A TORRE
A TORRE
I PARTE
O tempo dotado de tal momento é o processo, compreender a natureza significa apresentá-la como processo. E nós fazendo parte desse seguimento como unidades somos como momentos que imediatamente desaparecem destes momentos. Essa conexão causal determinada talvez seja a razão da nossa vontade ou aptidão para produzir espontaneamente e para que sejamos compreendidos em um número infinito de frases que nunca foram pronunciadas ou ouvidas antes. Assim, escrevemos para manter a evolução criadora como formação gradual e progressiva. Que essa ação instantânea fique não apenas como uma imagem ilusória da massa corpórea e uma aspiração à existência, mas, também apto a uma contemplação estética, i. e., conhecimento da ideia nela apresentada.
* * *
I
1796
Observa-se na região em que nós nos encontramos em meados do verão, e quase todos os finais da tarde com o aquecimento dos raios de sol, tempestades estarrecedoras formando-se no oeste, seu impulso impetuoso e sinistro cobre o belo efeito da luz sobre o crepúsculo brilhante na coroa da beleza que possui a mais decisiva influência o conhecimento de qualquer objeto belo; exigido, porém, aqui, pela sua leve acentuação sobre a terra, um opulento lago, onde sua posição privilegiada engrandece mesmo a beleza do mais belo. E, sob essa massa liquida refletindo raios ameaçadores havia uma barca, a cortar o lago, abrindo sulco sinistro.
Assim, a natureza em tempestuosa agitação, penumbra deitada por negras e ameaçadoras nuvens; árvores pendentes num lastimoso chorar, que ondulavam no inteiro espaço qual altivo contumaz. E, em pouco tempo se ouvia o ribombar da água tombando por todo o circulo. Estrondosos trovões brandiam dos céus; tendo alcançado a proa a areia, um vulto saiu da embarcação, amarrando a barca a um solitário tronco e, se afastando embrenhou-se na mata.
A noite que se seguia chovia torrencialmente, no céu linhas que partiam de um centro luminoso produziam descargas elétricas entre as nuvens e a terra, a impetuosa fúria das rajadas parecia aumentar a cada segundo, os ventos indignados incrustavam-se sobre as inclemências das arvores de um torvo caminho, junto a esse vento que desagradava às circunstâncias, surgiu, como se arremessado pela desatinada atmosfera, um cabriole, de momento a momento, a claridade dos relâmpagos entrava pela portinhola do cabriole, produzindo de cheio o perfil de uma fisionomia que ia muito confortante, ele estava vestido com um modesto traje civil, com um chapéu de abas largas, o semblante mantinha-se com boa coloração, isento de tudo que traga marca da grosseria e da negligência, sua postura bem proporcionada, e com um perfil aprumado nem parecia sequer imaginar o que se passava no mundo exterior, muito vigoroso agradável de rosto, moreno de pele, era com essa fisionomia que nosso passageiro seguia, de vez em quando, fechava os olhos, principiava a iludir-se imaginando que as dificuldades excitavam seus desejos, nesse momento tinha a compreensão lenta e embrulhada, mas o que chegava aos seus sentidos eram intuições intensamente aguçadas, assim, não tendo conseguido o que desejava, fingia desejar o que podia.
O cavalo seguia, o vento, a chuva, a lama parecia não intimidá-lo, mantinha a cabeça erguida, os olhos atentos aos modos poucos gentis dos elementos, a cada relâmpago valia-se para avantajar o passo, como se o clarão momentâneo lhe introduzisse as forças que a escuridão e a chuva o privara, o cocheiro que mais parecia uma estátua sentada à beira de chafariz, onde, o opugnar dos céus desgostava o cerne de sua alma, mas, oficioso da própria natureza, esta, parecia conserva-lhe vivo e são, ainda que sua razão parecesse conduzir o animal um observador exposto naquelas paragens seria fácil de perceber, que o cavalo entendendo as inclemências do tempo ao invés de ser conduzido pelo seu senhor – pois, com a largura que lhe aprovava – era ele, o cavalo, quem o conduzia, foi nesse momento que surgiu – junto a um desses espantosos relâmpagos –, alta e soberana, a construção da torre da família "Launay". O cabriole cruzou seus domínios aprofundando-se pelo sinuoso caminho sustentando seu curso, aumentando a presa contraria ao decoro do sítio e da situação, avançando, assim, por esse extremo da terra, até que parou, por si mesmo, diante de um estreito caminho a mão direita da estrada.
