Geistesgeschichte
Vitupério
I
Sentado em uma confortável cadeira de balanço que fora de seu avô, Aurélio Nadi contemplava os raios de sol das dez, que batiam no vitral da parede central de uma confortável sala de uma casa antiga. Ficava assim, aprofundado nesse deleitoso estado de espírito que a circunstancia causava-lhe cada vez que permanecia por algum tempo na casa de sua mãe. A casa se igualava à cidade, que muitas vezes deserta os filhos por sugerirem melhoramentos nas leis e costumes, mas isso parecia em nada afeta-lo. Desse modo, Aurélio Nadi era o triunfo perfeito da falta de preocupação.
As palavras de seu avô ainda ressoavam em seus ouvidos como se recém-pronunciadas, tão distintas como jamais tinha sido as outras proferidas em sua vida. Quando lhe perguntava qual era o significado da figura daquele vitral, respondia em poucas e sabias palavras: "saber perguntar já é saber a metade". Ao lembrar estas palavras, seu rosto imobilizara num olhar muito curioso para aquela visão, numa mistura não isenta de sardonismo. Observando atentamente, podia-se notar que este vitral era uma ostentosa, primorosa obra de arte com toda deformação do surrealismo, com sua natureza e aspecto de vidro: era a figura de um velho decrépito com uma risada sarcástica. Com cabelos longos num desleixo eriçado que lhe cai pelos ombros tampando uma parte do semblante, um dos braços cruzados enquanto que o outro permanecia em punho cerrado como se desafiasse alguém para uma luta, meio encurvado com uma capa que lhe caia negligentemente até os tornozelos. Contudo, essa figura ameaçadora e zombeteira tinha por detrás uma aparência sossegada, concentrada em sua expressão de ansiosa gravidade.
"Aurélio, Aurélio", chamou-lhe a mãe, com uma voz fraca vinda do quarto.
Aurélio parecia entorpecido pela aquela visão; e a voz de sua mãe lhe chamando, entrecortava seu torpor, como uma voz vinda do além.
"Aurélio", bradou sua mãe.
"Oh, meu Deus, disse Aurélio, agora despertando com um êxtase explícito que sua mãe de fato lhe chamava, mamãe...estouindo".
Aurélio com enternecer, foi para o quarto.
"Oi mamãe, desculpe-me, disse, entrando no quarto, estava meio distraído".
"Ah, meu filho, tive uma sensação de estar sozinha, disse a anciã com lamuria, que jazia na cama compenetrada com um terço sobre as mãos, a cabeça branca ergue-se por um momento, mas tornou a cair no travesseiro e virou o rosto para a janela, abra a janela, meu filho", completou com voz debilitada decorrente de uma fraqueza física,
a janela foi aberta, um vivo raio de luz invadiu o quarto.
Os olhos da Sra. Ivete, que estavam ligeiramente entreabertos na sombria abstração do quarto, ficaram oscilantes com a claridade que envolveu o aposento. A mãe de Aurélio era uma senhora de uns setenta anos de cabelos argênteos, não que fossem apenas pelos anos, mas, de uma combinação combatente de uma estirpe oriunda de um país longínquo. A face de uma palidez débil, o olho esquerdo pregava com a claridade numa morbidez inerte. Aurélio aproximou-se da cabeceira da cama. O olho que sua mãe mantinha entreaberto circunvagou com um ar vago como se procurasse a origem do som no chão e, em seguida, por fim, fitou Aurélio e um saquinho de remédios.
"Pegue esse saquinho, disse a anciã imparcial com uma voz abafada como se brotasse de algum subterrâneo, a caixinha azul, já esta passando da hora de tomá-lo".
Seu olhar esparso voltou-se para Aurélio como se transferisse à questão para ele. Aurélio flexível encheu um copo com água, ergueu-a com uma das mãos enquanto que com a outra lhe introduziu o remédio na boca.
"Beba mamãe, disse dando-lhe o copo, contratei uma auxiliar de enfermagem para cuidar da senhora, segunda ela ta aqui cedinho".
"Estou dando muito trabalho não é mesmo", manifestou não demorando que seus esforços de permanecer sentada se esmaecesse e sua mente se distanciasse, deslizando para o travesseiro.
"Nada disso, trabalho algum, a Ditinha não tem tempo para cuidar da casa e olhá-la, e além do mais é muito esquecida, a senhora sabe mamãe que minha vontade mesmo é de levá-la morar lá conosco, vamos lá pra casa".
Era, entretanto, sempre a mesma fisionomia na face que se destacava quando Aurélio manifestava sua intenção a mãe ir morar com sua família.
"Não meu filho, muito obrigado, dizia com puro sentimento que se expressava e na aparência mais verdadeira de seu desgastado e consumido estado, sei que fala do fundo do seu coração. Ah! Meu filho, meu primogênito, eu quero morrer aqui nesta casa, em volta dessas paredes que passei toda minha vida, minhas felicidades, meus devaneios, aqui que chorei de alegria quando vocês nasceram, aqui chorei a morte de seu pai, aqui quero ficar, não me tire daqui meu filho".
"Claro que não mamãe, o que mais posso para lhe fazer feliz".
"Deixe-me morrer aqui".
Aurélio beijou-lhe a mão com os olhos enternecidos em lagrimas.
Houve uma pausa.
Enquanto isso o ambiente familiar derretia-se para formar cenas mais novas. Bem abaixo daquela janela, daquele quarto, onde as emoções do espírito se estimulavam pelo laço maternal – ou configurações sociais que apresenta se a família -, motivação inconsciente ou sintomas de uma vacuidade e de uma degradação que não é estranho ao homem onde o desejo material e a cobiçada flor da estupidez com uma crueldade inalterável fica exposta para servir os desejos próprios no qual o homem não consegue discernir que o segredo de viver agradavelmente com seu semelhante é tornar suas realizações iguais aos seus desejos, mas baixá-los ao nível de suas realizações. Dessa forma, José Nadi, irmão mais moço de Aurélio Nadi, era assediado por esses gananciosos que permeiam as imobiliárias.
"Então o que me diz, indagou o corretor, após uma pausa, tornando a pousar de leve a mão no ombro de José Nadi, o que me diz hei".
"É, robusteceu José Nadi, muito atraente sua proposta, mas como estava te falando não depende só de mim, minha mãe ainda mora na casa, reiterou, coçando a cabeça obstinada, mas nessas circunstancias, farei o possível para tirá-la daí, coitada, ela está muito idosa para morar sozinha e o senhor sabe como as pessoas de idade são teimosas, difíceis de entender."
José Nadi falava, distante da razão, o interesse próprio fazia fugir todos os sentimentos de apatia, o abandono e todo a consecução que designasse qualquer ideal moral, só um propósito para lidar com o mundo exterior, o desprezo pelo exercício da virtude e, nesse sentido não levará em conta e considerações sob a luz dos acontecimentos futuros.
"Bem senhor, fique com meu cartão, assim que resolver esse entrave conversaremos," concluiu a ratazana, apertando-lhe a mão com fruição.
José Nadi lançou um olhar desolado para a casa, depois como se voltasse de algum horrendo sítio, sacudiu a cabeça com ar de sagacidade; a expressão em seu semblante ilustrava-lhe as palavras quando ergueu os olhos para a janela do quarto da mãe. Apressou-se em entrar na casa.
A casa da família Nadi ficava em uma importante avenida de uma esquina de uma prestigiosa cidade. Cercada de prédios, condomínios e próximo a um Shopping Center. Era para os corretores imobiliários incabível que uma casa, ainda antiga, ficasse em contraste com tão moderna estética arquitetônica. Transitavam em volta da casa como ratos ao redor de um pedaço de queijo. As paredes e os muros da casa pareciam exalar uma espécie de néctar. "É só uma questão de tempo e eles vedem a casa". Diziam entre si com convicção.
Ao entrar na casa José Nadi assumia um procedimento de menosprezo por qualquer intenção de melhoria do imóvel. Certa manhã o irmão manifestou o desejo de pintar a casa.
"O que eu penso melhor mesmo é vendermos logo esse museu, gastar aqui, ali, não vai resolver nada, a casa é velha tem umidade por tudo," ao pronunciar as ultimas palavras, lançou um olhar insciente por toda a extensão do aposento.
"Pense assim se preferir, pois, acho-a muito confortável, respondeu Aurélio, se sentado na cadeira que fora de seu avô, em seu tom mais afetuoso, e, asseguro-lhe, me sinto muitíssimo bem aqui".
'Não o compreendo", espantou-se José Nadi.
"Ora, porque não", replicou Aurélio, balançando-se na cadeira de modo sossegado.
"Ai, aiaiai, mas Aurélio, veja bem, disse de maneira significativa, tentando persuadi-lo, o que você me diz de cinco mil reais o metro quadrado, hei, hei, não tem importância, hei".
"Para mim não tem importância".
"Tem sim, tem importância sim", insistia José Nadi.
"Não, não tem, garanto que não, não vejo necessidade de vendermos a casa, alias, mamãe não deseja sair daqui, e penso ser justo fazer-lhe à vontade, vamos José, aja com bom senso, alias, se você está precisando de algum dinheiro, posso até emprestar-te, é só falar caro irmão".
"Oh, não é a questão, se estou precisando de dinheiro, hum, quem não está, a oportunidade que é boa caro irmão", a necessidade de expressar sua vontade causava-lhe raiva num tom contido, fazia ferver perigosamente nas veias, o sangue de José Nadi, o sangue de Aurélio, que de habito, corria ordenado pelas veias, não se encontrava em melhor estado, "é isso que eu quero que entenda, quanto à mamãe Aurélio, podemos levá-la para a minha ou a sua casa, se me entende", concluiu, "caro irmão, não entenda mal".
Aurélio mantinha-se tranqüilo indiferente olhando todo o tempo para o vitral. Por fim, rompeu o silencio ao afirmar: "A sabedoria para o interesse pessoal é a sabedoria dos ratos, que não deixam de sair de uma casa, de algum modo, antes que caia". José Nadi ficara estupefato com a elocução do irmão, mordiscou a ponta das unhas. Em seguida, bateu com tal força a mão sobre a mesa que seria impossível não a ter machucado.
"Com todos os diabos, bradou José Nadi, você é uma cabeça dura".
( Sai ).
Uma vez sozinho, Aurélio recostou-se na cadeira, pestanejando os olhos pousados no vitral.
I I
Ao fim de algumas semanas, sucessivamente, José Nadi reunia-se com a família do irmão. Estas visitas emolduradas com artifícios que na verdade acabavam contribuindo para alternativas certas de seu objetivo. Era toda às vezes assim, ao fim de uns vinte minutos de conversa quando começava arrefecer, José Nadi aproveitava para entrar no assunto que de fato lhe interessava: "a venda da casa", a mesma argumentação a mesma disposição o pretexto das palavras com que se expressava num profundo maneio. Marcela, mulher de Aurélio não demorou em entender a combinação e o significado das palavras do cunhado. "Desprezível, ganancioso, insuportável". Disse para si. Mas, matinha seu ar cordial expansiva num temperamento estóico e um coração impenetrável, assim, obstinava-se em continuar a ouvir sempre a mesma ladainha. Olhou para Aurélio com uma expressão de desprezo. Aurélio mantinha-se compassivo, contudo, a insistência do irmão começa a desagradar. Ele jamais se sentia incomodado com a presença do irmão, mas, esse propósito que o irmão lhe propunha provocava um certo repudio e, por fim, disse-lhe: "Não toque mais no assunto, meu caro irmão". José Nadi apertou a cabeça com as mãos, num gesto de confusa incompreensão; por mais que se esforçasse, não consegui chegar à inclusão necessária. Com a altivez de alguém acostumado a alcançar seus objetivos, quando encontrava obstáculos, sentia-se escorregar para o piso, onde se levantava, exausto, num letárgico de consciência.
Foi assim durante várias semanas, até que cansou das visitas, ou mesmo cauteloso, pensou ser melhor não antecipar seus impulsos visto que, precipitando o resultado das exageradas manifestações não o levaria a solução desejável. Depois, enquanto voltavam para casa consternativo dizia para si mesmo: "O que posso fazer mais, veja em que condição esta a estrada, tortuosa, sem iluminação, retrocedendo, perdida em atalhos inúteis e levando não a luz, mas ao caos". Seu espírito ávido fazia que seu desejo não vivesse emparedado: emparedado na classe, emparedado na ocupação, emparedado nos deveres e obrigação que a reta moral exigia, obrigações fixas, em limites orçamentários. Sentia que fora dos limites que se tinha imposto existia um novo mundo. Um mundo distante da livre vontade que o irmão tinha sob a orientação da razão, onde o interesse pela vida interior era uma descoberta de ordem prática como uma construção ideológica; não apenas um lugar, mas também um idolum.
Entraram em casa, o relógio manifestou meia-noite.
A mulher de José Nadi com aquele ar de prepotência onde mais para o ridículo do que para o obstinado é ligeiramente a galinha e não o galo que canta; era na verdade, com essa postura de interferência no que se referia tanto aos negócios quanto aos assuntos domésticos que ela caminhava de um lado ao outro da vida. – "Por Deus! È difícil de entender que você não consegue fazer aquela Anta compreender! – exclamava dogmática. – Que porcaria de homem é você"!
"Olha a boca hei, estou fatigado, respondeu José Nadi com intolerância, levantando os olhos enquanto desamarrava os sapatos, vai com calma que chegaremos lá, tá entendendo, Louca".
"Está demorando demais, insistia Paula em persuadir, eu lhe garanto, se insistir ele acabará concordando, nada do que fizermos será em vão, acredito firmemente que testemunharemos o triunfo, alias, já estamos quase no fim do ano e, quero mandar a Paulinha estudar em Londres, quero trocar de carro, de moveis, enfim tudo de melhor em nossas vidas".
"Você pensa que vai ser tão simples assim, não se esqueça que mamãe ainda está viva, advertiu José Nadi, estendendo a mão como se quisesse mostrar algo, e não tem intenção de sair da casa e pelo que a conheço tem a cabeça mais dura do que a do Aurélio".
"Ora José, retrucou Paula, alteado a voz, sua mãe está caduca, o que devemos fazer é enfiá-la num asilo, não a tempo para entraves, sobreviver, sobreviver acima de tudo, só faltava nos preocupar com ilusões douradas, era só o que faltava".
José Nadi olhou desdenhoso para a mulher, essa fuga abrupta da razão sobrecarregou seu espírito de contradições insolúveis até deixá-lo num abandono medonho. "Veja como fala de minha mãe".
Paula relutante ergueu a cabeça, como se aquele ponto merecesse alguma importância. José Nadi foi para o quarto, aturdido pela vontade de chorar. Aquela noite não pode dormir imerso num marasmo sem fim. Em certos momentos de sua letargia seu espírito descobria sua advocacia da baixeza em sua opinião os homens são congenitamente maus e ninguém praticaria o bem, a não ser que isso fosse obrigado. O tempo aplacou um pouco seu propósito deslumbrado, mas agravou o seu sentimento de frustração.
Quando saia do trabalho se sentia deprimido, refugiava-se nos botecos da vida, afogava sua ambição, umedecia sua alma, em certo momento sentia em sua constituição extrema indignação; a primeira cerveja tão bem condisse com sua divagação, que ele pediu uma segunda com desenrolar apaziguar. A cerveja gelada é uma coisa agradável senhores – uma coisa extremamente agradável em quaisquer circunstancias –, mas num botequim asseado, diante de uma moda de viola, uma chuva fina a cair lá fora até molhar o âmago da alma, José Nadi começou a sentir satisfação. Pediu outra cerveja, depois outra – não tendo muita certeza de que pedisse outra depois dessa, mas quanto mais bebia a cerveja gelada, mais pensava em sua situação. José Nadi olhou para o copo; e, de repente, enquanto olhava para ele, pareceu-lhe presenciar extraordinária alteração. Sua imagem afigurou-se dentro do copo, gradualmente seu corpo virava de um lado ao outro como a expressão de um peixe num aquário; suas pernas transmudaram-se em cauda de peixe, começou a ficar assustado quando percebeu que se afogava e, o ar pareia faltar-lhe, num frenesi infuso berrou: "mãe"! Depois ficava até muito tarde perambulando sem nenhuma vontade de ir para casa. Esperava o momento que a mulher estivesse dormindo para não suporta a insolência doentia que lhe afligia.
