Laboratório de Poesias
Nesta mesa de formica rachada misturo o que não deveria. Sal com açúcar. Raiva com ternura. O ontem que não passou com o amanhã que não chega.
Uso a colher de chá como bisturi. Abro a pele das palavras para ver o que sangra. Às vezes é vermelho. Às vezes é só silêncio com cor de ferida.
Testo a paciência do papel. Rabisco. Tacho. Rasgo. Cole com fita adesiva o que não quer colar. O poema também chora quando ninguém vê.
Meus ratos de laboratório são versos que não deram certo. Correm em rodas, cansam-se, morrem de esperar uma cura que não existe.
Mas eu persisto. Acendo a luz amarela das três da manhã. Escrevo com a mão esquerda para enganar o cérebro. Para que ele não saiba que estou fazendo poesia. Para que ele pense que é só mais uma lista de compras: pão, leite, esquecimento, salvação.
Quando o poema explode na minha cara, eu não limpo. Deixo a poeira assentar nas rugas. Assim fico mais velho e mais verdadeiro.
Neste laboratório não há fórmulas. Só tentativas. Só erros que brilham no escuro como fósforos queimando os dedos de quem ainda acredita em fogo.
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