Memória dos esquecidos
A vida tem um significado. Boas palavras para começar a narrar certos acontecimentos que se deu em minha vida. Talvez sejam boas apenas para mim, e procurar esse significado é para mim um deleite, mesmo estando enclausurado numa enfermaria de doentes mentais. Quando penso nisso, os motivos, os modos porventura que fui aqui colocado, pergunto: "o que vale aprender a rir diante do inevitável, a sorrir quando a morte aparece". Ser um todo, coordenar nossas energias criticando e harmonizando nossos desejos; porque energia coordenada é a última palavra na ética e na política e talvez também na lógica e na metafísica. A verdade de fato não nos fará ricos, mas nos tornará livres? Livre como eu aqui! Sempre tive pensamentos sutis, amei o saber a ponto de viver, segundo os ditames deste saber, sempre procurei uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança procurei sempre as boas coisas da mente, desviei-me do senso comum, quiça isso incomode aqueles que os tem! Pouco importa para o outro o que penso, onde estou e, o porque estou! Disso importa que em todo homem á algo que posso aprender com ele, agora, sou mais sensível aos sobretons da realidade que vibram à minha volta.
Quando aquele homem pousou sua mão em meu ombro, trouxe-me de volta do mundo do esquecimento. Minha mente esta agora tão clara que entendo como um impulso instintivo que é comumente suprimido (um desejo inconsciente) encontra durante o sono força suficiente para fazer-se sentido pelo ego, ou um impulso que sobrou da vida desperta, uma seqüência pré-consciente de pensamento, com todos os impulsos conflitantes a ela ligados, recebe reforço, durante o sono, de um elemento inconsciente. Isso basta para demonstrar como ainda me lembro das minhas aulas de psicanálise, entretanto, de outras coisas tenha apenas uma vaga ideia. Bem devo falar logo o que ocorreu e, como me retornou a razão. A última coisa de que me lembro foi de estar em cima do telhado de casa; não me pergunte o que fazia lá, que, como disse, isso é a última coisa... é esperem ai...ah, sim isso mesmo! Acabei de lembrar-me, parece que quanto mais penso há um acréscimo das lembranças, isso enquanto andava pelo telhado fui coberto por uma nuvem de abelhas, que só em recordar sinto um alanceante calafrio em minha alma. Não falei que a vida tem um significado a vida é toda repleta de signos. Aquelas abelhas representam um significado, um expressivo acidental em minha vida. Ora, mas é por causa das abelhas que estaria eu aqui? Que tinha eu de estar em seu caminho! Seria as abelhas um pretexto em minha vida? Tirem vossas conclusões e, vamos logo as passagens de acontecimentos em meu inconsciente.
A razão que nos levaram até aquele lugar dificultava qualquer idéia conhecida anteriormente, assim, limitava-me a reconhecê-las como imagens adormecidas nas profundezas de meu inconsciente, Antes que me esqueça deixe-me descrevê-las que mesmo sendo incógnitas produziram certa inquietação em meu espírito. Encontrávamos não sei se no começo ou no fim de uma longa estrada que irrompia em uma outra, criando em meu espírito uma sensação de lugar algum. Essa força desoladora fez-me perceber, que já algum tempo tinha, apesar de tudo, não lhe saber a causa uma moça de faces alva como a mais clara das manhas; segurando firme em minha mão quase aglutinada a meu corpo.
Essa a razão de eu falar de uma sensação, "encontrávamos", a razão de estarmos ali é, como já disse, desconhecida, talvez a fosse apenas para mim uma vez que a propriamente não tem, em tudo o que faz, uma fatalidade interna, e não é obrigada, como contra a vontade, a passividade completa, é porque existe uma pequena declinação dos elementos, sem ser em tempo fixo, nem fixo lugar . E, era através dessa pequena inclinação que meus passos seguiam a vontade e direção daquela que comigo estava. Ficamos certo tempo parados; olhávamos para uma casa próxima a bordadura dessas duas estradas. A imagem da casa cercada por amplos prados de uma relva desidratada pelo tempo chegava ao meu discernimento como formas artificiais, como um quadro, mas, não havia obstáculo para dificultar sua contemplação estética. Perto de onde estávamos havia o caminho que levava até a casa, meio encurvado desenrolava-se pelo
prado a relva rasteira e pouco desenvolvida mostrava suas linhas impressas no chão por rodas fendidas. Meus olhos se fixaram naquele caminho. Verificou-se logo, como por acaso, que em minha mente imprimiu-se à imagem de uma fisionomia; um homem de barba, pouco calvo, extremamente ruivo; com palavras profundamente tristes, como se a imagem não existisse a seu redor, mas seus olhos se mexiam como que procurasse algo – devaneios, como poderia ser chamado - que tomavam habitualmente como ponto de partida a situação de um jovem à cabeceira do pai doente. Quando desapareceu este sintoma de minha mente, notei que já caminhávamos por esse caminho. As ideias, as imagens, pois não me permitia compreender os pormenores desse quadro mórbido. Em função de andarmos, obedecendo à determinação do caminho que nos levava para perto da casa, bem junto à cerca que divisava a propriedade, erguia-se um velho carvalho desafeiçoado pelos anos, saindo como que de suas raízes, elevava-se uma bromélia, anacoreta e sinistra, mas, bela prendia-me a vista. A época do ano que tinha escalvado tudo a seu redor, em nada lhe tirava o vigor e o jato escarlate cintilante que se espalhava pelo ar.
