O Fenômeno Elementar Na Formação Sobrenatural
O Fenômeno Elementar Na Formação Sobrenatural
A presença do agente emissor mais os elementos usados pela subjetividade são complementos essenciais que constituem o sobrenatural. O modo de enunciação é a principio o elemento que, por definição ou enumeração, entra na constituição do conjunto. Podemos, então, pensar num sistema egocêntrico, onde o falante designa-se a si mesmo pelo pronome de primeira pessoa ego ou eu. Com efeito, o local de produção do enunciado pode ser usado como processo de analise contextual para focarmos a unidade formadora do sobrenatural. O comportamento lingüístico escrito constitui uma maneira concreta de como o traço semântico [humano] é à unidade geradora desse fenômeno. A subjetividade, isto é, os fenômenos psíquicos enquanto fenômenos da consciência trás consigo esses elementos para a constituição do sobrenatural de modo que, podemos evidenciar essa aglutinação manifestar-se, e, pode ser estudada no material lingüístico. Pois bem, partimos então de um fato ou evento que tem certo caráter acidental ou fortuito, ou seja, um acontecimento; no nosso presente estudo penso que o conceito de causa como força produtiva, isto é, como "aquilo por cuja ação nasce um efeito" é o mais indicado para entendermos o que se segue, isto é, a formação sobrenatural em suas bases.
Essa situação pode ser representada assim:
Rumor (o assassinato de uma mulher)
Fonte Transmissor Sinal canal Sinal receptor Mensagem Destinatário
------------------------------------------ Código --------------------------------------------- -------------Representemos então o diagrama de forma explicita. A força produtiva, ou seja, (rumor), podemos dizer o evento primário é a partir daí que se estabelece toda uma gama de condições; é exatamente nesse ponto que a produção humana entra em cena. "Dionísia, mulher de 41 anos saúde física em bom estado, á mental um pouco conturbada, amasiada com um homem de uns 32 anos aproximadamente, desse relacionamento á informação que temos é de ser um dos mais inóspito possível, brigas constantes, agressões etc; certo dia Dionísia fora encontrada morta dentro da própria casa com sinais de pancas na cabeça, alguns conhecidos da morta afirmam que no dia do velório Dionísia tinha sobre a fronte uma atadura, certamente devido aos fortes golpes que recebera. O assassino que era seu companheiro logo tendo praticado o crime, fugiu, escafedeu-se, mas tão logo desembarcara em outra cidade foi preso, ao confessar o crime e dito que era apenas os dois que moravam na casa o imóvel ficara então vazio, desocupado".
Pois bem, temos então o Rumor, ou seja, um evento primário. O sujeito que fala (Fonte); o comportamento comunicativo concreto, eu pronome, com que o homem se designa a si mesmo, assim, eu, eu mesmo minha consciência, a relação comigo mesmo, a subjetividade um evento psicológico ocorre na minha mente aqui interpretamos o eu como relação: "Dois dias depois que Dionísia fora enterrada, pela manhã fui até a mercearia onde ela trabalhou até o último dia antes de ser assassinada e, como era de costume, era ela Dionísia quem sempre me atendia, naquela manhã estavam lá duas mocinhas e conversavam é claro, sobre o fato ocorrido ,ou seja, o infortúnio da pobre moça, agi como se estivesse distraído com algum produto até que uma delas disse: "viu o que aconteceu com a Dionísia, bem perto da sua casa, não ouviu nada naquela noite", concluiu de maneira enfática, assumi uma expressão a mais grave que pude, "Naquela noite não vi nem ouvi nada, mas, ontem a noite, coisa estranha só de falar me arrepia, ao chegar em casa era umas onze e meia da noite, ao abrir o portão de casa, meu olhar como se fosse chamado voltou-se na direção da casa da morta, coisa impressionante, a janela da frente estava escancaradamente aberta, e para meu espanto maior, nos breves momentos em que as cortinas eram abanadas pelo vento podia-se ver como uma nitidez extraordinária á imagem de uma mulher com uma faixa branca sobre a cabeça que segurava um gato", minha expressão contida mais o timbre embargado da voz, e cada silaba sendo pronunciada com uma brevidade emotiva, causou uma espécie de afasia de condução nas moças, que ora riam ora assumiam uma expressão de idiotice melodramática. "Há