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O CAMINHO Continuação — Memórias de uma trajetória de vida

Neste momento, volto a escrever um pouco sobre mim. Não o faço por desejar ser melhor do que alguém, tampouco pela simples intenção de relatar acontecimentos do passado. Escrevo porque acredito que, algum dia, alguém poderá encontrar, nas experiências que vivi, uma mensagem capaz de despertar reflexões sobre a própria existência.

Talvez meus erros, meus acertos, minhas dificuldades e minhas conquistas possam servir de inspiração para alguém que esteja buscando forças para recomeçar. Afinal, a vida é construída por encontros, escolhas, oportunidades e, sobretudo, pela maneira como reagimos às circunstâncias que nos são apresentadas.

Hoje, desejo recordar uma etapa muito especial da minha formação: minha passagem pelo Centro Educacional Antônio Gomes de Barros (CEAGB), conhecido popularmente como CEPA, onde dei continuidade aos estudos na PREMEM-I, Escola José da Silveira Camerino.

Foi naquele ambiente que nasceu, verdadeiramente, minha paixão pelos estudos.

Ao chegar àquela escola, encontrei um grupo de alunos cuja dedicação ao conhecimento me impressionava profundamente. Entre eles, recordo-me de Francisco, Luiz, João Américo e outros colegas que demonstravam um interesse pelos estudos como eu jamais havia presenciado.

As aulas começavam às 7h15, mas aqueles estudantes costumavam chegar muito antes do horário. Formavam um grupo bastante unido, conversavam entre si e se destacavam nas diversas disciplinas.

Eu os observava silenciosamente.

Chamava-me a atenção a quantidade de livros que liam, a facilidade com que discutiam os assuntos e, principalmente, o conhecimento que demonstravam possuir. Pareciam estar sempre um passo à frente dos demais.

Naquele momento, nasceu dentro de mim um desejo que modificaria profundamente minha trajetória: eu também queria fazer parte daquele grupo.

Entretanto, percebi que, para ser aceito entre aqueles colegas, precisaria transformar minha própria postura diante dos estudos.

Até então, não me considerava um aluno dedicado. No início daquele ano letivo, fazia apenas o mínimo necessário para cumprir minhas obrigações escolares. Era, em minhas próprias palavras, um aluno medíocre, sem grandes pretensões acadêmicas.

Mas algo começou a mudar.

O sentimento de estar à margem daquele grupo despertou em mim uma determinação que eu ainda não conhecia. Disse a mim mesmo que, de alguma maneira, conquistaria meu espaço entre aqueles estudantes.

E foi assim que comecei a estudar com uma intensidade que jamais havia experimentado.

Passei a frequentar bibliotecas, procurar livros e antecipar os conteúdos que seriam apresentados pelos professores. Enquanto muitos colegas aguardavam as explicações em sala de aula, eu já havia estudado os assuntos e chegava preparado para formular perguntas, apresentar dúvidas e aprofundar os conhecimentos.

Aos poucos, estudar deixou de ser uma obrigação e passou a representar uma satisfação pessoal.

Quanto mais aprendia, mais desejava aprender.

E quanto mais me dedicava, mais percebia que o conhecimento abria portas que, até então, pareciam fechadas para mim.

Recordo-me, com especial emoção, de um episódio ocorrido durante uma aula de Matemática.

Naquela ocasião, o professor havia aplicado uma avaliação cujo resultado não fora satisfatório para grande parte da turma. Mais da metade dos alunos havia obtido notas abaixo da média.

Entretanto, para minha surpresa, eu havia alcançado a nota máxima: 10,0.

O professor, diante dos demais estudantes, fez questão de destacar minha evolução. Recordou que eu havia iniciado o ano letivo entre os alunos com maiores dificuldades na disciplina e que, naquele momento, havia conquistado a única nota máxima entre as turmas às quais ele lecionava.

Aquelas palavras tiveram um significado extraordinário para mim.

Não se tratava apenas de uma nota. Era o reconhecimento de um esforço silencioso, de inúmeras horas dedicadas aos livros e de uma decisão pessoal de transformar minha realidade.

Como demonstração de incentivo, aquele professor me presenteou com um livro de Matemática destinado aos professores, para que eu pudesse aprofundar ainda mais meus estudos.

Aquele livro representou muito mais do que um presente. Era um símbolo de confiança, reconhecimento e esperança.

Naquele instante, compreendi que estava seguindo pelo caminho certo.

E, desde então, nunca mais abandonei o desejo de aprender.

Mas minhas lembranças daquela escola não se limitam às salas de aula, aos livros ou às avaliações.

Guardo também uma profunda gratidão pelas pessoas que trabalhavam naquele ambiente, especialmente pelas senhoras responsáveis pela merenda escolar.

Recordo-me de que muitos alunos sequer entravam na fila para receber o lanche. Alguns, aparentemente, sentiam vergonha de fazê-lo.

Eu, porém, era frequentador assíduo daquela merenda.

Como esquecer aquele mingau de milho preparado com tanto cuidado?

Talvez aquelas senhoras jamais tenham imaginado a importância que tiveram na vida de um menino que encontrava, naquele ambiente escolar, muito mais do que alimentação e conhecimento.

Encontrava acolhimento.

Encontrava respeito.

Encontrava carinho.

