A manhã chegou perto de mim
Levantei sem grandes planos e fui para o fogão preparar café. Talvez escrever seja uma coisa parecida: levantar, mesmo sem saber muito bem o que fazer com o dia, e colocar alguma coisa para ferver dentro da gente.
O café ficou amargo. Corrigi com um pouco de açúcar. Há dias em que o amargo já vem na medida certa, talvez até demais. Não precisamos acrescentar mais nada.
Sentei-me em silêncio. O café diante de mim, algumas palavras espalhadas e aquela sensação estranha de estar conversando comigo mesmo. Escrevo também para isso: para me lembrar que ainda estou aqui.
Até a dor de cabeça, hoje, ganhou outro significado. Ela dói, e talvez seja justamente por isso que eu perceba o corpo. Há alguma coisa viva reclamando espaço.
Se alguém me perguntasse o que eu quero hoje, talvez eu não soubesse responder.
Talvez eu quisesse apenas respirar.
E, por enquanto, talvez isso seja suficiente.
Respirar, viver, trabalhar, sustentar a própria existência e continuar atravessando a vida sem saber exatamente onde ela termina.
O café esfria.
Eu continuo escrevendo.
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