algo ainda mais extraordinário", reiterei com redundância, "o senhor Daía, aquele que tem o sitio que faz fundo com a casa da morta, contou-me que ontem por volta das onze e trinta da noite, percebam o horário, coincidência ou não, notou que uma de suas vacas estava inquieta, agitada um comportamento segundo ele nada normal para aquela ora da noite, verificando cuidadosamente notou, que faltava um dos bezerros, conclui, portanto, que o motivo da inquietação da vaca, era a falta de sua cria, munido de uma lanterna saiu então, a procura do bicho, tendo caminhado mais ou menos uns quarenta passos, notou, ou considerou com ajuda da lanterna que o bezerro fujão estava mais ou menos aos vinte metros de onde ele se encontrava, e, para sua maior supressa havia algo mais ao lado do bicho, pelo menos o que pareceu ser um vulto, o vulto de um vulto, assim, o senhor Daía foi se aproximando, cauteloso, sem tirar o olhar do bezerro e daquela aparência ao seu lado, nesse momento o senhor Daía para, pois agora a distancia mais a modesta mais suficiente claridade que a lanterna lhe proporcionava, dava-lhe a conhecer uma imagem clara, o corpo, figura, aparência, corporatura de uma mulher com uma faixa ou toca branca sobre a cabeça, podia ser uma coisa ou outra não deu importância a esse detalhe, mas, o bezerro parecia num estado de hipnose, e, coisa esquisita ora a figura da mulher se tornava um vulto, ora na imagem corpora humana, e ainda parecia soluçar, chorar baixo, todo esse fluxo de imagens e som não tirara a função distintiva que era de fato uma mulher com uma faixa branca sobre a cabeça, perplexo, o senhor Daía foi se aproximando ainda mais, até pisar em um buraco e deixar a lanterna cair de sua mão, procurando a lanterna que se apagara, nesse momento experimenta uma horripilante sensação de algo passar rapidamente bem junto a ele, causando-lhe um estremecer estarrecedor, confuso, parece ter encontrado a lanterna por acaso, ai ao se recompor volta-se na direção onde julgava estar o bezerro ou aquele vulto, a claridade da lanterna não encontrou nem uma coisa nem outra, ao retornar, o bezerro estava junto a vaca como se não estivesse saído dali". Ao terminar de contar o caso perguntei ao senhor Daía se ele havia comparecido ao enterro da Dionísia, "Qual Dionísia", respondeu surpreso, "Ora, o senhor não sabe", "Do quê".
Quando as moças perceberam que o senhor Daía sequer tomara conhecimento da morte da Dionísia, as moças se olharam entre si, desconexas foram uma para cada lado como se estivesse avistado o próprio diabo em carne e osso. Dois dias após eu ter contado essa historia já circulava pela vila que havia aparecido um fantasma e que varias pessoas haviam visto até um pastor parece ter conversado com ele na casa da morta.
Temos aqui de uma forma evidente a unidade formadora a significação de uma forma é a situação na qual o locutor a emprega e a resposta que ela provoca no ouvinte um antimentalismo, pois, bem, vejamos:
Transmissor; as moças faladeiras do mercadinho atingindo um nível critico[1] de não controlar seus impulsos, falam para um para outro a historia que ouviram e por ai vai, de modo que o fato vai tomando outras possibilidades, ou seja, se avolumando as margens das subjetividades ou representações que por sua vez, são determinadas ou especificadas segundo a natureza de cada campo de indagação. Sinal; isto é, o fato imediatamente perceptível que permite conhecer qualquer coisa em relação a outro fato não imediatamente perceptível, isso se explica da seguinte forma no caso do seu Daía, mesmo sendo fictício ou real o enunciado não muda, de modo que, quando o senhor Daía diz: "Que Dionísia", o fato imediatamente perceptível não lhe permite associar que a tal Dionísia tenha morrido ou mesmo morava numa casa que dava fundo para seu sitio como se no dia de seu enterro havia alguma atadura sobre a sua cabeça, e, por conseguinte possa ser a imagem da mulher que viu aquela noite. Percebe-se, o fato não imediatamente perceptível se dá quando se nega conhecer o ocorrido "Do que", essas unidades de transmissão servem como condutor para que o Rumor tome um sentido ainda mais potencial, de modo que, o sinal é estruturalmente organizado. Canal; no curso de processo da comunicação o canal, isto é, o meio pelo