Homo Faber
Homo Faber
Naquele dia e lá já se vão longos anos e o qual minha lembrança forjou somente conceitos vagos da função expressiva de figuras, retinha demasiadamente minha atenção; tendo em vista sua aplicação relativamente ao fluxo da memória, entre outros, sem dúvida o mais notório no ato era os transeuntes daquela rua. Como esse retrato reproduz o passado enquanto passado, revivendo (como quando se recorda das circunstâncias em que se leu aquele anúncio pela primeira vez). Jovem de dezesseis anos é encontrada Morta na Sorbonne. A originalidade e combatividade do retrato completa a representação daquele dia cinzento e frio de outono.
Já há dias que venho tentando isso: estudei em todas as perspectivas essa disposição, meu pensamento, então, seguro do mecanismo de alcançá-lo, agora, servir-me-ei dele. Pois sim! Este momento não virá jamais. Só vejo um meio de saber até onde posso ir, é colocar-me em marcha.
Quando estava lá, no realismo, a representação do mensurável real ficara menos palpável em minha mente, atribuía-lhe então apenas origens experimentais, figuras ou simples deslocamentos de pontos materiais no espaço, isto é, uma percepção diminuída, ao passo que agora, olhando-os penso em dotar de tal aplicação a imagem concreta, mais rica que encontra em minha percepção imediata. Por ora, apresentar-me-ei, por Lépine. Tenho em minha vida representado tantos personagens (concernente ao corpo e á alma saber que os une e o que os separa), pois esta união esta separação são fatos de experiência, fazendo assim de meu nome uma simples convenção.
Foi quando atuava, com meus amigos, no drama Policiano, que concebi, pela primeira vez, uma ideia, germinou em mim, crescia como uma áurea flor brilhante enquanto encenava. Tentar entender a influência do drama, esta seria, a traços largos, uma busca ao menos onde é necessário buscá-lo. É o que vou fazer. Á medida que a ideia foi se tornando familiar para mim, gradualmente foi assumindo, por si própria, a presente configuração. Durante sua execução, ela exerceu completo domínio sobre mim, e agora constato que tudo o que foi realizado e sofrido nestas páginas, estou seguro de ter feito e sofrido eu mesmo.
"Assim, sentei-me diante daquilo que buscava. Ele trazia-me os objetos materiais com a solidez, o relevo, a realidade que posssuiam outrora. Um imoto olhar arremessou-me numa espécie de transmutação, regressão, ou de sentimento, ou de consciência, a atenção, pela qual o espírito se fixava na parte do mundo material com que se relacionava, eis, com efeito, o único resultado direto à condensação seguida de um som que me é impossível descrevê-lo".
Como menos do que um piscar-de-olhos, estava eu lá, novamente, a tomar, dentro todos os fatos conhecidos e com plena consciência que eles já haviam passado. Haver, a Sorbonne, tal como ela teria podido oferecer-se primordialmente em sua forma elementar, mais real do eu nunca me orientando no sentido do movimento e da ação - movimento cada vez mais eficaz, ação cada vez mais livre: é o risco e a aventura, mas é também a consciência, com seu grau crescente de profundidade e intensidade. Aproximei-me dos dois senhores que conversavam bem perto um do outro, a minha mobilidade reconstituiu ainda mais a realidade daquela cena, visto que ao aliar-me a eles, o de casaca preta e, que agora acendia o charuto de seu companheiro, olhou-me de soslaio insinuando certa restrição num sei quê de suspeita. Esse primeiro contato fez-me sentir a configuração, a representação mais intensa do que havia sentido no espetáculo. O descobrimento dessa sensação devia ser de ricas conseqüências, se confirmava a cada passo, um riso cuidadosamente contido, sendo meu designo não fazer nenhum rumor, fixei uma expressão tônica e cordial ao passar pelos dois cavalheiros. Não obstante, mo olharem com certa concepção, a princípio estranhável, talvez desconfiável à medida que me afastava, não ousava olhar para trás. Timidamente, erguia os olhos para os transeuntes que pareciam meus espectadores. Senti então o desejo de chegar logo a meu gabinete (uma estranha felicidade que então gozava era entretecida de contradições e paradoxos) como explicar esse meu desejo, as minhas faculdades de vingança um desforço aprofundado em mim mesmo o interesse por uma personalidade que hesitava fazer algo que outrora meu ser se cobardia, como algo inacabado. Sim era isso que agora precisava manter: uma configuração firme, uma faculdade rígida que não possuía no sentido da realidade, disposição a vê-la tal como é, deforma-la interpretativamente". Esse há de ser meu melhor papel, atingido em sua pureza natural".
"A Sorbonne fica em uma rua larga, demasiadamente alargada para sua época, longa, em declive acentuado em quase toda sua extensão com seu pavimento, lateral, ao longo da rua, em nível pouco superior a esta mesmo com o dia enevoado e frio convidava ao passeio; edifícios de ambos os lados pareciam idênticos a uma antiga modernidade que se destinava a despertar em nós sensações agradáveis mediante a criação de formas com aparência da vida elevados, cinzentos cuja suas torres sobressaindo presumivelmente como sepulcros; uma em particular, com abobada em forma de calota esférica arranjada representativamente no andar onde fica meu gabinete. Á medida que mo aproximava aparecia-me num mundo novo indefinidamente crescente de elementos, uma duração em que a necessidade brota, não mais do que à camada superficial, congelada de um desejo. Por outro lado tudo parecia às provas do papel desempenhado pelo inconsciente. Não sei se nos sonhos ou na recordação que o sonhador esqueceu o que importa. Era que o conteúdo manifesto e a realidade eram latentes experimentadas e suscetíveis de modificação. Levantei lentamente o olhar; junto ao portão de entrada do prédio estavam três cavalheiros numa conversa hermética ao passar bem perto deles, lancei um rápido olhar, não prestaram a menor atenção em mim. Subi diretamente pela escada que correspondia e tomei o corredor tão conhecido; alguma gente, que me conhecia, saudou-me quando passei diante de suas portas, aquelas distinções nítidas, representava o poder do presente, de modo que muito depressa cheguei à porta do meu gabinete. Por um momento considerei as palavras escritas na porta: L'Illustre Theâtre, aquelas palavras conduziram-me a uma satisfastação interior que deriva de percepções de toda uma vida dedicada à arte de representar, as qualidades pessoais de uma carreira que me fazia sentir, mas também tudo o que teve um efeito determinante sobre mim, os gestos e padrões da classe social em que vivi e as disposições e tradições inatas da raça da qual me origino. Apenas girei a fechadura e a porta abriu-se e, sem prestar atenção em nada, encaminhei-me diretamente para minha sala. Ao entrar, virei com certa impassibilidade para fecha-lá, acreditando estar realmente deserta e seu vazio parecia ainda mais silenciosa do que do dia anterior. Depois de uma pausa, como se lembrasse de algo, levantei os olhos para o teto.
