COLETÂNEA LIMÃO GALEGO E CAJU
Andarilho de longas jornadas
Ja se falou tanto em e de carnaval, musicas, poemas, prosas... mas ninguém teria a coragem do João de Barro, não o passarinho, falo do andarilho de longas jornadas, amigo do encurvado destino. Conheci-o numa terça feira, nos labirintos de Olinda, bêbado, cheio de pelancas no corpo e notas de cem dólares nos bolsos, pediu-me um mexilhão, como se mexilhões andassem por aí dando sopa, neguei diplomaticamente e para minha surpresa ele puxou do bolso esquerdo um escaravelho mumificado e gritando que o inexistente holocausto judeu iria materializar-se naquele instante, engoliu-o. Não hesitei, parti em desabalada carreira até o Bar Bornéu e ainda ofegante, enterrei a cara na cachaça, com limão galego e caju.
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Cabrito quando quer meditar
Cabrito quando quer meditar, sobe no galho do mulungu e espera o ribombar do trovão, já a cobra jaracussu têitei-traíra, enrosca o rabo no pescoço do urubu e com ele navega pelo espaço sideral e é justamente por essas e outras que ninguém mais aceita as tergiversações dos escafandristas oligárquicos que pululam sob às serenas águas do mar Cáspio como se estivessem expostos aos torvelinhos do Triângulo das Bermudas, mas sobre isso, já se manifestaram de forma inequívoca, os sindicalistas do peleguismo atávico como também o ajudante de secretário da esposa do vigia do prédio que abriga a alta cúpula da CBF, aliás, já emitiram uma nota conjunta de protesto e outra de apoio e eu, que não vou emitir nota alguma, começo a enterrar a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Carlos Cachaça
Carlos Cachaça, sambista da velha guarda e fundador da Mangueira, já dizia: "inseto que não se cria é passarinho que não pia". Eu vejo a mordacidade dos versos de Bandeira e fico estático a espera de primaveras parisienses, ou de nidificar na mangueira que nunca existiu no meu quintal, os assanhaços vespertinos. Tudo isso reverbera um sentimento contraditório e nostálgico, como a ressucitar o natimorto amor de escafandrista nas areias do Saara e para fugir desse vórtice eu enterrei a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Cimitarra da noite
Quando a cimitarra da noite vaza o intestino da Lua, é prenúncio de tempestade no alvorecer do pantanal senegalesco. Andorinhas arrivistas invadem em compasso de semicolcheia a madrugada que se despede da Via Lactea, ainda nos estertores da reciclável morte. Na verdade ninguém sabe ao certo se os adeptos da cientologia inspiram-se no enigmático caderno do hedonista Clovis Bornay ou se, sorrateiramente solapam as cândidas representaçoes astecas nas pedras do Arpoador. Sinal dos tempos, sinal fechado, sinal sem signo como diria Umberto Eco e se não disse eu não tenho a menor disposição em desbravar savanas nem vendavais, prefiro mesmo é enterrar a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Coluna Prestes
A célebre Coluna Prestes embalou o sonho de milhões de jovens na aparência burlesca de uma sociedade notívaga, vieram qual tamanduá atraído por obesas formigas, surgiram dois jovens canadenses reivindicando o prêmio Nobel de literatura, solapado pelo ativista islâmico Ben Gazzara. Nada a fazer, senão contemplar à distância a musicalidade que emana dos labios de Grace Kelly soltando, em espirais, a fumaça do seu Gualoises. Talvez por isso e sem pensar no poético entardecer, eu dispensei a mochila sobre as costas, repleta de panfletos libertários e enterrei a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Infidelidade suína
De que adianta rebuscar o passado se a cada dia o porco remói a dor da infidelidade suína! De que vale pregar no deserto as sábias palavras do viajante estelar se o dízimo nunca foi pago! Osvaldo Aranha jamais intermediou o conflito de Canudos nem atirou ao pântano os alfarrábios de sua juventude stalinista, foram as dissensões contabilizadas na contemplação da aurora boreal que sedimentou a rebelião oculta nas Brumas de Avalon. Não sei até que ponto a noite responde aos apelos da Lua, por isso mesmo prefiro enterrar a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Infortúnio nauseabundo
Exatamente hoje, dia que o infortúnio nauseabundo vem querer infernizar o celestial descompasso da minha solene meditação, acontece o imprevisto corte na carne putrefata das baleias desgarradas.