qual são transmitidos os sinais, esse suporte físico é necessário á manifestação e, tomam forma como unidade movente, comumente conhecido como o disque-disque. Estão nessa categoria as faladeiras do mercadinho (os cabos elétricos); é de assaz importância estudarmos a teoria da comunicação, visto nos fornecer os traços existentes na formação sobrenatural; pois, bem, passemos para o Receptor; no processo da intersubjetividade o receptor são os eus que decodificam as mensagens recebida, estabelecendo uma relação na totalidade dos indivíduos onde ocorre á força produtiva R, nessa operação os fenômenos psíquicos são os embreantes necessários para que se estabeleça uma rede de informação que por conseguinte designa uma seqüência de boatos, como se comumente fala; o receptor fala, interpreta é a mais pura manifestação dos fenômenos da consciência, o sujeito se relacionando consigo mesmo construindo uma forma de interpolação dentro do mundo dos fenômenos, nesse processo se estabelece uma configuração pré-subjetiva, onde o enunciado A vai se revestindo em sentidos diferentes, mas, não perdendo o objetivo claramente reconhecido, por exemplo; o caso do senhor Daía, seguindo uma extensão de analise do caso percebemos que o discurso que tomamos como A ao passar por B C D e E, chegando em F o enunciado A se revestiu de sentidos muito diferentes, segue-se os fatos do caso na sua mudança de um momento a outro, ou seja, o antetemporal, e como todo sistema em curso podemos chamá-lo de diacrônico que como tal devem-se considerar os elementos ou fatores estreitamente correlacionados entre si. O receptor então, tendo recebido as unidades passa agora a idealizar a expressão e conteúdo do discurso. A substancia sonora ou visual do eu a consciência de cada um e suas variantes e, que em alguns casos o plano da expressão se articula no plano do conteúdo com mais ênfase assim como gestos, movimentos a ostensão produzida pela ação humana (intencionalidade ou não intencionalidade), selecionados pela subjetividade. Com efeito, a expressão é uma unidade elementar para o modelo comunicativo se tornar um drama em potencial. Contudo, o enunciado escrito mantém a substancialidade de conteúdo podendo assim ser analisado no nível psicossocial e o mundo real. É de assaz importância observarmos que estudamos as expressões dentro dos atos globais do falar e escrever não como objetos físicos ou
[1] Entendo por nível critico o eu psíquico quando sofre uma ação e seu estado deliberativo tem uma escolha e a põe em termo, no sentido de que elas podem ser boas ou más, imaginadas ou compreendidas, segundo sejam moderadas ou não pela razão.
Entidades abstratas da lingüística, mas, como objetos de pensamento cognitivo, como suas leis e princípios explicativos. Pois, bem, a mensagem e sua capacidade informacional: sua função predominante é antes de tudo estabelecer na intersubjetividade significante que vincula conteúdos diversos e interligados. O receptor tendo sofrido uma espécie de conversão os sinais chegam então até a mensagem com um simbolismo denotativo que dão conteúdo emocional ao discurso; um exemplo o enunciado do senhor Daía quando diz ter visto uma mulher (interpretando, relacionando-se com a Dionísia que foi assassinada), andando pelo pasto altas horas da noite; articula no plano da expressão que o vulto ou fantasma procurava por um pouco de leite já que a policia acreditava que a mulher foi morta quando fervia leite junto ao fogão. Existe ai uma falácia referencial onde o signo transmitido no enunciado do senhor Daía tenha objetos correspondentes, a saber, o vulto vagando perto da mangueira; se não tivessem encontrado o leite derramado sobre o fogão, toda a construção da falácia não teria razão de existir. A expressividade é centrada no emissor, tende a dar a impressão certa emoção e certa figura, verdadeira ou fingida, a função expressiva colore todo o nosso subjetivismo em todos os graus, quanto mais expressividade a mensagem for constituída, a entonação, interjeição terá maior aspecto cognitivo. A conexão psicológica entre o destinatário e o remetente tende a tomar uma maior generalização quando o sujeito coloca-se a "efetivação" uma afiguração, imaginação o ser uma imagem quase que palpável (Füblbar); de modo que, o funcionamento