"Puxa como demoraste".
"Ao se apresentar em minha consciência aquelas palavras, pronunciadas absolutamente de maneira sensível, intencionalmente suscetíveis de serem conciliadas e instaladas na harmonia e na unidade, quer dizer, uma divergência sutil, como uma mensagem de salvação. Depois de se ter ouvido aquela voz, virei-me e, ressaltaram sob meus olhos a presença tão desejada," Ah! É vos!", disse dando um passo em sua direção. Estive a um momento a olhá-la, o olhar fixo refletindo a especialidade, então, e, num sentido todo especial, o sorriso, realçado por não sei qual gênio maligno, que teria em seguida jogado-mo num recipiente que exalava um hálito gelado, enregelante. Isso durou apenas uns segundos, desviou-se sistematicamente da duração real, e com um leve e breve sorriso despi-me do chapéu, da gabardina e bengala. A pequena colegial Mme. Marie era um encanto, já na primeira vez que a vi nos bastidores do teatro tive um imediato desejo de conhecê-la, sob a aparente frieza de seus belos olhos azuis e dos traços refinados, a jovem senhorita despertou uma tempestade interior que experimentei e revelou-me a origem da própria consciência insuflando mil outra. Que prazer em vê-la ali sentada, sua espera e aquele olhar enfático dava a certeza de ter-lho instalado em seu coração, te-lo abrasado com todas as chamas do amor, ter levado até o delírio a perturbação de seus sentidos. Quando recordo do dia de ontem! Que digo! A própria noite! O olhar tão doce, a voz tão meiga, a mão apertada! "Estarei lá a manhã, sem falta".
"Ah, és tu então, eis que chegastes para partir".
"Como vós, quem chega sempre tem que partir".
"Mas antes que parta deveis ficar".
Atuando sobre a forma das frases, enunciei alguns passos prescrevendo com um olhar codificante o ponto em que se encontrava Mme. Marie. Ela mantinha seu corpo inalterável, sentada, com as pernas atiradas para frente despejadas com a voluptuosidade de sua placidez; admitindo que alguma coisa seria criada, que o tempo era eficaz, não conteve em banhar os lábios com a língua. Sob a pressão da sedução, transpus o obstáculo da contensão; aproximei-me possuía agora uma intensidade crescente de desejo, avancei em sua direção e, tão logo se pus em sua frente ela ergueu-se corajosamente, descobri uma eclusa voraz de vontade em seus olhos igual a que havia quando há vi pela primeira vez no teatro; sua face lisa e corada, cabelos de aura que exibe a flama de seu desejo, sorria, com um brilho de satisfação nos olhos frios, inclinados para mim com atitude protetora; salientava-se pela sua beleza branda e desfolhada como alguma dourada flor em pertubada glória; sem tempo de mais nada, com exaltação, puxei seu corpo contra o meu e, com a boca, fui direto ao encontro da sua. Seu balbuciar acariciava-me os nervos; e seus olhos agora ardentes e perturbados, percorriam um não sei quê da indivisão do espírito restituindo-o a mais completa liberdade. Beijei-a com intensidade, enquanto minha mão subia e descia pela suas nádegas. Nesse espicaçar de afagos e, no êxtase do apetecível, deixei as mãos da parte carnosa superior deslizarem para suas coxas roliças, envolvendo-as num teor envernizado que obstinava ainda mais a incitação. Impelido por um tirânico desejo, icei seu corpo impingindo-lho os braços a se firmarem no meu colo, e segurando-a com os braços implacáveis promovendo a extração de seus beijos desregrados até ir pousando seu corpo, aí, com um dos braços movimentando-o rapidamente impingi os objetos que estavam sobre a mesa. Em todos esses movimentos Mme. Marie não mostrava apenas firmeza, mas, também uma grande perspicácia: lia seus pensamentos, seus desejos; seus gestos mais estudados, sua fisionomia sortilégica nada lho podiam ocultar. Despi-a, examinei-a com os olhos de juiz, e enquanto mais a examinava mais encantos lhe percebia. Um pudor virginal parecia querer oculta-los a minha vista: mas o prazer e a escolha de sua entrega fazia obedecer-me; ela corava ao se ver nua, ante o império do desejo, e que, ministrando-o, contemplo com os olhos suas ações mais livres, toquei com os lábios aquela geração úmida. Ante a aqueles toques libidinosos; entre seus sons plangentes e suspiros manifestava-se a forma de uma generosidade vaga como a que nos ensina que o tema de uma poesia deve ser interessante. Esticava as pernas e encolhia-se como uma cobra até que, soltou um jato quente que alcançou meu peito e encharcou minha camisa. Seus movimentos prescritos pela satisfação deram lugar à determinação e a presença de certo abandono. Na condição de "espectador", responsável pelas minhas ações, de modo que, meu espírito excitou-se ainda mais, e possuindo pontos de apoio fixos e firmes, servi-me, passando para dentro dela, extirpando-lhe um sussurrar pungente acompanhado de um vergar que já não lho preservara mais.