Diogo Bernardes – eis o nome do referido ocupante do cabriole – que com um leve esticar de pernas espreitou-se pela portinhola, ignorando a chuva que ainda se desencadeava torrencialmente, saiu dizendo por insinuação intimoratas e ambíguas de outra particularidade singular de sua condição mental:
"Oh, Eu compreendo, sim eu compreendo, Sim... sim muito bem... cada vez melhor, apanhando um resfriado depois de tomar vinho do porto".
Seguiu pelo estreito caminho, quando, por fim, desapareceu.
Os clarões vivos e rápidos, imanente aos relâmpagos, clareavam naquela noite o perfil das pétreas paredes que se levantavam acima do solo. Isolada, emoldada por suntuoso bosque, a casa, em estilo medieval com variedades e rica de situações, elevada e forte pela densidade de pedras que transformam circunstancias exteriores e interiores dadas em estados que determinam as relações dela com a natureza. Enquanto o Sr. Diogo Bernardes descia pelo estreito caminho que tinha como fim ao fundo as projeções daquela mansão, a ação de seu espírito contemplativo mais o ponto e a distancia vertical em que se encontrava, dava-lhe uma percepção insensível que não conseguia distinguir, todavia, considerava que mais poderosa ainda se torna à impressão, quando se descerra a nossos olhos a mescla das forças naturais contrariadas em toda sua magnitude, sentia naquele instante que suas forças que impulsionam seu espírito era privada de ouvir seus próprios passos. Considerando que existem ordem e conexão nos pensamentos, como existe nos movimentos, avançava como se impulsionado por uma raquete, transferindo seus pensamentos de uma ideia a outra; "a liberdade – pensava – como uma bola está agora em movimento sobre esse plano". Assim, infiltrando-se em suas maneiras habituais de pensar e de sentir, assumia uma fisionomia alegre; mostrava-se perfeitamente satisfeito com o seus estado, isento de qualquer inquietação, uma tentativa no domínio do obscuro, do irracional, do incomensurável, de Orfeu, o explorador da mansão dos mortos, do reino de Plutão, de Dionísio, deus do vinho e das mulheres e da inspiração demoníaca, eliminador das inibições, veio à forma embrionária e uma nova personalidade, que outra vontade pode existir senão a de permanecer nesse estado, era com essa personalidade que se sentia tão bem no mundo da clareza, assim, avançando, alcançou em poucos instantes, a parte oposta da casa, circundando-a, tinha ele no solo fixo os olhos até atingir a fachada da torre da casa. O poder natural e a iminência das faculdades do corpo e do espírito do Sr. Diogo Bernardes pareciam em nada ser afetado pelos fenômenos naturais daquela noite tempestuosa, pelo contrário, o uivo da tormenta, o vento fustigando seu corpo, trovões e raios daquele céu negro, dava-lhe a duplicidade da consciência como um espectador impassível desta apresentação atingindo-o com sua maior clareza, seus pensamentos parecia percorrerem uma grande quantidade de coisas; o levara a reparar que elas os conduzem a seu objetivo, ou a que objetivo elas podem conduzir caso essa observação seja desviada de sua ação normal, foi o que lhe pareceu, ao passar em frente a uma das portas, notou com um súbito interesse a maneira em que essa se encontrava aberta, provocado por esse ato repentino de si mesmo, ou pela visão de algo deformado cuja particularidade não lhe era regulada, devido essa comparação a qual inopinadamente o deixou confundido, deliberou imediatamente em sua direção.
