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Ainda Há Vida no Que Dói

Chega uma hora em que tudo cansa. E talvez o mais estranho seja perceber que até aquilo que costumava me salvar começa a exigir de mim uma força que eu já não tenho. Não chamo isso de preguiça. Preguiça ainda pressupõe vontade de fazer alguma coisa depois. O que existe é outra coisa. Uma espécie de recusa. Não estou a fim. Não estou a fim do mundo, das conversas, das explicações, das mensagens, das perguntas, das respostas e, às vezes, nem daquilo que normalmente me faria sair da cama. Há dias em que até escrever parece uma tarefa. E eu escrevo mesmo assim. Não porque escrever me salve. Não acredito muito nessas palavras que transformam tudo em salvação. Escrevo porque, em algum momento, a linguagem começa a bater na porta. E quando ela bate muitas vezes, eu abro. Depois me arrependo. Depois agradeço. Depois quero que ela vá embora. Talvez seja essa a minha contradição: quero silêncio, mas continuo escrevendo.

Também existe o cansaço de esperar. Esperar uma resposta, uma decisão, uma possibilidade, qualquer coisa que faça a vida voltar a andar. O problema da espera é que ela parece pequena para quem olha de fora. Para quem espera, ela ocupa tudo. O calendário passa, os dias passam, as contas continuam chegando, certas coisas acabam e você descobre que "aguarde" é uma palavra muito fácil de dizer quando não é você quem está aguardando. Então eu me recolho. Não porque queira punir ninguém. Nem porque o mundo tenha necessariamente me feito alguma coisa. Às vezes eu simplesmente não quero colocar minhas mazelas sobre quem não tem culpa delas. Existe uma espécie de responsabilidade até na distância. Eu sei quando estou atravessado demais para dividir meu atravessamento com alguém. Fico sozinho. E talvez ficar sozinho também seja uma forma de não explodir sobre o outro.

Há quem chame tudo isso de alguma coisa. A psiquiatria encontra seus nomes. A psicologia encontra outros. A psicanálise desconfia dos nomes e pergunta o que existe por trás deles. Eu, particularmente, às vezes só quero que parem de nomear por alguns minutos. Porque nem tudo precisa de diagnóstico naquele instante. Às vezes é apenas um homem cansado, sentado no próprio quarto, olhando para a própria vida e pensando que não está a fim de fazer absolutamente nada. Nem por isso deixa de escrever. Talvez porque escrever seja justamente o último movimento de quem não quer mais se movimentar. E não são frases bonitas. São só palavras tentando dar conta de alguma coisa que ainda não sei dizer. Por enquanto, é isso. Talvez amanhã alguma coisa mude. Talvez nada mude. Mas, enquanto houver uma palavra atravessando o silêncio, ainda existe alguma coisa em mim que não terminou de dizer.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 7 K leituras
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