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Laboratório de Poesias

Nesta mesa de formica rachada misturo o que não deveria. Sal com açúcar. Raiva com ternura. O ontem que não passou com o amanhã que não chega.

Uso a colher de chá como bisturi. Abro a pele das palavras para ver o que sangra. Às vezes é vermelho. Às vezes é só silêncio com cor de ferida.

Testo a paciência do papel. Rabisco. Tacho. Rasgo. Cole com fita adesiva o que não quer colar. O poema também chora quando ninguém vê.

Meus ratos de laboratório são versos que não deram certo. Correm em rodas, cansam-se, morrem de esperar uma cura que não existe.

Mas eu persisto. Acendo a luz amarela das três da manhã. Escrevo com a mão esquerda para enganar o cérebro. Para que ele não saiba que estou fazendo poesia. Para que ele pense que é só mais uma lista de compras: pão, leite, esquecimento, salvação.

Quando o poema explode na minha cara, eu não limpo. Deixo a poeira assentar nas rugas. Assim fico mais velho e mais verdadeiro.

Neste laboratório não há fórmulas. Só tentativas. Só erros que brilham no escuro como fósforos queimando os dedos de quem ainda acredita em fogo.

ESCRITO POR Kleber Luís Antônio Pinheiro 1 K leituras
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