Que a solidão saiba ficar
Que a minha solidão não me abandone e me faça companhia nos dias a dias, especialmente, especialmente nos dias em que eu estou triste, como hoje. Que eu saiba diferenciar solidão e solitude a cada virtude que se ganha, a cada silêncio que se aprende a suportar, a cada ausência que deixa de ser apenas ausência e passa a ocupar algum lugar dentro da gente.
Que eu possa me contentar com nada e, mesmo assim, me sentir por inteiro em tudo. Ou pelo menos quase tudo. Que eu não precise preencher todos os espaços, responder todas as perguntas, procurar em alguém aquilo que talvez eu ainda não saiba encontrar em mim. Talvez exista alguma beleza também no vazio, embora eu nem sempre consiga enxergá-la quando estou dentro dele.
Talvez eu não me compreenda tanto, mas talvez a minha forma de me compreender seja escrever. Escrever para não me sentir tão sozinho. Escrever para que alguma coisa de mim encontre passagem quando a palavra falada não consegue atravessar a garganta. Escrever para saber que a escrita me acompanha na solidão que sinto em meu caminho e que, em cada rua, cada esquina, cada estrada, eu deixe rastros de mim.
Talvez escrever seja também uma maneira de não desaparecer.
Que minha linguagem saiba produzir alguma coisa do meu inconsciente, mesmo quando eu não souber exatamente o que estou dizendo. Que eu saiba parar e negociar com a escrita quando o meu momento for apenas de ter meu próprio devaneio, sem precisar transformar tudo em palavra, sem precisar fazer da dor uma obra só porque ela doeu. Há dores que precisam apenas ser sentidas. Há silêncios que talvez precisem permanecer silenciosos por algum tempo.
E talvez eu precise aprender isso também: nem tudo aquilo que me atravessa precisa imediatamente virar explicação.
Às vezes, basta atravessar.
Às vezes, basta permanecer.
Às vezes, basta escrever uma frase e deixá-la ali, esperando que outro dia eu consiga entendê-la.
Porque a escrita também me ensina que eu não sou obrigado a saber quem sou o tempo inteiro. Posso me perder um pouco. Posso me contradizer. Posso querer alguém perto e, minutos depois, desejar que ninguém me procure. Posso sentir falta e ainda assim querer distância. Talvez exista alguma verdade também nessas contradições.
E que, mesmo nos dias todos, no mais amargo deles, como um café sem doce nenhum, eu consiga olhar para aquilo que dói sem precisar fingir que não dói.
Que eu possa dizer:
a depressão me pegou.
Mas não me levou.
A dor me atravessou.
Mas não me levou.
Eu chorei, eu calei, eu me perdi de mim algumas vezes. Houve dias em que levantar da cama pareceu uma tarefa maior do que eu. Houve dias em que a solidão pesou como se tivesse corpo, nome e endereço. E ainda assim, alguma coisa em mim continuou.
Talvez tenha sido a escrita.
Talvez tenha sido a vontade.
Talvez tenha sido apenas um resto de mim que se recusou a desaparecer.
E esse resto bastou.
Porque eu ainda escrevo.
Ainda sinto.
Ainda caminho.
Ainda deixo rastros de mim pelas ruas, pelas esquinas, pelas estradas e pelas páginas.
A depressão me pegou, mas não me venceu.
A dor me fez cair, mas não conseguiu me manter no chão.
E se hoje eu ainda estou aqui, não é porque a dor deixou de existir.
É porque, apesar dela, eu me levantei.
E amanhã, se for preciso, eu levanto outra vez.
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