Mahadeva ou Shiva
A experiência nos mostra constantemente como imaginar nada mais é do que sentir os vestígios deixados no cérebro pelo movimento dos espíritos, excitados nos sentidos pelos objetos, tal sensação só pode ser uma afirmação confusa. Como, porém, se não bastasse às ações da fraqueza humana, sente-se incitada a procurar os meios de organizar edições para que o público reconheça esta estreita unidade que compreende o texto. Eis-nos, portanto, diante daqueles velhos motivos e dúvidas, cuja solução encerra tanta doutrina, que bastam para descobrir os íntimos e radicais erros da filosofia vulgar; assim, por similitude ou um incessante desejo em permanecer na preocupação com os prazeres, e do cego sentimento das dores, fazendo-o desfrutar a existência no presente, e temer menos ao esperar o futuro, Bruno esforçava-se para que a bela Sofia o entendesse com a mesma explicação que dava, numa tarde de março de 1986, quando esta respondia apenas com um vestígio memorial: "ah, Ah, Ah", por ter ido à véspera consultar uma cartomante; a imagem que se formava em seu espírito parecia distante do que se evocava no espírito de seu interlocutor.
"Ah, Ah, Ah, Será que é só isso que você consegue responder, enquanto eu tento por em sua frente um espelho mágico no qual tudo aquilo que é essencial e importante nos é mostrado, reunido e colocado com maior clareza, você prefere enxergar para aquilo que é acidental e estranho, cuja imagem deve ser deixado de fora".
"Não bem, claro que eu estou te entendendo, fui lá por curiosidade, sei que essa gente é treinada para dizer o que desejamos ouvir, comobem, logo que começou a botar as cartas, disse-me, "A senhorita gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuo as cartas, "Essa pessoa tinha uma namorada, mas, sua ex-namorada já tem outra pessoa...". Combinou as cartas, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você voltasse para ela, mas que você não gostava mais dela".
"Errou", interrompeu Bruno, rindo.
"Comobem, você ainda gosta dela".
Bruno pegou-lhe nas mãos com um olhar grave e fixo. Exprimiu naturalmente que a amava que os seus processos de funcionamento psicológico pareciam de criança; em todo caso, quando tivesse alguma dúvida, que se entendesse com ele mesmo. E julgava já ter alcançado a possibilidade de instruí-la e de persuadir sobre seus sentimentos.
"Comobem, a aquisição de suas palavras dá-me a leveza e a expressão do afastamento de um mal, é como se eu precisasse sentir as emoções e o bem que você traz".
Bruno riu outra vez.
"Tu então me promete que não procuraras mais estas disposições".
Enfim, em seus olhos ela demonstrava o que acontecia segundo seus desejos.
Ora, desejava não experimentar um mal menor do que o bem dele resultava, o que sucede se o castigo permanece oculto ou é pouco importante. A verdade era que na presença de Bruno parecia assumir uma postura mais confiante a seu estilo. Porém, quando se achava distante uma irresolução apossava-se de sua alma mantendo-a suspensa entre várias ações possíveis, acontecia durar alguns minutos o que julgava verdadeiramente apresentar certa utilidade que era boa, mas, quando durava mais que o necessário e empregava seu deliberar um tempo requerido para agir, então, o julgava má. Foi o que pareceu certa tarde ao ligar para Bruno; uma voz de mulher atendeu ao telefone: o que se apresentou imediatamente em seu espírito foi algo incerto e instável. Eis que Bruno já lhe falara que morava com a mãe e uma irmã mais nova, contudo, seu receio foi suficiente para causar-lhe certo apagão na memória e, a voz expressiva, cândida mais insinuante de Karina, fez-lhe examinar até os menores motivos de suspeita e a tomá-los por razões fortemente consideráveis. Posto isto, Bruno sempre que tinha oportunidade tentava fazê-la entender que era muito mais útil procurar entender as coisas, ao invés de simplesmente imagina-las. Enfim, para não tornar sua conversa desagradável, objetava que não era sua intenção que ela mudasse, mas, que melhorasse sim, evitando assim os males que ameaçavam suas relações.
Bruno já desde cedo descobrirá sua filosofia, era uma crítica da supertição em todas as suas formas: religiosa, negativa da imaginação que, impotente para compreender as leis necessárias do universo oscilava entre o medo dos males e a esperança dos bens. Dessa vibração, a imaginação forja a ideia de uma natureza caprichosa, dentro da qual o homem é um joguete.