E, acima de tudo, encontrava pessoas que, mesmo sem perceber, contribuíam para tornar meus dias mais felizes.

Naquele período, eu passava a maior parte do tempo morando com minha mãe adotiva, Francisleuda. Já residíamos na Rua Jardineira, nº 168, no bairro do Jacintinho, em Maceió.

Minha rotina era marcada por dificuldades, mas também por pequenas alegrias.

Tinha poucos amigos. Entretanto, gostava de caminhar pelas ruas próximas de casa durante as tardes, observar o movimento da vizinhança, ouvir as pessoas e conversar sobre os acontecimentos do cotidiano.

Recordo-me de um colega da vizinhança que, algumas vezes, aparecia para conversar comigo e ouvir músicas. Entre nossas preferências estavam as canções do grupo Folhas e o disco de A Gata Comeu.

Eram momentos simples, mas que permanecem vivos em minha memória.

As manhãs, contudo, pertenciam à minha querida escola.

Chegar até ela representava, muitas vezes, uma verdadeira aventura.

Como frequentemente fazia o percurso a pé, precisava atravessar um enorme bueiro que ligava o bairro do Jacintinho ao Farol.

Hoje, ao recordar aquele caminho, percebo que não era apenas uma travessia entre dois bairros de Maceió.

Era, simbolicamente, a travessia entre as dificuldades da minha realidade e as possibilidades de um futuro que começava a ser construído pela educação.

Cada caminhada representava um esforço. Cada livro aberto, uma oportunidade. Cada professor, uma referência. Cada palavra de incentivo, uma razão para continuar.

A escola havia se transformado em um dos lugares mais importantes da minha vida.

Em determinados momentos, encontrava naquele ambiente mais aconchego do que em minha própria casa.

Ali me sentia valorizado.

Ali descobria minhas capacidades.

Ali compreendia que minhas circunstâncias não precisavam determinar os limites do meu futuro.

Hoje, olhando para trás, percebo que aqueles colegas que tanto admirava foram instrumentos de uma transformação profunda em minha vida.

Talvez Francisco, Luiz e João Américo jamais tenham percebido o quanto influenciaram minha maneira de pensar e agir.

O desejo inicial de pertencer àquele grupo acabou despertando algo muito maior: a consciência de que o conhecimento poderia transformar minha existência.

Também não posso deixar de reconhecer o papel extraordinário dos professores da Escola José da Silveira Camerino.

Todos, à sua maneira, contribuíram para minha formação.

Alguns me ensinaram conteúdos escolares. Outros me ensinaram, pelo exemplo, valores que ultrapassavam os limites da sala de aula.

Espero sinceramente que suas vidas tenham sido repletas de realizações, alegrias e felicidade.

Se hoje pudesse reencontrá-los, gostaria de lhes dizer que seus esforços não foram em vão.

Aquele menino que atravessava caminhos difíceis para chegar à escola jamais esqueceu o que recebeu de cada um deles.

E, se pudesse reencontrar também aquelas senhoras que preparavam e distribuíam a merenda, faria questão de agradecer pelo alimento, pelos gestos de carinho e pela dignidade com que desempenhavam suas funções.

Porque educar não é uma missão exclusiva de quem está diante de um quadro-negro. Muitas vezes, também educa quem acolhe, quem alimenta, quem escuta e quem oferece uma palavra de incentivo.

Foi naquela escola que concluí meu Primeiro Grau, encerrando uma etapa fundamental da minha formação.

Entretanto, muito mais do que concluir um ciclo escolar, saí daquele ambiente levando ensinamentos que me acompanhariam pelo restante da vida.

Aprendi que a dedicação pode superar dificuldades.

Aprendi que o reconhecimento pode transformar a autoestima de uma criança.

Aprendi que a educação não deve ser compreendida apenas como um caminho para conquistar diplomas, mas como uma oportunidade de desenvolver a consciência, a dignidade e a capacidade de construir novos horizontes.

E aprendi, sobretudo, que Deus coloca pessoas em nosso caminho que, mesmo sem saber, tornam-se instrumentos de transformação em nossa existência.

Hoje, compreendo que nada daquilo foi insignificante.

Nem os colegas que eu admirava.

Nem o professor que acreditou em minha capacidade.

Nem o livro de Matemática que recebi.

Nem as caminhadas até a escola.

Nem aquele inesquecível mingau de milho.

Cada acontecimento, cada encontro e cada dificuldade ajudaram a construir a pessoa que, ao longo dos anos, procurei me tornar.

Se algum dia alguém ler estas memórias e encontrar nelas uma razão para não desistir dos estudos, para acreditar em si mesmo ou para reconhecer a importância de um professor, então estas palavras já terão cumprido uma das razões pelas quais decidi escrevê-las.

Encerro, assim, mais um capítulo da minha história, com o coração cheio de gratidão.

Aos meus professores, minha eterna admiração.

Aos meus colegas, meu reconhecimento.

Às pessoas simples que tornaram meus dias melhores, minha sincera gratidão.

E a Deus, que sempre esteve presente, inclusive nos momentos em que eu ainda não compreendia os caminhos que Ele preparava para mim, entrego toda a honra e toda a glória.

Graças e louvores ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!

ESCRITO POR Fernando Pacheco 6 K leituras
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