A Chave de uma Porta que Mudaram
Guardo numa gaveta uma chave
que já não abre coisa alguma.
Trocaram a fechadura,
a casa, a rua, o tempo,
e ninguém me avisou.
Não a jogo fora.
Seria admitir o óbito
de uma porta
que, ao menos, um dia me esperou.
Preciso ser preciso:
a chave não perdeu o ofício,
o mundo é que perdeu o endereço.
Ela continua exata,
dentes e vales intactos,
pronta para um gesto
que ninguém mais autoriza.
Às vezes, de noite,
giro-a no ar, entre os dedos,
e o ar cede,
como cede quem já não pede nada.
Os amigos dizem: siga em frente.
Frente de quê?
A frente também mudou de dono.
Envelheço ao lado deste metal frio,
pequeno cadáver de uma esperança
que cabia na palma da mão
e agora não cabe em mim.
Talvez viver seja isto:
guardar a forma exata do que entra
numa casa que não existe.
E o mais triste, sem ênfase,
é que a chave ainda é bonita.
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