De dentro do ônibus, Bruno acenava contente para Sofia; esta respondia com gestos de ternura amoldados por tênues comutações que se conciliava com a luz serena de seus olhos, certa de ser amada, embora, o afastamento trazia-lhe aqueles movimentos secretos que sua alma ressaltavam como um imenso espaço vazio; Bruno efetivamente correspondia-lhe com alegria, pondo-se como guia dessa felicidade, acomodava os expressivos sentimentos dela, do mesmo modo, colhia um prazer e encontrava neles o desejo de tê-los sempre a seu lado. A casa de encontro era o Lar, na rua Das Amoras, onde morava além de Sofia mais dezenas de outras moças; o ônibus subiu pela rua Dos Desejos na direção da estrada; Bruno olhou de passagem para o Lar. Bruno sentou-se diante de sua escrivaninha, olhando na direção de um mogno
que ficava os retratos de Sofia, Karina e um outro seu e de Sofia juntos, efetivamente todos lhe davam uma visão entusiasta, uma consideração que muitas vezes, e não sem motivo, alegrava seu espírito e o mergulhava na maior tranqüilidade: observamos os motivos de cada uma dessas alegrias e de suas tristezas e compreenderemos a precisão deste pensamento de Bion: "A vida dos homens se assemelha a uma série de experiências: ela não tem nem mais valor nem mais importância do que aquela de um embrião".
Karina, Bruno e Sofia, todos com o objeto de suas aspirações, talvez tudo por amor, mas, ponhamos desde logo o mal em evidência, em toda a sua diversidade: cada qual nele reconhecerá o que lhe der respeito pessoalmente.
"Mas que mocinha sem educação, exclamou Karina ao desligar o telefone, nem sequer pergunta quem está falando, "chama o Bruno" , quando perguntei seu nome a desatinada desligou na minha cara", Bruno olhou para Karina com um desprazer, o dissabor que refletiu em sua face fazia-se saber tratar de Sofia, esta ausência de autodomínio desconsiderava a alegria que Bruno sentia por ela, mesmo assim encontrou palavras de indulgência, colocando a mão no ombro da irmã, exerceu aquela tranqüila disposição em que seu espírito sempre se achava. Karina não raciocinava muito diferente do irmão, examinava as conseqüências habituais de tal ou tal qualidade com seus hábitos de temperança, preocupava-se com todos os acontecimentos suscetíveis de modificar os caracteres das pessoas, embora desprovida de compreender tudo o que, por sua presença, parece que se trará grande alegria ou utilidade e lhe proporcionará vantagens, sem causar pena.
Karina e Bruno, dois irmãos verdadeiramente amigos, confidentes de tudo aquilo que queriam para si. Andando de mãos dadas, no jardim da universidade, só mesmo quem os conhecia, sabia se tratar de um casal de irmãos, visto que, aos olhos de outrem aquilo reputava ser os prazeres, indicio de um relacionamento reciprocamente amoroso.
Karina era moça de vinte e um anos, morena de pele clara, olhos cor de esmeraldas, exercia o dom de despertar os mais ardentes desejos, em sua maneira de vestir, andar, falar e no brilho sedutor de seu olhar, trazia uma reputação que conciliava com um mundo ainda cândido, virgens benefícios que outorgavam sua conduta. Não tinha namorado e, nem se quer se preocupava com isso, o momento o que lhe interessava de fato era os estudos ademais, bastava-lhe a companhia do irmão, o proceder de um homem de bem e, propenso a dar-lhe confiança, assim mesmo, não lhe faltavam candidatos para experimentar aquela grandeza de desejos, um beijo sequer, asseguravam-lhes a superioridade, a riqueza, a força física de uma fêmea que destilava abundância de recursos úteis para uma guerra. Bruno até que lhe apresentou a alguns colegas, mas, a indiferença da moça, fazia seus pretendentes chorar no âmago do coração.