I I I
Era mês de janeiro, a transição dos acontecimentos remodelava a vida de Aurélio Nadi e, obstinava ainda mais a de José Nadi. Aurélio impelido por um louvável convite de trabalhar em Nova York, por ordem dos bons serviços prestados à empresa em que trabalhava. A principio negara com um súbito desinteresse e um aspecto distraído. Contudo, sua expressão começava a mudar, pensando em melhorar, desse momento em diante um certo interesse intelectual do seu próprio eu. Conhecia a razão de ser o escolhido, seu esforço para ajustar, articular, estabelecer relações mútuas, serenas, atentas às melhorias da empresa, lhe dava todas aclamações desejáveis. Embora nunca procurasse, mas, sempre encontrava a forte correnteza, tão ligeira, tão profunda e certa. E agora, à vontade voltada pelo entendimento correto da razão, não era justo que não aceitasse tão feliz proposta. Entretanto, havia uma coisa que lhe preocupava, a frágil saúde da mãe. Aurélio ao contrario do irmão, nunca deixava que a relevância econômica passasse a frete de seus sentimentos familiares; o regalo escrupuloso tornava-o de uma alma refulgente.
A mãe de Aurélio imitia um bom sinal de melhora. Passou-se alguns dias, o necessário para Aurélio decidir sua objeção. E foi com certa obsequiosidade que manifestou seu propósito para a mãe. "- Se for bom para você meu filho, será também para mim. Não deve perder a oportunidade. Ficarei feliz, apesar da distancia, a prosperidade que cresce em você, cresce muito mais em mim, em vê-lo venturoso. Vá em frente, tens a minha bênção". Ela o abraçou, encomendando solenemente ao céu e modestamente dando graças a Deus por ter um filho maravilhoso.
Alguns dias depois, Aurélio Nadi, esposa e filhos partiam para Nova York. E Dona Ivete Nadi ficará a mercê de seu filho José Nadi. Veja como são as coisas, a ovelha veio incontinente cair na boca do lobo matreiro. Não havia algo de melhor, ou pior para acontecer na vida de José Nadi, depois da viagem do irmão, sentiu aprofundar o momento para tirar sua mãe de casa. Agora, nada havia que impedisse seu intento. Ele parecia apenas constatar a felicidade do presente com a frustração que findara.
O modo calmo e inalterável da mãe a impedia de perceber a trama do filho. Dona Ivete Nadi controlava suas emoções e de certo modo, era de prever que sofresse alguma reação quando não houvesse mais seu filho Aurélio para apaziguá-la. Para colaborar com o maligno plano do marido, Paula Nadi não poupava a sogra de qualquer tipo de dissabor; entrava na casa vociferando que estava preste a cair e que a tiraria dali nem que fosse à força. "Velha impertinente, porque não morre logo". Dizia apavorante, a pobre anciã permanecia quieta, com a mesma submissão de sempre. Ficou calada como se a expressão e olhar não pertencesse mais a esse mundo, não comia, não bebia. Teve uma recaída a pior de todas que conhecia.
De proto, a primeira coisa que José Nadi fez foi dispensar a auxiliar de enfermagem, a segunda, internar a mãe. Essas medidas, de qualquer modo premeditadas, foram adotadas e uma documentação toda arranjada por José Nadi e um advogado gatuno. Sem qualquer resistência, a senhora Ivete Nadi, tomada por uma morbidez, assinou o contrato da venda da casa e adormeceu instantaneamente.
A partir daquele momento, José Nadi começou a sentir um gosto estranho na boca, o gosto amargo do arrependimento, algo que ia descendo-lhe pelas entranhas e aniquilando indefinitivamente, consumindo-se dentro de si mesmo. Então, começou soprar um vento fraco que outra coisa não haveria de fazer senão transformar seu espírito num instrumento da mais geral degradação, pouco a pouco, o vento ia aumentando, vulgarizando seus vícios sem preconizar sua disciplina.
Numa segunda – feira, às quatro da tarde, com aquele gosto amargo que continuava consumindo no fogo interior de sua má veemência, passou enfrente da casa. A casa havia sido transformada num monte de entulho. Apenas uma parede havia de pé. Aquela do vitral. José Nadi desceu do carro, atravessou a rua e foi se aproximando, pois, já não havia mais muro que separasse a calçada do terreno da casa. Admirou a impavidez daquela figura no vitral, radiante pela bela tarde de fevereiro; e naquele relâmpago de lucidez, teve consciência de que era incapaz de agüentar sobre a alma o peso esmagador de tanta coisa que ele mesmo não pode evitar. E então, viu na frente daquela parede que vertia uma água diáfana que se precipitava pela calçada. Com os olhos excessivamente reentrantes e turvos, como se tivesse passado noites inteiras acordado entrou naqueles limites que um dia pertencera a sua família. Ficou parado, com as costas voltadas para a parede, olhando a circunstancia que a água emanava entre os entulhos. A luz do sol penetrava pelo vitral refletindo precisamente a água que seguia seu curso, enquanto que a parede lançava uma sombra que se inclinava para frente. José Nadi ficou ali com a mente repleta de muitos pensamentos. O que de fato o levará a voltar àquele lugar? "A preparação ou o exame; ou a conclusão; ou a execução"? Com os olhos fixos na sombra e nos raios de sol que atravessavam o vitral e refletia na água que corria, observou numa fração de segundos, que a sombra aumentou instantaneamente com uma brevidade espantosa, teve tempo apenas de virar-se e ver com uma expressão de terror a parede desmoronando-lhe em cima, esmagando seu crânio junto aquele vitral, num estridente estampido de poeira que se juntara à atmosfera. Quando a poeira abaixou, via-se em vez daquela água diáfana um líquido rubro que tingia o chão, acrescido, de quando em quando, por um som indescritível, estranho e fantasmagórico, como se ruídos inesperados, de uma natureza sinistra, estivesse descendo para o mundo das secretas penas.
Nesse instante em que o destino apagava o fim de José Nadi, lá em sua casa, sua mulher acabava de receber uma ligação, dizendo que seu carro novo havia chegado na agência. Atacada de uma precipitação quase que convulsiva, saiu correndo e, ao se precipitar nas escadarias do sobrado, enfiou um dos pés dentro de uma lata, rolando vinte e cinco degraus abaixo, partindo-lhe a espinha ao meio.
Então, o que valeu toda essa ganância, esse Vitupério desejo de possuir que faz o homem escravo de sua própria ignorância.
CAUSALIDADE
Em uma fria madrugada de julho, de baixo de um frio viaduto de uma populosa cidade da América do Sul, á vontade ou faculdade de afirmar ou negar, nascia enquanto que o agir na representação de regras ia se tornando algo como finalismo, ou seja, a velha crença em que a única explicação possível é a que aduz o objetivo pelo qual aconteceram. Desse modo, o eterno sono dava lugar à vida ou uma nova estrutura do mundo começava.
O choro de uma criança ecoou pela força inativa da vida. Foi, digamos, por um triz que ele veio ao mundo: sua mãe não sobreviveu ao nascimento; e o bebê era tão franzido e doentio, que não lhe deram mais de um dia de vida. Nunca a vida parecera tão desprovida de significado ou tão miserável. Antes ele não tivesse sentido a luz do mundo, mas se o mundo é vontade, deve ser um mundo de sofrimentos. Realmente era um lugar penoso para se viver, para nascer. Todavia, mesmo com os olhos abertos para um obscuro destino, aquela família procurava algum rastro de luz em meio á crescente escuridão.
O pai lhe registrara com o nome de Tiago Augusto da Silva, e, com o passar do tempo quando o garoto alcançou os três anos e começava assumir os traços privativos, o pai passou a chamá-lo de "Tininho". Em principio Tininho se diferenciava de seus outros três irmãos. Franzidinho, sisguinho, dos seus olhos parecia tirar a mais sinistra conclusão, parecia haver uma super-excitação de sensações, percepções e sentimentos que em geral não eram normais em sua origem. Sua própria vontade indicava uma necessidade, e ao brincar com os irmãos, sempre pretendia agarrar alguma coisa maior do que a sua capacidade. Assim, na proporção que Tininho ia crescendo á medida que o fenômeno da vontade se tornava mais completo, o sofrimento se tornava cada vez mais aparente.
Então, a ordem mensurável do movimento ia se tornando em ação e a base da existência humana dava sua escolha livre para poder ser aquilo que é. Ao cinco anos de idade, a partir das cinco horas da manha, Tininho com seu irmão mais velho, sentia mesmo que inconsciente suas ações e suas situações existenciais. Empurravam um carrinho de mão, carregado de papelão e papel pelo acostamento de uma movimentada marginal. Tininho vinha logo atrás com o pouco de força que suportava, enquanto que o irmão na dianteira fazia a maior tração. Tininho e seu irmão eram tão pequenos e seus pesos tão insignificantes que a influencia dos automóveis passando em altas velocidades, quase que os variam com a ventosidade. Mas, assíduos, seguiam firmes.
Quando a luz do dia já brilhava a pino, os dois garotos empoeirados pelos seus afazeres, entravam pelas vielas do bairro em que moravam; bem em frente ao mercado do seu Matias, o pequeno Tininho volta-se para o irmão com uma expressão significativa: "Já temos o dinheiro para a bola! Né Saulo, já temos!" O menino mais velho segurou a mão excitante de Tininho que confiantemente avançou na direção dele. E, sem responder diretamente ao pedido do irmão, refletiu por um instante, empertigado e imóvel, depois, como que mecanicamente, dirigiu-se para o mercado do seu Matias; as mãozinhas de Tininho que não haviam cessado de apertar-lhe os pulsos seguiu atrás como se a iniciativa fosse o elemento básico para a obtenção da sua vontade. O irmão de Tininho era um garoto de dez anos, de aparência rude e grotesca, mas já tinha a razão voltada inteiramente para a sensibilidade. Portanto, a expressão da vontade atravessou seu pensamento como a luz do sol corta uma nuvem e revela o cerne das coisas; onde, esse estado de tensão muitas vezes abre serias brechas para a existência.
Tendo o garoto comprado á bola agora estavam entretidos no que para eles era o melhor objeto de brincadeira. Havia as margens da movimentada marginal um barranco aplainado, onde era freqüente o lazer da garotada que morava nas proximidades e os que também moravam mais longe. Para Tininho e seu irmão não era diferente, sempre ao retornar de suas incumbências, paravam ali para brincar e, ao mesmo tempo estabeleciam relacionamento, desenvolvimento das habilidades sociais. Esses breves momentos de contentamento parece abrandarem a dura realidade de suas vidas. As duas crianças corriam, pulavam, sorriam se contentavam com um objeto tão mero. Era o respaldo que lhes dava à motivação de viverem alegres. Nesse efêmero momento encontravam um deleite; "parceiros físicos momentâneos", que não compreendiam ao certo a sua origem, mas sentiam e isso era para eles a importância de se viver. Se agora, contemplamos o invólucro da vida dessa atormentada existência por um curto espaço de tempo, o olho não tem compreensão suficiente para perceber quanto esses encantos devem ser breves, e quando vem à compreensão, tudo já passou. Assim, Tininho chutava a bola, seu irmão a chutava de volta com instantâneo movimento: como relacionamentos entre pessoas com valores e atitudes semelhantes, relacionamentos esses que evoluem e proporcionam intimidade e compartilhamento mútuos. Até que, em um determinado instante a bola rolou barranco abaixo. "Deixe que eu pego", disse o irmão de Tininho, descendo atrás da bola. Tininho, ficou no meio daquele aplainado, volteando com os traços distintos de criança, era prazeroso sentir os sentidos rodopiar junto com o corpo, até seus movimentos irem se tornando extenuante e, o corpo oscilar com o abrir súbito dos olhos. Estagnado, seu olhar estendia-se para o ignoto, quando um vento forte trazendo uma poeira fina fez seus olhos oscilantes; num segundo percebeu a demora do irmão em retornar. Naquele momento intermediário o sol escondia-se por entre as nuvens. Desfeito de sua inação, o pequeno Tininho ficou cogitativo. Algo dera errado, ao menos, assim inferiu o pequeno Tininho do fato do irmão não voltar. Conseqüentemente, começou caminhar na direção que o irmão tomará. Tendo avançado alguns metros teve uma visão mais ampla do caminho que o irmão havia descido; avistou bem à frente, no acostamento da marginal, percebeu, embora a distancia não lhe desce a certeza clara. Havia um corpo estendido no acostamento. E, então desceu o barranco e, pouco a pouco foi se aproximando e sua perplexidade foi aumentando. Agora, porém parecia ter certeza era mesmo seu irmão. Sem entender o que acontecera o pequeno Tininho pousou o olhar no irmão, e um tremor fez com que ele levasse a mão até a boca e mordesse. Viu-o que jazia numa posa de sangue, ficou aterrorizado, rígido com os olhos esbugalhados. "Saulo"... arriscou dizer o pequeno Tininho, aproximando-se pé ante pé, sem desviar o olhar do irmão inativo. "Saulo... levanta... vai Saulo". Corajoso o pequeno Tininho, abaixou e com esforços, tentava reanimar o irmão que já não respirava mais. A força de seu espírito singelo então, começou a dar lugar para uma angustia crescente e, num desses movimentos para reanimar o irmão, quase sancionou a cabeça do resto do corpo. A vista daquilo inflamou o desespero de Tininho e, aos gritos em um esforço desesperado para levantar o irmão dizia com as lagrimas banhando-lhe o rosto: "Saulo, não Saulo... fala, levanta vai... Saulo". A ventosidade dos carros passando em alta velocidade arrastara a bola para longe.
Os carros que transitavam pela marginal foram pouco a pouco parando, um atrás do outro, e em pouco tempo um tumulto de gente se aglomerava ali, onde um carro em alta velocidade, trafegando pelo acostamento abaterá o pobre garoto.
II
Parece ser o sofrimento causado pelo pensamento na morte do que a morte em si. Na proporção que o conhecimento atinge a distinção que a consciência acende, a dor também aumenta e chega a seu ponto máximo. E não era diferente para o pequeno Tininho, três meses mais tarde ainda sofria com a morte do irmão. Debatia-se à noite; aquela imagem do irmão projetava-se em sua mente. Por mais que tentasse afastá-la a impressão voltava a seu espírito; ficava muito tempo deitado com os olhos fixos no teto, até que o cansaço o fazia adormecer.
Com o passar do tempo e as transformações que iam se sucedendo, pouco a pouco, Tininho se recuperava. Perecia entender que as árvores quebram-se com ajuda de seus próprios ramos, o incenso que, enquanto se consome, exala odor agradável. Toda essas expressões iam se tornando imagens ou metáforas em sua vida. Seu pai arrumara um emprego de segurança, e a família agora ocupava um barraco as margens de um fétido rio. Conseqüentemente, a chuva era para a família a imagem ou comparação de mais tormento. Contudo, toda mudança que inundava os torvelinhos da vida foi para o pequeno Tininho um descerrar num novo despertar.
