A Floresta que Me Lê
Na estrada de volta, o motor desliga
e o escuro passa a ser a voz.
Os pinheiros não me olham:
me leem,
página por página,
com a paciência de quem não precisa de resposta.
Atrás de mim, a casa acende uma janela
só para provar que existo.
Adiante, a neve guarda
o rascunho de um passo
que ainda não dei.
Preciso ser preciso:
não é o silêncio que pesa,
é o que ele sabe de mim
e não conta.
Há um instante em que o corpo é uma ponte
entre o que dorme e o que lembra,
e por ela atravessam, sem pressa,
os cavalos de uma infância
que nunca estive pronto para montar.
Talvez a paisagem seja só isto:
uma mão enorme e fria
que me devolve o nome
quando eu já tinha desistido de ser chamado.
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