Tema

A carne que insiste em sentir

O sol me queima, mas a angústia me cura. Escrevo para transcrever aquilo que carrego na alma, embora nem sempre reconheça o que encontro em mim. Talvez reconheça. Talvez seja justamente o que sei e insisto em esconder de mim mesmo. Há coisas que não desconheço; apenas as disfarço de esquecimento, como se mudar o nome de uma coisa fosse suficiente para fazê-la desaparecer.

Sou intenso enquanto escrevo. Quando não escrevo, também. Às vezes, talvez. Sou multifacetado, carrego milhares de eus, ou melhor, milhares de versões de mim que não precisam concordar para continuarem sendo minhas. Em todas elas sou o mesmo, ainda que me apresente de maneiras diferentes: aquele que escreve com amor, ódio, raiva ou ira. Não necessariamente nessa ordem. Meus sentimentos têm uma gramática própria, e nem sempre sou capaz de compreendê-la.

Grito em silêncio e choro nos barulhos que a máquina produz. Talvez ela diga por mim aquilo que minha boca não alcança. Estou com pressa. De quê? De mim, de eu, de tu, meu amor. Mas qual amor? O amor a isso, à vida, ao mundo, aos céus que brilham sem pedir licença, às correntes que começo a soltar. Ou talvez não esteja soltando corrente alguma. Talvez apenas tenha aprendido a conviver com o ruído que elas fazem quando me movimento.

E, se continuo escrevendo, talvez seja para preencher páginas ou até a mim mesmo. Mas a mim não me preencho. Deixo-me ser preenchido, sem saber exatamente por quem, pelo quê ou em que momento isso acontece. Vivo os vazios que toco. Reconheço suas marcas, embora nem sempre suas origens. Às vezes, enfio o dedo na minha própria ferida e depois digo que é amor. Que ironia. Talvez seja apenas um dedo em um bolo de morango, uma doçura que invento com a carne da minha pele, descascada como muro velho. Há algo de estranho em transformar a própria ferida em alimento e ainda procurar nela algum sabor.

Talvez eu escreva assim porque há coisas que não suportam ser ditas de outra maneira. A palavra tenta alcançar o que sinto, contorna, insiste, mas nem sempre chega. E eu continuo, entre aquilo que mostro e aquilo que escondo, entre os muitos eus que me habitam e aquele que segura a máquina e escreve.

Não encontrei resposta alguma. Tampouco sei se estava procurando. Apenas continuo diante da página, tentando tocar com palavras aquilo que, em mim, permanece indizível.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 14 K leituras
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