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A Chave de uma Porta que Mudaram

Guardo numa gaveta uma chave

que já não abre coisa alguma.

Trocaram a fechadura,

a casa, a rua, o tempo,

e ninguém me avisou.

Não a jogo fora.

Seria admitir o óbito

de uma porta

que, ao menos, um dia me esperou.

Preciso ser preciso:

a chave não perdeu o ofício,

o mundo é que perdeu o endereço.

Ela continua exata,

dentes e vales intactos,

pronta para um gesto

que ninguém mais autoriza.

Às vezes, de noite,

giro-a no ar, entre os dedos,

e o ar cede,

como cede quem já não pede nada.

Os amigos dizem: siga em frente.

Frente de quê?

A frente também mudou de dono.

Envelheço ao lado deste metal frio,

pequeno cadáver de uma esperança

que cabia na palma da mão

e agora não cabe em mim.

Talvez viver seja isto:

guardar a forma exata do que entra

numa casa que não existe.

E o mais triste, sem ênfase,

é que a chave ainda é bonita.

ESCRITO POR Kleber Luís Antônio Pinheiro 1 K leituras
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