Eis que entrando pelo arco gótico que despertara sua atenção e, considerando um archote que mantinha iluminado um aposento cujas sombras como espectros se estendia para o alto, e ele, mirava com os olhos pasmados e vista turva, os objetos rodeavam – os detalhes da escada que subia em zigue-zague até o teto, paredes, a frieza do ébano dos assoalhos – eram para ele, coisas muito conhecidas, com as quais estava familiarizado, embora, não hesitasse em conhecê-los como tais, entretanto, ficou surpreso, mediante o fato de seu sentido interno ser afetado por alguns detalhes incomuns.
Notou num dos degraus da escada uma mancha de um liquido rubro, abaixo-se um pouco, e, durante alguns momentos, enquanto ele permaneceu atônico, olhou a mancha com um sentimento estranho que, parecia reter sua alma suspensa entre várias ações possíveis.
"Bem, disse o Sr. Diogo Bernardes, tentando acrescentar algo que ele mesmo não acha justificação, foi se afastando, lentamente e olhando, durante todo o tempo, para a mancha, que se quedava com misterioso aspecto à beira do degrau, nunca vi coisa tão estranha em minha vida. Muito esquisita", ajuntou, singularmente pensativo por efeito do vinho, "Muito esquisita", repetiu, sacudindo a cabeça com ar de profunda sabedoria e tornou a observá-la.
Decorrido alguns minutos, como por uma fenda na rocha, saiu o senhor Diogo Bernardes, em tamanha disparada, fundando-se, não sei se numa perseguição ou fuga que pelo seu aspecto em nada se definia, pois, tão rápido expeliu-se dos aposentos que nem mesmo o mais ligeiro dos guepardos seria capaz de alcançá-lo.
Entrou por um atalho que se afundava pelo bosque adentro.
II
A continua essência da vida muda à face do mundo, mesmo perseverando em seu ser uma ordem de coisas substitui outra, necessariamente, nada parece estável na força pela qual a natureza preserva seu ser, tudo se transforma e seus atributos estão em continua metamorfose, o ente supremamente perfeito não está privado de nenhuma perfeição. A fronte grave do senhor Diogo Bernardes parecia encontrar refúgio nessa vontade divina.
Ele estava lá... Sob um desvão no bosque, envolto pelas coisas singulares existentes e seus atributos respectivos da mesma maneira e com a mesma necessidade. Acrescente-se a isto a sua capacidade de conhecer de como os pensamentos e as ideias das coisas se ordenam e encadeiam na alma; apoiado a um velho tronco, de cabeça descoberta, os cabelos molhados de orvalho, que se acumulara nos ramos mais tenros e caia em gotas em torno dele. Devera ter permanecido muito tempo naquela posição, porque um casal de João-de-Barro passava e repassava bem pertinho dele, ocupando em construir seu ninho. Ficou assim, estendido durante muito tempo. Sucedia que, às vezes, despertava um pouco e nesses momentos notava que lhe desfaleciam o coração e os joelhos, e, lastimando-se, disse para seu modesto coração: "Como aconteceu aquilo? Receio que devo estar louco! Não bebi tanto assim para imaginar tudo isso! Nem tão pouco sou covarde para ter corrido até aqui. Quem então eu perseguia! Que sombrias nuvens envolvem meus sentidos!"?
Mal terminara de falar, um frio tremendo se apoderou dele, um precursor de febre que havia já alguns instantes sentido durante o sono. Agora, acometia-o também um tremor, os dentes pareciam que iam saltar-lhe, e todo seu corpo se agitava.
O homem afetado pelas causas exteriores é desviado de seu curso comum quando estas lhe são contrárias às suas condições naturais, nem mesmo o ser fecundo de expedientes, empreendedor, cuidadoso, paciente, sagaz, indulgente e severo, franco e astuto, capaz de defender-se de surpreender, liberal e repese, generoso e cúpido, prudente e audaz é suficiente hábil de privar-se dos acidentes da vida. Assim, essas ações imanentes, que se consuma no interior do sujeito operante, e, no senhor Diogo Bernardes parecia, que, de resto, outra coisa não é senão a atividade espiritual ou pensamento ou vida contemplativa que mostrava uma espécie de caminho para entrar em comunicação mais direta com a realidade ou o absoluto, ou pelo menos supunha o nosso personagem, uma posse mais segura destes.