O sol despertava aquele povo, julgando-os naturais, normais, corretas suas condições, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias, assim, Tininho também despertava nessa inversão que opera a vida. Ficava por uns instantes deitado na cama ouvindo rumores de vozes. Até que, calmamente levantava-se e, ia para outro cômodo, descalço, pisando naquele chão de terra endurecida. Quando tinha leite, tomava em uma caneca com uma colher de açúcar cristal, quando não tinha, tomava água. Naquela manhã tinha leite e café, tomou uma caneca cheia e pousou-a levemente sob a mesa; e vagarosamente saiu. Ficou parado em frente à porta circunspeto, vendo toda aquela gente, andando pra lá e pra cá como fórmicas desordenadas. Seu pensamento, tanto quanto sua concepção, revelava-se como um observador atento. Ficava a pensar qual era o motivo que fazia toda essa gente se movimentar, uma percepção apurada apesar da sua pouca idade se manifestava à flor da pele, germinava em sua mente e lhe dava essa especulação como um impulso para entender que tudo parecia seguir para interesses materiais. Alguma pessoa que passavam com sacolas de sobra dos varejões despertava as imagens do dia anterior: "carrinhos do supermercado carregados de tudo aquilo que aquelas pessoas não tinham". Começava alimentar uma certa desconfiança em relação às decisões do corretivo, defesa ou protesto diante da situação de incerteza que o homem encontra no mundo. Sobre todos os assuntos, em encontrava em si mesmo mais tendência para contestar suas conclusões do que para conceder-lhe seu assentimento. Assim estranhava, por uns ter tanto e outros tão pouco ou quase nada. Parecia descobrir o erro, mas, não a causa!
O sol baixara ao acaso deixando Vênus proeminente no horizonte, quando o pai de Tininho voltava para casa, cabisbaixo com cinco pães e um litro de leite, mesmo assim, Tininho corria para encontrá-lo. O pai lançou um olhar contrariado para o barraco, pois era quase a mesma expressão de todos os dias ao retornar do trabalho. Viu a mulher com aquela roupa molhada e lenta pelo cansaço, torcendo as roupas numa bacia. A roda de crianças aproximou-se, com olhos silenciosos e grandes vigiavam cada movimento do pai. O pai entrou, com o coração alanceado, vacilante, sentou-se num banquinho, colocando sobre a mesa tudo aquilo que trazia, em seguida tirou os sapatos e, ficou olhando pensativo os pés descalços. Tininho sentou-se pesadamente no chão ao lado dele.
"Pai porque uns tem muitas coisas e outros não tem quase nada", disse, cheio de sorridentes esperanças.
O pai que se mantinha imóvel, sem entender a indagação súbita do filho, acabrunhando numa espécie de emulação, achegou-se para Tininho e dirigiu estas palavras:
"É algo meu filho que eu sempre me esforcei para entender, tenho pouca letra, mas a vida, essa ai fora, assegura, a todos, modos de entender a realidade e de se comportar nela, a única consciência segura que tenho é que sou forte, forte com o corpo não com a mente, certa vez achei um papel dobrado, meio amassado, esforcei-me muito para entender as palavras, "O simples impulso do apetite tem nome escravidão, enquanto a obediência a uma lei que a nós mesmo nos ditamos tem nome liberdade", só os fortes sobrevivem, os fracos estão sempre no caminho da ruína".
"Então eu quero ser forte com a mente", respondeu Tininho como que aquela circunstância provocasse um ato ou dever necessário.
E isso seria uma objeção legitima. Ele começava encontrar sua identidade mais plena no ato do raciocínio tudo funcionando segundo suas próprias regras, antes de ter encontrado seu estilo distintivo. Assim, adquiria um valor de sobrevivência por meio de força adquirida que (segundo hipótese corrente) não é – como se pode observar aqui – herdada. E desse momento em diante da vida, sabia que para vencer teria que ser forte, entender sem duvida que é desejo, a inquietação e a insaciável das nossas necessidades, o que nos força a pensar; assim motivado ou inspirado, é o pensamento que descobre os caminhos e que tudo em sua vida poderia mudar, bastasse que ele fosse forte o bastante para por em ordem sua família. Esse imaginar dos sentidos parecia florescer através da sorte e do acaso genético.
Com o "verão" aparecem umas crescentes profundidades na consciência da aurora da vida, num domingo, quando toda a família estava sentada em volta daquela mesa, naquele pequeno espaço da casa, onde o trinchar de um pato era repartido com satisfação, à mãe adotiva de Tininho, alçou uns assuntos ativadores, que torna mais inteligíveis os deferes e sutilezas da vida:
"Na próxima semana, Tininho começa na escola", disse para que todos a ouvissem.
"Era melhor que fosse trabalhar," interferiu o pai, pousando o copo sobre a mesa.
"Há, há... nada disso, vai para escola", tornou a mulher balançando a cabeça terminante.
"Então vai estudar e trabalhar", sentenciou o pai com um olhar grave para Tininho.
Tininho, ora olhava para o pai, ora olhava para a mãe, e irrecusável concordava com todas as objeções. Desse modo, Tininho não importava se fosse de uma forma ou de outra, bastasse que ele fosse para escola, combater a dura realidade da vida. Em conclusão, considerando-se assim, não será difícil um dia ele ser forte.
E com essa idéia, Tininho ia seguindo os pontos, sem perceber que sua memória selecionava os fluxos do seu pensamento. Essa corrente refletia adequadamente a continuidade de percepção e o movimento da sua vida. Nada o fazia desviar o caminho, nem mesmo as duras agruras que se encontrava pela frente. A realidade circundante conduzia seu pai e seu minguado salário de uma experiência amarga à outra. Sua imaginação material o tornava cada vez mais endividado. A mãe adotiva de Tininho lavava trozentas dúzias de roupas por dia para ajudar no sustento e, em cada movimento, cada suspiro e cada gota de suor sua expressão manifestava; "eu sou o limite de minhas ilusões perdidas". E, Tininho com doze anos foi trabalhar para ajudar a família. De manhã ia para a escola e a tarde trabalhava até as nove horas da noite.
III
Até mesmo no auge da responsabilidade total da sua dura existência, Tininho combatia as causas de suas misérias neste mundo. Ao voltar para casa trazia sempre consigo aquela imagem alegre numa dimensão mais individual visto não ter motivos par tal disposição. Mas, era o que era, desse modo, responsável por si mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo uma disposição momentânea que dissemos ser harmonia. Aos domingos, brincava, jogava bola, empinava pipa; Tininho era resumidamente, todos os atos que as crianças praticam por si mesmas acrescentando apenas um gênio espirituoso e irrequieto. O habito atento, observador assemelhava-se de algum modo à sua natureza, divertia-se anotando propagandas de episódios mais pitorescos. Ficava parado em frente aos grandes cartazes de propaganda (que eram muitos em seu bairro), e de perto acompanhava toda semana, aqueles homens que trocavam os cartazes. Na escola com seu amigo Beta, representava uma necessidade amplamente sentida dentro de uma sociedade "orientada ao outro" para as habilidades que ele mostrava capacidade de interpretar e, a expressão na face de discernir as idéias do amigo, moldava empenho para fornecer as tarefas e julgar suas conquistas. Desse modo, Tininho ia entendendo o mundo social muito mais diferenciado, o florescer da adolescência ou senso de eu dava o reconhecimento que qualquer sociedade deva ter leis para funcionar adequadamente, mas que estas leis não deveriam ser cegamente obedecidas e que circunstancias atenuantes deveriam ser levadas em consideração.
Nas vizinhanças onde Tininho trabalhava, havia uma padaria em que nas horas de folga ele costumava freqüentar. Era uma quinta-feira, lá pelas três horas da tarde, quando Tininho parou diante de uma vitrine onde havia um espelho e olhou-se arrumou os cabelos revoltos. Isso feito caminhou-se diretamente para a padaria. Por acaso, não havia fregueses lá com exceção de um homem de uns trinta e cinco anos, de aparência elegante, com as mãos inquietas e uma voz grave. Esse homem costumava sempre estar por ali, tomava seu café junto ao balcão e conversava com o dono da padaria. Quando Tininho entrou, sentou-se num banco e pediu (singularmente) um chapado e um pingado; o balconista lançou-lhe uma olhar destituído de interesse e, em seguida, olhou de novo, dessa vez de modo penetrante e atento. Aproximou e indagou o que havia pedido mesmo!
Calmamente, Tininho repetiu o que desejava.
O homem de aparência elegante e bem educado apoio uns dos braços sob o balcão e curvou a cabeça. Depois a erguendo virou-se para Tininho.Examinando o aspecto do menino notou que ele sempre ocupava este lugar se encostado na parede, num canto, enquanto tomava seu café.
Tininho compenetrava-se com uns papeizinhos sobre o balcão, fingindo não ser observado. O balconista serviu-lhe o café.
"Eai garoto, disse o homem elegante e educado dirigindo a palavra para Tininho de modo amistoso, dando uma reforçada".
"É, respondeu Tininho meio acanhado, olhando rapidamente para o homem, depois baixou de novo a vista para os papeizinhos, em seguida voltou-se, o senhor esta servido".
"Muito obrigado, fique a vontade".
Tininho tornou a seguir as linhas dos papeizinhos com o dedo, simulando grande concentração na leitura.
"Mora aqui por perto garoto", tornou o homem.
"Não, trabalho aqui perto", respondeu Tininho.
Tininho permaneceu circunspecto, parece ter até sentido vontade de falar alguma coisa, mas permaneceu na sua retração. Assim, após essas primeiras palavras foi se criando um laço de amizade entre aquele senhor e Tininho que quase todas as manhãs se encontravam na padaria. Senhor Martíre era assim que se chamava o novo amigo de Tininho. Um bem sucedido dono de uma agência de publicidade; o homem simples de um espírito solene, atento, captava os aspectos mais originais e os tipos mais variados da sociedade. Tinha um olhar abstrato e um sorriso hierático, meio malicia, meio satisfação; cuja vos grave fluía firme, em cadencias suaves e equilibradas como uma liturgia. Observava o olhar suscetível de Tininho enquanto falava de suas grandes vontades e avançava com fisionomia aberta e compassiva para seu companheiro. Suas palavras era a ponte de reflexão que o senhor Martíre trazia consigo. "Esse garoto é um exemplo subentendido da atividade social, a luta pela individualidade e, acredito que o progresso numa aproximação de necessidade gradual para o desenvolvimento é integral em cada individuo. Que diferença do meu filho! De fato os grandes homens são produtos do meio que molda a multidão". O senhor Martíre achava-se diante de uma complexa combinação de circunstancias, de um lado tinha seu filho, criado no seio de uma família rica e vivia numa atmosfera altamente progressista onde propiciavam o florescimento intelectual livre de preconceitos e permitiam a expansão da criatividade interior e da reflexão. E, ali bem diante de seus olhos tinha aquele garoto com possibilidades imanentes para um desenvolvimento e igualdade social. Se a sociedade interferisse em suas profundas convicções! E nesse realismo ingênuo o pensamento de Tininho sobrevoa o mundo, transformado-o em idéia ou conceito do mundo.
IV
"Puxa esse é dá-hora, disse Tininho segurando um par de tênis, pode ser esse mesmo senhor Martíre".
"Você gostou desse, respondeu o senhor Martíre afetuoso, e com inclinação para a vendedora concluiu com um sinal de cabeça, nós vamos levar aquele também, agora Tininho vamos ver calças e camisetas".
O senhor Martíre enquanto andava e conversava com Tininho pelos corredores do shopping ia pensando a quanto uma transformação de boa vontade trás o vigor, a felicidade para quem recebe e para quem dá, a serenidade, prescindindo de ajuda externa, prescindindo de tranqüilidade proporcionada por outrem, como é bom sermos capaz de alguma contribuição para o bem comum. "- Sim é claro estou entendendo" -, respondia o senhor Martíre às palavras ininterruptas de Tininho. É como se ele penetrasse nos atos daquele garoto, suas palavras seus sonhos, ou seja, um material extremamente rico, constituindo a linguagem universal do inconsciente. Os fatos assim observados levaram-no a admitir que aquele garoto não só possuía a rapidez e habilidade nos aspectos centrais da linguagem como no desenvolvimento da inteligência espacial. O acentuar interpessoal se alargava do eu intrapessoal. Um pensamento especulativo, um equilíbrio em harmonia, fascinantes variações. Toda essa virtude que retrata completamente a gama de soluções para vida pratica não encontrava em seu filho mesmo com toda condição simbolizando uma existência particular. E, com esse interesse associado, até mesmo uma fascinação pela pessoa individual isolada, o senhor Martíre empenhou-se para preparar as bases para que Tininho um dia fosse forte.
"Está bem assim combinado, concluiu o senhor Martíre apertando a mão de Tininho, tornando os olhos causativos, espero você na segunda-feira, se eu ainda não tiver chegado, pode procurar o Wagner ele vai mostrar onde você vai trabalhar".
"Sim senhor, queria agradecer por tudo", respondeu completivo, tentando reunir as sacolas em uma só mão, e, voltando a apertar a mão demoradamente do senhor Martíre.
Ao descer do ônibus, Tininho foi caminhando de cabeça baixa. Estava alegre, porém, pensativo; a luz do final da tarde iluminava seu rosto e sua mão segurava firmes as sacolas balançando ao ritmo de seus passos, destacavam-se nitidamente no ar transparente. Apressava os passos à medida que se aproximava de sua casa. O horizonte avermelhado refletia seus raios naquele chão endurecido que tinha uma cor marron-encarnada. A face de Tininho adquiria uma cor mais pardacenta. Mais alguns passos e alcançou o final da rua; encontrava-se agora diante da casa. O pai de Tininho lavava o rosto junto ao tanque, com o rosto molhado e os cabelos umedecidos debruçava-se ora escarrando, ora expelindo pelo nariz. Com o rosto molhado e os cabelos umedecidos, ergueu-se segurando a toalha que mantinha sobre o pescoço, colocou-a de encontro ao rosto por uns instantes e, quando seus olhos se abriram decaíram sob Tininho, olhou por um instante perscrutativo, passando a língua nos lábios umedecidos disse sentencioso:
"O que é isso".
A face de Tininho assumiu uma conturbação seguida de embaraço.
"É... é roupas e um par de tênis, respondeu olhando para as sacolas, como se aquilo não estivesse importância, depois como numa reminiscência, manifestou, foi o senhor Martíre que me deu, é pra eu ir trabalhar na agencia, tem que ir bem arrumado, né pai".
O pai pigarreou, olhando-o com desdém.
"Sei, tem que ir bem arrumado, disse desigual, desde de quando você fica aceitando esmolas... hém, sua voz agora assumia um tom de cólera, me dê essas sacolas".
Agarrou Tininho sacola e tudo, arrastando-o para dentro. Mãe escutando o barulho correu para ver, perplexa tentou intervir: "O que esta acontecendo".
"Não se meta, é eu com ele, disse o pai segurando Tininho com uma mão e, com a outra agarrava as sacolas, veja só agora deu de pegar esmolas".
"Não é mãe", tentou explicar Tininho, mas não teve tempo de dizer mais nada, o pai enfurecido, desferiu-lhe um tapa na boca.
"Não é", repetiu o homem enfurecido arrastando-o pelo cabelo para o quarto e, com um chute fechou a porta para que ninguém entrasse lá.
"Não bata no menino, não bata", repetia a mulher, esmurrando a porta que se trancara por dentro.