"Olha tudo parece estar como antes, sente-se feliz também...venha você é meu convidado" .
Rindo, e falando como que para tudo ao nosso redor, a moça conduzia-me, andava, agora, um pouco mais a minha frente, dançava com o favônio, titilando com ar vago como se estivesse num mundo de sonhos.
"Mas como, de onde surgistes e...".
A palavra que saia de minha boca parecia não lhe alcançar os sentidos, afastava-se, rodopiando; efetivamente seu longo cabelo elevava-se para os ares. Parecia flutuar para todo lado onde a impelem as auras. Acontecia que quando se voltava para mim seu olho atingiam-me como geadas glaciais, e a grande força do gelo, tanto na superfície como nas profundezas de minha alma, estava cheios de ventosas cavernas onde muitos lagos, muitos brejos, e penachos e rochas deslocadas, mas, que em nada se comparava a aquele dorso da terra.
Por mais que procurasse em meus pensamentos uma explicação real ou origem das imagens que se apresentava diante de mim, meu espírito se aclarava inteiramente por uma expressão mais intensa e por conseguinte, conduzindo por essa via, procurava considerar a intensa emoção que se manifestava. A ambigüidade desapareceria se não estivesse essa força impulsionadora me arrastando- pois se formou rapidamente um vácuo em torno de mim –, com o propósito deliberado de não prejudicar, com qualquer espécie de idéias antecipatórias, procurei elaborar as imagens recebidas. As duas estradas, a mulher ao meu lado, o caminho, o rosto do homem ruivo, a bromélia junto ao carvalho e a casa! Mediante toda estas considerações, voltei-me buscando em cada símbolo as respostas da minha solidão mental e, de modo súbito, como que uma mão arrancasse de meu rosto um véu de aspecto seco, sinistro, estranho e hostil que, tão logo me fez penetrar em um outro mundo, favorecido pelo conhecimento e lembrança das imagens que vinham a meu encontro: "olha tudo parece estar como antes"; eram as palavras de minha mulher Marta , minha querida Marta. E, tudo ali, assim como a ilusão, era meu lar, minha casa, o lugar onde nasci, onde minha família havia se fixado há muitos anos; a estrada que vinha do leste era aquela que me levava e trazia da escola comercial; a outra que a intercedia era a que me conduziu para o mundo exterior, a universidade, o curso da vida, a solidão e a glória, o mundo cego e irracional, viver é sofrer, no nada, a salvação as paixões e os desejos, o encontro com Marta; o caminho fendido que levava até a casa era o tempo o espaço, seu surgir e desaparecer uma pluralidade sem mudança, ele permanecia invariavelmente o mesmo desde quando meu irmão me empurrava no carrinho de rodas de pau; o rosto ruivo, aquele que sempre me esperava nesse caminho, um espírito de pensamentos consciente, cheio de amor pela família, meu avô, discreto e cortês com as dificuldades da vida, crucial na minha formação moral que eu junto ao seu leito de morte dei-lhe o último adeus, segurando em sua mão; a bromélia junto à sombra do carvalho, o lugar longínquo de onde a trouxe, vira, em sonho auspicial, prenunciador de minhas
futuras vitórias contra os óbices da vida; a casa , a vida da família, considerava-a como a imensidade do universo e o pequeno lugar que nós temos dentro dele, as pessoas com quem morava um modelo de amizade fraternal, era assim que representavam em minha vida.
