AS VELHAS QUE CARREGO
Geralmente, às segundas-feiras, encontro um velho. E esse velho é muito inteligente. Acho que ele tem mais de cinquenta mil anos. Exagero? Talvez. Há também uma velha. E outras velhas. E eu carrego uma velha comigo. Tenho a impressão de que todas elas ultrapassam os quarenta, os sessenta mil anos. Não sei ao certo. Os mortos não costumam apresentar documentos.
Mas como explicar isso a alguém? Um velho com mais de cinquenta mil anos? Uma velha com idade suficiente para ter visto o mundo se desfazer e se refazer tantas vezes? Por isso, prefiro escrever. No papel, certas coisas não precisam pedir licença para existir.
Há dois anos, um colega me perguntou se eu conversava com mortos. Respondi que sim. Ele quis saber onde. E eu, sem muita delicadeza, disse: aonde não te interessa. Confesso que, depois, senti culpa pela resposta. Eu poderia ter falado. Talvez pudesse. Mas hoje penso que não precisava. Há coisas que, quando explicadas a quem não sabe escutar, deixam de nos pertencer e passam a ser motivo de curiosidade alheia.
Converso com uma velha. Ela é feiticeira. Converso com um velho, mandingueiro. E carrego uma velha que também é feiticeira, sábia, inteligente. Essas velhas já passaram por muita coisa nesta vida, embora tenham morrido há muito tempo. Dizem até que algumas mataram os maridos. Bom, eu não vi. Ou não me lembro. Se existe vida passada, talvez a memória também morra um pouco com a gente. Ou será que ela permanece escondida em algum lugar, esperando uma palavra, um cheiro, uma voz que a faça despertar?
Mas não é disso que quero falar.
É que os mortos, às vezes, me salvam muito mais do que os vivos.
E fico pensando de onde nasce a palavra que escrevo, aquela que aparece no meio das frases, que se esconde entre as linhas e, de repente, me entrega alguma coisa que eu mesmo não sabia que carregava. Esses dias, uma colega me disse que eu escrevia muito bonito. Agradeci. Apenas isso. Depois, fiquei introspectivo. Bonito onde? Em que parte do que escrevo existe beleza? São palavras melancólicas, pensamentos de velho, lembranças que talvez nem sejam minhas? Ou será que deveria chamá-las de palavras de idosos? Não. Conhecendo-as bem, sei que não é bem assim.
A questão é outra. Talvez eu esteja procurando em mim aquilo que os outros conseguem enxergar de fora. Talvez eu escreva para descobrir o que há de meu naquilo que, tantas vezes, parece vir de um lugar que não conheço. E, se sou eu quem escreve, por que me espanto quando me encontro nas palavras? Ou será que estou tão ocupado procurando a mim mesmo que ainda não percebi que já apareço em cada linha?
Minha velhinha me disse uma vez que até as flores precisam de sorte. Umas enfeitam a vida; outras, a morte. Fiquei pensando nisso. Será que existe sorte? Ou será que damos esse nome ao que não conseguimos explicar, ao que floresce em uns enquanto outros precisam aprender a sobreviver sem primavera?
Ela também me contou que foi muito apunhalada pelas costas. E que aqueles que um dia desejaram vê-la caída hoje lhe pedem ajuda. Confesso que quase chorei. Talvez porque eu conheça um pouco dessa história, embora não saiba se a conheço por ter vivido algo parecido ou por ter aprendido a reconhecer a dor no rosto dos outros.
Já me pediram muita ajuda. E também houve quem me visse caído. Mas nasci duro, rígido, de pé. Ou aprendi a ficar assim, o que talvez seja diferente. Nem sempre a gente nasce com a força que demonstra; às vezes, apenas descobre que não tem para onde cair. Mesmo assim, ajudei. Ajudei quando pude, quando quis e até quando talvez devesse ter guardado um pouco de mim.
Hoje, porém, ajudo a mim mesmo.
Não é prepotência. É sobrevivência. Há uma diferença enorme entre acreditar que não precisamos de ninguém e compreender que também precisamos de nós. Talvez eu tenha demorado a entender isso. Talvez ainda esteja aprendendo. Não sei. As palavras me ajudam a chegar perto, mas nem sempre me deixam atravessar.
E é justamente aí que me perco outra vez: de onde vem a palavra que me encontra quando me sento para escrever? Que isca preciso lançar para pescar aquilo que ainda não tem nome? Às vezes, imagino que sou uma espécie de pescador. Outras vezes, penso numa sereia, dessas que pertencem ao mar e não precisam explicar de onde vieram. Mas não é bem uma sereia que procuro. É Iemanjá. Não. Também não sei se procuro por ela ou se é o mar que me chama para dentro de mim.
Talvez eu tenha sido convocado a escrever para mergulhar. Mergulhar onde não alcanço com os pés, onde as certezas perdem a forma e a palavra precisa aprender a respirar debaixo d'água. Quem sabe, um dia, eu entregue a Iemanjá os cabelos que cortei. Talvez seja apenas um gesto. Talvez seja uma despedida. Talvez existam coisas que a gente só consegue entregar depois de compreender que nunca foram inteiramente nossas.
E, enquanto penso nisso, volto às minhas velhas. Às suas histórias, à sua sabedoria, às suas feitiçarias. Volto ao velho mandingueiro, que parece saber mais do que diz. Volto aos mortos que me acompanham e aos vivos diante dos quais tantas vezes preciso escolher o silêncio. Penso que talvez eles não sejam apenas personagens das minhas conversas, nem figuras que atravessam minha espiritualidade. Talvez sejam também maneiras de encontrar palavras para aquilo que, em mim, ainda não aprendeu a falar.
Não sei se escrevo porque os mortos me contam histórias ou se escrevo porque preciso de histórias para suportar aquilo que os vivos deixaram em mim. Talvez as duas coisas sejam verdadeiras. Talvez nenhuma seja. Não tenho obrigação de resolver tudo numa crônica. Ainda bem. Se tivesse, talvez eu não escrevesse.
O que sei é que, quando me sento diante das palavras, alguma coisa me convoca. Não sei de onde vem, nem para onde vai. Apenas sigo. E, enquanto sigo, as velhas falam, o velho observa, o mar se aproxima e eu, que tantas vezes procurei a mim mesmo nos outros, começo a desconfiar de que nunca estive ausente.
Talvez eu estivesse aqui o tempo inteiro, escondido entre uma velha e outra, atrás de uma história que não sei se vivi, dentro de uma memória que não sei se me pertence.
Talvez escrever seja isso: mergulhar sem saber se voltaremos à superfície com um peixe, uma palavra ou apenas o silêncio.
E, se eu voltar de mãos vazias, ainda assim terei mergulhado.
Por hoje, acho que basta.
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