Ajoelhou-se, apertou o pescoço com ambas as mãos. Ruborizou-se-lhe o rosto.
Enquanto buscava forças para se levantar, voltou a examinar a ideia que excitava em si por uma ação que desejava não acreditar. Já em pé, e, dando um profundo suspiro, sentiu o sangue fruir do coração e se misturar, receber, assimilar-se ao fluido gasoso que forma a atmosfera. Essa aparência sensível que sentia trouxe de forma mais clara as manifestações da realidade aos seus sentidos. À medida que recordava tirava da constante vicissitude das coisas uma que observara em particular, de modo que presentemente o movimento do corpo dava agora uma maior facilidade de distinguir o que o sono agitado parecia-lhe estranhas manifestações. "A pequena de olhos negros cujo nome ele ouvia; e que ela chorava sacrificada lá dentro da casa".
Esforçando-se para que sua mente o impulsionasse e compreendesse gradativamente o modo como aquele dia começava, adiantou-se ampliando seu corpo por entre as folhagens, estas depositando em sua sensibilidade uma frialdade fatal. Aquela noite chuvosa seguira-se uma manhã cheia de serração – meio frio, meio chuvisco –, e a água gorgolejante, que descia das partes mais altas, formavam riachos temporários que atravessavam toda a propriedade dos Launay.
II PARTE
I
1814
Meu pai possuía uma grande propriedade ao norte da Bahia-De-Todos-Os-Santos; na praia do Estela-Mares construíra sua casa. Eu sou o segundo filho. Aos dezesseis anos fui mandado para o Cris Church College de Oxford, instituição inglesa que me deu influências fundamentais todo o curso do meu pensamento. Meus interesses como estudante foram bastante diversificados, abrangendo desde a geometria a lógica, filologia e filosofia. Deste muito cedo me dediquei aos estudos das letras e sobre tudo as limitações do homem. Nesses anos, redigi uma pequena obra: "Aforismo Sobre O Conhecimento A Interpretação DA Matéria.
Após cinco anos de estudos e trabalho, estava enfim retornando para casa. Para minha residência ou para os pensamentos de uma existência interior onde o caminho que seguia ficara gravado nas lembranças com a excitação produzida pelos lugares de outrora. A esperança de recobrar o silêncio o sossego do espírito e a felicidade de ouvir os mais sutis sons da linguagem que a natureza nos oferece; recordações da infância estavam tão vivas e presentes como a raça alada das varias aves, a camboa, os abutres e os petréis, que nas ondas marinhas vão procurar entre a água salgada o alimento e a vida. Adquiria esse prazer, concebendo energia e reflexão para meu projeto favorito. E lá, talvez reencontrar alguém que após termos por esse tempo nos separados – não foi maior à distância do imenso oceano – maior que as saudades e lembranças que todos os dias fixava-a como uma impressão clara e permanente em meus devaneios.
Assim, a carruagem ia avançando por dunas de areia brancas e inclinadas onde aqui e acolá se via delgados traços de uma vegetação rasteira, a estrada que cortava estes montículos de areia não era suficiente relutante para esconder as altas copas das palmeiras que nessa região da orla exercem relevante beleza do relevo, a rapidez em que deslocávamos e a proporção do âmbito do terreno dava a esses objetos níveis irregulares que de momento a momento, refluíam com atividades artísticas da própria natureza divina, como uma obra de arte em que seu conteúdo representando de modo sensível inclui-se num movimento onde a ideia precedentemente enunciada pela própria natureza é acrescentada a titulo de ornamento, uma imagem e uma reflexão abstrata que nem mesmo o mais hábil artista seria suficiente capaz de representá-la.
À medida que avançávamos à extensão do território ia se modificando, as dunas se abrandando dava lugar ao desenho simétrico da exuberante orla marítima, num lance de vista, abrangia, agora, o mar e uma infinidade de palmeiras, que excitadas pela agradável brisa marítima concedia aos sentidos uma destreza que a alma afetada, sobretudo, constitui o sinal precoce e uma predisposição natural.
