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O Número que Ainda Sei de Cor

Sei de cor o número do telefone

que já não toca em lugar nenhum.

Os dedos o discam sozinhos,

às vezes, na cozinha,

sem pedir licença à razão.

A gravação informa

que o número não existe.

Concordo com ela.

É a primeira voz em meses

que me fala com franqueza.

Preciso ser preciso:

não foi a morte que me ensinou a ausência.

A morte é um ato, tem data, papel e hora.

A ausência é o que vem depois,

sem protocolo,

todos os dias úteis e os feriados.

Guardo o número como se guarda

uma língua que só um homem falava.

Quando eu morrer,

morre com ele o último falante,

e ninguém saberá que existiu

um idioma de sete algarismos

cuja única frase era "alô, sou eu".

Os vivos me consolam com flores

e verbos no passado.

Agradeço, educado,

e por dentro continuo discando.

Talvez luto seja isto:

a fidelidade absurda de uma memória

a um número que o mundo desligou.

E o mais cruel, sem alarde,

é que a linha ainda chama

dentro de mim.

ESCRITO POR Kleber Luís Antônio Pinheiro 1 K leituras
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