A morada do que escapa
A MORADA DO QUE ESCAPA
Repousaria entre os ventos, com um cobertor amarelo por cima, para que eu fique rico, mas não de dinheiro, e sim de saúde. Terei o meu sono dos justos. Assim faço da minha casa uma morada e, do meu quarto, um lugar onde cada quadro parece guardar alguma coisa de mim. Cada casa tem seu canto, e cada canto representa alguma coisa: talvez um santo, talvez um mistério.
Em cima da mesa tem uma maçã. Nunca fui de comer maçã. E agora me pego pensando: será porque dizem que a maçã foi o fruto do pecado? Então eu pequei, porque uma vez dei uma mordida nela. A maçã e eu. Ela fica lá em cima, mas, quando vejo, vai desaparecendo. Alguém come. Eu não sei quem é. Ou talvez saiba e não queira escrever aqui. Já a banana, por ser amarela, eu como. Justamente para ficar rico em saúde.
São meus preparativos para a grande festa espiritual das crianças. Logo, logo chega o dia delas. Que vivam as crianças, que dizem ser o futuro da humanidade. Mas, se as crianças são o futuro da humanidade, um dia eu fui criança. Então, eu sou o futuro de quê? Não sei. E, neste momento, também não quero saber. Estou no presente. Não quero antecipar o futuro, embora, quanto mais escreva, mais o passado apareça diante de mim.
Vejo uma criança em cima do morro, descendo em uma tábua com rodas e se espatifando lá embaixo, com os joelhos ralados. A mãe passa Merthiolate. Ah, como arde! A criança reclama. Depois sara. Agora, adulto, descubro que existem dores que não aparecem nos joelhos. São aquelas que a gente sente por dentro, quando alguma coisa não acontece como esperávamos. Talvez a vida seja assim: escorregar, aprender a levantar e descobrir, pouco a pouco, que nem toda queda é o fim do caminho. Não dá para sofrer sempre, nem sempre viver sofrendo. Também dá para ser feliz.
O tempo passa rápido. Às vezes devagar. E depois disso, o que se faz? Eu não sei o que se faz. Nem sempre sei o que fazer comigo mesmo. Só conheço as sensações do momento, que chegam, permanecem por algum tempo e depois se transformam, enquanto vou aprendendo alguma coisa sobre mim.
Dormirei entre os ventos, numa corrente própria, onde, dentro dos sonhos, eu possa descobrir tudo aquilo que ainda não sei ser. Porque, às vezes, aquilo que imaginamos não ser capazes de fazer é justamente o que precisamos aprender a experimentar. Mas nem tudo acontece quando queremos. Há coisas que precisam de tempo.
Talvez seja por isso que eu precise tanto da escrita: para encontrar uma morada quando nem eu mesmo sei onde estou. Que a minha solidão não me abandone quando eu precisar de silêncio e que eu saiba reconhecer também a companhia que existe nas pequenas coisas. Que eu possa me contentar com pouco e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo.
Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever, para não me sentir tão sozinho e saber que a escrita me acompanha em meu caminho. E que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim. Que minha linguagem consiga transformar em palavras alguma coisa que ainda não compreendo e que eu saiba respeitar os momentos em que tudo o que preciso é ficar quieto, observar e deixar os pensamentos seguirem seu próprio curso. Às vezes, escrever é o meu jeito de ficar comigo quando não sei bem o que fazer.
E que, mesmo nos dias mais amargos, como um café sem açúcar, eu possa reconhecer o amargo sem precisar adoçá-lo. Há dias que simplesmente são difíceis. Há tristezas que não precisam ensinar nada, nem se transformar em alguma coisa bonita. Às vezes, o dia é apenas um café amargo que a gente bebe porque ele está ali, porque aquele é o dia que temos e porque, de algum modo, precisamos chegar ao outro lado dele. Nem todos os dias precisam terminar com uma grande descoberta. Alguns só precisam terminar.
Talvez seja por isso que eu escreva tanto quando não sei o que fazer com aquilo que sinto. A escrita nem sempre resolve. Nem sempre oferece respostas. Mas permanece. E, às vezes, isso basta. Há momentos em que não precisamos compreender tudo o que acontece dentro de nós. Podemos simplesmente reconhecer o que sentimos, respirar e deixar algumas palavras sobre a mesa. Talvez eu não encontre uma resposta, mas encontre um lugar para colocar o silêncio.
O estranho é que nem sempre consigo escrever quando quero. Quando quero escrever, a minha linguagem não permite. Ela se recolhe, fecha as portas, apaga as luzes e permanece em algum lugar onde não consigo alcançá-la. Quando eu não quero escrever, entretanto, ela me empurra para a escrita. Insiste. Persiste. Bate contra alguma coisa dentro de mim até que eu ceda.
E eu, querendo escrever, não encontro as palavras certas, como se existissem palavras certas para escrever. Como se a linguagem fosse uma espécie de território misterioso onde algumas palavras estivessem destinadas a determinadas coisas e eu precisasse encontrá-las, exatamente aquelas, para finalmente dizer o que ainda não sei dizer.
Não consigo escrever. E é justamente quando digo isso que alguma coisa começa a ressoar. Talvez porque, quando quero escrever, precise olhar para aquilo que ainda permanece escondido em algum lugar de mim. Não sei. Talvez existam coisas que ainda não estamos preparados para compreender. Há palavras que, quando pronunciadas, não revelam tudo. Às vezes, apenas abrem uma nova pergunta.