psíquico estabelece as unidades combinatórias fazendo que a função signa se manifeste na expressividade, tornando, assim, algo irreal como real ou vice-versa; no enunciado do senhor Daía quando ele diz "haver algo perto do bezerro", esse algo que é pronome indefinido invariável de modo vago e impreciso assume ainda uma efetividade um significado emocional que causa no destinatário uma conduta emotiva; uma "reação á situação", podendo ser um arrepio, calafrio ou aumento nos batimentos cardíacos, ou seja, dados sensoriais ou poeticamente falando, um efeito, como dizia o insigne arquiteto da narrativa Poe, "é no nosso interior que encontramos as combinações de tom e acontecimentos, que melhor me auxiliem na construção do efeito". E, é na subjetividade que esse efeito se manifesta de forma laudativa; o conceito de destinatário que melhor se designa para nosso estudo é em beneficio de quem se faz à ação indicada pelo verbo; á historia deu uma realidade ao sujeito; de onde se segue que o receptor passa de agente passivo para um ente que exprime uma ação. Nesse nosso modelo, o código, é o artifício que assegura a um estudo de tudo que acontece na natureza, mas não decorre das forças ou dos procedimentos da natureza e não pode ser explicado com base neles e, toda forma de representação em que aquilo que não é mundano, que é divino, é representado como mundano, humano, o além como o aquém. O grau de intensidade na formação sobrenatural tem uma importância capital tanto no plano expressivo da cadeia falada, como no conjunto dos enunciados lingüísticos e, para que tenhamos uma freqüência dos momentos acabados, isto é, passado e futuro é necessário que o enunciado ou texto esteja em evidencia ou destaque. Quando contamos um caso ou acontecimento recente, a ênfase a qualquer entonação particular tem um efeito gerativo transformacional no eu psíquico e abre campo para uma atividade fundamental da consciência amplamente empregada para formar o sobrenatural. No processo de analise contextual os elementos formadores são variáveis de grau e intensidade, de modo que, o fenômeno da comunicação como dizia Heidegger "deve ser compreendido num sentido ontologicamente amplo", assim, cada palavra, cada entonação alcança toda uma abertura para aquele que recebe o enunciado e, em toda amostra de comportamento lingüístico (texto). A escrita trás o elemento sobrenatural de uma forma mais acabada, mais detalhada, factiva, acessível de ser detectado em sua coesão seqüencial, o sentido tanto como realidade interna como realidade externa são como já disse quase que palpáveis. No conto Ligéia de Poe, podemos observar como o autor elabora acontecimentos impressionantes e que dessa forma dá a base ao elemento sobrenatural. Ao analisarmos um texto de forma pormenorizada, passa a passo, é como que déssemos uma olhadela por trás dos bastidores, o trabalho do pensamento, os elementos em propósito, relances, ideias, cenários, o espaço físico em si; os elementos indispensáveis que constituem a ação, onde nasce o efeito. O ego ou eu, narrando que [...] numa noite dos fins de setembro, quando Ladey Rowena despertava de um sono inquieto. Ela ergue-se um pouco e falou, num sussurro ansioso e baixo, de sons que ela então ouvia, mas que eu não podia perceber. [...] Lembrei-me do lugar onde fora guardado um frasco de vinho leve que os médicos haviam recitado e apressei-me em atravessar o quarto para buscá-lo. Mas, ao passar por sob a luz de turíbulo, duas circunstancia de natureza impressionante me atraíram a atenção. Senti que alguma coisa palpável, embora, invisível, passara de leve junto a mim; vi que jazia ali, sobre o tapete dourado, bem no meio do forte clarão lançado pelo turíbulo, uma sombra, uma sombra fraca, indecisa, de aspecto angélico, tal como o que se poderia imaginar ser a sombra de uma sombra. Mas eu estava desvairado pela excitação de uma dose imoderada de ópio e considerei essas coisas como nada, não falando dela a Rowena. Tendo encontrado o vinho, tornei a atravessar o quarto e enchi uma taça, que levei aos lábios da mulher desmaiada: Ela havia então, em parte, recuperado os sentidos e segurou o copo, enquanto eu me afundava numa automana próxima, com os olhos presos a sua pessoa. Sucedeu então que percebi distintamente um leve rumor de passos, sobre o tapete e perto do leito; e, um segundo depois, quando Rowena estava a erguer o vinho aos lábios, vi, ou posso ter sonhado que vi, caírem dentro da taça, como vindas de fontes invisíveis na atmosfera do quarto, três ou quatro grandes gotas de um liquido brilhante, cor de rubi. Se eu vi, não o viu Rowena. Bebeu o vinho sem hesitar e eu contive-me de falar-lhe de uma circunstância que julguei, devia, afinal de conta, ter sido apenas a sugestão de uma imaginação viva, tornada morbidamente ativa pelo ópio e pela hora da noite [...]