O Número que Ainda Sei de Cor
Sei de cor o número do telefone
que já não toca em lugar nenhum.
Os dedos o discam sozinhos,
às vezes, na cozinha,
sem pedir licença à razão.
A gravação informa
que o número não existe.
Concordo com ela.
É a primeira voz em meses
que me fala com franqueza.
Preciso ser preciso:
não foi a morte que me ensinou a ausência.
A morte é um ato, tem data, papel e hora.
A ausência é o que vem depois,
sem protocolo,
todos os dias úteis e os feriados.
Guardo o número como se guarda
uma língua que só um homem falava.
Quando eu morrer,
morre com ele o último falante,
e ninguém saberá que existiu
um idioma de sete algarismos
cuja única frase era "alô, sou eu".
Os vivos me consolam com flores
e verbos no passado.
Agradeço, educado,
e por dentro continuo discando.
Talvez luto seja isto:
a fidelidade absurda de uma memória
a um número que o mundo desligou.
E o mais cruel, sem alarde,
é que a linha ainda chama
dentro de mim.
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