E talvez seja por isso que a linguagem se recuse quando eu a convoco. Talvez ela saiba que, se vier, trará consigo alguma coisa que ainda não estou preparado para reconhecer. A única coisa que sei é que agora, sim, eu quis escrever. Mas fui conduzido para dentro da escrita no meio do próprio percurso, como se tivesse começado a caminhar em direção a uma porta e, quando percebi, já estivesse do outro lado.
Eu queria começar a escrever e agora já não quero escrever mais. Mas alguma coisa já começou. E, quando alguma coisa começa dentro da linguagem, talvez não seja mais possível simplesmente voltar.
Entrei num abismo de palavras. Não sei se cheguei até ele por acaso ou se fui levado pela curiosidade. Não sei se havia alguma coisa me esperando lá embaixo ou se fui eu quem levou tudo comigo. E talvez seja essa uma das partes mais surpreendentes da escrita: descobrir que aquilo que procurávamos fora de nós também pode estar dentro de nós.
O abismo não estava diante de mim. Era a própria linguagem, profunda e misteriosa. E eu, ao tentar escrever, descobri que já estava dentro dela.
Tudo escapa, inclusive eu. Desejo o ontem no mesmo lugar do hoje, embora o ontem ainda insista em permanecer. Do amanhã já não sei. Nem sempre sei o que me agrada ou o que me faz feliz. O que seria agradar a si mesmo? Uma felicidade medida em cinco segundos? A alegria de um encontro esperado há anos? O entusiasmo de uma noite entre amigos? De que matéria se faz a felicidade? E o que se faz dela depois que passa?
Como se escreve quando não se quer escrever? Empurra-se a escrita ou é a escrita que nos empurra para sermos escritos? Minha linguagem é a morada de uma alma que se fecha e se abre, que muda de ideia, que aprende e desaprende. Já tentei organizar todos os meus pensamentos, mas cansei. Agora deixo alguns deles livres. Continuo escrevendo sobre o amanhã, porque daqui a um minuto já será tarde. Posso olhar as horas, mas, quando escrevo, às vezes me esqueço do relógio. Apenas escrevo.
E por que escrevo? Talvez porque exista em mim um enigma que jamais se deixe decifrar por completo. Há uma morada dentro de mim que insiste em escrever, talvez para compreender, talvez para descobrir novas maneiras de existir. O que escrevo pode ser profundo ou apenas superfície. Nunca se sabe o que vai sair daqui.
Mas tudo escapa. Quando escrevo, escapa. Quando não escrevo, também escapa.
Há dias em que não quero sair do quarto. Quero silêncio, tempo e espaço para organizar meus pensamentos. Nem sempre tenho vontade de conversar, e isso também faz parte dos dias que vivemos. Quero apenas o indispensável: cuidar de mim, alimentar o corpo e encontrar alguma tranquilidade. Às vezes, porém, alimento-me de palavras escritas, de tudo aquilo que me atravessa. Uma travessia de mim por mim mesmo, fazendo do próprio corpo uma morada.
Entre um eu e outro eu, contradigo-me naquilo que me falta e naquilo que desejo. Talvez seja justamente dessa contradição que a escrita continue a nascer. Afinal, quem nunca mudou de ideia? Quem nunca desejou duas coisas diferentes ao mesmo tempo? Talvez sejamos feitos também dessas pequenas discordâncias que nos tornam humanos.
Fico olhando a parede até virar o rosto e olhar para a janela. A chuva cai e, por alguns instantes, fico esperando que, junto dela, caia alguma coisa por aqui. Um encontro. Uma resposta. Qualquer coisa que atravesse o vidro e faça companhia.
Mas não cai resposta alguma. São só águas. Águas que despencam do céu, escorrem pelo vidro e seguem seu caminho, enquanto eu permaneço aqui, observando a chuva e tentando entender o que faço com aquilo que ainda não passou.
Estou sem sono. Um pouco triste. E talvez a tristeza seja apenas isso: uma coisa que chega sem pedir licença, senta ao nosso lado e fica em silêncio. Mas os sentimentos também se transformam. Nem sempre sabemos quando, nem de que maneira. Aos poucos, alguma coisa muda, mesmo quando não percebemos.
Porque eu também já caí. Já pensei que não conseguiria reunir os pedaços de um dia difícil e, mesmo assim, alguma coisa em mim insistiu em começar de novo. Às vezes, recomeçar não significa fazer algo grandioso. Pode ser apenas abrir a janela, respirar o ar da manhã, tomar um café ou escrever uma frase que ontem parecia impossível.
Talvez seja por isso que eu ame tanto os pássaros e os bichos. Eles não precisam explicar a liberdade. Simplesmente existem. Voam, caminham, partem, retornam. E, de algum modo, me lembram que ainda é possível recomeçar.
A noite continua. A chuva continua. E eu continuo também. Talvez seja isso que a gente chama de renascer: não voltar a ser quem era, mas descobrir que, mesmo depois das mudanças, ainda existe alguma coisa dentro da gente que insiste em seguir adiante.
Talvez eu nunca consiga compreender tudo o que escapa. Talvez nem precise. Há coisas que não cabem em respostas, assim como há sentimentos que não encontram uma palavra exata. Ainda assim, continuo escrevendo. Porque, enquanto escrevo, construo uma morada para aquilo que não sei explicar.
E, quando o vento passar, talvez eu descubra que nunca estive tão perdido quanto imaginava. Talvez estivesse apenas aprendendo a encontrar o meu próprio caminho.
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