A Saudade Também é uma Forma de Amor
Descobri que a saudade tem um estranho jeito de permanecer. Ela não bate à porta nem pede licença. Simplesmente chega, senta-se ao nosso lado e, em silêncio, percorre os cômodos da memória. Há dias em que ela pesa como uma montanha. Em outros, transforma-se numa brisa que toca o rosto e nos faz sorrir diante de uma lembrança. É curioso... a mesma saudade que nos faz chorar é também aquela que nos recorda o quanto fomos privilegiados por amar. A dor da perda nunca nasce da ausência. Ela nasce da intensidade da presença que um dia existiu. Quem nunca amou não conhece a saudade. Apenas quem entregou um pedaço do próprio coração a alguém sabe o que significa continuar vivendo enquanto uma parte de si parece ter ficado para trás. A vida é uma estrada curiosa. Caminhamos olhando para a frente, mas o coração insiste em olhar para trás. Pelo caminho, deixamos risos, abraços, conversas interrompidas, sonhos compartilhados e pessoas que pareciam eternas. Descobrimos, então, que ninguém nos ensina a dizer adeus. Aprendemos apenas a continuar caminhando. E talvez seja justamente aí que mora a beleza da existência. Continuamos não porque esquecemos, mas porque carregamos conosco tudo aquilo que o amor escreveu em nossa alma. O tempo pode envelhecer o corpo, diminuir a força das pernas e tornar mais lentos os nossos passos. Mas existe um lugar onde o tempo jamais consegue entrar: o coração de quem ama. É nele que os que partiram continuam vivos. Às vezes imagino que Deus espalhou a saudade sobre a terra para que nunca esquecêssemos que fomos feitos para algo maior do que este mundo. Se tudo terminasse aqui, o amor seria a mais cruel das ilusões. Mas o amor não foi criado para terminar; ele aponta para a eternidade. É essa esperança que sustenta os meus dias. Acredito que existe um amanhã que não cabe nos calendários humanos. Um amanhã em que os relógios deixarão de contar o tempo, porque o tempo já não será necessário. Um amanhã em que os abraços não conhecerão despedidas e as lágrimas perderão definitivamente a razão de existir. Talvez, quando esse dia chegar, eu já não tenha a mesma disposição de hoje. Meus cabelos terão embranquecido, minhas mãos carregarão as marcas da caminhada e meu corpo revelará o peso dos anos. Mas isso será apenas um detalhe. O essencial permanecerá intacto. O coração reconhecerá imediatamente aqueles que nunca deixou de amar. Então entenderei que nenhuma lágrima foi desperdiçada, que nenhuma espera foi em vão e que toda saudade era apenas o nome que a esperança recebeu enquanto a eternidade ainda não chegava. Naquele instante, olharei para toda a minha caminhada e direi, sem qualquer tristeza: Não cheguei ao fim. Cheguei apenas ao limiar da vitória. Porque o amor verdadeiro nunca termina. Ele apenas aprende, por algum tempo, a esperar. Fernando Pacheco
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