A Casa onde Não Moro Mais
Não fechei a porta.
Não há porta.
Há apenas o espaço
onde a porta costumava resistir ao vento.
Os objetos me reconhecem.
O espelho, não.
Ele guarda outro rosto,
mais jovem, mais distante,
mais digno de ser amado.
Eu voltei para contar algo.
Esqueci o que era.
Talvez fosse apenas isso:
a necessidade de dizer
que ainda existo
em alguém que partiu.
A mesa tem dois copos.
Um está cheio de poeira.
O outro, de nada.
E eu bebo do vazio
com mais sede
do que bebia da água.
Não choro.
Chorar é para quem ainda acredita
que as lágrimas molham algo.
Eu sei:
a dor é seca,
a dor é luz que não consegue
sair do quarto.
Se alguém me perguntar
por que volto sempre aqui,
direi que é para verificar
se o abandono
também envelhece.
Ele envelhece.
E fica mais bonito,
como ferida que cicatriza
no lugar errado do corpo.
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