Canção dos Pássaros Mortos
No fio da tarde,
pendiam sombras de asas
como notas caladas
de uma música sem regresso.
O céu, que antes era jardim,
trazia agora o silêncio
de ninhos vazios
e ventos sem endereço.
Havia penas no chão,
não como queda,
mas como cartas rasgadas
por mãos invisíveis do tempo.
Cada pássaro morto
era um verão interrompido,
um pequeno sol extinto
no peito das árvores.
E, no entanto,
de sua ausência nascia um canto
não de bico,
não de voo,
mas de memória.
Cantavam os galhos,
cantava a tarde ferida,
cantava o barro úmido
onde descansavam seus frágeis ossos.
Era uma canção triste,
dessas que Deus escuta em silêncio
e a noite recolhe
como quem cobre um rosto amado.
Os homens passavam depressa,
sem ouvir o coral das perdas.
Só a lua, velha viúva,
parava para beijar as penas frias.
E eu fiquei ali,
com o coração entre as mãos,
aprendendo que até a morte
tem seus pássaros
e que até o fim
a beleza insiste em cantar.
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