. No primeiro parágrafo a fonte, ou seja, o sujeito que fala nos dá uma referencia do eu psíquico no estado inconsciente quanto mais inquietante. Já no segundo parágrafo quando Ladey Rowena ergue-se e fala, mesmo que seja em sussurros de ansiedade, percebe-se a expressão de um ato então, vivido predicamente como entes convenientemente cognoscíveis para ela. No que se segue, o eu que fala cita que "duas coisas de natureza impressionante me atraíram a atenção". A expressão de um perceber indica que a presente situação vai dar uma abertura uma conduta emotiva. Como que a significação do enunciado desse á percepção do receptor (o sujeito que lê), um juízo de visão prévia (que algo parece ser assim)[2] "senti que alguma coisa palpável, embora invisível, passara de leve e junto a mim". Percebe-se, que nesse enunciado existe uma afirmação uma negação e outra afirmação. Assim, temos uma percepção externa; a negação um conceito de percepção interna, ora como posso dizer que uma coisa invisível seja palpável? (no plano sobrenatural sim, parece tudo valer); a negação porque, a percepção interna é evidente de modo que, quando se diz "embora invisível", o eu psíquico reconhece ou melhor imagina que conhece. Na primeira afirmação a percepção externa se dá como algo que está disposto para certo estimulo e para certa reação de onde se seque que, a afirmação precedente ao estimulo é facilitado e o ato de perceber possibilita á
[2] O conceito aqui é de representação inadequada (N.D.A).
Realização com maior prontidão, energia ou intensidade; "de leve e junto a mim", a percepção aqui se vale de indícios com base nas quais reconstrói o significado do objeto, a ainda nos dá outra característica que é o fato de ser constituída de probabilidade, e não de certezas. Com efeito, uma das características fundamentais do elemento sobrenatural; percebe-se então como o organismo escolhe organiza a transforma as "informações" que lhe chegam do ambiente. Assim, quanto mais for constituído de elementos uma temporalidade passada ou imaginada o seu conteúdo efetivo, isto é, expressão dos fatos da sensibilidade pela linguagem ou enunciado, maior será seu efeito emotivo, ou seja, o sentimento como deformação do próprio eu. O enunciado que se segue é ainda mais genuíno para entendermos as duas espécies de percepção epistemologicamente relevantes do elemento sobrenatural. Como já dissemos, a consciência tem como imanente os elementos que constituem o sobrenatural; os fenômenos físicos e os fenômenos psíquicos, entre essas duas classes de fenômenos só para lembrarmos esta uma "característica distintiva" de todos os fenômenos psíquicos. Quando Brentano dizia que os fenômenos psíquicos são suficientemente "caracterizados"; entendo por meio desta determinação que os fenômenos da consciência são condicionados pelos fenômenos físicos ou mesmo os fenômenos físicos condicionam os fenômenos na consciência. Percebam no enunciado como isso ocorre; "vi que jazia ali, sobre o tapete dourado, bem no meio do forte clarão lançado pelo turíbulo, uma sombra, uma sombra fraca, indecisa, de aspecto angelical, tal como o que se poderia imaginar ser á sombra de uma sombra". O eu que fala começa afirmando que vê, de modo que quando vemos algo mostra-se e, por isso, diz o que se mostra, é o que se revela; mais fantástico ainda é que a sombra que jaz bem no meio do forte clarão lançado pelo turíbulo seja apenas uma sombra; mas, uma sombra do que? Como que a luz, a claridade, isto é, o elemento, o meio, em que alguma coisa pode vir a se revelar e a se tornar visível em si mesma não tenha forma, ou seja, o recorde especifico operado sobre uma massa amorfa e oriunda de um objeto. As dicotomias fundamentais que fundamentam