De dentro do quarto vinham fortes sussurros seguidos de vários copes de vara que eram diferidos um atrás do outro impiedosamente. Até que os sussurros foram gradativamente se exaurindo, até por fim, perder os sentidos. A mãe de Tininho se escorava na porta soluçando em lagrimas. Então a porta foi aberta, o pai saiu à mãe entrou; com o peito arfante andava de um lado a outro, de vez em quando apertava a cabeça com a mão, irresoluto, voltou-se para o quarto. Trazia agora as sacolas com a palidez de seu semblante, apanhou o litro de álcool e saiu com aquelas sacolas de roupas que deram para seu filho usar. Estando em frente da casa, amontoou as sacolas espargindo álcool sobre elas, meteu a mão no bolso da calça retirando o fósforo, riscou um palito, deixando-o cair sobre as sacolas que rapidamente se afoguearam.
O homem sentou-se no chão, ao lado das chamas, falou, através das chamas: "Tem que ir bem arrumado".
V
Morcegão, como todos os conheciam, era o pai de Tininho. O homem de sentimentos áridos, rude e cheio de desprezo pelos outros. Um sujeito insensato achava que o mundo tinha que se adaptar a ele, e não ele ao mundo, com essa postura que ele permanecia na loja que trabalhava como segurança. Mantinha-se sempre apartado dos outros seguranças, olhos atentos e braços cruzados numa expressão inquebrantável. Ás vezes inopinado conferia um ar traiçoeiro e cruel a todo o semblante. Quando suspeitava de alguma coisa pressurosamente sua face se tornava perniciosa e áspera. Nesse dia era um sábado, a loja estava cheia como de costume, suas antenas rastriadoras pareciam apontar para todas as direções e, num lance em meio aquela agitação de gente, interceptou dois garotos mais ou menos da mesma idade, trajando calças jeans e jaquetas e usavam bonés; procuravam confundir-se em meio às pessoas, com olhos cuidadosos fixavam tudo, num acordo tácito se entreolharam no mesmo desejo. De uma distancia considerada, Morcegão os espreitava, ardiloso para não ser notado. Até que tomaram postura e com movimentos rápidos o primeiro menino que estava diante de uma prateleira de chocolates, ativou, apanhando duas barras de chocolate introduzindo-as por dentro da jaqueta, o segundo, investiu da mesma forma só que mais atrevido, em vez de duas barras aderiu a quatro. Ai, calmamente procuravam a saída. Morcegão, tomando a dianteira, vez um sinal para seu parceiro e foram afunilando a saída dos meninos. Corroborou entre dentes para o parceiro: "Eu pego o da direita". A pressão da circunstancia foi tal que ele não pode deixar os meninos alcançarem a saída foi logo agarrando o que estava mais atrás, enquanto o emburrava para fora articulava as palavras: "safados... pilantras...". O mesmo acontecia com o outro garoto, recluso pelo braço o segurança forçava-o para fora da loja. Desse modo, alcançaram a frente da loja, Morcegão, causticante de assanho com olhar sentencioso disse:
- É injusto acusá-los de capricho. Vamos contar pelo menos dois dedos deles.
Por um instante pensou esbofeteá-los ali mesmo, para resistir á tentação, começou a andar arrastando o garoto até um banco de jardim que tinha em frente à loja. O outro segurança o seguia dando safanões naquele que se mostrava mais resistente. Depois de terem feito os garotos devolvido as barras de chocolate, os forçou a sentarem no banco, Morcegão, tranqüilamente ascendeu um cigarro enquanto observava o olhar assustado dos meninos; cuspiu convergindo um olhar irônico, os lábios franzidos por um leve sorriso de contradição. De tal modo asselvajado começou interrogar os meninos. Cada vez que respondiam Morcegão deferia-lhes uma bofetada de mão aberta. As pessoas que ali passavam estranhavam os atos de selvageria que aqueles homens tratavam os garotos. O que aconteceu diziam entre si. Mas, no fundo vulgar de todas aquelas caras humanas, a figura de Tininho destacava-se, isolado e, contudo, mais longínquo, porque o garoto sentia entre os dois como que vagos abismos. Nesse ponto a policia chegara e entrou na conversa. Puseram-se a conversar sobre o que os garotos haviam feito. Não teriam outra coisa a dizer cogitava Morcegão com o olhar fixo no menino que havia segurado; o lábio agitado com aquela leve contração nervosa esperou a ultima frase ser pronunciada e com escárnio respondendo bem próximo do menino só para que ele escutasse:
"Se te pegar roubando de novo vou matá-lo, certo, fica esperto comigo".
Essas intensificadas emoções de rancor acompanhavam Morcegão desde a infância, acostumado sempre com brutalidade colossais, espírito hostil contra todas as formas de comportamento que não encontrassem aqueles fios de seda entrelaçados nos mais inconscientes níveis do seu id, nele se refletiam de maneira imudável.
VI
Passar-se três meses, e a vida de Tininho seguia passo a passo nunca se obstinando contra as circunstancias. Cada dia que se ia era uma experiência que lhe ensinava verdadeiramente boa e capaz de comunicar a sua determinação.Tinha um sentido, grande pessimista acreditava que sua vida difícil às vezes desabava sobre ele, mas para que ele tivesse tempo de escapar, tinha que ser forte e conhecer ou pelo menos tentar tudo na vida. A necessidade lhe ensinava a suportar sua sorte com coragem e o habito torna-a suportável. Entretanto, Tininho buscava uma superioridade e desprendimento que o fazia não dar um passo tímido ou vacilante: sua fé em si mesmo é tão grande que não hesitava em se dirigir ao encontro de algo mais.
O dia começava a clarear, as luzes das ruas apagavam-se uma á uma. As portas das casas abriam-se como por si mesma, tudo despertava, homens, mulheres e crianças voltavam para a luz do dia novamente. Tininho tinha relógio, mas nem olhou para ele; sabia que era hora de levantar-se. Com seu ar tranqüilo de bom menino, ergueu-se da cama. Lavou o rosto, olhou para o pequeno espelho rachado e sua imagem pareceu sorrir para ele ficou olhando com admiração por um instante contemplando a própria imagem; escovou os dentes e começou a vestir-se. Vestiu novamente a camiseta e calça do dia anterior, mergulhou o braço num cesto de roupas e puxou uma jaqueta. Calmamente foi para o outro aposento. O pai de Tininho estava em pé segurando uma xícara de café, olhou-o um momento em silencio, parecia com o pensamento distante sua feição grave divagavam por terrenos obscuros de sua alma.
"Bom dia pai", disse Tininho desenrolando um pedaço de pão.
Morcegão que se mantinha silencioso, respondeu meio neutralizado:
"Bom dia".
Lá fora um vento Áuster personificava-se com um céu cinzento.
Tininho caminhava com uma mão no bolso da calça enquanto que a outra segurava o caderno da escola. Em um determinado ponto parou e voltou-se para sua casa: pareceu estranho com sua própria atitude um calafrio percorreu toda sua medula espinhal. Examinou toda aquela vila com um olhar absorto em algum pensamento, sentiu reviver os bons momentos que passará com o irmão, como se um cheiro de um determinado instante do tempo tomasse a forma de uma distante alegria. Avançou, então, pela rua até o ponto de ônibus.
Dentro do ônibus, Tininho sentado ao lado da janela observava com sisudez todo aquele trajeto sinuoso que fazia quase todos os dias. Seu estado cogitativo parecia afetado pela simultaneidade dos elementos, elucidava alguma lembrança do passado. Quando o ônibus passou rapidamente embaixo daquele viaduto onde um dia sua família ocupará, embora a celeridade do movimento não lhe desse toda a certeza, que uma outra família ali, habitava. Embora fosse sentimentos interiorizados na simples assimilação dos objetos na medida que Tininho reconstruía neste novo plano o que já fora adquirido, sentia um tipo de condicionamento positivo que ele não entendia ao certo, mas, fazia-o cogitar na busca da identidade: Quem sou eu? Porque estou aqui? Em que acredito? Que tipo de ocupação devo perseguir? Que tipo de vida eu tinha e a que tenho agora? Já algum tempo Tininho começava a lutar com essas questões de identidade nada mais natural para a qualidade pré-consciente que olhava para o mundo com determinismo em que só os fortes alcançam o principio da realidade.
Eram quatro horas da tarde. Na rua, Tininho parou, refletiu um instante. "Devo regressar a agencia às cinco. Dá tempo de colocar o resto dos cartazes". Examinando a tendência dos próprios passos num determinado ponto, ele deu uma ou duas voltas pelas ruas já ensombradas pelo final da tarde e, foliou os cartazes que trazia na mão; os cartazes diziam: "Cuidar do Meio Ambiente dá Lucro". "É melhor que as pessoas entendam isso". Pensou calculando as conseqüências do curso de ação proposta. Assim, pregava um cartaz aqui outro ali, em meio aos transeuntes que não sabiam de sua existência. Ao fixar o último cartaz, friccionou uma mão na outra, arrumou a jaqueta e virou-se na direção da agencia.
Naquele dia, Morcegão, por acaso, encontrava-se nas proximidades, uma causalidade que quase o fez cruzar com Tininho em seu caminho se não fosse um outro carro em sua frente. Se procurava alguém ou apenas vagava pela rua, nunca se soube, mas o fato era que ele estava ali, parado, esperando calmamente que o farol abrisse. No mesmo instante em que passou a mão pela testa notou um garoto entre os carros andando de um lado a outro com ansiosa inquietude. Imediatamente reconheceu o garoto, aquele mesmo que pegara roubando chocolates. Trajava o mesmo vestuário daquele dia com um detalhe, o boné com a frente virada para trás. Rapidamente antes que o sinal abrisse e, já tendo esquadrinhado sua vítima – um carro conduzido por uma senhora –, num gesto traiçoeiro, abalroou-se da sua presa, puxando-lhe o cordão do pescoço.
Morcegão, assistindo aquela cena, entreolhou para os lados, sentiu o coração aumentar o ritmo; acelerava o carro como se pudesse voar por cima, bruscamente tentava sair em perseguição. "Abre logo essa merda!" Dizia enquanto não perdia com o olhar a direção do garoto que já se evadia, correndo pela rua adjacente.Quando o fluxo de carros se dissipou, Morcegão, saiu no encalço do garoto que corria serpenteando entre os carros estacionados. Em um determinado ponto, Morcegão vendo a desvantagem e, que favorecia o garoto tentou a maior aproximação possível, parou o carro, continuando a perseguição correndo atrás daquele que já assumia uma boa vantagem. Mas, determinado, não o perdia de vista.
Nesse entretempo, Tininho colocava os últimos cartazes na mesma rua que seu pai avançava no encalço daquele garoto. Nesse dia Tininho trajava sua roupa de costume, contudo, a similitude da ocasião transformava-o muito parecido com aquele que fugia aterrorizado de seu pai.
Havia nessa rua uma casa de consultoria a qual quando sobrava algum tempo, Tininho entrava para conversa com um colega que ali trabalhava. A casa não tinha muro nem portão na sua frente; era um recinto de forma irregular dividido em varias partes, das quais um corredor comprido onde se fixava uma torneira bem na extremidade. Foi para lá que Tininho encaminhou-se.
Enquanto isso, Morcegão, ainda corria pela rua atrás do garoto, aproximavam-se mais e mais daquela casa. Cada vez que olhava para trás a expressão do garoto perseguido era cada vez mais de terror. Morcegão percebia que sua presa já não podia mais lhe escapar, com um olhar turbulento ocultava em sua cintura um revolver carregado. Assim, desenvolto nada o impedia de correr como fora preciso, segue-lhe as pisadas como um cachorro atrás de um veadinho; pensando em mordê-lo somente.
Na casa, Tininho, lavava suas mãos e o rosto junto à torneira.
Enquanto isso, Morcegão, ainda correndo aproximava-se mais e mais.
Quando terminou, Tininho ergueu-se e, semelhante a algo pré-destinado, puxou a frente do boné para trás.
Até que, de súbito, o garoto que fugia surgiu correndo até esconder-se atrás de um pilar que lhe ocultava todo o corpo.
Tininho que se mantinha de costas para frente da casa, nem percebeu a entrada do garoto. Virou-se, balançando as mãos para secarem, e foi calmamente saindo, quando quase no meio do corredor, percebeu que havia esquecido o tubo de cola junto à torneira. Volta-se, correndo para apanhá-lo. Ai! Que desgraça atingiu aquele lugar.
Naquele instantâneo momento, Morcegão, com o revolver em punho, surgiu na entrada da casa vencido pelo cansaço, vendo aquele menino correndo, e, com possibilidades de se evadir – assim cogitando, apontou a amar para as costas do menino e, disparou um tiro certeiro que atingiu as costas saindo na caixa do peito onde oferece fácil entrada aos assaltos da morte. O menino cambaleou para frente, caindo de bruços.
Tal como duas fogueiras acessas seu olhar e respiração anelante, foi se aproximando com a arma na mão.
O menino que se encontrava atrás do pilar, imóvel até então, com o semblante aterrorizado, fugiu desesperado para a rua quando Morcegão passou junto a ele. Morcegão vendo aquilo ficou pasmado. Arrepio-lhe as raízes do cabelo, seu rosto assumiu uma perplexidade atroz. Atônito foi se aproximando do menino caído, até introduzir-lhe por baixo do peito o pé, virando-o de frente. Ao perceber Tininho com o rosto desfalecido, de súbito, parecia que ia perder a consciência. Depois, de maneira extremamente inopinado, o pensamento, e um trêmulo terror – um esforço enorme para compreender o que havia acontecido. Aquela visão turva-lhe os olhos até então brilhantes, dos braços sem força a arma lhe escapa, abaixando-se com a mão segura Tininho, ensangüentado, Morcegão ergueu-o do chão, lutou para estancar o segue, gritou-lhe que vivesse, que o não o deixasse assim, recriminando-se de sua morte. Tininho entreabriu os olhos e conseguiu murmurar estas palavras, "Pai eu ainda não sou forte", seu olhar desliza sem resistência, aos pouquinhos a vida dos membros lhe ecoa. Com o próprio peso da morte a cabeça dobrou para o lado, lânguida e inerte. Foge-lhe a vida.
"Tininho, Tininho, dizia a tremer convulsivamente, Tininho não morra, não, Tininho, eu matei meu filho, eu matei meu filho".
Nesse momento, como se já não enxergasse mais nada, procura com uma das mãos arma e, encontra-a caída ao lado do filho morto; ergue-se lentamente proferindo as palavras: "Me perdoa, me perdoa meu filho", no mesmo instante com um olhar parado, apontou a amar para sua cabeça e, disparou e quedou-se, acolhendo-se ao reino das sombras. Quando o eco silencia, deixou apenas um medonho silencio ao lado dos dois corpos estendidos.
Se a vida é uma luta pela existência na qual os mais capazes sobrevivem, então a luta é a virtude máxima, e a fraqueza o único defeito.
As Irmãs Ratazanas
I
O caminho se estendia clausulado por crisântemos dando um fluxo de expressionismo tomando direção insolúvel. Não nos dava certeza sensível nem de passado nem de futuro, mas, espera ai! O desaparecimento do agora a certeza parece se encontrar no oposto do que está ali, ou seja, no saber, que anteriormente era. A certeza sensível foi, portanto, nos arrastando para algum lugar do passado. A indicação daquele caminho era um movimento que tinha em si diversos momentos, apresentava-se para um agora que é noite ou um Eu para o qual é noite, vinha ao nosso encontro.
Logo que surgiu a madrugada, Bóreas, levantou-se com aspecto nefasto fazendo ramalhar as copas pontiagudas dos pinheiros. O nosso ponto de partida era o tempo de Moisés ben Shem Tov, de León. Numa aldeia as margens da Francônia, onde o homem, dilacerado por conflitos tantos sociais como pessoal perseguido por duvidas e incerteza tentava a compreensão de Deus, dos mistérios do universo e do seu destino. O populacho não podia entender os filósofos quando estes falavam do único Ser supremo; o sacerdote tinha tanto que ver com os deveres morais, como um juiz de defuntos e ausentes. Assim, naquele dia primeiro de janeiro a regularidade dramática dos céus dava ao homem a noção de uma ordem exterior que garantia e satisfazia sua intima satisfação à ordem. Foi, então, diante de uma catedral gótica, com suas vistas voltadas para a Eternidade, que um clérigo queimava o Livro do esplendor; o Sefer ha-zohar.
