EUGÊNIA, UMA VIDA INÚTIL
EUGÊNIA, UMA VIDA INÚTIL
Era de compleição raquítica, apesar de ter um corpo que não mostrava nenhum sinal aparente de fragilidade e seus 41 quilos se distribuíam harmoniosamente pelo 1,68m que culminava num rosto anguloso, de nariz adunco e olhar aquilino. Cursava Eugênia o quinto ano de medicina e adorava as aulas de medicina ilegal, principalmente a parte das contrações das preposições. Distinguia-se na Faculdade como aluna aplicada e de Q.I. muito superior aos demais alunos. Na última medição tinha alcançado 128 pontos na escala Richter deixando todo corpo docente e indecente, estupefato e inchado de inveja inverossímil. Ao concluir o curso recusou a residência coberta de piaçava e foi incursa nos artigos antigos e parágrafos grafados no Código de Ética e Estética do Conselho Nacional de Medicina Gratuita para Pagantes. Foi garfada, impedida de exercer a profissão que abraçou.
Passou Eugênia a residir em lugar certo e sabido, onde recebia as intimações e mandados judiciais, os quais, invariavelmente, deglutia-os ao molho madeira acompanhado de salmão com salmonela, ambos defumados sem fumo nem fumaça.
Morreu como viveu. Convivendo com a marginalidade, lendo e relendo a marginália escrita em "Tratado de Medicina Medieval" de autor desconhecido. Não deixou herdeiros nem bens a inventariar, nem mesmo a invenção do bisturi sem busto, revolução que a medicina não chegou a ver, projeto que virou dejeto após sua ingestão sem sal numa noite fria de outono. Havia-o comido, como comido foi seu putrefato corpo pelos vermes necrófilos, em tempo recorde: 12 horas e 12 minutos.
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