O sol brilhava magnífico nas águas.
A impressão que tudo isso me causa não é de retornar depois de um longo período de ausência, mas, apenas, de voltar depois de uma tarde de ocupações donde minha alma parece nunca ter se desprendido. O ar, essa sensibilidade dos objetos exteriores, o contato intuitivo de tudo que me cercava, causava-me uma sensação como se a medida do tempo tivesse necessariamente pontos de estagnação onde a alça se juntasse ao cilindro principal – ponto onde o tempo ficaria parado; essa impressão me penetrava no cérebro e era retida, absorvida, condizentemente permanece com a alma. Como se lá ficasse conservada, e a percepção desses objetos exteriores determina o sentido interno a reconhecê-los como tal, a concebê-los como tal.
O vento vindo de encontro ao meu rosto parecia trazer todas essas sensações como se eu olhasse para a própria consciência e, lá estavam eles, atribuídos, dissolvidos em matérias subsistentes. Por conseguinte, essa possibilidade de dar atenção aos próprios modos de ser, se manifestava num deleite perceber, de maneira que fazia meu eu perceber essa coesão natural com o espaço, como se o exterior e a igualdade retornassem a si mesmo, isto é, estados de consciência primariamente indecomponíveis. Enquanto assim ia, absorvendo toda essa visão paradisíaca e o sentidos deveras recompensados com alegres lembranças do passado; a carruagem seguia, seus cavalos com uma incomparável liberdade, entregavam-se numa marcha sincronizada, como se os elementos admiráveis da natureza que os cercavam, consistisse numa opinião mais vantajosa, que lhos davam uma certa imponência, ou seja, o contentamento íntimo daquilo que a ideia do belo representa na realidade. As sombras de seus corpos vigorosos avançavam sobrepujando o abundante do ameno assombreamento das palmeiras. Nisto surgiu, bem à frente, no alto numa superfície plana, por aquele verde coqueiral, cuja à frescura é convidativa, bem como mais intima relações que o belo apresenta com a natureza, os traços particulares da casa de meu pai. Ao atingirmos o plano inclinado ao pé do alto onde se encontra a casa, Iza, uma mulata cor de jambo, bela, sedutora, dessas que os senhores de engenho daria um barril de diamantes para tê-la em casa célebre como Maria-você-me-mata, ainda mais dotada com artísticos coseres, na varanda aguando as plantas, ao avistar-nos, rompe em altas exclamações, dizendo como fora de si:
"Camilo! Camilo! É ele quem esta chegando... Sinhá Marina venha, venha é Camilo!"
Dizendo assim, ficou parada junto à porta, alentada, ora olhava para dentro da casa, ora para fora onde à carruagem parará. De repente, mamãe rompeu pela porta com ar de extrema alegria, e logo, juntando as mãos numa palmada de felicidade disse:
"És meu filho! Valha me Deus, o senhor o trouxe de volta!"
E logo fui recebido por caloroso abraço de minha mãe que balbuciava palavras de afeto com os olhos tomados em lagrimas.
"Ah! Meu filho! Que saudade! Sinto-me agora muito mais confortada. Santa Isabel ouviu minhas orações. Vejo que estás muito bem!"
"Muito mais agora querida mãe!", disse-lhe retribuindo com confiante conforto baseado em meus olhos e, compensando-a com as mãos em seus braços, configurava-lhe todo o semblante que todas as alegrias desse mundo não a compensaria mais que aquele momento, abracei também com muito afeto a mulata. "Pois, tu pareces ainda mais bela, que felicidade então pode descer sobre nós, ao percebermos que esse reencontro é um indicio seguro e indubitável de que o amor gentilmente se ocupa com nossas almas. E meu pai onde estás!"
"Foi ver como andam as plantações de piaçava, não deves demorar. Creio que não contava que chegarias hoje", disse mamãe toda afetuosa.
E, assim mamãe foi me levando para dentro da casa; uma mulher madura, mas, que em nada desprezava a beleza do corpo, seus traços puritano, vigorosos pareciam aumentarem e, suas forças eram suprimidas com o passar dos anos, sempre convertia sua agilidade em palavras num tom clarividente, em nada havia esgotado sua suave pronuncia peculiar lusitana.