"Queimem, Queimem, Queimem as bruxas", vociferava a multidão exaltada diante daquele espetáculo, às tochas faziam jorrar um clarão refletindo o dogma nas paredes da audaciosa construção. A catedral era uma imagem da sociedade medieval como um todo e a expressão de sua vitalidade máxima. Em verdade, era diante desse monumento que giravam os atos e cerimônias da vida. Numa espécie de fantasmagoria coreográfica ensandecida a multidão começou espalhar-se como em busca de uma barra magnética a fim de aumentar a tensão da corrente do viver cotidiano.
Saíram para a floresta.
Em pouco tempo um turbilhão de homens e mulheres de grosseiros barretes de pele e grosseiros trapos de pele, com machados e lanças formavam fileiras ao longo de uma vereda que começa plana e depois descia. Acolhe-os um bosque de altas coníferas.
Bem no fim de uma dessas veredas, dissimulada por pinheiros sombrios, de troncos gigantescos e bem proporcionados, via-se a casa de madeira com se tivesse arraigada obliquamente a uma espécie de réprobos que foram transformados em árvores, estrangulados pelo enroscar-se indiferente de um cipó; uma solidão cheia de rumores pairava sobre esse sitio isolado. Dentro da casa junto ao arcobotante e a janela de vidro se debruçava a carranca da Sra. Galmam – a mulher tinha as bochechas caídas e o nariz muito pontudo – com um olhar insultante e desprezo as provas a que são submetidos os sentimentos humanos disse, "Malditos, malditos espíritos invejosos das profundezas da terra".
Havia um garoto pequeno mantendo da parede e a janela onde sua mãe estava uma distância tão pequena quanto a existente entre seu olho direito e esquerdo, seu olhar fixo expressava a algo de terrível; a senhora Galmam meditando passeia para cá e para lá, depois volta-se para o menino.
"Venha, anunciou à senhora Galmam, examinando tudo em volta, puxa o horrendo menino pelo braço até o um quarto pequeno quadrangular, surgia agora, uma evidente aproximação de tumultuosos gritos, que a encheram de terror, a senhora Galmam faz um gesto na direção de uma pequena porta que se acha na extremidade do paralelogramo e se abre para o soalho, fuja, fuja meu filho, eles vão queimar tudo".
Obriga o menino a entrar.
"Mas mãe", insistia o garoto com os olhos perturbados.
"Não há mais tempo, fuja e dê continuidade a nossa existência... vá .... agora".
Como um vapor o garoto sumiu, valendo-se das chances de escapar, que, no instante seguinte, alcançava pelo recesso do bosque.
A bruxa volta para o quarto de paredes e teto ornados com os mais singulares objetos de bruxaria; põe-se no meio de um circulo declamando com grande ênfase:
Deves entender!
De 32 fazer!
E os 22 deixar!
Guematria, me guia;
Temurah, futuras.
Em seguida a bruxa começa a rir desmedidamente. "- Hah, hah, hah, porque vindes senhores sem avisares!".
Ao chegar, então, uns trinta indivíduos começaram bradar: "Venha para fora bruxa, sai, sai, sai", insistiam com severidade, até que, de súbito, a porta foi desmontada com um forte golpe de machado.
Com uma careta senil diante de um espelho rachado à senhora Galmam foi arrancada para fora com as mãos amarradas. A multidão urrava de prazer. Seus olhos pareciam presenciar espectros, sem duvida, bem reais; imaginava que tudo aquilo eram as projeções de suas almas torturadas. Faz um gesto indecente, não recua diante da euforia que se apossava do povo, rosna se agitado ameaçadora. Os croques traziam levantados e três gritavam: "Quer que a fisguemos pela garganta". Seu pensamento se consolava: "Vos não terdes nenhum pressentimento das terríveis transformações reservadas para breve".
A noite avançava. As árvores que cercavam a velha casa se curvavam e gemiam lugubremente sob o vento, e flocos de neve começavam a cair. Rapidamente, porém, a casa começou a fazer-se estranhamente visível por alguma luz própria, como se seu interior estivasse tornando luminoso. Então, um raio tremeluziu na fachada, realçando áreas translúcidas. E num instante de todos os lados, portas e janelas brotavam chamas bruxuleantes. A casa ardeu. As árvores mais próximas, capturadas pelo fogo, se chamuscavam e encolhiam.
Na aldeia de Würzburg, para onde levavam a bruxa, havia muitas casas. À medida que o cortejo avançava pela rua, janelas e portas eram abertas e, apareciam semblantes mostrando indignação. A bruxa vinha com uma corda amarrada-lhe ao ventre, enrolada no xale até a cabeça, de modo que só seus olhos estavam visíveis, altiva, adiantava-se aos demais e, esbugalhando os olhos, de onde irrompia injurias. Bradava a multidão erguendo os cotos no ar sinistro: "Chamas e labaredas para a bruxa".
Antes de chegarem ao lugar derradeiro asseguram-se de que não havia desonra no destino que há aguardava, puseram-na dentro de um cesto. "Queime-a! Queime-a! Insistia o povo". A senhora Galmam seguia indiferente e o clamor do povo servia-lhe de consolo, e o céu que lho cercava, exibindo belezas eternas, seu olhar a frente fixam, no Bahir (claro, brilhante) que a tudo assiste. Era como a carregasse num trono o equilíbrio e a harmonia do universo restaurava seu tzimtzum: "Insaciáveis criaturas imaginado desde que o fogo surgiu após a tempestade, que aquela coisa saltando, quente, brilhante, amarela e vermelha, viesse-lhes saciar a vontade, com aquele odor especial. Uma dádiva, tikun, que o homem capturara e agora a alimentava lentamente para que não morresse de fome".
Á medida que o préstito aproxima-se da baliza, parecem deixar seus rastros faiscantes e tortuosos entre o populacho ao longo da rua. Estria de rostos é arremetida de um lado e de outro, e as faíscas seguem em frente. A passagem da bruxa, aqueles que há via mostrava-se turbado, seja qual for à desgraça mencionada.
Atrás do séqüito já algum tempo caminhava um garoto escabroso de olhos sobressaltados, com trajo remanescente dos séculos trevosos; ora olhava para o rosto da sentenciada, ora olhava aparvalhado para o rosto daquelas pessoas, sem a menor tentativa de acolhimento ou explicação, ele, a principio tentava uma maior aproximação, confuso e indeciso; mas, gradativamente, a impressão de que a mãe deveria sofrer algum dano pessoal penetrou-lhe o espírito parcialmente desenvolvido e, imaginando ser o clérigo que se mantinha à frente do cortejo o agressor, soltou uma espécie de uivo espantoso e quase sobrenatural e, precipitando-se com a cabeça para frente, começou a investir contra aqueles que se achavam a sua frente.
"Mãe, mãe", gritava com violência e paixão.
"Tirem o desgraçadinho daqui, berrou uma voz, ele está louco".
E o povo continuava a clamar: "Queime-a, para o inferno com a bruxa", O rosto da Sra. Galmam por um momento se volta para seu filho. A senhora Galmam então avista seu filho, fita-o atentamente e segue seu caminho. O sulco aberto entre o populacho faz uma curva para alcançar a praça onde se realizara o inevitável. As estrias arremessadas de um lado e de outro agora desmoronam e se fecham atrás do cortejo, pois, estão se dirigindo para a pilastra, em frente a ela, o povo reunia-se.
A Sra. Galmam é amarrada à pilastra com os braços estendidos para cima. Em seguida empilham feixes de lenha ao seu redor. O povo se agita ainda mais, bradando: "Queimei-a". Nesse momento o clérigo se aproxima, cogitativo, ergue a mão para a multidão, exclamando: "Acalmem-se". O povo diminui rapidamente o rumor, então com uma voz grave e acentuada inicia o auto-de-fé.
"Sra. Galmam, acusaram-na de alimentar sentimentos errôneos quanto a previsões incabíveis de como julgar a morte, de bruxaria, de induzir as pessoas a usarem plantas alucinógenas e mui outros malefícios que não vejo necessidade de citá-los, vejo-vos, minha senhora, na condição de condenar-vos a ser queimada a fogo lento, tendes algo a dizer".
"Quanto mais constante são, replicou à senhora Galmam, fitando para a multidão como se procurasse algo, em vos manter minha fé, tanto mais sem compaixão por me dar maior paixão vossos bem contra mim é, de soverano poder, vós que podeis me salvai, ou por menos mal sofrer, pois me não querês valer sem dilatar me matai".
Naquele instante, a sua expressão e sublime vontade do pensamento, era assim: "Não fique tristes meu filho, ja nam ha quem me console neste mundo, entam lembre como se deve d´haver a transmigração da alma".
"Eis minha senhora, concluiu o clérigo, fazendo o sinal da cruz na direção da sentenciada, descansa, triste, descansa, que seus males sam vinganças, pois, vossos olhos ja veras Scarmiglione e Calcabrina... Deus omnia facit propter finem".
O filho da senhora Galmam, em meio àquele povo, tentava aproximar-se se espremendo entre a força daqueles corpos – hábeis no manejo de armas eram altos, de cabelos louros e fartos, e olhos azuis.Caçadores, agricultores e pastores seminômades.
Eis um ato de bom grado que imitaria e muito louvo o sábio partido que tomou um velho prelado, vendo a aflição do garoto em tentar chegar mais perto de sua mãe, interveio, segurando-lhe pelo braço:
"Pois sabeis que nada poderás fazer, acalma-te".
"Usai mais de piedade que de rigor nem vontade, havei doo, senhor, de mim, nam me deis tam triste fim, por que ela deva de morrer", dizia o menino debatendo-se.
"É melhor não vos ver como vingou a morte que lh`ordenaram, pois por bem se dam tais grados, venha".
Dito isso o velho tomou o menino nos braços e tirou-o dali.
Tão logo foi ateada a fogueira, começou a ouvirem-se prantos, lamentos, gritos de dor desesperados que logo uns poucos se confrangem com a visão de atrozes padecimentos. Muitos olhos fitaram-lhe longamente sem falar. As chamas ilustravam os semblantes daqueles que traziam estampado na alma o rancor, que agora supunham a bruxa habitar as profundezas do inferno; e, uma fina neve caia do céu escuro, mas não o suficiente para abrandar o fogo impetuoso que ardia ainda mais violento. Quando cessou aqueles terríveis brados e a hegemonia das chamas adornava toda a pilastra, aquela gente que ali estavam, pouco a pouco, um a um iam deixando aquele espetáculo. Agora já não havia mais alvoroço, ouvia-se apenas o crepitar das chamas que consumia toda a matéria e a alma como contra peso. E eis que aquele fogo com sua ira voraz durou longo tempo. Depois a fogueira ficou ali, abandonada sob o melancólico destino e suas direções contrarias que harmonizam os seres – a existência de uma alma coletiva dá a cada homem uma relação indissolúvel de causa-efeito com todos os homens. Seus pecados e seus méritos se refletirão no destino de todos; da terra viemos e dela tornaremos. O fogo como elemento de todas as coisas permuta do fogo. Nascemos do fogo e de novo somos por fogo consumido, em períodos determinados por toda a eternidade. "Dibuk! Dibuk"! Parecia falar o vento.
Na manhã seguinte, eis, que restava apenas cinzas e uma tênue fumaça que emanava dos restos da fogueira, ora para cima, ora para baixo misturando-se ao que envolve o mundo, e desta vão se formando outras coisas – é como se as almas fossem impelidas pelo mundo, levadas pelos ventos enigmáticos que as conduz a territórios distantes, pois justamente ele é a essência, e a partir dele começa uma nova existência. Ele necessariamente depara com seu limite; assim, encontra sua cruz novamente no ar.
II
Supunham-se os que merecem aprovação dos deuses alojam-se no céu do lado nascente; os amaldiçoados do lado poente.
Aqueles ventos migrados, vindo do lado poente, debatendo-se ao longo de uma quantidade de elementos comuns que se encontra nos corpos e dão uma existência invisível – as posições que ocupam e os movimentos que uns dos outros recebe ele só encontram um principio que lhe garanta uma ordem no mundo inteiramente diferente; mas, que em nada o impede de atingir o ponto aonde foi arremessado, ai, será que prossegue sua existência como o ladrão do fogo celestial resistirás sem medo e compartilharás com o imortal o abutre e o rochedo?
Transportemo-nos de cena, estamos agora no século XX, numa tranqüila cidade da América do Sul. Existe na rua principal dessa cidade, um ponto singular onde há um antigo casarão de cor cinza desbotado pelo tempo. Naquele dia a luz do sol como um jato atingia aquela casa; por uma pequena cavidade do telhado passava a luz, fornecendo uma força efetiva para o interior da casa se expandido assim, forçando a luz em cada ponto encontrar as idas e vindas até atingir uma espécie de modulador de freqüência – uma taça de cristal que se encontrava numa bandeja de prata: reflexo exato do mundo exterior imagens obscuras de tumba e de tempos soterrados, que, todavia expressavam uma ligação piedosamente mantida entre o presente – e o reflexo daquele divisor de feixe atingiram olhos que se abriam, não só para a cor, senão para a luz; como o despertar de um sonho absorvente.
Era uma casa com vários aposentos construída na estética barroca. Na frente havia um cômodo amplo que era ocupado enquanto solicitações alheias não o despojavam um bojudo português que mantinha sua bodega. Os outros cômodos subseqüentes eram ocupados por sucessivos hóspedes que ali ficavam por algum tempo. Essa casa fica numa esquina, fazendo a intersecção entre dois caminhos ladeados de casas e muros, o principal fica em sentido horizontal ligando o sul à direção norte, o outro adjacente insinua-se numa depressão fazendo um declive bem elevado; dessa forma o fundo da velha casa acompanhando o alinhamento do terreno se faz com ajuda de colunas de prumo, onde, importa, portanto, buscar a posição de nível. Construído com esse método permiti fixar um amplo porão anexado a um nicho acompanhado de uma escada que repousa em consolos. Toda a construção mostra uma decrepitude pelo tempo, mas, à parte de trás, põe-se em piores condições, pedaços de reboque desprendem-se da parede despontada mostrando a base dos tijolos encaixados. Uma porta de madeira meio apodrentada pelo tempo, como se fosse assinalada a ferro em brasa bem no centro imprimiam-se as palavras: tikun.
Ali viviam duas almas enclausuradas que descendiam de uma raça que se distinguia, em todos os tempos, pelos seus pecados e seus méritos se refletirem no destino de todos. Naquele instante o sol derramava seus raios esmaltando a velha porta. A porta abriu-se como um sepulcro, e um rosto senil de mulher apareceu com olhar prestidigitador; bem abaixo dele, surgiu um outro semblante, e havia entre eles uma extraordinária semelhança: a mesma cor do cabelo, a mesma aparência, a mesma voz e (até onde podíamos ver) a mesma estatura.
"Oh, Oh, Que sol forte", disse a primeira fisionomia de maneira pungente.
"Ah, vão sair é...", inquiriu uma delas, olhando para baixo rente a porta.
E por entre a porta que se mantinha entreaberta, surgiu próximo ao batente um rato de bom tamanho, e logo atrás outro, e em seguida outro ainda maior.
"Olhem, cuidado, cuidado que o gato do senhor Manuel está por ai", advertiu a primeira, falando com apreço para os roedores.
