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A Metamorfose de um Homem Caleidoscópico

Apesar de eu já ter tido muitos amores e ainda ter muitos desejos, não sou promíscuo. Mas também não sou santo. Eu ainda não sei exatamente o que sou, embora saiba muitas coisas que estou me tornando. Talvez seja justamente por isso que eu seja caleidoscópico.

Sou fascinado pelas minhas transformações. O cabelo cresce, as unhas que corto tornam a crescer, o rosto muda, o corpo muda, o jeito como me vejo também. Há alguma coisa estranha em perceber que continuo sendo eu enquanto tantas coisas em mim deixam de ser as mesmas.

Talvez seja isso que me fascine no espelho: ele me devolve uma imagem, mas nunca consegue me devolver inteiro.

Sou uma metamorfose ambulante. Não no sentido de estar sempre procurando uma nova versão para mostrar ao mundo, mas porque alguma coisa em mim insiste em mudar, mesmo quando eu gostaria de permanecer. Sou caleidoscópico porque cada mudança rearranja as peças e, por alguns instantes, produz uma imagem que parece definitiva. Até que eu me mova outra vez.

E talvez eu tenha passado tempo demais pensando no que o outro poderia achar das minhas mudanças. Mas o outro não tem que achar nada. Quem se acha sou eu. E, às vezes, nem eu sei exatamente onde me encontrar.

Existe uma distância estranha entre aquilo que vejo no espelho e aquilo que sinto que sou. Talvez porque o sujeito nunca caiba inteiramente na própria imagem. Há sempre alguma coisa que escapa.

Olho para o céu e vejo a noite se transformar em dia, o dia desaparecer dentro da noite. Depois olho para mim e reconheço o mesmo movimento. Às vezes penso que mudei para melhor. Outras vezes, para pior. Mas quem inventou essas medidas? Quem decidiu que uma versão minha merece mais amor do que outra?

Talvez aquilo que eu chamo de pior seja apenas aquilo que ainda não consegui desejar.

Eu creio em alguma coisa maior, em algo sobrenatural que não consigo explicar. E talvez exista nisso uma espécie de liberdade: aceitar que nem tudo precisa ser compreendido para existir.

Ser? Eu sou aquilo que consigo ser, mas também aquilo que ainda não sei que posso ser. Sou corpo, desejo, linguagem, contradição. Sou o que digo e também aquilo que permanece preso antes da palavra.

Caleidoscópico naquilo que sou.
Metamorfose ambulante naquilo que me torno.

E agora é domingo à noite. Um isqueiro azul e vermelho, um cigarro, a fumaça se desfazendo lentamente, enquanto escrevo sem saber exatamente para onde isso vai.

Talvez a escrita seja também uma forma de espelho. A gente escreve para se encontrar e, no meio da frase, descobre que já não é exatamente quem começou a escrever.

Talvez eu não precise descobrir quem sou.

Talvez precise apenas continuar me tornando.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 7 K leituras
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