A sensação, a consciência representativa daquele ato dava uma imagem cada vez mais fiel das palavras que revelava. Ali não havia nada que minha consciência desejasse modificar no relativo. A concordância com a própria pessoa me dava o absoluto. Estas percepções eram nítidas, distintas, justapostas ou justaponíveis uma às outras; elas eram admitidas pela concordância ou discordância que existe entre nossas ações voluntárias. Mas até onde ia mante-lá? O pecaminoso parecia-me melhor, sob todos os aspectos, passeava sobre minha pessoa, não deveria intervir em nada aquele era meu melhor papel. O olhar de minha consciência manter-lo-ia como uma crosta solidificada na superfície. Mas o fluxo da memória e do inconsciente perecia arremessar-me ainda mais longe; minha infância aconchegava-se ao meu lado e, aproximou-se a imagem de Lídia, a filha do barbeiro lembra-te: seu olhar negro, meigo realçando seus cabelos da mesma cor e dando uma acomodação para uma face sutilmente esférica. Eu permanecia parado junto ao portão de sua casa, com olhar que era o símbolo do mau; persecução e ignomínia tratava aquela que expressava claro e belamente um amor cândido por mim. "Venha até aqui Lídia, quero que veja algo". Dizia, tentando persuadi-la a sair. Sua expressão solitária mostrava ao mesmo tempo, uma premonição de meu desejo; vacilava em sair, até que prevaleceu aquele impulso tão forte que dependem sempre de algum movimento do espírito. "Venha... venha". Repetia com insistência, até ela passivamente confiar-me à mão. Uma vez tendo-a em meu domínio, e, esgueirando-se por entre o muro; Hei-la, agora, arrastava-a pelo braço, impiedoso cheio de um mal desproporcional. Ela se debatia para voltar, seus olhos lagrimejantes, suplicantes, sozinha, a mercê da sorte. Ó! Como aquilo me comprazia ainda mais-veloz, inconstante, perigosa-agarrei seus cabelos com as duas mãos sentindo o desejo crescente em meu espírito, atirei-a de encontro ao muro. "Vai", vociferei como um cão raivoso conferindo-lho uma bofetada que lhe concederam uma expressão suplicante, desolada e, que aumentava ainda mais minha cólera. Fugiu como sempre fazia após eu açoitá-la.
No tocante então, ofereceu-me de volta esse sentimento àquela ideia na característica inteiramente peculiar do que é psíquico, havia uma concordância de seqüências interruptas, completas em si mesmas, assim, quando, preparado para prender os cabelos de Mme. Marie com as mãos me deteve a ação de seus olhos abrirem numa espécie de antevisão. E, num instante pareceu tudo dissipar diante daquela imagem que exibia formoso semblante. Eis, entretanto, que o meu desejo estava tão vivamente afetado e mostrava uma preferência decisiva um prazer que não me será mais difícil justificar-mo quanto ao encanto inédito, pois, antes de tudo, pelo fato de ser desconhecido não se deduz que seja maior. Algo me forçava a reconhecer que eu a amava. Seu corpo, seus olhos, sua boca, tudo era adorável, celeste, atraente, exprimia o dom de suplantar os deliciosos prazeres e tornar sempre novo. Já ousei encarar esse momento fatal, e minha resolução está tomada. Esse é meu melhor papel, tão somente uma preferência que serve, quando muito, para graduar um prazer que outro ser enfraqueceria, talvez, mas não destruiria: sim! "Eu sou o Homo Faber".
Então, muito naturalmente voltava-me à consciência da condensação em que passava e assumia a equivalência ou mesmo identidade do que havia sido, havia sido, e por mais que a luz das lembranças formulasse, de tornar-se cada vez mais precisa na medida em que se entendia o conhecimento dos fatos, minha alma não era suscetível de mudá-los; o que havia sido, havia sido!
"Venha, não é conveniente que continuemos aqui, dans cette pièce, chaque génération, en se retirante, comme une marée sés coquillages, avai laissé des albuns, des coffrets, des daguerréotypes".
Espreitava cuidadosamente as salas do corredor, forçosamente elas estavam no caminho daquela escada que havíamos de subir. Já passara das dezessete horas, o expediente terminará, todas as portas estavam fechadas. Permaneci um momento junto à porta de entrada do gabinete. No final do corredor um senhor gordo fechou uma porta, dirigiu-se para escada para chegar à parte térrea do prédio, e, aí tive a certeza de não haver mais ninguém naquele andar, pelo menos é o que parecia, voltei-me para a porta que vigiava, fiz um sinal com mão.
"Vamos", disse segurando a mão de Mme. Marie.
Seguimos até alcançar a escada que nos levaria para o alto do prédio. Enquanto subíamos ouviu-se vozes que vinham da sala ao lado bem perto de onde estávamos. A porta abriu, e aquelas vozes se tornaram persuasiva no corredor; revelava a negligência ou indiferença de uma questão; uma voz masculina de juridicidade protestava firmemente contra uma espécie de abuso.
"Rápido", disse, como se ainda houvesse tempo.
No final da escada havia um patamar com uma porta, bem depressa minha mão alcançou a fechadura. Estava trancada. A chave. Meti a mão num bolso, no outro, nada! Aquelas pessoas agora estavam no corredor, á porta fechou-se alguns passos mais e nos descobriria. Olhava para baixo perpassado por um frêmito que me atingia o coração, gelando-o.
"Aqui", disse Mme. Marie, descobrindo a chave pendurada ao batente.
Pôs a chave em minha mão como se quisesse tranqüilizar-me, de modo que muito depressa pude abri-la, e imediatamente passamos; fechei a porta com cuidado e certo de fixá-la mais firmemente. Subimos mais uns vinte degraus até atingir outro patamar que oferecia uma interrupção com um nicho, bem a sua frente um vitral por onde chegava à claridade que ainda restava do dia. Ao lado uma foto do palácio dos Campos Elísios. Essa passagem como eu supunha encontrava-se destrancada, mesmo assim abri a porta com certo receio, minha consciência parecia desviar a atenção dos meus aprestos e, o calor ou agitação que dispunha minha alma a se entregar poderosamente à execução das coisas que ela quer fazer dava as lembranças um termo vago e, por outro lado fazia surgir cautela, pensava numa coisa e o termo pensamento, numa representação. Depois de dar uns passos na mesma projeção do trajeto, subimos mais quarto degraus até por fim emergimos da linha de abertura para uma sala retangular com cúpula em abóbada. A fria sala da torre parecia nos esperar. Através das janelas em lintel ogival lâminas de claridade depois de terem mudado de mil modos diferentes, depois de terem sofrido pelos longos anos todos os movimentos e combinações possíveis - chegavam sempre a esse lugar em que para as coisas se abrirá a porta do morrer; sobrevieram as sombras da noite, até o momento em que Mme. Marie de olhos brilhantes falou no intimo do peito.
