A angústia não se apaga
Nada é tão ruim que não possa vir a piorar. Ou será que o nada é quem para tudo? A luz se foi junto ao dia. O anoitecer vem frio como uma garrafa congelada há mil anos, no corpo, quando se toca. Escrevo para ver se minha mente se esfria, ou será que peço demais? Minha linguagem pede segredos daquilo que desconheço. Talvez ela me controle. Não, talvez me conte algum dia, embora já tenha antecipado que é segredo. O que seria um segredo? Algo dentro de um baú? Talvez. Mas não escrever sobre isso.
Talvez o segredo não esteja guardado em lugar algum, talvez seja a própria linguagem que o esconda de mim, como se soubesse aquilo que ainda não estou preparado para saber. E eu, que tento conduzir as palavras, desconfio de que são elas que me conduzem.
Escrevo em meio a uma falta, mas não uma falta qualquer. É a da eletricidade. Maldita seja a escrita, que nem na escuridão me dá sossego. Escrevo com o olhar fixado numa planta decorativa. A cada segundo que escrevo, a escuridão fica maior. E quanto menos enxergo ao redor, mais alguma coisa em mim parece querer ser vista.
Aquela ligação só vai acabar quando a angústia e a culpa saírem de dentro de mim. Mas como se encerra uma ligação que não sabemos onde começou? Talvez eu esteja preso àquilo que já não existe, ou àquilo que nunca chegou a existir fora de mim. Há coisas que permanecem não porque desejamos, mas porque ainda não descobrimos como deixá-las partir.
Tudo é, em algum tempo, uma tentativa de amadurecer. Querer amadurecer demais pode provocar uma queda brusca. Isso acontece ao redor, pois até as frutas têm o seu momento. Há um tempo para permanecer no galho e outro para aceitar a queda. Talvez o erro esteja em querer antecipar o que ainda precisa amadurecer, como se a pressa pudesse enganar a natureza.
Não querer ir tão longe, tampouco permanecer perto demais, exige renunciar a várias e várias coisas. E renunciar também é uma forma de perder, mesmo quando a perda é necessária. Coisas sem nome demais matam, e com nome também. Dar nome a alguma coisa não significa conhecê-la, assim como reconhecer uma angústia não significa saber o que fazer com ela.
Continuo escrevendo, mesmo quando a noite me rouba o que vejo. Talvez porque a palavra alcance aquilo que meus olhos já não alcançam, talvez porque escrever seja uma maneira de permanecer diante de mim sem precisar me reconhecer por inteiro. Procuro uma saída, mas desconfio de que o labirinto não tenha sido construído para me prender. Talvez tenha sido construído para me obrigar a procurar aquilo que evito encontrar.
A luz há de voltar, dizem. Mas ninguém sabe dizer o que acontece com aquilo que a escuridão revela antes de partir. E eu permaneço aqui, diante da planta decorativa, esperando que alguma coisa se mova, embora saiba que nem todo movimento pode ser visto.
Talvez a luz regresse, talvez a noite se desfaça. Mas há algo em mim que permanece escuro, mesmo quando a claridade me abraça.
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