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Quando o amor chove dentro da gente

Desde cedo, o céu permaneceu fechado, como se também tivesse alguma coisa para sentir.

A chuva caiu sobre a cidade e, enquanto eu seguia o meu dia, comecei a pensar no amor.

Talvez a chuva tenha esse poder de nos colocar diante de nós mesmos. O barulho das gotas, a janela molhada, a cidade desacelerando. E, quando tudo desacelera, algumas coisas escondidas dentro da gente aparecem.

Foi assim que pensei no amor.

No amor que chega sem avisar, começa pequeno, quase como uma garoa, e quando percebemos já tomou conta de tudo.

Amor não pede licença. Não escolhe uma hora conveniente. Não pergunta se estamos preparados. Ele simplesmente acontece.

E talvez seja justamente por isso que poesia não se faz, assim como não se faz amor.

Podemos juntar palavras, aproximar corpos, inventar promessas e tentar dar forma ao que sentimos, mas há coisas que não obedecem às nossas mãos.

Poesia e amor nascem juntos, no balanço da escrita, entre uma palavra e outra, entre um corpo e outro, entre o desejo e aquilo que ainda não conseguimos dizer.

Hoje, enquanto a chuva caía sem pressa, pensei nos amores que passaram pela minha vida.

Alguns foram tempestade. Alguns foram breves como uma chuva de verão. Outros ficaram.

E há aqueles que, mesmo depois de irem embora, continuam chovendo dentro da gente.

Talvez amar seja também carregar um pouco do outro depois que ele já não está.

Uma lembrança no corpo, uma frase na memória, um cheiro que volta sem pedir, uma saudade que aparece justamente quando o céu fecha.

E ainda assim, eu não acho que o amor seja tristeza.

O amor pode doer, mas não nasceu para ser dor.

Ele também é abrigo, colo, desejo e presença. É aquela vontade quase infantil de contar alguma coisa para alguém assim que acontece. É ter para quem voltar. É olhar para uma pessoa e, por alguns segundos, sentir que o mundo ficou menor.

Talvez seja isso que o amor faça com a gente.

Ele não impede a chuva, mas faz com que a gente queira ficar.

Hoje choveu o dia inteiro. Agora é noite.

O céu continua carregado, mas eu aprendi que nem todo céu precisa abrir para que alguma coisa floresça.

Às vezes, é justamente debaixo da chuva que o amor encontra terra para nascer.

E quando nasce, não precisa de sol.

Precisa apenas de alguém disposto a ficar.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 6 K leituras
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