"Saboreemos neste momento o prazer do fim".
Fiquei a observá-la por algum tempo, olhava por uma das janelas embevecida pelo seu espírito, representava algo inerente a todas as propriedades das coisas que excitam agradavelmente a vista, e por seu intermédio estimulam a alma e aprazem ao espírito. Sua sensibilidade alcançava algo ainda mais profundo, representações encovadas por exercícios da faculdade cognitiva que ultrapassava os domínios do sentimento puro e simples.
"Adoro os artista", disse Mme. Marie, subitamente voltando-se para mim com aquela beldade tão regular e perfeita, seus olhos brilhantes dão-lhe vida ao rosto e realça o tom vivaz de uma cor capaz de ofuscar todos os encantos das apocináceas, lembro-me ter ouvido isto e condiz com o que se encontra dentro de mim, quero que me ame mais esse lugar é perfeito".
A mais luminosa nitidez da imagem não nos bastava; pois esta parecia tanto revelar algo quanto encobri-lo; essa relação à realidade que se atribuía a minha atividade tanto particular como referente, na concentração do eu, no eu que rompe todos os laços e só pode viver na felicidade que lhe oferece a fruição de si próprio, pois aquela jovem dama diferia das outras mulheres bonitas que tinha visto em minha vida; e enquanto, com sua revelação alegórica, parecia convidar ao dilaceramento do véu, à descoberta do fundo secreto, precisamente essa evidência translúcida mantinha o olho cativo e o impedia de penetrar mais fundo. Aquela ideia dava-me o olhar e ao mesmo tempo aspirar a ir além do olhar. Ela era toda um interesse substancial, uma coisa rica de significação. Isso, ela dava a vida uma forma artística. Mas, os meus atos, só aparência era isso que ela representava para mim que o meu poder lhes impuser. O que lhe dizer mais! Aproximou-se até quase seu rosto tocar ao meu, bolinava-mo, passando as mãos no meu ventre, enquanto cheirava e beijava meu colo, sussurrando palavras incompreensíveis.
"Não há dúvida de que te quero, pois não há mortal que não aspire essa felicidade".
Enquanto falava fui pegando-a nos braços, erigi seu corpo como uma insígnia e que realizaria as exéquias da esposa muito amada. Suas pernas abarcaram-me, entregue à sua lascívia exuberante e profunda, solta rugidos dilacerantes que fazem estremecer minha alma. Pautando suas atitudes pelas minhas, transportei-a até um divã e ai, pousa-la, sentada como à sombra de uma árvore, à beira de um regato, e então, beijar esse corpo alheio, olha-lo, toca-lo era igualmente notório seus desejos sua função de obter prazer causava-mo uma eflorescência até então desconhecida. Dentro desse processo físico ou somático, outros impulsos eram incluídos; enquanto experimentava a sublimação de seu corpo, com deslocamento de meus objetivos em minha consciência aparecia um rol simultâneo de retratos delineando notórios lugares; Mme. Marie (sentada em um banco de um sombrio caminho rodeado de gerânios, tuias e rosas-de-natal; em outro andando por uma praia com os cabelos soltos entregue ao zéfiro que ressoava por), sobre o vinoso mar; com um vestido longo, escuro, adornava-se por entre uma porta em forma de harpa; os retratos iam caindo um sobre os outros como um rio ondulante que carregam todos nossos sonhos; (sentada sobre uma cama na solidão), enquanto isso a volúpia aumentava, Mme. Marie já se contorcia de um prazer desatinado e, aquele cândido ato da entrega, dava lugar a uma fêmea personificada de orgasmos múltiplos (e as imagens continuavam a cair, deformando, afastando aquela exuberância. O efeito das imagens contrabalançava o efeito atrativo do prazer, permitindo assim uma correlação puramente sensível e corporal; achava-se agora de belas tranças ao lado de um obelisco de pedra tendo como pano de fundo nuvens formando o mais denso batalhão; achando-se gravemente enfermo, um velho decrépito, exigia que lhe arranjasse algo capaz de curá-lo de seus achaques e de lhe restituir as forças; embrenhava-se por um bosque torvo; ei-la sentada a sua volta tufos de folhas com as bordas douradas, olhava para o alto), o brilho do olhar, a cabeça, e sobre a fronte os cabelos que se misturava em tons toldados como as folhas das acácias. Sob a graça de seus olhos transpareceu duas lágrimas, cristalinas, deslizaram pela sua beldade. Depois, quando sombras adejavam em sua volta o olhar brilhante concebia um novo plano, começava a desfigurar com lágrimas a beleza de suas feições; ajoelha-se e torna seu rosto escondido; por uma claridade na floresta eleva-se em forma de harpia. Senti seu corpo desfalecer, descobri então no abandono dessa tendência o restabelecer, a energia das céleres batidas de seu coração. Passando alguns minutos, levantei-me, invadido meu espírito por sensações de absoluto prazer e, que eu sempre percebia que produzia modificações convenientes no mundo externo, em seu próprio benefício (através da atividade representar, ideia, aos acontecimentos internos) e, contemplar o corpo de Marie como se fosse uma grande pláteia o que disse foi o seguinte: "Jamais au spectateur n'offrez rien d'incroyable: Le vrai peut quelquefois n'être pas vraisemblable. Une merveille absurde est pou moi sans appas; L'esprit n'est pointému de ce qu'il ne croit pás".
