Tema Acessibilidade

Laboratório de Poesias

Nesta mesa de formica rachada misturo o que não deveria. Sal com açúcar. Raiva com ternura. O ontem que não passou com o amanhã que não chega.

Uso a colher de chá como bisturi. Abro a pele das palavras para ver o que sangra. Às vezes é vermelho. Às vezes é só silêncio com cor de ferida.

Testo a paciência do papel. Rabisco. Tacho. Rasgo. Cole com fita adesiva o que não quer colar. O poema também chora quando ninguém vê.

Meus ratos de laboratório são versos que não deram certo. Correm em rodas, cansam-se, morrem de esperar uma cura que não existe.

Mas eu persisto. Acendo a luz amarela das três da manhã. Escrevo com a mão esquerda para enganar o cérebro. Para que ele não saiba que estou fazendo poesia. Para que ele pense que é só mais uma lista de compras: pão, leite, esquecimento, salvação.

Quando o poema explode na minha cara, eu não limpo. Deixo a poeira assentar nas rugas. Assim fico mais velho e mais verdadeiro.

Neste laboratório não há fórmulas. Só tentativas. Só erros que brilham no escuro como fósforos queimando os dedos de quem ainda acredita em fogo.

Direitos Autorais

© 2026. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.

±100 leituras
Classificação de conteúdo:
Seguro

Publicado
Denunciar conteúdo
Este conteúdo foi publicado por um autor da plataforma e é de sua responsabilidade. Ele deve respeitar a Política de Conteúdo do Portal Escritores. Caso identifique alguma violação, utilize o Fale Conosco.

Comentários


Mais textos deste autor

Poesias

Colibri

O que é rápido demais para ser visto, só pode ser sentido. O amor talvez seja isso: não estar em lugar nenhum, mas... [Continue lendo.]
Publicado