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O Peso que Já Não Pergunta

Há uma cadeira na cozinha

que ninguém puxa mais.

Eu a olho como se olha

um país onde já não se mora.

A tarde entra e não encontra

ninguém a quem dizer que acabou.

O relógio continua,

por hábito, por educação,

por não saber interromper.

Preciso ser preciso:

não é tristeza o que me habita.

Tristeza ainda se move,

ainda procura a porta.

Isto é mais antigo,

mais parado,

uma pedra que aprendeu meu nome

e o repete sem som.

Ontem abri o armário

e a roupa guardava um corpo

que eu já não sou.

Fechei devagar,

como se fecha a boca de quem dorme,

para não acordar o que não vai voltar.

Talvez viver seja isto:

carregar, de cômodo em cômodo,

uma ausência bem-educada

que não pede nada,

não cobra nada,

e pesa mais do que tudo o que tive.

À noite, a casa respira por mim.

Eu só escuto.

E o escuro, que já foi inimigo,

agora é apenas o único

que não vai embora.

ESCRITO POR Kleber Luís Antônio Pinheiro 1 K leituras
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