Fora uma noite inteira de amor, a voluptuosidade dos sentidos parecia ainda una com aqueles atos, criando assim a ilusão de que apenas eles estão presentes, e não nós: despojado do eu turbulento inerte das paixões, servil á vontade; encontrava-me tão subitamente aliviado reconfortado e alegrado por uma fadiga responsável por espalhar sobre o passado e a distância um tão maravilhoso encantamento. Enquanto descia pela Sobornne sentia apenas o mundo da representação perdurar o mundo como vontade desapareceu e pouco me importava se um século morre e outro desponta: fin-de-siècle. O que realmente me causa uma vertigem não é a euforia diante do feérico espetáculo do novo que anuncia o radiante esplendor do nosso futuro, mas, a tormenta das paixões, o impulso do desejo que evolui vertiginoso, desespero diante da melancolia evanescência de tudo: veja é tudo uma questão de olhar, a hora comum, há mesma hora à disposição de todos: o mundo sincronizado veja esses olhares; submetidos à pressão dos desejos, com suas esperanças e temores, enquanto somos sujeitos do querer, não possuiremos bem-estar nem repouso permanente. A escassez de alimento em meu estômago fazia com que eu aumentasse o passo conjeturando que Mme. Marie também estaria com fome e, não havendo encontrado alguma provisão de boca, talvez dormisse ainda e o sono reaparece um pouco as forças. Ao tornar presente aqueles atos da noite, vividos, representados em lugar tão perto, sentia a essência de Mme. Marie presa ao meu corpo, enfocado por essa fantasia a intuição agia na minha memória como se desejasse senti-la a lembrança súbita daquela deliciosa essência flui de Mme. Marie! Passei rápido pelo café de lá Paix, peguei um exemplar do Le Siècle , dei corda no meu Tissot, provi-me do melhor café que poderia encontrar em tais circunstâncias; tornei pelo mesmo caminho, o céu estava cinza-escuro como da véspera, ventos frios sopravam do norte, minha movimentação apresada nada tinha com a obrigação do trabalho, talvez mas apenas parcialmente, sob a pressão da necessidade, é que havia transposto o obstáculo; aquilo era para mim esmero uma bela obra transmitiria as gerações futuras algo que nos interessa, o que nossa atenção fixa à luz de nossa evolução passada, mas e o futuro? Será realmente um mero mapa de linhas e superfícies? Que delicioso trabalho, a ação verdadeiramente livre, quer dizer, totalmente criada, tanto em seus contornos exteriores quanto em que se realiza a evolução de um desenrolar, a novidade radical de novo arranjo de elementos preexistentes, enfim, a criação da simples escolha, o tempo em todas as suas facetas. Interrompi-me brevemente em meu gabinete não havia, contudo, ninguém; a ideia a realização levou meus passos para o alto das escadas. Abri a porta. Detive-me. Apoiando a fronte contra a porta, não desejava fazer ruído suficiente para despertar Mme. Marie se ela ainda dormisse. E por acaso encontrei-a desperta; meus olhos bruscamente foram inundados por uma auréola erótica que tinha perspectiva suficiente para uma divindade inspiradora, um ícone, uma arte pura, não sei se com estímulos não associados e se representam ou não o real, mas que constitui em si mesma uma realidade; ela estava de pé, de costa para mim; sem ser pressentida; seminua, vestida apenas com uma Kersey de mangas-curta e uma meia cor-de-pele que lhe alcançava até um palmo acima dos joelhos, com o corpo teso e a cabeça levemente inclinada para baixo – talvez observasse algo no divã -, os braços convergiam como se tocasse alguma coisa, as pernas, as nádegas estavam maravilhosamente executadas de acordo com as regras abstratas da simetria a forma e o conteúdo são de uma adequação absoluta, nenhum deles sobreleva o outro, a forma determina o conteúdo e o conteúdo determina a forma. A expressão que se imprimia em suas deliciosas nádegas aparecia sem a menor pretensão de querer ilustrar algo prodigalizado, as linhas alinhadas das cochas mais a silhueta que separam suas ancas formam harmoniosamente o desenho de um T de - ponta – cabeça.
"Bom dia", disse com amabilidade, contemplando seu corpo inefável.
O corpo com uma vivacidade donairante volveu como desperta.
"Bom dia".
"Ocorreu agora em meu pensamento, falei eu enquanto colocava a cesta sobre o sofá, o desejo de fotografá-la ou mesmo desenhar suas qualidades, enfim, e o que é necessário fazer, apreciá-la".
"Apenas isso", replicou Mme. Marie, acentuando de leve a última palavra.
"Sim...aprecia-la, toca-la e, ama-la".
Dito isso, aproximei-me com a leveza de uma sombra e, tomando-a nos braços beije-lhe com veemência. Então, depois de tê-la amado por mais uma vez e a debilidade de nossos corpos, terem indicado, começamos a tomar o café matinal".
"Sabe Lépine, começou Mme. Marie, sem desviar o olhar do mel que passava na torrada, é a primeira vez que durmo fora de casa".
"E primeira vez também que diz meu nome".
Mme. Maríe balançou a cabeça, franzia as sobrancelhas como se não tivesse percebido esse pormenor.
"E isso vai implicar-lhe algo".
"Creio que sim, mas não vejo razão de nos preocuparmos".
"Alguém pode procurá-la".
"Esse lugar é seguro o bastante para que não me encontrem, sabe, sempre sonhei com um lugar como este um espaço perfeito para o amor, para a entrega, a primeira vez é sempre inesquecível, conferindo-lhe importância ampla e decisiva, hum... posso imaginar a cara da Senhora Cécile dizendo para mamãe, "senhora, Mme. Marie não esta no quarto, Mme. Marie não esta na casa" adeus, vós, a quem tanto amo e a quem amarei sempre mais".
"Falastes a alguém que viria ao meu encontro".
"Não, portanto, nada ameaçara a nossa tranqüilidade, conheci então o amor, mas algo secreto ao meu coração diz que será efêmero como um dia, adjuro-vos, entretanto, entregar-me sem temor e sem reserva a esse sentimento delicioso o que tenho demonstrado como podeis ver, ambicionei vosso sufrágio para o futuro, buscava-o em vossas palavras, espreitava-o em vossos olhares, nesses olhares de que partia um veneno tanto mais perigoso quanto derramado sem intenção e recebido sem desconfiança, chegou, afinal, o dia em que deveria começar meu infortúnio, e, por uma inconcebível fatalidade uma boa ação foi o sinal dele, submeto-me, portanto, as suas idealizações ou representações como queira".