o estilo (o enunciado vs enunciação) que assinala o lugar do sujeito em relação a seu enunciado; e o dualismo espírito vs matéria, que apresenta a linguagem como composta de denotação (sentidos puros, percebidos pelo intelecto) e de conotações (que dirige a sensibilidade valorizada e/ou desvalorizada). O grau de intensidade das palavras, mais os predicativos do cenário dão em efeito espetacular a narrativa, que somente um autor com a idiossincrasia de Poe consegue. Com efeito, a seqüência de enunciados trás os traços distintivos de unidade formadora do sobrenatural, onde cada um deles manifestam-se por si mesmo. O grau de intensidade não se atém apenas nos enunciados ou enunciações, o fenômeno se move com a imaginação do autor como nossos olhos designa-se ante a claridade ou escuridão, os elementos em cena tomam uma realidade laudativa; no mecanismo psicofisiológico do ato da fala como falamos mais acima), esse processo, tem no receptor seus graus mais significativos, assim, quanto mais qualidade tiver as propriedades do discurso, em particular a expressividade, mais causativa será o rumor. No conto de Poe se tem ainda o cuidado de não deixar o efeito sobrenatural se tornar um conceito trivial, dá se então uma justificativa categórica não perdendo em nada a psicossistematica do enunciado. [...] eu estava desvairado pela excitação de uma dose imoderada de ópio e considerei essas coisas como nada [...]. Mesmo o autor fazendo alusão a uma aparência paradoxal e insólita, tudo que aparece sob condições particulares não perde o tom emocional, o ambiente fornece-lhe as coisas a serem utilizadas e que, a instrumentalidade, como a aparência das coisas, é a possibilidade para imaginação produtiva; por exemplo, de um simples corte de um calho seco de uma arvore, olhando de um ponto obliquo por entre os arbustos, podemos ver ou representar que vemos o esqueleto de um crânio humano, em geral, a possibilidade de evocar ou produzir imagens, independentemente da presença real do objeto.Essa possibilidade em produzir imagens é a própria forma de intuição (tempo e espaço). No enunciado que se segue percebemos como a simples aparência toma um sentido existencial, ou seja, as formas de intuição determinam o fenômeno. [...] sucedeu então que percebi distintamente um leve rumor de passos, sobre o tapete e perto do leito; e, um segundo depois, quando Rowena estava e erguer o vinho aos lábios, vi, ou posso ter sonhado que vi, cairei dentro da taça, como vindas de fonte invisíveis na atmosfera do quarto, três ou quatro grandes gotas de um liquido brilhante, cor de rubi. Só eu vi, não viu Rowena. Bebeu o vinho sem hesitar e eu contive-me de falar-lhe de uma circunstancia que julguei, devia, afinal de conta, ter sido apenas a sugestão de uma imaginação viva, tomada morbidamente ativa pelo ópio e pela hora da noite [...]. Nesse enunciado o fenômeno sobrenatural tem um grau ainda mais elevado, de modo que, observa-se a imaginação do eu em tornar a faculdade das intuições mesmo sem a presença do objeto (perceber distintamente o rumor de passos sobre o tapete). Com efeito, perceber distintamente é quase ter evidencia, aqui há sem duvida uma oscilação desse limite (que é a representação) da ação que faz da imaginação algo flutuante entre realidade e irrealidade. Um dos atributos essenciais do autor, que tem como desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso. Pois, bem, prossigamos a faculdade das intuições mesmo sem a presença do objeto, é um dos elementos primário do sobrenatural e, podemos constatar esse fenômeno tanto na falácia, modos de expressar-se ou in dictione, e os independentes modos de expressar-se, extra dictione,ou discurso; "vi ou posso ter sonhado que vi"; toda vez que vemos alguma coisa ou mesmo os elementos do conhecimento sensível que chega até nos, podemos dizer que há interpretação, e conseqüentemente há um condicionamento no comportamento; imaginar a própria imaginação, aqui fica manifesto o processo triádico que se dá entre um signo, seu objeto e seu interpretante, constituindo este último á relação entre o primeiro e o segundo termo. A concatenação indica que os elementos vão dando cada vez mais significado, cada vez mais potência, efetivação nas palavras e, conseqüentemente "as aparições psíquicas" tomam uma existência exclusivamente fenomenal. Essa peculiaridade é que nos interessa de fato, o traço semântico humano em seu fundamento emotivo. É fácil de percebermos que há uma substância incorporea junto ao espaço do eu que narra. E, é nesse ponto que percebemos a força produzindo sensações e se influenciando mutuamente na ação e em estabelecer para essas forças leis de coexistência e sucessão. [...] caírem dentro da taça, como vindo de fonte invisíveis da atmosfera do quarto, três ou quatro grandes gotas de um liquido brilhante, cor de rubi [...]