Os traços físicos e os gestos das duas irmãs eram tão idênticos que era fácil de perceber que eram gêmeas. Com delicadeza, e uma voz inócua a segunda interveio:
"O Fusco está com o pelo liso, bonito, o Cebinho parece-me que está caindo o pelo, a Claudete, ah, essa sim sempre linda e preguiçosa".
Aqueles semblantes assustadores referiam-se com peculiar familiaridade aos roedores como se tratassem de fatos de bichos de estimação.
Essas duas singulares criaturas tratavam-se das irmãs Galmam. Era a procedência de uma estirpe que se ramificou, avançando nos séculos, com um caráter absoluto que desenvolvia uma força como o joio, que queimado, ressurgi mais viçoso, tornando-se, por varias razões, uma causa de seria inquietação para aqueles que estão a sua volta. As irmãs ratazanas, como eram conhecidas nos arredores. Tinham hábitos e costumes muito incomuns. Vamos agora penetrar um pouco nesse conjunto de preceitos e especulações místico-esotéricas. Não há quem não se surpreenda e se admire com a Sra. Alda e a senhora Aldete Galmam e as considere alienadas porque não vivem como deveriam viver as senhoras de suas idades e não tem boas maneiras, são obstinadas diríamos, assim, por uma mania perturbadora de suas vontades.
Ademais, dispunha-se a coletar todo tipo de bugigangas, tais como papel, papelão, jornais, garrafas de plástico e um monte de roupas usadas espalhadas por todos os lados. Na cozinha sobre uma lareira baixa, uma panela grande ao lume. No vapor que dela sobe aparecem imagens de um caleidoscópio muti-colorido; havia também um fogão velho de ferro enegrecido, panelas pretas engorduradas, outras penduradas num arame que se prendia as paredes; teias de aranha que se formam no forro e nos cantos descendo fazendo um emaranhado por todos os lados. Tudo acompanhado de um ar rarefeito, impregnado por um cheiro de mofo insuportável. Esse odor porfioso causa, portanto, uma lividez constante no semblante das irmãs Galmam. No aposento continuo paredes e teto é ornados com os mais singulares objetos de bruxaria, bem ao centro fica um grande caldeirão com quatro ou cinco espelhos arranjados ao acaso a sua volta, um candelabro, suportando uma pequena lâmpada antiga, com azeite perfumado, ergue-se perto da cabeça de um grande bode adormecido. Em uma mesa na oura extremidade, vários crânios humanos permanecem iluminados por uma luz vacilante. Todo dia por volta da nona letra as irmãs Galmam atiçam seu caldeirão e com muita cerimônia, traz uma bebida na taça de cristal e bebem alternadamente; começam os vidros a tinir, o caldeirão a soar, e fazem como uma música manipulando as palavras por anagramas; levanta-se uma labareda que sobe pela chaminé. Um grande morcego desce por entre as chamas, revoluto, debateu-se até achar um canto mais escuro.
"Ah, chouriço, maldito, praguejou à senhora Aldete, um dia ainda eu te fervo vivo", e desatou num risinho putativo.
"Au, au, au, au, resmungou a senhora Alda, meio curvada, remelenta e desdentada pelo tempo, aproximando-se de uma velha cadeira, au, minha perna está doendo muito hoje... au maldita...., senta-se com um baque, au, au...".
"Senta um pouco diabo, aconselhou a outra, remexendo a espumadeira na panela, o chouriço volta a revoar, maldito bicho, com a espumadeira em vão tenta acertar-lhe uns golpes, eu falo para não abusar, é teimosa como uma porca endiabrada, senta... senta, maldito, monstro horrendo".
Enquanto isso a senhora Aldete mantinha-se com o corpo torvo, considerando as circunstancias em que a mistura dissolvia-se ao fogo.
"Ora dizei-me cá, que tal darmos um outro passeio lá para aquelas bandas, anunciou à senhora Alda, fazendo um gesto com os olhos para a direção desejada que era o velho cemitério da cidade, e tenho esperança que minha perna melhore até lá, é mister um outro crânio, a propósito veio-me à memória o caso daquele escultor antigo,lembra-te Aldete, aquele, que no sacrifício de esculpir a bela imagem no topo da igreja e que antes de acabar sua arte, caiu levando-o a morte, só de pensar sinto corre o corpo um calafrio..., sempre quis ter um crânio de um escultor, já temos de um escritor, um músico, um pintor e agora..., expressava, apavorante, enquanto que com o dedo conta os crânios sobre a mesa, já a esperança me chega, no sexto dia logo que o sol comece a lançar seus raios sobre a Terra, ele estará aqui".
E, se impulsionaram num riso sarcástico.
As irmãs ratazanas viviam assim, a par de seus arroubos místicos, vontades macabras onde julgavam ver e ouvir o murmúrio das almas e a linguagem do espírito. Longe do movimento da cidade, isoladas na contemplação das forças naturais nas subterrâneas onde as paredes do aposento chamava-se Elvidner. Durante o dia era rara as vezes que se afastavam e quando sim não mais que uns cinqüenta metros, a luz do sol as incomodava, mas, de noite, quando todos dormem, ambas a faces se via através de passagens escuras e íngremes, num silencio absoluto até atingirem as tristonhas regiões do mundo inferior.
Esse casarão de estilo barroco pertencia às irmãs ratazanas, embora dispusessem de vários cômodos os porões eram o seu lugar favorito; o isolamento acústico da velha construção muito embora não sendo o ideal, oferecia o conforto necessário dos locais e principalmente deve protegê-los contra ruídos aéreos. Elas eram muito cuidadosas ao calcular suas contas a cada trimestre; o que faziam para que pudessem gastar nem mais nem menos do que aquilo que tinham de gastar a cada ano. Com os modestos aluguéis que recebiam do português e dos outros inquilinos, viviam sem se preocupar com o resto da vida. Embora às vezes eram mesquinhas, abruptas com os inquilinos. Desde muito cedo que a mente das irmãs Galmam eram preenchidas com formações de magia, feitiçaria, era como uma maldição que seguia sua odisséia pelos séculos dos séculos. Esse movimento seguia como uma corrente; uma, ao longo do Danúbio e do Reno e dali, mais tarde, para a Polônia e a Rússia; a outra, para Espanha e Portugal e, finalmente o Brasil. Essa ramificação aceitava alternativas das mais árdua possível e corriam os olhos a sua volta a procura de um lugar de refúgio. Essa atitude negativa de levar uma vida espiritual dentro das doutrinas cristãs, a muito as abandonava. Em vez da bíblia, preferiam os comentários da filosofia mística de Ibngebirol e as complicações cabalísticas de Moisés de Córdoba.
Foi com esses antecedentes mentais perturbados que logo na adolescência as irmãs Galmam foram chamadas à presença dos veteranos das ordens sacras sob acusação de se oporem aos dogmas da igreja. "Era verdade, perguntaram-lhes, vos estão a dizer a amigas da comunidade que Deus é um ser alienígena e que viajando de uma região distante do universo, e, chegando a um sistema solar insípido, criou formas de vida indignas de viverem com os mais civilizados dos autóctones e, que o mundo é uma coincidência não merecida para uma raça de animais, de todo em conviver insólitos e muito lúgubres por conselhos de ódio, que lhes forjou a geração".
Não sabemos o que elas responderam, sabemos apenas, que foram excomungadas com todas as lúgubres formalidades do ritual cristão.
III
Diante dos olhos da senhora Aldete Galmam, sentada em sua cadeira de profanos adereços, no quarto ao lado grande caldeirão, fazia um colóquio com seu domesticado rato. Quem presenciasse á essa adesão tão familiar naquele singular aposento, com certeza ficaria admirado, embasbacado com a intimidade que aquela criatura tratava o roedor. A senhora Aldete Galmam falava, gesticulava e o bicho sobre a mesa, parecia entender a razão de cada palavra, retorcia-se, permanecia aprumado sob as patinhas traseira em sinal de reverencia, bem como outras expressões do olhar despertavam curiosidade. Fusco, era o rato mais velho dos três, com o qual a senhora Aldete se dispunha a ater os mais diversos pontos de vista. Só ela o alimentava, e ele a seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que lhe acompanhasse pela rua. "Eu falo não ante tanto, mas, é teimosa Fusco, parece uma mula empacada". Dizia ela, desse modo, gesticulando as maneiras de sua irmã, e a concórdia entre elas era nela exemplar. O rato fazia um som de frenesi e só se acalmava quando a senhora Aldete dava-lhe um pedacinho de queijo.
Na cozinha, a senhora Alda mexia-se em meio aquela desordem de papeis, caixas e embrulhos; mastigando um pedaço de pão, examinava dois bules de café pendurados num barbante.Tendo escolhido um alçou a mão em sua direção quando subitamente se espantou com o voejar do morcego Chouriço que dormia dentro do bule. "- Maldito animal, chupador de sangue endiabrado". Tentou ainda impingir-lhe um golpe com o bule; após alguns desorientados esforços para voltar a dormir, o morcego, finalmente enfio-se atrás de um armário.
Assim, transcorria o tempo no lar das irmãs ratazanas, mas, o que era o tempo para elas? O passado como um sonho fanado; o presente, um pesadelo; o futuro, uma ilusão dourada? Não era essa atmosfera subjetiva que se formava na personalidade das irmãs ratazanas. Entendiam que o tempo tem a distinção entre a eternidade e a duração. O tempo como um modo de pensar para explicar a duração uma essência que se arrastava por milênios e iluminava suas vidas por um misticismo exacerbado e, a felicidade para elas era sentir que essa essência mantinha-se nelas sua integridade; havia sim uma corrupção nas coisas, não uma corrupção absoluta, mas uma corrupção que envolve simultaneamente uma geração subseqüente. E, estimulada por sua concepção era assim, que a senhora Alda se assentava diante dos retratos de seus antepassados; a memória coisa interessante pensava em suas divagações: de onde viemos? que somos? para onde vamos? Era uma seqüência de nove gerações dos mais perversos aos mais enigmáticos aspectos. Como cenas isoladas de um passado, um presente individual de consciências que antecipava o futuro; espíritos tão atormentados a ponto de romper o fio da memória eram, portanto, igualáveis em verdade a pessoas reais. Essa visão comovia os vários conceitos da senhora Alda, que exortou o pai a cumprir o seu primeiro dever e lhe resguardava receosa da idêntica condenação. A sua própria natureza fornecia-lhe exemplos de misteriosa relação entre o que não mais existe e o que vive ainda. Olhava para o retrato de seu pai como se ele ainda estivesse em vida, falava com ele e na sua imaginação fantasmagórica imprimiam-se as feições temerosas de que a ira demoníaca despertada pela não observância dos deveres que a ela incumbiu. "Subitamente o retrato pareceu assumir formas distintas, agora ele olhava para sua filha de maneira divergente. Pareceu sentir repúdio daquela moldura empoeirada; contraiu um aspecto desdenhoso e, numa expressão eficaz, assoprou de maneira atenuante o pó". A senhora Alda ficou atônita – no mesmo instante levantou-se procurando um espanador para limpar o retrato. "- Não é culpa minha papai! A Detinha é muito descuidada! Ela não imagina o que a espera além do extremo da ponte"!
Quando se pôs de novo diante do retrato, este parecia ter assumido sua forma habitual. A senhora Alda, por um instante ficou parada com uma sisudez correspondente a execução daqueles gestos que pasmaria o mais louco de todos os homens.
"O que é que estas resmungando", interpelou a senhora Aldete aproximando-se junto à senhora Alda, esta exclamou apontando para o retrato do pai.
"Mas como o retrato do papai estava empoeirado,ele parecia querer me dizer algo, disse admirativa procurando extrair significado ocultos, desculpe, papaizinho, não tive a intenção".
Enquanto pronunciava estas palavras, com as mãos acariciava-o e o velho retrato parecia impassível a àqueles gestos.
"Ser-me-ia agradável ver o papai ainda em vida e na plena posse de suas faculdades", manifestou a senhora Aldete, se sentado para o chá.
"Aldete, expressou à senhora Alda, penetrante, sentando-se ao lado da irmã, tudo me leva a crer que a morte não é o fim último, agora mesmo tive uma sensação maravilhosa, fiquei terrificante. Estava ali sentada, olhando para o retrato do papai e, num momento ele pareceu ter modificado, percebi seu semblante assumir um desânimo, depois como se quisesse proferir algo, aquela mesma expressão de quando queria-nos prevenir de algo".
"Então, se nos deseja dizer alguma coisa que diga logo, disse a senhora Aldete pragmática olhando para o retrato, enquanto que esse parecia coberto com o mesmo desalento de antes, ah, tanto que gostaria de perguntar-lhe se é feliz depois de morto, indagar-lhe sobre as dez esferas sefirot, penso que sua intenção seja mais profunda e tenha querido dizer, com isso, que esta entre nós e a morte, como será nossa morte, quando será, de que forma, é o dia principal, o dia que se valoriza a todos. Derrubar num instante o que levou longos anos para edificar, por isso que a admiro, o que me permite viver sem preocupação com a existência".
A senhora Aldete era das irmãs a mais preponderante as reflexões cabalísticas, passava às vezes horas praticando o tzimtzum, nesses momentos de profunda concentração podia-se ouvir as palavras shevirat, hakelim e kelipot em tom compacto que, sob a ardência das chamas, avançava cada vez mais num nível de articulação fônico onde as silabas e vocábulos atingiam proposições num plano descritivo, narrativo e dedutivo de seus pensamentos. Em um determinado momento seu semblante assumiu uma serenidade e com os olhos bem abertos repete as palavras: partzufim, tikun, guilgul por varias vezes.
Mas, passemos a frente; era sexta-feira, noite escura, as irmãs ratazanas se preparavam com entusiasmo para mais um de seus estranhos propósitos. Nessas ocasiões a maneira em que se vestiam não era muito diferente a de uma rã que muda de cor para que a cobra não a veja. Seus objetos de busca e de suas incansáveis animosidades extremamente incomuns repousavam como que num quadro gótico, onde a idéia, realizada em conformidade com seu conceito, constitui o ideal; e, se pode dizer absolutamente que aqueles dois vultos se movendo na penumbra do aposento, onde a pouca mistura da luz, dava a matiz da sombra a determinação como que uma ponte para chegar à representação, à manifestação exterior de suas idéias. O que de fato se revelava, era uma grande ansiedade afetuada no seio de seus espíritos. Tal evolução se estendeu até as onze horas em ponto, quando ecoou duas batidas bem distintas na velha porta das irmãs Galmam. Aquele som parece ter reanimando as irmãs que se mantinham apreensivas diante do caldeirão encantado.
"Ouça, é ele", anunciou a senhora Aldete sequiosa.
"Vá logo atender", ordenou a outra mexendo a substância no caldeirão.
Ao abrir a porta à senhora Aldete saudou um homem de aspecto muito estranho.
"Boa noite senhor Sepulcro, disse a senhora Aldete cumprimentando o estranho homem e, ao mesmo tempo considera o aspecto sinistro do céu, que noite não, vamos entre, tudo parece tão escuro e solene... vai ficar ai parado com essa cara de corvo, vamos entre logo".
O sujeito com aspecto grave entrou fazendo um sinal de acolhimento com a cabeça. Era um homem de cerca de quarenta anos, alto macilento, mantinha uma postura muito ereta, vestia uma casaca preta de aba comprida de casimira macia, com ar macabro e um rosto que parecia uma perfeita mascara, é que determinava aquela atitude austera e tesa, com o queixo escorado pelo nó da gravata. Uma face coberta por uma barba mediana com traços e métodos delineados e uma expressão como que efêmero, cuja vida não fora se não um amontoado de abominações e infâmias que já tivera uma morte até decente e tal que em nenhuma circunstância se poderia querer melhor. A fronte amplamente calva, o cabelo negro sobressai-se puxados para trás formando uma espécie de "V" na testa. Trazia consigo um pequeno cesto de vime, o qual mantinha suspenso em perfeito equilíbrio.