Persuadido de que esse novo prazer absorvia á minha bela por inteiro, ademais, Mme. Marie era, fazia-se ser, uma fascinante personagem; o espetáculo despertando meus desejos animou meus olhares. Suas palavras tinham um quê de pressagiar e eu procurava uma penetração recíproca, uma ideia mais exata, olhava para o mundo com uma suspeita tão profunda. E quem adivinha algo das conseqüências que se alojam em toda suspeita profunda, algo dos calafrios e angústias de isolamento, aos quais toda incondicional diferença de olhar condena os que são acometidos de entender também quantas vezes ela, para descansar de si, como que para um temporário auto-esquecimento, procurava abrigar-se em alguma parte. Parecia muitas vezes ler em meus olhares um quê pretensioso. Mas o que eu tencionava de fato? A interpretação! Mas parecia isto nunca acabar, voltava-me para meu interior e a sensação que tinha era simplesmente que não tinha nada a interpretar. Aqui haveria uma existência, sempre aproximada do ponto absoluto de interpretação significando ao mesmo tempo a existência de um ponto de ruptura. Aqui desaparecia o próprio interprete.
"Parece alojar o meu particular em sua consciência ou procura inventar uma solução para alojar no mundo aquilo que há de mais particular em si mesmo, hei, ouve o que digo".
"Ah, claro, sim...".
"Afetuosamente, mas sem prestar atenção".
"Vós me fazeis reconhecer a destreza de pensamento que subjaz por esse belo corpo, claro que te escuto querida, porém, quando tuas palavras toca em meus sentidos desperta um turbilhão de ideias e sentimentos a ponto de perguntar-me quem eu sou".
"Isso mesmo, fale de ti", disse Mme. Marie fazendo uma ligeira inclinação de cabeça em minha direção, que parecia muito satisfeita por conhecer esse novo personagem, mas que devido á sua natureza especial não pode exprimir seus sentimentos senão através da luxúria, viço e palavras sob um véu de amor transferencial.
"Imaginais que me seja muito agradável falar de mim, parece-me pelo que lembro nunca ter tido essa vontade, não pude particularizar algo de mim que seria dissimulado pela máscara de algum pensamento, e, ademais, o que importa o que faço e o que deixo de fazer fora dos palcos, mas, minha predileção por vós, separa-se, explicitamente dessa ideia, pergunto-vos, que teríeis feito de melhor, sabe Marie, acredito que sou um individuo extremamente complicado, algo mais do o simples fato de ser um objeto entres outros, tenho a consciência de ser um ser que se move em si mesmo, um ser ativo cujo comportamento manifesto expressa diretamente minha vontade, mas essa vontade primitiva e irredutível que se relaciona com as coisas desperta-me algo de nocivo, e essa vontade má acompanha-me desde a infância, assim o que quero e o que faço causa em mim certo contentamento, não necessito ouvir de outrem você tem o dom do mais nobre, a arte de tocar a sensibilidade, a dramatização, a encenação com uma coisa de muito diferente, busco a felicidade interior não a exterior e, o que tenho de verdade é uma contemplação desinteressada das ideias, algo no eu profundo que flui como uma unidade que cria e ao mesmo tempo é dilacerante, a memória recordação que reproduz o meu passado revivendo-o mo deixa claro como as mesmas ações da vontade me acompanham á medida que o tempo se desenrola, quando estou no palco e percebo que pessoas estão derramando lágrimas, comovidas com o espetáculo sinto um prazer, algo como um ponto de partida de novas aspirações, um momento fugaz de ausência de dor ou a própria dor em si. Acredito se sou capaz de criar a beleza e de tocar a sensibilidade, tenho feito o bastante, lembro que quando criança um gato entrou no meu viveiro de pássaros e comeu a maior parte deles e os que não pode comer deixaram-os dilacerados, faltando cabeça, troncos, pernas e asas; quando os encontrei pela manhã, o gatuno ainda insatisfeito, desventurado, encontrava-se dentro do viveiro, fiquei parado, indignado, consternado, olhando aquela cena, percebendo o meu agravo mais à descoberta do culpado, o bichano tentou à evasiva, mas o infeliz foi impedido, com um gesto rápido fechei a portinha, exatamente por onde havia entrado, e assim, selei seu destino, encarcerado, sentenciado, seria só uma questão de tempo e presenciaria o castigo pelos seus atos, sem água e comida o tempo à medida que avançasse seria pungente, mortificador, lembrar-se-ia do alimento que comeu com apetite, a supressa do achado mudando de tal forma a disposição do seu cérebro que, logo não poderia mais ver esse alimento, exceto com horror, pareço ter descoberto a aflição por acaso, e daquele momento em diante comprazia-me dela, conciliava-se com meu interior tornando-se duração real, durante as noites que se seguiram, ouvia-se como se viessem das ínvias paragens infernais seus clamores, por detrás das vidraças eu dirigia o olhar para o quintal e dizia as palavras mal articuladas gritais em vão, aquela turba demoníaca que o afligia causava-me satisfação, enquanto que o nevoeiro ocultava meu olhar cruel através das vidraças, ai, então nascia uma incoerência em meus atos, para as pessoas com as quais me relacionava representava que eu desejava-lhes o bem uma vez que fazia tudo de boa vontade; mas servia-me dessa palavra para significar uma vontade de fazer o mal, e era o que fazia, assim todos mo pareciam como almas fracas e baixas que se deixavam dominar pelas outras; a cólera ou aversão que alimentava contra os que praticavam algum bem, eu procurava beneficiar, não indiferentemente a quem quer que fosse, mas particularmente a mim mesmo, a cólera não era manifesta em meu semblante, mas, abarcava todo meu interior e, vingança, afigurava-me possível e fazia com que sentisse prazer, então, Marie, não sentes medo de estar ao meu lado, se disponho de meios e de vontade para fazer uma coisa,certamente o farei".
Então, Mme. Marie respondeu: "Cólera, voluptuosidade, são soberanos de tua alma, não lamento, portanto, que os maus desejos e as odiosas paixões, sufocando a razão, apoderem-se por completo do homem, acredito que todas as partes da alma se sujeitem a uma reflexão, não, não tenho o menor medo de estar contigo, tenho plena consciência a que fui favorecida pelo destino, ultrajo, desdenho qualquer espécie de temor, em minha alma, brotam as paixões como úlceras malignas e que as considero um prazer atormentar-se e sofrer, existe algo insuficientemente compreendido por mim, o Eros e o instinto destrutivo, quanto à sua vontade posso dizer-lhe que a graça é a relação peculiar entre a pessoa e a ação".
