eu imaginava. E, por alguns instantes, eu crio uma espécie de felicidade. Feliz, feliz, feliz. Uma felicidade simples, quase infantil, mas profundamente minha. Como se finalmente tivesse encontrado um objeto capaz de combinar com alguma coisa que existe em mim há muito tempo.
Só que eu ainda não posso comprar uma.
É meu sonho.
Quem sabe eu ganhe de presente.
E talvez exista alguma coisa profundamente psicanalítica nisso também. Porque o desejo não desaparece quando o objeto não está disponível. Às vezes acontece o contrário. A falta sustenta o desejo. Eu olho para a máquina que não tenho e, justamente porque não a tenho, começo a imaginá-la. Imagino o papel saindo, a letra marcada, o som das teclas, a minha mão esquerda segurando o cigarro, a direita escrevendo, o café ao lado, a janela aberta. Talvez eu esteja construindo uma cena para aquilo que ainda não consegui possuir.
E talvez escrever e ser seja um pouco isso: deixar que alguma coisa saia de dentro, ganhe papel, ganhe corpo, ganhe existência, mesmo quando aquilo que desejamos ainda não chegou. Talvez eu queira a máquina para guardar os papéis. Guardá-los até que algum dia cheguem a algum outro. Ou talvez eu queira apenas o direito de olhar para aquilo que escrevi e reconhecer ali uma parte de mim que eu ainda não conhecia.
O melhor, ou talvez o pior, é que a máquina continua vindo antes de vir. Ela já existe no sonho, na imaginação, na falta, no desejo. Existe antes do objeto. E talvez seja justamente assim que algumas coisas começam: primeiro como ausência, depois como pensamento, depois como palavra, até que um dia possam finalmente ocupar um lugar no mundo.
Então eu acordo.
E escrevo novamente na agenda:
Triste realidade.
Impecável desejo.
Ainda não tenho a máquina.
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