A conformidade do interior da casa trouxe-mede de volta os prazeres sensíveis de outrora, os dons mais agradáveis e felizes pareciam ressaltar de cada objeto que sucedendo o vigor do nosso retorno, dá-nos uma contemplação interior compreendendo como tudo isso faz parte de nossas vidas, expandindo em nos certo sentimento e bem-estar, que a alma esse intervalo e achando privada, agora, a recebe como um tesouro perdido.
Pouco tempo depois, minh'alma desejava, expandia-se em busca daquela que tanto experimentava em sonhos, e, agora, excedendo-se numa existência real o querer desta vontade m'haveis sempre de lembrar; com movimentos livres e espontâneos, vinha montado em Dandara, égua baia de sangue paulista; o alargamento e a dilatação das areias da praia exortava ainda mais o animal avantajando-se num galope entusiasta; adestrada na encarnação direta e sensível da vida o requisito natural que se manifesta e comporta o ser vivente. Mantinha-a no curso, firme, com aprumo, contente por sentir-me entre os joelhos o estremecimento do destro animal. Em certos momentos os movimentos ondulatórios – porções de água chegavam em suas patas, causando explosões repentinas, chegando na medida que avançamos cada vez com mais força, e aquela substância abundante e tão bem conhecida produzia uma sensação de frescor. As ondas deslizavam muito lentamente dando traços uma às outras, numa espécie de contentamento sem fim. As algas que vinham para a areia que as uniam e espalhavam-nas em vários tons, dava a mais pura representação do belo, é neste sentido que se podia formular um juízo sobre o belo, essa operação de referir-se e relacionar-se com o objeto dava em ato o conhecimento da união da alma com toda a natureza, uma vida de felicidades, não pedir então momentos nada mais, a vida senão que se compusesse sempre de uma serie de tardes felizes.
Logo que avistei a velha casa que fica rodeada de por carnaubeiras, fui gradativamente reduzindo o galope, até o animal assumir andadura determinado em sua direção. Uma casa isolada, afastada das outras, mas unicamente posicionada numa particular vizinhança, na qual, os sentidos se entregam inteiramente àquilo que a natureza de mais pelo formou, uma límpida vista do mundo.
A casa é feita de granito, tem um só andar. Não tem aspecto de ruína. É perfeitamente habitável. As paredes são grossas e o teto sólido. Não falta uma só pedra as paredes, tem uma chaminé de tijolos e é coberta por telhas de barro. De frente para o mar estabelece a contemplação do ser e sua evidencia mais amável, onde a vista do mar aberto dá o abandono de um mundo exterior, erguido como um monumento permanente de sua objetividade que afeta-nos com a paz da natureza de Deus.
Há duas trepadeiras sublenhosas, uma na direção norte, outra sul, produzindo igual efeito de um modo ainda mais agradável. À frente da casa tem uma porta janela. Por estarem abertas, parecem negras em pleno dia. Essa contemplação estética apresenta-nos à conexão alegre do prazer do conhecimento que como um elo de ligação está ao redor da casa. Por um lado, a situação é magnífica, por outro, sinistra. A beleza do lugar torna-se um enigma.
E nisto descobri que alguém se mexia por entre uma romãzeira plantada atrás da casa. E, adiantando-se sem ser percebido, notei, sobretudo, um belo corpo de mulher que de costa para mim, tentava agarrar alguns frutos. Apeando em frente da casa, e, contentíssimo por saber de quem se tratava, fui afeiçoando em sua direção, com ligeireza, a fazer-lhe uma surpresa. A animação e o amor uma animação e uma alegria indizíveis, resplandecia em meu rosto.
