O que faço com aquilo que me atravessa?
Não é que minhas mazelas sejam produtivas porque o sofrimento, por si só, produza alguma coisa. Sofrer não é virtude, e a dor não tem obrigação de virar arte. Elas se tornam produtivas quando consigo fazer alguma coisa com aquilo que me atravessa. Minhas angústias sempre foram produtivas. Mesmo quando eram horríveis, algo saía de mim: frase, página, ideia. Sempre escrevi.
Há mais de uma década, comecei uma travessia de tratamentos, terapias e análises. Havia inquietação demais e palavras de menos. Com o tempo, a psicanálise deixou de ser apenas uma inquietação e se tornou também um desejo: estudar, compreender, escutar e, depois, tornar-me psicanalista. Não sei dizer o que produziu cada mudança. Talvez as análises, as terapias, os encontros, as escolhas ou até os feitiços da vida. Entre esses doze anos, fui me reconstruindo e reconstruindo minha vida, inclusive minha carreira.
Em algum momento, algo mudou em mim. Quando passei a me reconhecer como escritor, algo pareceu mudar. Desde que publiquei meu primeiro livro, tive a sensação de que havia vomitado para fora uma parte de tudo aquilo que vivi e fui atravessado ao longo desses anos. Talvez a escrita tenha sido a linguagem que faltava. Apenas reconheço que, comigo, a angústia muitas vezes encontrou uma saída pela produção. O que doía podia virar palavra. O que inquietava podia virar página. O que parecia sem nome podia ganhar forma.
Para mim, as análises têm seus efeitos. Não como fórmula que conserta alguém, mas como trabalho que deixa marcas e abre perguntas. Hoje, pequenas coisas também me produzem felicidade: fazer algo por mim, escrever, pensar em um livro, construir um projeto. Quero uma vida interessante. Não faço isso para provar nada a ninguém. Faço por mim.
Talvez seja isso que aprendi: não preciso agradecer à dor. Preciso descobrir o que posso fazer com o que ela deixou em mim. Minhas angústias sempre foram produtivas. Não porque a dor produza, mas porque algo em mim encontra um jeito de sair. Às vezes, em forma de palavra. Às vezes, de página. Às vezes, de livro. E talvez seja assim para sempre.
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