A Melancolia do Gelo
Há uma quietude que não é paz, é o gelo que se instala devagar nos cantos onde a chama já não alcança, um inverno que mora dentro do peito e não pergunta licença para ficar.
Aprendi a nomear o frio pelo nome errado: chamei de calma o que era ausência, chamei de força o que era apenas a superfície dura de um lago que esconde, embaixo, tudo o que afundou.
Não chora quem congela. Apenas para. Apenas guarda o gesto interrompido na garganta, o abraço que ficou a meio caminho entre a intenção e a mão.
Sou pedra que lembra ter sido rio. Sou inverno que um dia foi verão e não sabe mais contar a diferença entre o que perdeu e o que apenas esqueceu de sentir.
E no entanto, mesmo o gelo mais espesso guarda em si a memória da água. Basta um pouco de tempo, um pouco de sol, para que o que endureceu volte a ser o que era: movimento, não ausência. Vida, não o seu contrário.
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