"Voz messe trousse o que pedimos", indagou a senhora Aldete, friccionando as mãos sedentas, sem tirar os olhos do cesto.
"Oh, como não, mesmo que quase tenha quebrado o pescoço, aqui estas", respondeu o senhor sepulcro com uma voz cavernosa entregando o cesto nas mãos da senhora Aldete.
"Oh, Oh, muito bem, muito bem senhor Sepulcro, reverenciou a senhora Aldete segurando o cesto com consideração, venha, venha para cá".
Ao pronunciar tais palavras, a senhora Aldete conduziu-o para o outro aposento.
"Ah, como sempre pontual senhor Sepulcro", disse a senhora Alda estendendo-lhe a mão.
O senhor Sepulcro faz um gesto, pega-lhe na mão, mas, desiste de beijá-la. Examina tudo em volta.
"Como têm passado o senhor", continuou à senhora Alda com certa consideração.
Os três, agora, achavam-se junto do caldeirão.
"Tenho tentado arranjar consolo para mim e para os outros", proferiu o senhor Sepulcro com os olhos fixos no lume, quero fortalecer-me contra o tremor da morte".
"Orgulhai-vos de vossa nobreza por terdes, para mostrar que não há nada de selvagem em sua alma, mas então, meu caro senhor", inquiriu a senhora Alda, depois de tê-lo contemplado como os raios rubros do sol.
"Está tudo ai, os sapos e os olhos de Tristão, respondeu o senhor Sepulcro, esse último foi-me extremamente penoso encontrá-lo, tive de viajar para muito longe, e... bem ... esta tudo ai".
"Ah, muito bem, acatou a senhora Alda, admita que serás muito bem recompensado".
A partir daí retomaram seus modos mais acolhedores. O senhor Sepulcro puxou uma cadeira para junto dos troncos crepitantes, e esperou pacientemente a hora de saírem. Durante alguns minutos, sem se mexerem do lugar, as irmãs Galmam continuaram a examinar com curiosidade o que havia dentro do cesto. Por fim, pareceram concordar, a senhora Alda pegara na parede um molho de chave, abria então o armário, de cujo interior emanava um aroma singularmente misterioso. Ali guardou o cesto cuidadosamente. Depois, apanhou um cálice de cristal e uma garrafa de vinho e serviu ao senhor Sepulcro. O cálice fora enchido até a borda que, o senhor Sepulcro bebeu tudo em dois longos goles, repetindo mais duas vezes, num gesto de profunda satisfação acompanhado um soluço.
Às onze horas, se puseram a caminho. A senhora Aldete, a senhora Alda e o senhor Sepulcro. O senhor Sepulcro pôs a pá sobre o ombro, ascendeu a lanterna e pô-se a caminho; a senhora Aldete trazia um pequeno cesto. Encontravam-se, aliás, como sempre quando saiam, uma apoiada a outra como se fossem coladas. Bastava-lhes apenas o peso do corpo, o que já era suficientemente para causar um certo embaraço para se locomoverem. O senhor Sepulcro mantinha-se alguns passos à frente e, de vez em quando, olhava para trás, considerando aquele sintoma crave de se locomover. Como as irmãs Galmam eram sempre acompanhadas nessas excursões pelo prestimoso senhor Sepulcro, este se acostumara aos seus embaraços.
Subiram até o fim daquela rua. A rua terminava onde conjunta, transversalmente com uma outra bem extensa. As ruas estavam desertas apenas o esganiçar dos cães que ecoavam distante. O céu estava sombrio, nuvens sobrepujavam rapidamente vindas do sul, desapareciam, e outras surgiam, adejando aqueles três vultos que seguiam, agora por ermos caminhos. Cerca de meia hora, caminharam assim, até alcançarem o final daquela rua.
Quando entraram numa estreita rua ladeada de arvores, o vento sobrava ainda mais forte trazendo touceiras de capim que se espalhavam em blocos por todos os lados. Era à entrada de um antigo cemitério descampado terrivelmente escarpado, coberto com arvoredo da base ao topo e semeada de lápides e cruzes que pareciam espalhadas ao acaso pelo solo, várias das quais inclinados em diversas direções e davam à cena um ar da mais lúgubre solenidade. Aquelas três criaturas que se inclinavam deliberadamante a solidão, atravessaram o portão de pedra, abrindo os batentes de ferro, que estavam simplesmente encostados.
A azinhaga em que haviam descido achava-se rodeada de várias lápides obstruídas pela relva. O senhor Sepulcro, seguido as ordens da senhora Alda, começou a remover a terra junto a um jazigo nas proximidades de um ipê desfolhado que se erguia pavoroso, ao lado de dez ou doze outros ipês, na escarpa, todos tenebrosos figuravam como almas brotando do mundo subterrâneo e seus frutos de tristes efígies. O senhor Sepulcro trabalhava arduamente até que o pio de uma coruja o fez parar, e com a costa da mão enxugou o suor da testa. Contudo, seu loucamente acalentado desejo de acabar seu intento não apenas o deteve, como também o atraiu de volta ao trabalho.
"Agora não deve faltar muito, disse a senhora Aldete sequiosa, olhando para dentro da cova como se tivesse profundo conhecimento daquele trabalho, depois se volta olhando ao redor, oh, mais que lugar tranqüilo".
A senhora Alda acrescenta mexendo apenas com os lábios o seu desejo:
"Cobre meus erros com o véu da noite e meus furtos com uma nuvem".
O senhor Sepulcro cavava perseverantemente quando ele, agora, porém, parecia ter sentido alguma coisa. Debaixo da terra veio um ruído áspero e lamentoso que fez aquelas três figuras olharem para o fundo da cova com sinistra satisfação. Por fim, o senhor Sepulcro ergueu o que restava da tampa do ataúde, curvou-se com gosto escolhendo a parte dos despojos desejada. Até que lentamente, a caixa óssea foi içada alcançando a superfície; poder-se-ia contar-lhes os dentes através da claridade da lanterna do senhor Sepulcro. A senhora Alda estendeu e o cesto, que, embora tivesse as costas doloridas pelas freqüentes dores, olhava para tudo com um interesse que nada poderia diminuir.
Depois o senhor Sepulcro imediatamente tampou como pode o ataúde, volveu toda a terra para dentro da cova como um tatu-rabo-mole.
"Muito bem, exaltou a senhora Alda no auge da alegria , fizestes um bom trabalho".
A essa altura a senhora Aldete soltou umas gargalhadas estrídulas, que o eco repetiu vinte vezes.
IV
Os indivíduos que amiúde freqüentavam a estranha casa das irmãs Galmam eram pessoas que não sabiam de nada tão insuportável como ter uma alma aflita sem poder expressa-lá; assim os que ali iam, as palavras, as respostas breves e encenações que as irmãs Galmam exibiam, causava-lhe um constrangimento ainda maior do que aquele que os acompanhava. Apesar de seus costumes macabros as irmãs Galmam eram com já disse, profundamente conhecedoras dos fundamentos da doutrina Cabala e estudos de vedanta e sânscrito. Na senhora Aldete, sobretudo se manifestava um sentimento pedagógico como um testemunho histórico tudo que conhecia pensava, teria que ser passado com o mesmo sentimento que ela tinha, ou seja, lealdade, honestidade, pronto a enfrentar o perigo, indiferente às vantagens pessoais quando os princípios estão em jogo ou se avivam os sentimentos de lealdade. Preferia sofrer torturas horríveis a aceitar a morte a ter que fazer uma retratação verbal que satisfizesse as exigências de qualquer doutrina que ela desprezava.
Assim, entre esses freqüentadores havia uma jovem de dezessete anos que mantinha uma adesão especial à realidade ao esquema ou projeto de comportamento das irmãs Galmam, compartilhando dessa forma como observadora, pesquisadora, reconhecedora que por trás daquelas simples figuras, havia uma alma ou atividade espiritual (como quer que sejam entendidas e classificadas), muito mais que simples eremitas, solitárias, embusteiras de adivinhações e malefícios. "Cabelos de milho", era assim que as irmãs Galmam a chamavam. Debruçada sobre uma mesinha redonda coberta por uma toalha branca, anotava tudo que a senhora Aldete falava.
"Dharma, tem certo número de significados, sendo os principais existir, viver, continuar e segurar, suportar, sustentar, continuou à senhora Aldete, com um grande entusiasmo estampado no rosto, a natureza do ser humano, como ensina o Vedanta, é a plenitude absoluta, e é em relação ao individuo que não reconheceu sua própria plenitude que dharma pode ter diversas mudanças de significado".
Em alguns momentos da explicação Cabelos de Milho parava de anotar e punha-se a observar com um olhar obliquo as demonstrações da senhora Aldete. Diante daquela atividade ou técnica particular de pensar não podia deixar de compreender em peculiar, o modo de ser ou de comportar-se habitual e constante de uma pessoa, à medida que individualiza e distingue a própria pessoa. Era surpreendente como aquela criatura podia aplicar, com felicidade, seus mais abstrusos preceitos.
"Bem, disse a senhora Aldete, detendo-se para tomar fôlego, na próxima oportunidade valaremos sobre meditação".
"Está bem, agora devo partir", disse cabelos de Milho, tomando da brochura com uma expressão de mal-estar.
Apesar de Cabelos de Milho suportar aquele porfioso odor de mofo, quando saia daquele porão e o perfume mais simples e natural lhe tocava o olfato, vertia tudo que tinha dentro do estomago.
Mais tarde, enquanto as irmãs Galmam estavam meditando em suas formulas ultimamente descobertas, ainda pura e virgens comparativamente às outras, o que por vez sempre ocorre em meio a horríveis requintes de crueldade. As vitimas – pobres sapos -, são queimados vivos e retirados do fogo semi-assados, para que lhes arranque o coração e as entranhas. Em plena a essa cerimônia, ressoou o som de batidas na porta.
Quando aquela mão se apropinquou novamente para abalroar a porta, esta entrecortou, abrindo-se como num encantamento. Um sujeito que trazia uma prancheta não mão, pousou os olhos pasmados para dentro; inclinou-se ligeiramente como buscasse alguma aparência vã de forma humana, exalou um cheiro dos mais imponderáveis, quando surgiu o semblante assombroso da senhora Alda.
"Agora não podemos atender ninguém", declarou a senhora Alda ao sujeito e, ao mesmo tempo foi fechando a porta.
O sujeito com uma das mãos escorou a porta e interpondo-se disse:
"Espere um pouco senhora, parece que a senhora não entendeu, eu sou da Companhia de Força e Luz e, enquanto o sujeito se explicava inclinou o peito para tentar mostrar um crachá que mantinha preso há camisa, quero só comunicar-lhe que terei de podar uns galhos dessa goiabeira que, como a senhora pode ver, já esta tocando a rede elétrica".
Quando o sujeito acabou de falar, voltou-se apontando para a referida árvore.
A senhora Alda, sem entender ao certo do que se tratava, conseguiu compreender apenas que aquele homem desejava cortar-lhe a goiabeira. Fez réplicas imprevistas da parte contraria; se não lhe faltasse forças necessárias no comportamento de seus membros, por certo que lhe esfolaria na esperança de obter uma pele mais suave.
"Senhor, tal como o senhor apareceu, desapareça, ninguém aqui quer voltar a olhá-lo de frente, e se provocar qualquer incidente agudo na minha goiabeira, qualquer outra espécie de acidente provocará para ti mesmo".
A senhora Alda reforçou a conclusão de seu conselho batendo a porta. O sujeito tomado de estupor ficou boquiaberto e sem voz. Ele, a principio, quedou à soleira da porta, confuso e indeciso; mas, gradativamente, a impressão de que deveria cumprir seu dever penetrou-lhe o espírito como um assalto e, pensando: "Por ela verá se suas palavras me surpreenderam, suficiente trabalho tenho com esses negócios próprios, para que me embarace com outros". E, virando as costas, foi cumprir seu dever.
Tendo tentado, por algumas vezes sem resultado subir na goiabeira, agora afinal conseguira. O sujeito mostrava-se um pouco desajeitado para esse tipo de serviço, porém, tendo se firmado, com uma das mãos – ainda que meio desajeitado – e com a outra serrava o calho desejado. Percebendo que escolhera uma parte muito densa e com um certo descômodo, antecipou-se mais para a extremidade do galho. Assim, o sujeito serrava o galho, colérico, balançando toda extremidade da goiabeira com seu peso bruto.
A porta do porão abriu-se e o rosto desconfiado da senhora Alda apareceu oriundo como que a presumir algo de errado que se passava lá fora.
"Teimoso... Ah, teimoso", retorquiu para si mesma com os olhos perniciosos que se mantinham fixos no sujeito que serrava o galho.
Se a nossa imaginação obedece aos mesmos impulsos de nossas vontades, nos impressionam mais do que ela própria. É com essa fisionomia de circunstancia e esse aparato lúgubre com que cercam nossas almas e as visitam, como para inspirar o apetite do que é agradável. Assim, a senhora Alda dedicou-se de tal modo, concentrando o pensamento no galho que aquele sujeito estava apoiado, tanto e tão bem o desejou (que partisse para advir esse infortunoso que lhe perturbava), de modo que, pela força da sua imaginação aconteceu efetivamente. O sujeito, percebendo que o galgo partia-se, não onde ele o serrava, mas, sim exatamente onde se apoiavam seus pés, teve tempo apenas para ter uma contenção de espírito e dessa maneira, se achando preparado para o pior, agarrou-se ao galho e derribou num potente choque com o chão.
Se a senhora Alda dotou essa aparência sensível que se contrapõe à realidade e, que atua não somente sobre ela, mas, também sobre os outros, não sei, mas encontrar-se-á no âmago de sua alma que a maioria de seus desejos só nascem e se alimentam em detrimento de outrem. Assim, voltou-se para dentro com um riso franzino.
Mais tarde, depois que o sol se pôs e a negrura da noite sobrepujava-se no leste, as irmãs Ratazanas se reuniram ao redor daquela mesma mesinha que Cabelos de Milho se assentava; o discurso de suas palavras tomava um sentido econômico, assim como, o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Pensavam como era mais produtivo aplicar seus ganhos, nessa medida o curso de seus pensamentos abstratos se elevava do mais simples ao complexo correspondente ao processo histórico efetivo. Adotavam um principio geral e de acordo com este ordenavam e interpretavam suas ações, seus atos e decisões eram cuidadosamente pensados.
Assim, determinada pela condição concreta da existência, a senhora Alda subiu até a bodega do português. Da penumbra daquela calçada via-se apenas uma sombra que projetava na parede uma assustadora figura. Quando se aproximou da esquina, ficou encostada por alguns instantes, espreitando com ar vulpino. Então, enquanto a penumbra aprofundava-se ao redor, a senhora Alda, com a palavra pronta e fácil e a replica tão viva que nunca falha, entrou tácita como uma sombra incógnita. Havia poucos fregueses espalhados pela bodega, bebendo, sentados ou de pé.
O português mantinha-se entretido com seus clientes, frisante, gesticulava, estudando e comentando seus almanaques ressaltava a exatidão das previsões aplicadas aos fatos presentes. Em meio a tantas palavras há de haver mentiras e verdades, assim, sem que lhe alterassem a razão, nem percebeu a presença da senhora Alda que agora, encontrava-se no canto do balcão, absorvendo com indulgência ao desprezo e um gosto ácido e mal.
O senhor Manuel, com um gesto contraditório voltou-se olhando para o lado em que se encontrava a senhora Alda – ele parou como que aquela imagem fosse uma afiguração – certificando-se que era mesmo a senhora Alda em carne e osso, acalentou uma maneira superficial e aproximou-se com supressa, o senhor Manuel corou como se tivesse uma conjetura para tão inesperada visita.
