Que incongruência é essa!
Era o meu primeiro sono da noite, e no sonho eu estava dentro de um restaurante sentado à mesa de frente para os fundos do estabelecimento; detalhe: o que eu tivera feito já havia acabado. Às minhas costas, alguém ocupava outra mesa. A atendente, uma jovem simpática com a pele bem preta, aproximou-se solícita, retirou os objetos sobre o móvel e em seguida passou um pano para higienizar; terminada essa tarefa, saiu caminhando para a cozinha do outro lado da rua. Ela mal se retirou, um homem, também de pele muito preta, achegou-se à mesa vazia do meu lado direito, levemente avançada para o fundo do salão, contornou o móvel no sentido horário, puxou uma cadeira e sentou-se virado de frente para a porta de entrada da casa. Ele, nem bem se acomodou, inclinou-se para falar comigo e disse, dirigindo-me a palavra e chamando a minha atenção:
- Cara, eu estou muito cansado. Eu ia beber uma cerveja no bar da rodoviária, mas de última hora mudei de ideia e resolvi vir para cá. Eu sou irmão da atendente, você a viu por aqui?
- Sim, respondi, ela acabou de tirar minha mesa.
- Ela é muito bacana, você não acha?
- Sim, retruquei. E, com a ironia de um elogio, acrescentei: - Péssimo trabalho. Da vez anterior fui até seu patrão fazer uma queixa. O sujeito ficou assombrado, taciturno, com os olhos arregalados...
Eu levantei da cadeira e saí em silêncio; a pessoa sentada na mesa atrás de mim não disse uma palavra, permaneceu de cabeça baixa, devia estar cochilando; atravessei a rua e fui parar na cozinha. A jovem estava na pia lavando louça, aproximei-me e informei-lhe o seguinte: - Acabei de falar para o seu irmão que você é uma péssima profissional, e que, da vez anterior, fui mal atendido, ao ponto de reclamar com o patrão. Se você achar que eu devo, volto lá para me retratar; caso contrário, vou-me embora daqui mesmo.
Ela sabia perfeitamente que era uma gozação da minha parte e que não teria problemas com isso, porque as acusações eram falsas, nada aconteceu de verdade. Entretanto, meiga e com uma vozinha chorosa, quase suplicando, foi que me pediu para retornar ao local e desmentir o dito pelo não dito, e finalizou falando assim: - E eu vou junto, quero confirmar.
Em sonhos, as coisas acontecem num estalar de dedos e, de pronto, já estávamos dentro do salão. Eu, de pé diante do irmão da moça, com ela coladinha ao meu lado, apoiando uma mão sobre o meu ombro, proclamei: - A sua irmã é muito simpática, generosa, e sempre tratou os clientes muito bem; se você é irmão dela - estendi a mão para o sujeito e continuei - aperte aqui a minha mão, pois tenho certeza de que o amigo tem as mesmas belas qualidades que ela carrega consigo, fico feliz de conhece-lo. Girei o corpo e, dirigindo-me à atendente, disse: - Eu sempre desejei lhe falar essas coisas, jamais encontrei a oportunidade, então decidi criar esta, justamente hoje. Afastei-me sutilmente e, cara a cara com a jovem, dei prosseguimento a fala interrompida: - Não temos motivo para negar que você é uma ótima profissional, de inestimável valor, e que merece ter a sua dedicação reconhecida. Quem não gosta de ser bem acolhido num lugar como este, de ser recebido com um sorriso e prontamente atendido? Absolutamente todos! No dia em que você sair daqui para trabalhar noutro lugar melhor, inevitavelmente sentiremos a sua falta na casa. Fitei-a nos olhos e disse: - Grato pelo carinho de sempre, querida.
Acordei me sentindo feliz. Com o celular à mão, foi fácil decidir registrar o sonho. Não sou rápido para digitar, porém, ainda que deitado, dei cabo do que queria escrever, num sobe e desce feito trenzinho de montanha russa, mas fiz. E, pasmem, em uma hora comecei e finalizei o texto, faltava corrigir os erros. Ei-lo aqui, pronto e acabado. Espero que tenham gostado da leitura.
Um pensamento me manteve acordado durante mais algum tempo: eu questionava como o nosso cérebro é capaz de criar essas histórias. No sonho, eu tinha a sensação de conhecer a moça; acordado, eu percebi que não; na verdade, nem o cenário era familiar. Onde já se viu a cozinha de restaurante localizada fora do estabelecimento, do outro lado da rua? Que incongruência é essa?
Em suma, talvez Freud explique tudo; eu quero é dormir. Acomodei a cabeça de lado, no travesseiro, fechei os olhos e logo retomei o sono outra vez.
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