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O Mapa na Parede do Quarto Fundo

No quarto fundo da casa

que não me pertence mas me tolera,

há um mapa colado com durepoxi

desde antes de eu nascer.

A União Soviética ainda é grande.

O meu país ainda cabe na palma.

O azul dos oceanos descascou

como tinta de um céu que envelheceu

antes de eu aprender a olhar.

Minha mãe dizia que viajar

era coisa de quem não sabe

que o fogão também tem fronteiras,

que a panela de ferro

também descobre mundos

quando a fome é outra língua.

Ela nunca teve passaporte.

Teve três filhos

e uma colher de pau

que batia a realidade

até ela amolecer.

Hoje abri a geladeira

e ouvi o zumbido do planeta.

Fechei. Fechei também

a vontade de partir.

O espelho do banheiro

mostrou um estrangeiro

que me cumprimenta em silêncio.

Não respondo.

Ele também não espera resposta.

Entre estrangeiros

é assim: a solidão

já é idioma suficiente.

A noite cai sem pedir licença.

Ligo a luz do quarto fundo.

O mapa continua errado.

Continua ali, na parede,

ensinando que alguns lugares

só existem

para que saibamos:

o erro também é endereço.

O que não existe

também ocupa espaço.

E o quarto fundo da casa,

que não me pertence,

é maior que o mundo

quando apago a luz.

ESCRITO POR Kleber Luís Antônio Pinheiro 10 textos
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