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A FAMÍLIA - Capítulo 1

Nasci e fui criado em um pequeno vilarejo no bairro de Jaraguá, nesta capital. E, para uma criança, acredito que não poderia ter existido lugar mais encantador para crescer.

Naquela época, porém, eu não percebia determinados fatos que somente mais tarde a vida se encarregaria de me fazer descobrir.

Tive diversos amigos de infância, mas alguns ficaram especialmente guardados em minha memória. Havia o Tarzan - embora seu perfil lembrasse mais uma caveira do que propriamente o Tarzan. Tinha também o Francisquinho, filho de dona Josefa. Ele tinha um irmão chamado Claudinho. Havia ainda o Zé, o Oscar e o Paulinho, mas, entre eles, apenas Claudinho participava com frequência de nossas brincadeiras.

Também me lembro do Wanderley, que possuía uma habilidade enorme com a bola. Era um verdadeiro craque! E havia ainda João Abroba, Cicinho, Zé Cícero, Nenê e Tota. Eram personagens de um tempo que ficou guardado em minha memória e que, mesmo depois de tantos anos, ainda consigo revisitar.

Eu morava na Avenida Beira-Mar, nº 18, em Jaraguá. A casa onde cresci era maravilhosa.

Durante a noite, praticamente apenas o brilho do luar iluminava aquele lugar. E aquilo era suficiente. Sob a luz da lua, a rua se transformava no cenário perfeito para nossas brincadeiras inesquecíveis: rouba-bandeira, pega-pega, esconde-esconde e tantas outras.

Não precisávamos de muito. A imaginação fazia o restante.

Durante o dia, o futebol na praia era uma diversão sem fim. A praia era o nosso campo, o mar fazia parte do cenário e os amigos completavam aquele universo que, aos meus olhos de criança, parecia não ter limites.

Em razão de uma história sobre a minha origem, eu era chamado de Wallas. Não ligava muito. Meus amigos diziam que eu era "gringo", mas eu nunca levava aquilo a sério. Na verdade, não acreditava naquela história.

Minha vizinha da direita chamava-se Maria. Ela tivera sete filhos, três homens e quatro mulheres. Entre eles estavam Ladielson, Josielson, Lenilda, Leneide e Ledja. Naquela casa funcionava também um bar chamado Pai Herói.

Como eram nossos vizinhos, sempre que podia eu estava por lá.

Lembro-me especialmente de Mariinha. Ela sabia da vida de muitas pessoas daquele lugar e, certa vez, contou-me uma história que dizia respeito diretamente à minha própria existência.

Segundo ela, minha mãe biológica costumava se relacionar com homens que chegavam nos navios. Certo dia, teria batido de porta em porta procurando alguém que pudesse me adotar, pois não teria condições de me criar.

Sinceramente, embora tenha ouvido aquela história diversas vezes, eu não acreditava.

Mariinha dizia que minha mãe era loira e que eu seria "filho de gringo". Eu preferia desconversar. Para mim, aquilo parecia fantasioso demais. Talvez também fosse mais fácil simplesmente não acreditar.

A infância, afinal, não precisava de explicações.

Eu vivia em um paraíso.

Entre tantas lembranças que ficaram gravadas em minha mente, algumas possuem uma força especial. Recordo-me das inúmeras vezes em que, depois do banho, minha mãe - aquela que durante muito tempo eu chamava de avó - colocava-me sentado em uma cadeira de balanço, voltado para o mar.

Dali, eu observava os navios chegando e partindo do Porto de Jaraguá.

Ficava olhando aquelas enormes embarcações e imaginando para onde iriam. Sonhava com as viagens dos marujos, com os lugares distantes que eles conheceriam e com tudo aquilo que poderia existir além da linha do horizonte.

Talvez, sem perceber, enquanto observava aqueles navios partirem, eu também começasse a imaginar os caminhos que um dia a própria vida reservaria para mim.

Minha tia Graça também ocupa um lugar especial em minhas lembranças. Ela era meu refúgio e minha orientadora para a vida. Era alguém a quem eu podia recorrer e em quem encontrava segurança.

Naquele lugar, aos olhos daquela criança que eu era, não existia maldade. Existiam o mar, a praia, os amigos, as brincadeiras, os sonhos e uma liberdade que somente muitos anos depois eu compreenderia o quanto era preciosa.

Mas o tempo não pede licença.

A cada ano fui crescendo e, sorrateiramente, tudo começou a mudar.

A infância foi ficando para trás, embora eu ainda não percebesse. As brincadeiras começaram a dividir espaço com outras responsabilidades e o mundo, que antes parecia resumir-se àquele pequeno pedaço de Jaraguá, começou lentamente a se ampliar diante de mim.

Meus primeiros passos na educação formal também fazem parte dessa caminhada. Estudei no Colégio Pequeno Príncipe, depois no Muniz Falcão e, posteriormente, na Escola Ladislau Neto, onde permaneci até a 4ª série primária.

Assim começaram os primeiros capítulos da minha história.

Uma história que nasceu à beira-mar, entre o luar, a areia da praia, os jogos de futebol, as brincadeiras de rua, os amigos de infância e os navios que chegavam e partiam do Porto de Jaraguá.

Naquele tempo eu ainda não sabia quem seria, nem os caminhos que percorreria.

Também não compreendia inteiramente de onde havia vindo.

Eu era apenas Wallas, o menino de Jaraguá, sentado em uma cadeira de balanço diante do mar, vendo os navios desaparecerem no horizonte e imaginando, sem saber, que um dia também partiria para descobrir o mundo - e a minha própria história.

ESCRITO POR Fernando Pacheco 2 K leituras
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