O Luto Me Atravessa
O luto me atravessa como a luz atravessa
uma janela esquecida pelo tempo:
chega ferida,
mas chega.
Eu queria dizer que a dor obedece,
que existe um instante em que a ausência aprende a descansar.
Mas a saudade desconhece relógios.
Ela aparece no intervalo de um gesto,
na cadeira que continua voltada para o mesmo lugar,
na palavra que sobe até a boca
e retorna ao silêncio,
pesando como metal antigo.
Há um país inteiro dentro de mim
onde você continua vivendo.
Lá as portas reconhecem minhas mãos,
os dias não têm pressa
e o tempo desaprendeu a ferir.
Todas as noites atravesso essa fronteira invisível
e volto ao amanhecer
com um punhado de terra que ninguém enxerga,
mas que sustenta tudo o que ainda sou.
Dizem que a dor se transforma.
Nunca dizem em quê.
Talvez ela se torne raiz:
desce em silêncio,
aprende a escuridão,
abraça o que parecia perdido
e, sem pedir licença,
ergue uma flor onde eu julgava existir apenas inverno.
Você não partiu por inteiro.
Ficou um modo de iluminar as tardes,
um riso que ainda encontra o meu
quando menos espero,
uma presença discreta
que insiste em permanecer nas pequenas coisas.
Talvez amar seja exatamente isso:
aceitar que alguém continue existindo
no espaço que sua ausência abriu.
O luto me atravessa,
mas eu também atravesso o luto.
E do outro lado,
carregando o seu nome
como uma brasa que não se apaga,
eu continuo.
Não porque a dor tenha terminado,
mas porque aprendi
a caminhar com ela nos braços,
como se carregasse,
a cada passo,
aquilo que o tempo
jamais será capaz de levar.
Kleber Luis Antônio Pinheiro
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