Havia em Mme. Marie um alto realismo, grande tecer e elaboração profunda a partir de sua pouca experiência mundana própria. Se a realidade em mim parecia sendo incognoscível, em Mme. Marie era ainda algo mais profundo, sua percepção sensorial primárias consistia numa compreensão interna (insight) das ligações e relações dependentes que estão presentes em seu mundo externo, e que podem de alguma maneira ser fidedignamente reproduzida ou refletida em seu mundo interno de seu pensamento e cujo conhecimento lho capacita a "compreender" algo no mundo externo, prevê-lo e, possivelmente, alterá-lo. Sua mente era fabulosa, seu corpo fascinante, era lastimoso ter que destruí-los. Mas aquela ideia fazia-me obedecer ao inexorável princípio do prazer e, isso me aliviava, dava-me à consideração de que o princípio de prazer exige uma redução, no fundo a extinção, talvez das tensões das necessidades instintivas (o nirvana), levar às relações ainda não avaliadas entre o princípio de prazer e as duas forças Primeva, Eros e o instinto de morte. E o mundo externo (realidade), representação do meu melhor papel, dava obtenção e satisfação de ter a memória como principal fonte de inspiração, nada poderia ser mais perfeito. Assim, ia passando as horas, os dias, às horas, os dias o tempo uma fruição inundada com o instinto um impulso biológico para o prazer, um partidarismo tão decidido por parte do inconsciente, em favor do mundo externo, em oposição ao interno, algo vibrando em mim como cordas de um violino onde as cordas mantém certos padrões vibratórios ressonantes, ou freqüências ressonantes, cujos comprimentos de onda se encaixam precisamente entre as duas extremidades. Na noite do oitavo dia em que nos encontrávamos enclausurados naquele quarto a camada gasosa que envolve o globo terrestre mudou, no céu nuvens assaltavam de súbito; precipitavam-se e trazia consigo argênteos relâmpagos. Meu olhar, agudo e atento, através da janela prismática, percebia o que vão a pouco e pouco juntando a cada ser a natureza e os dias, a força desencadeada do vento chicoteava as vidraças causando um som como a lamentação pungente de milhares de almas. Lancei um olhar ameno para Mme. Marie, enquanto assim permanecia adormecida. "Ah", pensei eu, sem expressar-me em voz alta, "Como é belo, que tinha a natureza por um despedaçar nas coisas, um fim certo na flor da idade, Hei", replicou algo, justamente como se tivesse a ler meus pensamentos. Então, o clarão do relâmpago clareou a face de Mme. Marie, exatamente no momento em que seu rosto começava a se decompor numa ordem de deterioração impressionante; partículas que estavam juntas, brandamente se separavam cada uma para seu lado, até que o clarão dardejante mostrou uma figura decrépita de cujas cavidades saiam os mais repugnantes insetos ortópteros. Tentava afastar aquela visão que tinha diante de mim, quanto mais entender qual energia mental organizava e consistia aquela distribuição; talvez uma dose imoderada de ópio na noite anterior. Desejava, mas não mo atrevia a fazer uso dos olhos, havia cerrado por um instante. Sentia que com os olhos fechado, o pensamento, afetava alterações de grande alcance em sua organização; tensão, euforia, prazer, desprazer, algo no ritmo de suas modificações. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas, tinha que procurar ou tentar entende-las, mesmo sido conhecida como um perigo. Claro, aquilo era o belo em sua natureza finalista. Era apenas uma questão de tempo e a bela Mme. Marie seria apenas uma inegável finalidade. E, eu finalmente, apreendendo a produzir modificações convenientes ou não no mundo externo, em meu próprio benefício (através da atividade), representava meu melhor papel. Por fim, experimentando uma sensação agradável da realidade em meu coração, abri rapidamente os olhos: aquelas imagens foram afastadas, Mme. Marie dormia tranquilamente com tudo de belo que a natureza havia lhe proporcionado; o próprio movimento do tempo avançava com segurança, o que restava em minha mente daquelas ilustrações era simples traço onírico. Sentei-me na poltrona bem á sua frente. De repente, a ideia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me calmamente de pé, seguro, o mal estar que sentia á pouco fora afastado completamente a inconstância dava lugar agora a um equilíbrio, aspirações tímidas mais felizes, minha fé em si mesmo era tão que não hesitava em se dirigir ao encontro de caracteres irresolutos, diante dos quais jamais cederia. O sereno, não deixava nada mais á desejar, estendi o olhar para tudo em torno de mim, em todas as direções. A luz do abajur criava um cone, subia até o teto parecendo representar o tempo em suas dimensões. Uma harmonia continua que me acompanhava em todas as representações, ideia, pensamentos dava-me uma boa vontade, parecia brotar de todos os poros do corpo. Dei alguns passos, sentia o ato da vontade oferecer total conexão com as ideias. Havia um silêncio profundo, como se algo emanasse de um lugar distante, talvez do passado, a persistência no pensamento do que desapareceu; à noite o crepúsculo aproximando-se, admitindo ordenação ao céu, segundo uma ordem determinada, e nada semelhante a si próprio: tudo passa, a tudo a natureza muda e obriga a transforma-se, era como que a representação existisse fora do espírito que representa. Chegara à hora! Sentia a respiração mais livre, mais intensa. De onde eu estava quase que ouvia a respiração de Mme. Marie. Parecia ainda mais bela dormindo. Mesmo adormecida girava com seu próprio lume e apresentava vários aspectos do seu esplendor. Dei alguns passos na direção da escada. Evidenciava-se que seu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos. Detive-me; o universo transformou-se em silêncio, imobilidade; fiquei alguns minutos imóvel, o tempo necessário para apreciá-la e, leva-la na memória. "Dans mon silence j'ensevelis um rire un soleil é clatants. "Adeus Marie a morte", disse de mim para comigo, quando alcancei a porta. Lancei um olhar para a porta como se ela representasse o próprio fim. Abri-a cuidadosamente e, precipitei-me pela sua passagem mortal até tranca-la com a chave.
