ENTRE O SER E AQUILO QUE ME ATRAVESSA:
Se é para sofrer, que eu sofra por inteiro, sem fingir que a dor é menor do que realmente é. Há uma espécie de honestidade naquilo que nos atravessa quando já não tentamos fugir de nós mesmos. A dor também pensa o corpo, ocupa seus silêncios, modifica aquilo que acreditávamos ser. Talvez não exista sofrimento sem alguma pergunta sobre a própria existência.E se é para viver, que eu também não viva pela metade. Quero sentir o que houver para sentir, sem anestesiar a existência apenas para torná-la suportável. Talvez viver seja aceitar que nem tudo em nós precisa ser resolvido. Algumas coisas precisam apenas ser atravessadas.
Quase não terminei de escrever. Não por falta de palavras, mas porque algumas chegam carregadas de mim. Escrever é retirar do corpo aquilo que a boca não alcança e entregar à linguagem aquilo que ainda não encontrou nome.
A dor me atravessa. A palavra me devolve. E entre uma e outra, eu existo.
Talvez seja esse o paradoxo de estar vivo: nunca saber exatamente onde termina aquilo que sentimos e começa aquilo que somos. Somos feitos também daquilo que nos atravessa, das faltas que permanecem, das perguntas sem resposta, das palavras que insistem em nascer mesmo quando já não sabemos para quê.
Não sei onde termina a dor. Não sei onde começa a palavra. Sei apenas que continuo.
E talvez continuar seja a forma mais silenciosa de afirmar que ainda sou, mesmo quando tudo em mim parece perguntar quem sou.
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