O Peso que Já Não Pergunta
Há uma cadeira na cozinha
que ninguém puxa mais.
Eu a olho como se olha
um país onde já não se mora.
A tarde entra e não encontra
ninguém a quem dizer que acabou.
O relógio continua,
por hábito, por educação,
por não saber interromper.
Preciso ser preciso:
não é tristeza o que me habita.
Tristeza ainda se move,
ainda procura a porta.
Isto é mais antigo,
mais parado,
uma pedra que aprendeu meu nome
e o repete sem som.
Ontem abri o armário
e a roupa guardava um corpo
que eu já não sou.
Fechei devagar,
como se fecha a boca de quem dorme,
para não acordar o que não vai voltar.
Talvez viver seja isto:
carregar, de cômodo em cômodo,
uma ausência bem-educada
que não pede nada,
não cobra nada,
e pesa mais do que tudo o que tive.
À noite, a casa respira por mim.
Eu só escuto.
E o escuro, que já foi inimigo,
agora é apenas o único
que não vai embora.
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