Naquele instante o vento – como se ele tivesse-me trazido até ali – recrudesceu-se numa sedição jubilosa sobre as copas das carnaubeiras. Segui junto à grossa parede de pedra até alcançar os limites da propriedade, ai, detendo-me próximo a sombra do juazeiro em que Elvira se encontrava; ela ainda não havia notado minha aproximação. Os traços sedutores e seu corpo eram percebidos através de um vestido de linho branco, conforme se mexia um lanço, lascivo flutuava em seu interior, expelindo uma volúpia que sacudiria a mais adormecida das almas; tinha uma beleza nórdica seus traços, cabelos loiros claros, pele clara com um minimalismo tom do sol tropical e olhos azuis como o mar dava-lhe um padrão de formas simples e concentradas. Fiquei a olhá-la a principio, Elvira era tudo que a beleza patriarcal não era, um tipo vigoroso ágil de uma sexualidade a flor da pele nada daquele tipo franzino quase doente ou então gorda, mole, caseira, maternal, coxas e nádegas largas o máximo de diferenciação desse tipo.
Agora, enquanto mordia um fruto de pinha, anda em volta da romãzeira, deixando descair uma das mãos, que se firmara em seus modos mais naturais. Ao voltar em direção a casa ficara de frente e seus olhos conferiam-lhe uma consonância com sua consciência despreocupante, parecia recapitular, um por um, todos os pormenores em seu tamanho critério. De súbito seus olhos se encontram com os meus, revestindo-lhe os gestos, o semblante e atitude. A imagem que tinha diante de si parecia ter paralisado seu coração.
"Camilo!", exclamou, observando-me com sua expressão de vivacidade contida, os olhos reluzentes e o seu maravilhoso sorriso excluíam qualquer outro sentimento que não fosse aquela alegria que lhe inundava a alma.
"Elvira!", respondi com um gesto de assentimento, como se a decisão livre da alma, de tal maneira experimentasse uma perfeição menor para uma maior.
Atraído pela sua beleza, meu corpo pareceu ter paralisado. Havia em Elvira uma elegância natural, expressivamente bela e a singela graça que se desprendia de sua pessoa, vieram juntar-se a uma exultação cuja expressão encantadora de seu rosto manifestara-se como eu á tão bem conhecia, suave e delicada. Com um passo decidido e ligeiro, chegou-se junto a mim, num gesto da mais genuína alegria, abraçou-me com graça e firmeza. Comprimindo-a nos braços e sentido o calor de seu corpo, foi como se meu sangue estivesse todo contido em apenas uma parte do corpo, de tal modo que, agora, achava a causa para fluir enchendo as cavidades do coração. Essa sensação provocava o alongamento dos músculos como se aquele corpo servisse-me de alimento. A ação que minha alma experimentava e, a cada toque em seu corpo dava o calor da chama de que ela se aproximava.
Eu e Elvira tínhamos quase a mesma idade, ela um pouco mais nova, seus traços de adolescência haviam permanecido, permeado apenas por traços de origem acidental de mera adesão subjetiva que dá aquela vivacidade irresistível que nos arrasta á paixão. Contudo, assumia agora, um misterioso e encantador perfil, alcançara minha estatura, revelando a conformidade voluptuosa do seu corpo, contribuindo ainda mais para a beleza. Durante todo o tempo que tive longe de Elvira, tinha-a na memória aquela imagem de menina de feitio alegre de personalidade espirituosa com variações caprichosas do humor; seu cabritismo de menina, abstraindo de sua distinção todos esses momentos que ressaltaram de frações de tardes felizes, percebia esse prazer do conhecimento puro independente da vontade de mantê-la na concepção objetiva da ideia, porém, com a rigidez, enorme espaço que nos separava, e, à medida que se ia passando o tempo tornavam essas imagens alheias, distantes, voltando-se para meu interior apenas como objetividade mais débil da vontade. Porém, já, e trazendo comigo a constante esperança de um elo amoroso, vem à exultação da alma colidir com a visão da beleza humana, e esta que parece tão bem estar em harmonia consigo e com o mundo e, que suas forças vencendo as circunstancias acidentais da vida, retoma a apresentação feliz da alma.
"Como estou alegre por vos ter voltado!" manifestou Elvira com veemência, ai já a preeminência do desejo estampava-lhe com magnanimidade na liberalidade de seu rosto.
