A compulsão de existir em palavras
Escrevo por uma premência que tange o vício, uma compulsão que se exprime mesmo quando o que o desejo alveja é o mais absoluto silêncio. Neste domingo de escombros e clivagens, a grafia revelou-se não como arbítrio, mas como um destino inexorável. Tentei ocultar-me sob o véu de folhetins e na inércia das horas acinzentadas, todavia a brancura da página exige a oblação da tinta e o desgaste das teclas. Cada palavra que se inscreve é um ajuste de contas com as próprias desrazões e faltas, um processo de esvaziamento onde o cálamo se exaure para que a gravidade interna se atenue.
Entre o fumo dos cigarros e o golo da bebida, a vida sucede-se no hiato do não-saber. Alimento-me de pão e das laudas alheias, devorando o Outro para suportar o vácuo de uma existência que é, em si, um significante à deriva. Há em mim uma estrutura que demanda desvelar algo através dos caracteres, uma linguagem idiomática que talvez só encontre ressonância em um porvir longínquo, ou que, porventura, jamais o faça. Já não aspiro à episteme absoluta; o excesso de lucidez é a vereda mais abreviada para a demência, e o gélido que ora me trespassa é demasiado concreto para ser obliterado.
Diante da fresta da janela, resta a confissão da finitude do dia. O corpo reclama o fármaco, o agasalho e a letargia do sono. Retorno para o insondável, para aquele reduto onde a escrita me sequestra sem vênia, aceitando que minha única missão é permanecer cifrando o que nem eu mesmo decifro, enquanto o frio externo e o frio íntimo regem o compasso do ocaso desta noite.
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