O Mapa na Parede do Quarto Fundo
No quarto fundo da casa
que não me pertence mas me tolera,
há um mapa colado com durepoxi
desde antes de eu nascer.
A União Soviética ainda é grande.
O meu país ainda cabe na palma.
O azul dos oceanos descascou
como tinta de um céu que envelheceu
antes de eu aprender a olhar.
Minha mãe dizia que viajar
era coisa de quem não sabe
que o fogão também tem fronteiras,
que a panela de ferro
também descobre mundos
quando a fome é outra língua.
Ela nunca teve passaporte.
Teve três filhos
e uma colher de pau
que batia a realidade
até ela amolecer.
Hoje abri a geladeira
e ouvi o zumbido do planeta.
Fechei. Fechei também
a vontade de partir.
O espelho do banheiro
mostrou um estrangeiro
que me cumprimenta em silêncio.
Não respondo.
Ele também não espera resposta.
Entre estrangeiros
é assim: a solidão
já é idioma suficiente.
A noite cai sem pedir licença.
Ligo a luz do quarto fundo.
O mapa continua errado.
Continua ali, na parede,
ensinando que alguns lugares
só existem
para que saibamos:
o erro também é endereço.
O que não existe
também ocupa espaço.
E o quarto fundo da casa,
que não me pertence,
é maior que o mundo
quando apago a luz.
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