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Maria e o Radinho

Um dia, anos atrás, nasceu Maria.

Foi criada na pobreza, mas nunca faltou pão em sua mesa. Tinha cinco irmãos mais novos e, ainda menina, cresceu vendo a mãe se esforçar para sustentar a casa. A mãe mal sabia ler e escrever, e Maria logo começou a trabalhar para ajudá-la.

O tempo passou. Todos cresceram. Alguns tiveram filhos, outros não. Maria se casou e teve uma vida boa. Mesmo assim, nunca deixou de ajudar a irmã, que se descabelava com o marido. Coitadinha, apanhava dele e não tinha para onde ir. Era mãe de cinco filhos, que também cresceram e seguiram suas vidas.

O marido de sua irmã acabou numa cadeira de rodas. Arrependeu-se dos pecados que havia cometido e, de algum modo, encontrou salvação no amor dos netos. Um deles cuidou dele até o fim, até os seus últimos dias.

Esse mesmo menino era afilhado de Maria.

E Maria cuidava muito dele.

Todas as manhãs, ele ligava para a madrinha. O número era 3779 e o final ele nunca quis me contar.

"Oi, madrinha. Tudo bem?"

Na ingenuidade daquele menino, ele mal percebia que aquelas ligações significavam muito mais do que parecia.

Maria já era viúva, aposentada, tinha uma vida boa e morava num morro que ela fazia questão de chamar de colina, porque dizia que ficava mais elegante. Mas, apesar de ter uma vida tranquila, era uma senhora de setenta e tantos anos, sozinha, e sentia falta de companhia.

Maria sabia que aquele afilhado a amava.

Ele também passou a ir sempre à casa da madrinha. Às vezes chegava de manhã, tomava café, almoçava e jantava. Algumas noites dormia por lá. Conhecia a rotina dela, os horários, os hábitos, os pequenos gestos.

Maria ajudava a todos.

Certa vez, o próprio afilhado entrou em surto, quebrou o celular e, quando Maria soube, simplesmente disse:

"Tadinho. Ele não sabe o que faz."

E deu outro celular para ele.

A família reclamou. Disseram que ela não deveria ficar pagando as coisas para ele.

Então Maria se irritou e respondeu:

"Qual dos meus afilhados me liga todos os dias? Eu sou sozinha. Eu sinto falta de companhia."

Todos ficaram mudos.

Ela não precisava dizer mais nada.

O afilhado só estava feliz com o celular novo. Não sabia nem como agradecer.

Mas também deixava Maria doida.

"Madrinha, me dá cinco reais."

"Madrinha, me dá vinte reais."

E ela dizia:

"Eu não tenho, afilhado. Eu não tenho."

Às vezes, realmente não tinha. Mas dava um jeito.

Até que aconteceu uma noite.

O pobrezinho do afilhado ligou desesperado, chorando, querendo conversar com a madrinha.

Ligou uma vez.

Ninguém atendeu.

Ligou outra.

Ninguém atendeu.

Ligou mais uma vez.

Nada.

Pensou que ela já tivesse ido dormir. Depois de algum tempo, ele também dormiu.

Na manhã seguinte, acordou com o pai perguntando:

"Quer que eu faça café?"

Ele respondeu:

"O senhor não faz café para mim?"

"Não. Mas agora eu vou fazer."

E começou a preparar o café.

Ainda meio adormecido, deitado naquele colchão no quarto, o único lugar onde conseguia dormir, o menino olhou para o rosto do pai e percebeu alguma coisa diferente.

Era o dia em que ele deveria levar a mãe para uma reabilitação.

" aconteceu alguma coisa? Por que você não foi?"

O pai apenas mexeu a cabeça, dizendo que não.

"Foi com meu avô?"

Não.

"Foi com minha mãe?"

Também não.

"Foi com a minha madrinha?"

O pai mexeu a cabeça.

Sim.

Naquele instante, alguma coisa dentro dele despencou.

"Ela está no hospital?"

O pai balançou a cabeça.

Não.

"Ela está em casa, né?"

Sim.

Ele nem tomou o café.

Já sabia.

Pediu ao pai:

"Me leva lá."

Quando entrou na casa, viu o corpo da madrinha estatelado no chão.

Maria tinha morrido.

Pobrezinha.

A primeira coisa que ele pensou foi:

"Será que ela sofreu?"

Mas o corpo estava diante do fogão.

Então ele imaginou que ela havia acordado, levantado da cama e ido preparar o próprio café, como fazia todas as manhãs.

Ele conhecia a rotina dela.

Maria morreu do coração.

Talvez tenha morrido de tanto amar.

Não somente aquele afilhado, que até hoje sofre com a sua morte, mas todos aqueles que passaram pela vida dela.

E, naquele mesmo dia, Maria foi enterrada.

Maria nasceu para ajudar. Não para ter filhos, mas para ter afilhados. Para cuidar. Para não dar trabalho a ninguém.

Nem a própria morte ela deu.

Tudo estava pago. Era só enterrar.

Depois do enterro, o afilhado quis apenas uma coisa: o radinho que Maria costumava escutar.

Sentou-se à mesa da cozinha, abraçou o rádio e chorou.

Seu pai não sabia o que dizer.

Já se passaram oito anos.

E aquele menino ainda não esqueceu Maria.

Mas ele está bem.

E, se Maria pudesse ver hoje o menino que conheceu naquela época, ficaria feliz.

Muito feliz.

E, se existe algum lugar desconhecido, alguma coisa sobrenatural no céu de onde ela possa vê-lo, eu gosto de imaginar que ela está lá, pulando de alegria e mexendo os dedinhos, exatamente como fazia quando estava feliz.

Porque talvez algumas pessoas morram.

Mas aquilo que elas fizeram alguém sentir não morre junto.

Maria continua viva toda vez que aquele afilhado se lembra dela.

E talvez seja essa a forma mais bonita que alguém pode encontrar de continuar existindo.

ESCRITO POR Jorge Lannes Junior 7 K leituras
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