Os dias passavam, pelo caminho do parque ou diante da janela do quarto; Bruno acomodava seus pensamentos em Sofia: desejava realmente naqueles instantes alterar as coisas; a distância que os separava era elemento restaurador de seu amor: andando, ou sentado afastava a tristeza, estimulava e avivam sua inteligência; algumas vezes imaginava Sofia olhando-o por entre as árvores, seus olhos bem abertos ao ar puro, fazia-lhe chegar até a embriagues que modificava totalmente o estado da alma e afastava a tristeza: outras vezes a via caminhando com ar solene, pelo caminho calçado do jardim, mais alguns passos e alcançaria sua janela, sorrindo para si mesma e comprazendo-se com seu próprio espetáculo e prolongado indefinidamente uma agradável sensação: Bruno sem afastar os olhos jamais de sua calma, dá-se conta num instante, que sua feliz idealização, fora arrebatada pela visão verdadeira da gata vulgar de patas brancas, que balançava a cauda trouxe-lhe de volta de seu deleitável devaneio.
Assim ia passando as horas, os dias e os meses, deslizando com um movimento constante, não muito diferente de um regato de nuvens, pois nem um céu límpido e polido consegue deter seu curso, tudo caminha na ordem das coisas, Bruno, sentado, encostado na cabeceira da cama via a hera que cobria tolamente o muro agitar-se com um vento que não ousava penetrar pela escancarada janela de seu quarto. Até que um som o fez levantar e abrir a porta; saiu, impelido por uma corrente de vento desordenado, revelavam os movimentos secretos, invisíveis da matéria. Uma imagem auditiva o despertara: o toque pausado do telefone. Ora, é evidente, junto com aquela influencia do tempo chegava á voz cálida de Sofia.
"Esta bem então, disse Bruno, se você vier ligue-me".
E, sob o olhar esmaltado de Karina, Bruno despediu-se de Sofia, segurando por uns momentos – como se fosse a própria mão de sua amada -, à parte do aparelho telefônico que se aplica ao ouvido.
No final de semana Bruno viajaria para um congresso e, com aquele mesmo ideal de bem-estar manifestara seus desejos: que Sofia o acompanhasse.
Assim, estavam diante de uma oportunidade de passarem um fim de semana juntos. É, mas nem sempre o desejo produz o que se espera; redige-se uma vida, dela possui-se uma visão de conjunto, o individual se torna diminuto, o próximo se distancia, o longínquo se aproxima, os propósitos se extinguem: o relógio de cuco, na sala, deu doze horas. Karina entrou no quarto onde Bruno acabava de arrumar as malas.
"Está proto, eu vou contigo".
Nesse entretempo, Sofia procurava ansiosamente uma maneira de pedir para a diretora do Lar sua autorização para que ela pudesse viajar. Acossava com o olhar cada passo da velha imediata. Era muito prudente, mostrava-se sempre cautelosa ao tratar com as pessoas que julgava desdenhosa, ademais conhecia muito bem aqueles que ultrapassam a flor da idade ostentam geralmente caracteres quase opostos aos jovens e, sobretudo, sabia que toda vez que enfrentava essa difícil situação de pedir algo, estaria em circunstância de ouvir um sim, ou o desprezo, o vexame um ultraje; mas, naquele dia a velha Célia parecia estar consoante ao bom humor e, não lhe bastou mais do que uma palavra para que Sofia arrancasse dela um sim.
Pouco tempo depois, com sua mão fina, fechava a porta de entrada do Lar, e dirigia-se apressada para a rodoviária. Não havia tempo de ligar para Bruno dizendo que estava indo; apesar de seus esforços corria agora contra o tempo, mas também imaginava que faria uma surpresa e, no âmago de sua alma parecia existir uma coisa, causa de outra, que lhe dava a intenção de fazer o que desejava fazer. A verdade, porém, é que no dia anterior, resultado de um sonho que tivera na véspera, Sofia voltará à casa da cartomante.
"Já sei minha queridinha o que a trás de volta, você tem uma viagem marcada".
Sofia, maravilhada, fez um gesto afirmativo.
"As cartas dizem-me"...
Sofia inclinou-se para frente e arregalou os olhos. Então ela declarou-lhe que seu namorado viajaria sozinho; mas, não poderia esconder-lhe que as cartas mostravam uma bela moça junto a ele.
Sentada na poltrona do ônibus, com o dedo indicador nos lábios, Sofia partia ao encontro de seu amado. Enquanto isso, Bruno e Karina, chegavam à movimentada rodoviária da capital; no momento em que atravessavam o longo corredor das plataformas de embarque, com o olhar atento em meio aquele turbilhão de transeuntes, Bruno, buscava como que em vão encontrar Sofia. Acontece que ela não o avisara se viria ou não, e, estranhamente essa irresolução acometia-lhe certa inquietude. Ambos ficaram calados. Em pé, próximos a plataforma de embarque. Bruno pensava com os olhos postos em algo bem distante de tudo que ali estava.