À noite, ao fim daquele dia parti com a companhia de teatro para várias apresentações aos arredores de Paris. Não tenho, contudo, a intenção de descrever aqui a trajetória nem o sucesso das apresentações. Assim, a peça rodava de cidade em cidade. Aplausos, muitas pessoas; eu os contemplava – e meu cérebro girava em torno de um pensamento que mo acompanhava desde á partida. Na verdade o pensamento encontrava-se arraigado há um objeto que trazia comigo. Como um símbolo que fabricasse a realidade. A chave! Era á única entrada do quarto e Mme. Marie estava lá trancada. Apertava-a na mão, olhava para ela e meu espírito sentia uma irresistível tendência para considerar mais clara à ideia. Era como que aquele objeto me revelasse imagens, distantes dos últimos dias, muito limitadas, sem dúvida, mas também muito luminosa. Mme. Marie, bela, jovem encerrando-se dentro dos seus próprios limites, podia ver sua vida exaurido com o final da tarde ou como o fim de uma balada: ball lall ball lall...Ou mesmo ouvir as batidas suplicantes de suas frágeis mãos na espessa porta: pá pá pá poopoopoooo. Ai, a morte vindo ao encontro como nuvens escuras sob uma chuva fina caindo triste e opaca no final do dia. Repetia o gesto pelo menos umas dez vezes ao dia, mesmo atuando em cena, me lembrava que á trazia no bolso e, um ato gerador fazia com que eu a pecasse, sentisse a dureza e a frieza do metal em minha mão, quanto mais viva fosse a realidade tocada, mais profunda teria sido a sondagem, assim, toda vez que á tocava, apertava-lhe em minha mão, um entorpecimento, uma funesta sensação penetrava instantaneamente todo meu ser. A ideia, sensação parecia agora mais forte, a representação, desdobrada e articulada no espaço, oferecia á minha consciência como algo infinito. De resto, algo que iluminava minha ação e velasse pela salvação de minha alma.
No final do décimo primeiro dia do espetáculo, encerramos as apresentações. Nessa nossa primeira montagem havíamos conquistado praticamente todos os prêmios da temporada: a melhor interpretação feminina, o melhor ator, a melhor direção e a melhor produção. Mas, isso parecia pouco me importar. Enquanto avançava pelas vias férreas na madrugada de um domingo até o alvorecer, um curioso retrato me atormentava, é o que nem ouso tentar dizer. Não me restava senão um consolo: é que ela, Mme Marie, conseguirá sair do quarto. Mas como? Aquela porta era a única saída! Não que sentisse algum tipo de arrependimento ou pesar, mas, mas... não sei quê! Havia uma outra coisa. Ter simplesmente de suportar o sorriso misterioso e estranhamente sarcástico da minha alma. Ai aparecia um único elemento cênico o cone, representando a ordem do mundo. Em contraposição á ele, uma voz de mulher, alquebrada, relembra os valores nos quais anteriormente se acreditava e que foram ultrapassados e destruídos. Não é um, lamento apenas um balanço – feito como uma melodia – das perdas do ser até a corrupção total; um inventário, onde dois temas se misturam e se reforçam: a evolução afetiva e a exterminação do homem total.
Algumas perturbações que sentia nas últimas horas impediram-me, de seguir diretamente até prédio onde fica meu gabinete e onde á pobre reclusa, aquela imaginação tão viva; supor que Mme. Marie em questão tivesse tido a felicidade de sair do quarto. À noite ao chegar á porta do prédio, comprovei que caia uma chuva miúda. Quis chegar até o meio da calçada para ver se era possível contemplar á provável imagem de Mme. Marie na janela, mas nesse momento senti uma grande infelicidade por demais real, sob a quietude da atmosfera sombria na qual se enterrava e adormecia o campanário gótico todo denteado. Então, meus olhos se fixaram e se prenderam à frente. Era como se uma força magnética me puxasse para cima. Cada degrau, cada patamar era um desejo que descobria, seus detalhes, representações, alguns pequenos oásis de fatalidade, gravidade. Em fim, a porta, bem á minha frente, envolto tão profundamente em sua sombra. Deixei-me, pois, avançar. A chave! Trazia-a apertada na mão. Cheguei á porta do quarto com a disposição de vencer a mim próprio do que a emoção, e virei á chave duas vezes, a porta destrancou, a sensação era que estava exatamente como havia deixado, talvez tenha usado um pouco mais de força para abri-la do que da última vez e, entrei sem fazer ruído; imediatamente pude sentir um odor excrementício e uma corrente de ar se formou vindo das janelas norte; avancei uns passos e avistei as mechas de cabelo de Mme. Marie sobre-saindo do encosto da poltrona; adiantei-me até o piso superior, o cheiro era muito forte, deixando transparecer o interior de um calabouço, agora, e, na posição vertical que me encontrava tinha a visão de Mme. Marie, sentada, vestida exatamente como havia chegado; as mãos apoiadas sobre os braços da poltrona; convencido que dormia profundamente me voltei até a porta, peguei a lâmpada e aproximei-me novamente da poltrona. Como os cortinados estavam cerrados, abri-os de leve e lentamente começou entrar mais ar, ai então mo voltei com a luz sobre Mme. Marie e ao mesmo tempo meus olhos se detiveram sobre sua fisionomia. Olhei; e uma paralisação, uma enregelante sensação tomou instantaneamente todo meu ser. Meu coração palpitou, sinalizando o que esperava, toda minha alma foi tomada de um enternecimento. Arquejando baixei a lâmpada até quase encosta-la no seu rosto. Os olhos abertos, um sorriso angelical dava traços tão inefáveis, que, ao contemplá-la, me quedo supresso de pasmo. Havia morrido á horas, mas não parecia ser dela os pés, as mãos, o brilho do olhar, a cabeça e sobre a fronte a cabeleira. Eu a contemplava – e meu cérebro girava em torno de mim. Ela não tinha medo da morte. Mas viveu tão pouco! Que belo exemplo não daria o que significava para ela a esperança. O quanto havia sofrido aqueles dias! Em seu semblante havia serenamente a morte futura, sem emoção, sem revelar nenhuma alteração de humor. Ao seu lado um papel caído, peguei-o e li as palavras Homo Faber. Serenamente, com uma eterna saudade, apaguei a lâmpada, sai silenciosamente do quarto e deixei imediatamente o recinto do prédio, para nunca mais voltar.
Abri os olhos; imagens - lembranças todos os acontecimentos de nossa vida cotidiana, estava de volta da mémoire souvenir; levantei-me da cadeira e fui pouco a pouco me afastando daquele retrato, das lembranças de minhas horas passadas.
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