A FELICIDADE TAMBÉM PRECISA PASSAR
Amanheci desejando aquilo que talvez não suportasse possuir. Os pássaros cantavam, o café esfriava, o cigarro ardia entre os dedos. Escrevi. Havia qualquer coisa de indecente naquela manhã, como se a felicidade, ao me encontrar, tivesse cometido uma imprudência.
Prefiro bicho do que gente. Talvez eu tenha vindo da mata, de alguma vida em que o silêncio ainda não precisava se defender das palavras. Há qualquer coisa em mim que não reconhece inteiramente o mundo dos homens. Ou sou eu que não me reconheço quando estou nele.
Ser feliz também me inquieta. Existe um estranho desconforto em desejar aquilo que, quando chega, ameaça o próprio desejo. E se a felicidade não for a falta que me persegue, mas aquilo que faço quando ela se ausenta? Há perguntas que não querem respostas. Querem permanecer abertas, como feridas que aprenderam a escrever.
Hoje, não quero compreender. Quero apenas assistir à felicidade enquanto ela passa, sem saber se é a sua partida ou a minha que me assusta. Talvez eu nunca tenha temido a tristeza. Talvez o que me assombre seja descobrir quem sou quando já não tenho do que sentir falta.
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