À medida que o ônibus avançava, Sofia, ora com os olhos abertos, ora com os olhos cerrados, revivia em sua mente ideias que após alguma reflexão outorgavam sentimentos de diversas ordens: quando permanecia com os olhos abertos, a vida, através das imagens era-lhe compreensiva, conciliadora, deixando de ser algo que sejam apenas sonhos ou quimeras. Pois era para si tão evidente e, incapaz de enganá-la. Já, com os olhos fechados, novo assalto do pensamento, ou seja, onde for ou qualquer modo modificava seu espírito, dilatava-se em formas antagônicas, em outras de ansiedade e em outras de animação. Nem será estranho pensar que naquele momento os órgãos do sentido mostravam-lhe uma necessidade de agudeza. Entretanto, suas emoções fortes faziam muitas vezes sua capacidade se revelar opaca. Deste modo, mantinha-se com os olhos bem abertos. A viagem durou pouco mais de uma hora. Ao aproximar-se da rodoviária, Sofia, alegre e de cabeça erguida, sentia aproximar-se o momento em que sua alma se tornaria novamente amena, risonha pela expectativa de reencontro com seu amor. Apreensiva, olhava todo instante para o relógio, seus olhos bem abertos, vivos, sequer temiam que a sorte – veloz, inconstante perigosa – viesse perturbar-lhe o reino da vida. Enfim, quando o ônibus rompeu pelas entranhas da rodoviária, juntamente seus olhos atentos se movimentava como se andasse de um lugar a outro. Antes que o ônibus parasse, já se colocava em pé no corredor. Buscava cada ponto na multidão, limitando-se a examinar ou concluir seguramente o que procurava. E, não demorou mais que um instante, e, o ônibus o sol que andavam contínuos, param, como, num acordo tácito. Olha, pois, para a multidão à qual todos almejam chegar ou partir. Foi quando, Sofia, próxima a descer do ônibus, deu-se conta de que Bruno permanecia do outro lado do alambrado, precedendo-se para o embarque – chegou a não acreditar -, uma moça, sustentava-se em seu ombro. Subitamente seus olhos tornaram-se esgazeados, seu rosto perturbado, seus lábios tremiam escaparam-lhe algumas palavras incompreensíveis. Um silêncio imediato tomou-lhe o sentido, apenas uma voz golpeou-lhe os ouvidos: "As cartas dizem-me... uma bela moça junto a ele". Seus pés, no entanto, não queriam andar; eis, contudo, atordoada pela angústia experimentada, avançou, impingindo-se contra os que se achavam à sua frente. Precipitando-se assim, para fora do ônibus, quem poderia asseverar-se se corria ao encontro de Bruno, acometida pela visão que a luz lhe revelará tão concludente ou se também por meio dessa convicção desejava simplesmente distanciar-se de tudo que ali estava. Sua ação súbita e arrebatada não nos dava a certeza nem de uma coisa nem de outra. Que assim seja; rápida, avançou enquanto os olhos, sem parada, vertiam lágrimas, e, ao cruzar a frente do ônibus o qual havia chegado, no mesmo momento, com um atirar de brandos veementes, Sofia chocou-se violentamente contra a dianteira de um outro ônibus que chegava. O brutal encontro arremessou seu corpo até o choque de seu crânio com a guia. Diante daquilo, repetiam os gritos e ao seu redor vieram formar círculo fechado por mãos unidas. Um clamor dissipou-se da multidão proferindo as palavras "Mahadeva oouu Shiva". Seu corpo ainda convulsionou por um instante, mas, pouco a pouco se tornava inerte, envolto por uma mácula funesta.
Por um momento, Bruno e Karina se detiveram na porta do ônibus.
"O que foi aquilo", exclamou Bruno, espichando-se para tentar ver algo.
Karina também buscava com os olhos o porquê daquele tumulto.
"Vamos, disse Bruno voltando-se, que importa, quem eu esperava não conseguiu chegar mesmo".
Suave, o ônibus partiu levando o olhar vago de Bruno através da janela acompanhou até onde pode aquelas pessoas, sem compreender, pensando o que era...
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