. Imaginar a própria imaginação é algo que distancia-se do mero conceito de imaginação desregrada ou desenfreada, é um elemento positivo, um mérito para poucos, entendê-la, localizar sua abertura é como encontrar uma ponte de uma região do espaço-tempo. A fonte invisível na atmosfera do quarto esta intrinsecamente interligada com o rumor de passos no tapete que por conseguinte as gotas brilhantes caindo na taça que Rowena segura; essa segmentação é notória mesmo numa leitura superficial; as aparições psíquicas do eu que narra já envolvem um pouco mais de complexidade intuitiva que, por conseguinte remete para toda a envergadura do movimento relacional do caso. O fundamento emotivo é a substancia do conteúdo sobrenatural é o que estabelece a relação entre o mundo psíquico e o físico, é de assaz importância uma asserção entre o agente emissor e os embreantes da subjetividade para entendermos a composição. No final do enunciado o autor torna novamente notório sua justificativa de toda visão fantasmagórica, que é na realidade, podemos dizer, um alongamento compensatório da potencia efetivadora; [...] uma circunstancia que julguei, devia, afinal de contas, ter sido apenas a sugestão de uma imaginação viva, tomada morbidamente ativa pelo ópio e pela hora da noite [...] . Mas, o que nos interessa de fato é o eu como relação, minha consciência comigo mesmo e, no conto Ligeia esse fenômeno psíquico, em vez de ser restringido, é ampliado e, é exclusivamente com respeito a ele que nossas citações tomam um fluxo existencial um modelo comunicativo elementar. Intrinsecamente isso pode ser analisado da seguinte forma; o fundamento emotivo pode estar no eu de maneira determinante ou indeterminada. Os dois casos que analizamos até aqui, o enunciado da morte de Dionísia e o conto Ligeia de Poe, são constituintes do eu psíquico em seus desdobramentos advindos de um primado ôntico, isto é, a característica criativa de estabelecer uma relação de ser com seu próprio ser, ou seja, a causa como força produtiva. O comportamento comunicativo concreto (fonte) é o eu indeterminado, ou seja, consecutivo da força produtiva (determinante) que conseqüentemente é a manifestação da formação sobrenatural. A formação sobrenatural, é na realidade uma criação, isto é, uma causalidade produtiva indeterminada porquê: há ausência de determinação lógica, ou seja, o comportamento comunicativo nesse caso reconhece a ação recíproca entre o objeto e o observador, portanto a perturbação que a observação produz sobre o objeto observado dá um alongamento compensatório da potencia efetivadora, comumente falando há uma ênfase, uma entonação particular no discurso (aumento mais não invento), já o determinismo, isto é, a unidade primeira ocorre como dizia Hegel, "se dá por desenvolvimento interno e autônomo do conceito, e não por acréscimo" (eu contando o caso Dionísia, o conto Ligeia de Poe, etc).
Por fim, essa nossa teoria pode ser aplicada como fenômeno existencial tanto na acepção geral da narrativa ou como forma autônoma de pensamento ou de vida. O estudo preliminar dessa questão é de assaz importância não só para aqueles que cultual o juízo analítico, juízo sintético a posteriori e o juízo sintético a priori, mas, sobretudo á aqueles que tem na teurgia, na teologia e no dogmatismo a sega confiança que existe só um horizonte, aquele da obscuridade.
[1] Entendo por nível critico o eu psíquico quando sofre uma ação e seu estado deliberativo tem uma escolha e a põe em termo, no sentido de que elas podem ser boas ou más, imaginadas ou compreendidas, segundo sejam moderadas ou não pela razão.
[2] O conceito aqui é de representação inadequada (N.D.A).
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