"Olá, exclamou o senhor Manuel, apanhando a boina que lhe fora derrubada, e esfregando as têmporas, olá, senhora Alda como têm passado".
"Mais mal do que bem", respondeu a senhora Alda com desdém.
"Quanto a mim, se não posso ter muito, contento-me com pouco e louvo a possível mediocridade", disse o senhor Manuel com desdém.
As palavras do senhor Manuel valiam-se de uma certa astúcia, que por ventura já imaginava do que se tratava o assunto, que seria, pois, a razão e a natureza da presença daquela horrenda anciã.
"Bem senhor Manuel, cumpri-me ser o mais breve possível, reiterou à senhora Alda com determinação, o senhor deve saber ou pelo menos supor porque estou aqui".
"Por quê", disse o senhor Manuel, observando, em especial, que o dente inferior da senhora Alda salientava-se para fora da boca e quando ela a fechava com sobejo assemelhava-se a um javali.
"Vamos senhor Manuel, não se faça de ignóbil, replicou a senhor Alda, olhando, admirada para as arcadas superciliares bastantes salientes do português, apesar do senhor ter um crânio parecido com a do homem de Neandertal, o senhor não é primitivo, nem burro, e não se faça de ignorante de muitas coisas que merecem serem conhecidas, hoje pela manhã o senhor introduziu por baixo da nossa porta, um envelope que trazia dentro o dinheiro do aluguel não é mesmo, bem, devido à sua natureza peculiar, pressuponho facilmente que o senhor tenha se esquecido do que conversamos os meses passados, tendo o senhor agido assim, achou que estaria inseto, livre de abstração por hora, despido de quaisquer preconceitos e predisposições".
Enquanto a senhora Alda falava, o português fazia gestos de controvérsias o fato de a questão não ser tão bem assim.
"Não, não... senhora Alda, nada disso, retorquiu o senhor Manuel, voltando para a senhora um semblante de profunda contrição, e suspirando levemente, precisamos de novos modos de raciocínio, novas ferramentas para a compreensão, pus o envelope em baixo da porta foi porquê estava cá com pressa para pegar o pão entendeste criatura".
"Quem precisa compreender algo é o senhor, exclamou à senhora Alda pejorativa, não lhe avisei que o aluguel este mês sofreria um reajuste de setenta por cento, ou o senhor já se esqueceu, hei, o senhor ficou um ano sem ter um centavo de reajuste".
"Ah, senhora Alda, disse o senhor Manuel, tentando apazigua-lá, setenta por cento é muita coisa, seja compreensível, não ganho isso em dois meses, por favor entenda".
"Senhor Manuel, disse a senhora Alda irrevogável e compassiva, tudo, tudo tem um fim, se o senhor não pode pagar, saia e, dê lugar a quem possa pagar, é muito lógico".
"Vamos, vamos, insistia o senhor Manuel com os olhos cintilantes de raiva, tenha indulgência para comigo".
O português falava e sentia o corpo conturbar-se com esse insistente acúmulo de palavras que parecia que ia deteriorar-lhe o cérebro. Passava a mão no pescoço, esfregava a testa num profundo estado de cólera.
Por fim, a senhora Alda, fez uma adesão para, segundo ela preservar a medida justa, que esse mês ficaria como está, mas, o mês que vem ele já sabia: ou paga o setenta por cento ou desocupa o estabelecimento.
E dito isso desapareceu tão misteriosamente como havia aparecido.
Mais tarde, quando o senhor Manuel se preparava para deitar-se, impedido de relaxar, ficava andando de um lado para outro em seu quarto. Conhecendo, pelos atos de sua vida, como era grande sua vontade e coragem de viver, ordenando seus sentidos que tinha que retardar a própria marcha, em vez de se manter no meio dela como um gigante imóvel e impassível, sentia-se deprimente, derrotado pelo maldito poder da usura alheia, que lhe queria devorar numa só bocada.
- Maldita bruxa! – clamou, deferindo um chute numa cadeira, depois falou consigo mesmo: - Onde será que essa velha maldita pensa que vou arrumar esse dinheiro! Tenho que trabalhar três meses para pagar um! Ela é louca, completamente!
O senhor Manuel sentia um recuo em larga escala, verificando no coração de pessoas que ele julgava civilizadas, num momento em que parecia estável todo o seu valor, reprovava seu destino, lembrava das palavras de seu pai: "quando nos cabe esperar da vida mais males do que bens". Nunca acreditava que pudesse haver êxtase tão profundo e aniquilador, se não houvesse sentido na própria alma. Deitou-se vagarosamente na cama. Pesaroso, ficou ali estendido com seu pesado corpo. Até que adormeceu, numa supressão, com a boca aberta.
Cerca de meia hora depois, acordou sobressaltado, de um sonho confuso em que havia estado dentro de um caldeirão bem grande e em volta estavam a senhora Alda e a senhora Aldete. Dispunham de ornatos ao redor de um bode com um chifre enorme; e a primeira coisa que se lhe apresentou a imaginação dispersa foi o caldeirão e a senhora Alda que com uma navalha, raspava-lhe a cabeça.
"Ó meu pai, que sonho", disse intrigado.
O senhor Manuel sentou-sena cama e esfregou os olhos para afastar a imagem do sonho. Ficou alguns minutos, pensando, aparentemente, com apreensão e depois, caindo sobre o travesseiro, adormeceu.
V
A manhã despertou-o do sono letárgico em que cairá ao sonho com as irmãs Ratazanas. Sentou-se na cama e, durante alguns minutos, refletiu aquela desagradável conversa com a senhora Alda. De repente, acudiu-lhe à memória: "A melhor coisa que devo fazer é procurar outro ponto". proferiu de modo decisivo como que esta decisão fosse resolver o assunto. Vestiu-se e achou que poderia liquidar de uma vez o caso.
Saiu.
Examinava os estabelecimentos por onde passava, ao descer a rua, com olhar inquisitivo de proprietário, pensando em não ser impossível que, dentro em breve se tornaria dono, com os seus pertences, alguma dessas propriedades. Entretanto, depois de algumas entrevistas com alguns proprietários, percebeu que seu opinar não seria tão fácil assim. A cada esquina, em cada conversa seu desalento parecia assumir formas mais vivas. Sentia a boca seca, o suor corria-lhe pela fronte. Algumas pessoas que passavam cumprimentava-o, respondia apenas com gestos absortos como que só seu corpo ali vagasse e sua alma desassossegada procurasse persuadir de que a sorte já se decidira e que ao terror tudo cedia.
Quando, ao voltar de seu êxodo mal sucedido, ficou parado em frente à bodega, no outro lado da rua, observava com o olhar deprimente aquela esquina em que a quase uma década umedecia as almas daqueles que ali freqüentavam.
Passados alguns dias e, tendo o português encontrado algum rastro de perseverança em seu espírito, seguia, na medida de suas forças, contra os males e inconvenientes que lhe ameaçava. Ele tentava manter essa perseverança e consentia em suportar com resignação os incômodos que toda noite visitava-lhe em forma de sonhos e visões. Mas mesmo durante o dia ele via essa perseverança desabar-lhe. Contava os dias, muito mais judicioso lhe parecia imaginar que o caso favorecia o medo. Agora começava engendrar pensamentos perigosos; mas tentava conservar intacta sua lucidez, sem que lho alterasse a razão, de maneira a não ceder alguma atitude precipitada. Tentava manter essa moderação a custo de seu caráter onde havia alguns traços de virtude. Por mais que se empenhava em restringir o numero de maus pensamentos, nunca por fim conseguia afastá-los de todo. Aquele propósito que lhe haviam imposto se transformava em castigo. Durante uma semana, tentou conversar com as irmãs Galmam, para que amenizassem aquela quantia que lê julgava absurda. Procurava a virtude consolidar-se na luta, porque o caminho parecia demasiado elevado e inacessível, pois, aquelas duas almas tinham um coração petrificado. E em cada tentativa parecia crescer o seu tormento, como os rios que se avolumam com o rolar das águas, eles adquirem importância e consideração ao ser aplicado. Remontava-lhe o curso de descontos a cada investida, até voltar tudo num insignificante filete de água.
À noite, antes de se deitar, por uma circunstância qualquer, chorava como uma criança aprisionada num quarto escuro. Naquela noite começava a precipitar uma tempestade e os clarões dos relâmpagos refletiam naquele quarto escuro o semblante angustiado de um homem que agonizava entre torturas emocionais. Só faltava-lhe agora o caco para com ele raspar-se.
Então, vendo todas as saídas possíveis esgotadas, começou a conceber uns planos satânicos, que ele julgava ser o único remédio: fazer aquelas almas abandonarem suas primeiras residências.
Aquela chuva que caia torrencialmente lá fora, parece ter trazido a solução para o mal que lhe afligia. Ficou deitado, olhando para o teto com um horrível olhar de exaltação, que lhe dava uma impressão descomunal. Seus olhos fixos tinham o ar mal que imaginava. Seus lábios abertos, seus dentes agudos e brancos pareciam escarnecer-se daquelas que ousaram atormentar-lhe.
Na manhã seguinte, ao acordar, expressava um ar taciturno em todos os seus movimentos. Se julgássemos a resolução, e seu animo era fácil de perceber, com certeza que a sombra da morte o rodeava. Mas matar ou morrer? Disso se deduz, pois tendo escolhido a morte para levar a cabo sua resolução; esta não cessava de lhe soprar aos ouvidos. Pensava: "uma morte rápida é a grande felicidade da vida". A noite chegará como vinda das regiões dos mortos e induzir ao crime.O ultimo freguês saiu, o senhor Manuel fechou a bodega e dirigiu-se para seu quarto. Quando, na quietude, o seu peito arfante e seu corpo agitado, abriu a porta de um velho armário e com uma das mãos parecia, (diremos) que as impressões dos sentidos fornecia-lhe a imagem fiel dos objetos que tocava. E, tendo escolhido o desejado, puxou para fora; uma velha adaga que fora de seu bisavô. O senhor Manuel introduziu-a na cinta e ocultou com a camisa. Com a resolução de alguém acostumado a obedecer a ordens sob a coesão dos sentidos, encaminhou-se para a porta dos fundos. Então, tendo alcançado a porta, abriu-a bem devagarinho, espreitou o quintal da casa, observando com seus olhos dogmáticos. A escuridão se adensava mais e mais. Desceu lentamente as escadas que conduzia a porta do porão das irmãs Galmam. Aproximou-se com cuidado, permaneceu quieto até avistar que uma luz tremulava através das rachaduras da porta. O senhor Manuel havia concluído que as irmãs Galmam já estariam dormindo, imaginou então, que aquela luz acesa fora esquecida por acaso assim, junto à fechadura da porta, introduziu um arame que com alguns movimentos pode abrir a tranca livremente.
Sob uma palidez cruel seu semblante estampava a vingança que achava suficiente vigor e impetuosidade. Lembrava-se que a senhora Alda havia dito: "que tudo, tudo tinha um fim"; era chegada sua hora. E, foi se introduzindo em meio àquela desordem de caixas e papéis, a fim de identificar o ponto em que se achavam as irmãs Galmam. Portanto, havendo avançado alguns passos e, passando em frente a parede que fica a coleção de fotos da família, observou-os por um instante com impavidez. No entanto, depara com o estranho quarto com numerosos ornatos de feitiçaria e no centro – aquele grande caldeirão igual ao que havia sonhado estar dento. Passou a mão pelo rosto num gesto de confusa compreensão. Aquela luz que avistara de fora era um toco de vela quase se extinguindo em cima de uma mesa, que muito ambiguamente clareava aquele aposento, mas por momento percebeu junto a parede, de onde podia avistar e onde, agora, contemplava, com horror, as irmãs Galmam, esticadas em um divã, adormecidas, emaranhadas uma à outra. Aquele porão se prestava muito bem a seu propósito. Tomado então, de uma fúria demoníaca, sacou a adaga e partiu na direção das irmãs Galmam. Contudo, não tinha dado mais que dois passos, quando, instantaneamente sentiu, percebeu, que algo lhe mordia o tornozelo. Parou, abaixando-se pode ver, com espanto, um grande rato – o fusco -, preso ao seu tornozelo, relutante, resistia ao refugar de senhor Manuel, que se debatia sobressaltado; adquiria pânico, tentando se livrar do bicho pelo pavor extremo que lhe despertava. Esse pavor e essa batalha que travou com o rato, quase que despertou as irmãs Galmam e, num desses movimentos bruscos, esbarrou-se na mesa onde estava a vela a qual, lentamente, rolou por entre aquelas roupas e caixas de papelão. O senhor Manuel com a impressão alvoroçada que o rato ainda andava-lhe pelas pernas, voltou-se para fora, a fim de certificar-se que não estava mais preso a ele. Entrementes, dentro da casa o rato, agitava-se com o fogo que já se adejava pelo piso.
O senhor Manuel voltou para dentro logo que viu tal aparição – pois, só poderia considerar aquilo como sendo uma dádiva vinda dos céus –, empurrou mais caixas e uma cortina para atiçar o fogo. Depois, saiu rapidamente, trancando a porta exatamente do mesmo jeito que estava. Em seguida subiu as escadas correndo e entrou em seus aposentos com um espírito de perversidade.
Momento depois, se escutava gritos desesperados de "fogo". Como se estivessem vindos diretamente do inferno. O porão todo ardia. O senhor Manuel, encostado á porta aturdido, observava a fumaça que emanava das rachaduras das paredes. Sentia arder-lhe a planta dos pés e assim mesmo não se mexia – onde julgava presenciar horrível obra da justiça.
A manhã chegou.
As horas decorreram em expectativa. Havia um tumulto de gente, caminhando sem cessar pelo quintal das irmãs Galmam.
Comprovado com testemunhas, por acaso presentes, que diziam a verdade, que não viram nem ouviram nada de anormal durante a noite.
A senhora Alda e a senhora Aldete foram encontradas mortas, carbonizadas nos braços uma da outra, junto com a fuligem que restou de tudo que havia no porão. E assim morreram tão estreitamente abraçadas, que houve uma horrível tentativa de separá-las e, não tendo conseguido, deixaram os corpos pavorosamente ligados e afetuosamente aspirado pelos seus atrozes desejos e as ultimas manifestações vitais de cada uma para não sei quem. Não bastando esse horror, junto à parede onde estava os corpos – coisa admirável de se ver – estampava-se uma forma nítida e assombrosa acompanhando os traços do reboco que havia caído - a figura decrépita de duas anciãs. A imagem era de uma precisão verdadeiramente espantosa. Havia uma expressão de exaltação naquelas efígies.
As pessoas que viam tal aparição – pois não poderiam considerar aquilo sendo desse mundo -, tomadas de assombro e terror, persignavam-se.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia. E a bodega do português não abriu. Os fregueses que ali costumavam ir consideraram que o senhor Manuel deveria estar reverenciando a memória das irmãs Galmam. No quarto dia após a morte delas, uma caravana de policiais chegou para verificar de uma vez a casa.
Arrombaram a porta e um cheiro horrível exalou de dentro. Os policiais nem precisaram procurar, logo na entrada, depararam com o cadáver do senhor Manuel pendurado por uma corda amarrada ao pescoço. Com os braços cruzados sobre o peito, tinha uma expressão escarnecedora.
Ninguém pode assegurar que estava resolvido a morrer, mas o peso da morte causo-lhe a morte em si.
© 2025. Todos os direitos reservados ao autor. É proibido copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas ou utilizar comercialmente esta obra sem autorização expressa do autor.
Classificação de conteúdo:
Publicado

Comentários