A deliciosa arte de permanecer inacabado
Eu só escrevo, não sou escritor. Não quero carregar um título que talvez exija de mim uma responsabilidade que prefiro deixar suspensa, como certas palavras que se recusam a terminar nas margens do papel. Apenas rabisco folhas, desarrumo versos, troco palavras de lugar e, nesse pequeno desassossego, vou deixando escapar alguma coisa de mim. Gosto do amor, sobretudo porque ele conhece o avesso que sou, essa parte que nem sempre se apresenta à luz, mas que insiste em existir nas entrelinhas, nos desejos que me atravessam e nas ausências que, de alguma maneira, também me constituem. O amor tem essa estranha capacidade de nos revelar sem necessariamente nos explicar, como se tocasse uma região em que nem mesmo a consciência consegue entrar sem se perder um pouco.
Também gosto de olhar para amanhã, ou melhor, para a manhã que ainda não chegou por inteiro. Imagino o sol atravessando o silêncio, iluminando as coisas sem lhes exigir explicações, enquanto espero que alguma coisa sussurre aos meus ouvidos. Não quero descobrir quem sou, nem encontrar uma definição que me acomode definitivamente dentro de mim. Quero apenas sentir alguma coisa acontecer, perceber que ainda há um movimento secreto sob a pele, uma inquietação que não se deixou vencer pelo hábito de existir. Talvez seja isso que procuro quando escrevo: não uma resposta, mas uma espécie de estremecimento, uma presença quase imperceptível que me recorde que nem tudo em mim foi dito, nem tudo foi vivido, nem tudo precisa ser compreendido.
Gosto dos desafios, sobretudo daqueles que parecem não oferecer passagem. Há alguma insolência em desejar o impossível, em aproximar os dedos daquilo que não se deixa alcançar e insistir, mesmo sem garantias de chegada. Também me desafio, naturalmente. Escrevo para descobrir até onde consigo ir, até que ponto as palavras suportam minhas travessuras, onde a linguagem começa a falhar e o silêncio, esse velho cúmplice, volta a ocupar o seu lugar. Às vezes, suspeito que não sou eu quem conduz a escrita, mas alguma coisa que se movimenta através de mim, usando minhas mãos para alcançar um lugar que desconheço. E continuo, não porque tenha a pretensão de chegar a algum destino, mas porque me intriga aquilo que ainda posso encontrar pelo caminho. Eu só escrevo, não sou escritor. Talvez seja apenas alguém que prefere permanecer inacabado a aceitar uma definição que lhe roube o prazer de continuar se descobrindo.
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