Talvez, quem sabe, um dia as autoridades desconstituidas passem a minimizar os efeitos da poluição global e olhem, serenamente, sem maldade peçonhenta nem escusos interesses, para os guaxinins, vítimas inocentes dessa guerra imbecilmente travada com a Mãe Natureza e por isso mesmo, por não querer compactuar com tamanhas indecências, eu prefiro enterrar a cara na cachaça, com limão galego e caju!
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Ninguém medita
Ninguém medita se não houver campo propício à meditação, ninguém se atreve a empunhar um remo e se meter rio acima se jangadas inexistem; é sonhar em vão, tal qual a cantiga. Talvez um dia, quem sabe, os salvados do incêndio, ou a fantasmagórica visão do nebuloso passado impilam os ímpios a reavaliar a expansão nos mapas da história. Mais do que isso é utopia, serena ou catastrófica, e antes que esse apocalipse dite normas, eu prefiro enterrar a cara na cachaça, com limão galego e caju!
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Obtusos feirantes
Na dualidade intinerante dos obtusos feirantes, eu vejo o limiar de uma nova era, não tão nova assim, mas pelo menos à frente do inútil e amorfo regente das causas proletárias e talvez, ou por isso mesmo, as estruturas do balizamento existencial continuem a vigorar, impermeável aos anseios da turba ensandecida que reivindica a volta do "Ancien Régime", como se no "Terror" do jacobino Robespierre, da França, estivéssemos. Nunca participei, nem mesmo em pensamento, de tais arroubos, mas por alívio de consciência, resolvi enterrar a cara na cachaça, com limão galego e caju.
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Rasga-mortalha
Eu aqui refestelado na minha poltrona, revendo "Belle de jour", de Luis Bunuel, lembrei da coruja "rasga-mortalha" que habitava a torre do relógio da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em São Miguel dos Campos, era o florido tempo das pitangas onde, com um jereré, eu percorria os barrancos do rio São Miguel à cata dos moribundos aratus. Ninguém corria o risco de perder o contato sideral com os imaginários venusianos, mas também não se tinha a certeza da modorrenta palestra do pós parto. Eram tempos difíceis e inimagináveis onde a preocupação básica era uma peça de ficção e por isso mesmo eu resolvi enterrar a cara na cachaça com limão galego e caju.
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Safári na Namíbia
É por isso mesmo que eu prefiro a distância, é melhor e menos traumático; lidar com a introspecção de certas mentes é bem melhor fazer um safári na Namíbia, pelo menos não se tem a pressão dos bastidores infectos e poluídos pela presença maciça dos pseudos intelectuais num burburinho enojante. Vou mudar tudo, vou transformar a incipiente cólera num avassalador contingente de maltrapilhos e semi zumbis sequiosos de restaurar a moralidade perdida nos vãos e desvãos da literatura nórdica. Posso fazer tudo, num átimo, mesmo sem ser Deus, mas, antes disso, vou enterrar a cara na cachaça, com limão galego e caju.
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Sapo cururu
Eu estava conversando animadamente com um sapo cururu, divergíamos sobre as consequências de uma hecatombe nuclear no deserto do Arizona, enquanto eu previa um desabrochar de uma nova era ele, obstinadamente, previa um carnaval de arlequins deformados, colombinas demasiadamente assanhadas e pierrôs estúpidos e politicamente incorretos, felizmente nos acompanhava, de perto, o parcial e notório corrupto suricato do lombo verde-musgo, o mais feroz, mas o mais sábio da espécie, que não se omitiu e emitiu seu irrecorrível veredicto: ninguém tinha razão, a fissão nuclear já tinha sido superada pela associação de elementos submetidos à antimatéria, com efeitos centenas de vezes mais devastadores, no entanto, sua aplicação só surtiria efeito se detonada a partir do sétimo anel de Saturno na "Cassini Division". Eu até poderia chamar o guaxinim azul para, como segundo árbitro,
apresentar um parecer falacioso e maldosamente imparcial, no entanto, dado o adiantado da hora, preferi enterrar a cara na cachaça, com limão galego e caju.
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Uma jirafa e um guaiamum
Em junho de 1970 eu fui à Santana do Mundaú, lá chegando encontrei um pirilampo, uma jirafa e um guaiamum, antes que eu perguntasse a jirafa foi logo dizendo: daqui a seis dias o mundo se acaba, aí o guaiamum falou: pegue seu travesseiro e leve pra oficina, foi ai que eu pensei em me amarrar, mas o sábio pirilampo disse: quem mede o tamanho do vento mede a barriga da natureza.
Nesse instante me deu um sono intenso e para a ele não sucumbir, eu enterrei a cara na cachaça com limão galego e caju.
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