Tendo em vista a alegria que se revelava novamente em meu ser, avancei na direção da casa, procurando os passos tomados por minha mulher. Quando pisei sob o soalho firme da varanda, reconheci algumas vozes que vinha da outra seção do terraço. Aquela fala apresentou-se aos meus sentidos como egos do passado, lembranças determinadas e já surgida no tempo, era lá que constantemente minha família assentavam-se e passavam horas a conversar, prurir os acontecimentos da vida, só que nos intervalos havia música sem qualquer necessidade, e, essa particularidade, à medida que avançava, percebia não existir, ademais o tom da fala, que nada tinha com o entusiasmo de outrora. Aquela conversação tomara meu sentido de modo abstruso. Tão logo tendo os alcançado com a vista – e, esta aparência, ou ilusão, que os homens chamam sensação, e consiste, no que se refere à visão, em relação ao ouvido -, percebi que falavam ao meu respeito. Bem lentamente fui me aproximando até parar junto à mesa. A minha presença em absoluto mudou a expressão daquelas pessoas, visto permanecerem indiferentes com minha aparência, exatamente como se não existisse naquele momento. Minha mulher se mantinha em pé, com as mãos sob o rosto, com uma impressão de profunda tristeza, seus olhos como se estivessem em perturbações diversas, já, deitavam lágrimas e, essas alcançaram meus pensamentos como imagens de algum objeto temeroso. Não demorou muito para perceber que minha presença ali era evidentemente obscurecida para seus olhos, mesmo para minha mulher que até então me reconhecia como sendo deste mundo, indiscutivelmente não me enxergava mais, assim como se minha imagem fosse apenas um arranjo dos componentes de um feixe de energia radiante, formado pela dispensão de ondas. A estranheza que sentia antes e que ficara enfraquecida e quase que obscurecida, voltara com uma impressão mais vigorosa, essa circunstância dava-me à sensação de ser algum tipo de espectro, e aquelas pessoas ali falando fossem o feixe de luz refratado no prisma do cristal. Pronunciavam estas palavras:
"O abatimento provoca no homem receio infundado, o que constitui uma loucura vulgarmente chamada melancolia, que se manifesta em diversas condutas, frequentar cemitérios e lugares solitários, atos de subertição e medo de alguém ou de alguma coisa determinada".
"O sinal de loucura nele é sempre visível".
"Pois que melhor prova de loucura pode haver do que increpar, bater e lapidar nossos melhores amigos".
"O melhor que fazemos é pô-lo em um sanatório".
Essas últimas palavras atingiram minha mulher causando-lhe uma compreensão de algo cruel, triste, bruscamente por um falta de amabilidade, assim, numa ação imediata, saiu correndo daquilo que julgava uma grande maldade.
Não podia ainda compreender. Não podia acreditar que aquelas pessoas se referissem a mim. Maquinalmente lancei um olhar para cada um que ali estava; entrevi rostos que experimentavam desejos de suscitar ambição, rivalidade, desejo intenso de glória e todos os dons da fortuna. Hum ...mas é claro! Agora entendia tudo! Em seguida um silêncio provocado por essas comunicações e, o conhecer de suas intenções me trouxe um vazio que parecia gradualmente aumentar em torno de mim, as insinuações que ouvira, pouco a pouco compreendia até que, senti uma mão que batia em meu ombro. Daquele momento em diante eu passara a fazer parte do grupo daqueles que "perturbaram o sono do mundo".
"Vamos, chega de dormir... está na hora de voltar para a enfermaria".
Naquele momento, aquelas palavras e, aquele homem de roupa branca surgiu com os prenúncios de todas as imagens que apreciara uma estreita ligação, olhei ao redor de mim repetidas vezes até que elas começaram a falar por si mesma.
Ocasionalmente, um outro homem que vestia um traje igual ao meu, fazia referência a mim para junto
aquele que me despertara. Prestei muita atenção, até que levantei e me dirigi ao homem de branco:
"Deve haver algum engano senhor, isso aqui é um sanatório, e o que faço aqui, com essa roupa, eu não sou louco".
O homem de branco franzindo o cenho, olhou-me com desdém, o senhor que se encontrava próximo e se vestia com uma roupa semelhante a minha e consequentemente ouvira o que eu havia dito, encarou-me com ar de certo agravo.
- A sua língua parece ter desenrolado, disse o homem de branco, falava e observava-me como se minhas palavras fossem as primeiras recentemente pronunciadas e, que uma pessoa falando de si mesma certamente há de não mentir, mas é possível que o louco aqui seja eu, sim sou um homens louco, louco
por trabalhar aqui, bem, chega de conversa, vamos, andando...".
A partir daquele momento a realidade imediata era-me percebida com exatidão, não sei o que ocorrera até então, por mais que me esforçasse para reunir lembranças em torno da minha mente pouco delas conseguia fixar, localizava unicamente as imagens do sonho e, tudo imediatamente era associado com exatidão.
"O motivo disto contudo, não é a fraqueza da razão, interveio o senhor que trajava a roupa igual a minha, e que agora, caminhava ao meu lado, mas em parte a energia descomunal do fenômeno da vontade, pondo com expressão angustiada a mão sob a nuca e olhava todo instante para o céu, continuou com denotação, eles lá fora idealizam que somos loucos, quanto a mim, pouco me importa o que pensem, aqui posso fazer meus monólogos, podendo inclusive mostrar várias fraquezas e aproximar-me realmente da loucura, aqueles que no exterior da caverna, enxergaram a verdadeira luz do sol e os objetos verdadeiramente existentes, não conseguem mais enxergar na caverna, pois seus olhos desacostumaram da escuridão, não conseguem mais reconhecer bem a silhuetas, e por seus enganos são motivos de zombaria por parte dos outros, que nunca se afastaram desta caverna e destas silhuetas, aqui nossas memórias são esquecidas".
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