Era para os sentidos internos a mais doce nota da mais melodiosa harmonia ouvir aquelas palavras. Um inebriante nítido que se implantava em nós, simultaneamente como nossa existência, arranjadas pela necessidade interna de permanência dos fenômenos, de tal modo que seu uso concordasse exatamente com sua natureza nos quais se desenrolavam nossas vidas. Tão real e compreensível é sua existência, como formas originais da sensibilidade que a percepção consegue discernir. A feliz subjetividade que lhe é própria, em alguns momentos da vida escapava-lhe adquirindo realidades objetivas, isto é, o inato desejo de conhecer sua real ascendência. Elvira ficara órfã ainda muito cedo e, desde então uma senhora de muito boa civilidade tinha sua guarda. De modo que tivera uma educação refinada aos mais finos modos. A tutela responsável pela sua criação lhe ensinara o Francês, Latim, Mitologia e música Clássica. Ainda criança em minhas excursões pelas praias há conheci. Daí para frente parecia haver no âmbito de nossa existência uma condizente relação por meio de palavras, atos, ações, pensamentos que, ligeiramente estendia-se com o passar dos anos e se tornará de amabilidade natural, pueril, até o sentimento concupiscente do amor. Essa reciprocidade proporcional manteve-se em mim durante o tempo que passamos distantes, de maneira irrestrita ocupou-se também com Elvira.
Passamos o resto da tarde juntos, andando pelos lugares que tão bem conhecíamos. Vínhamos pela praia, percorrendo a alcatifa compacta, alvo de areia, sob um céu tranquilo e puro. Minha atenção se concentrava naquela que me falava. Voltei o rosto para Elvira e em uma e outra palavra obtinha por resposta impressionável idealismo; em seus olhos brilhava tal sorriso que ao encará-la nada mais parecia tão surpreendente. O vento, junto ao éter onde a natureza saturada encerra os atributos de Deus, extremamente sutil, enchia todo o espaço e, nossas almas determinadas por essa natureza divina – feliz por fazermos parte dela e de senti-la no mais puro grau de abstração – trazia aos sentidos todas as qualidades em intensidades perfeitíssimas.
Voltei-me para Elvira, antes mesmo que falasse parecia me ouvir acedeu com gesto e sorriso tais que meu conceber persuadia-se que isso deve necessariamente ser infinito. Então lhe disse:
"Quando percebemos a perfeição de uma coisa atentamos ainda mais a sua real existência, o amor e tudo que resulta da nossa natureza nos dá o conceber da infinita potencia de Deus. Perceba, sinta isso Elvira! Como fazemos parte dessa unidade, sua simplicidade, a inseparabilidade de todas as coisas que estão no ente supremo é uma das principais perfeições que concebemos de estarmos nele."
Elvira percebia do que eu falava pelo entendimento, como testificava a matemática, o que ainda aumentava seu dom de uma consciência alerta e atenta; ela prosseguiu falando, e, eu tinha diante de meus olhos aquela que era objeto da minha atenção inteira.
Depois, enquanto voltava para casa, sob uma solidão fresca, aprazível inexplorada, observava a beleza natural que se formava no céu; de um lado para o leste sobre o mar o esplendor da lua que se erguia com sua bacia escura facilmente visível, para o oeste, formava-se um longo lençol onde a estrela mais perto da terra irradiava alegre rastro de luz. Ao se aproximar da casa de meu pai Dandara assumira por si própria marcha macia, leve, relinchando e sacudindo a cabeça. A noite caíra e a lua já subia num flutuante brilho prateado, refletindo seu esplendido fulgor sobre o mar. Como é bom estar em casa novamente; a ocasião dava aos sentidos lembranças de outrora, havia também um silêncio que restituía essas recordações de momentos fixados na memória. Ações muito significativas de instantes felizes de nossas vidas, uma significação interna, circunstâncias cotidianas e ordinárias, acontecimentos individuais, representativos do todo. E, minha alma percebendo isso exprimia na medida em que era afetada, ideia clara e distinta.
Tomei o simétrico caminho, onde o atavio era uma planta rasteira com folhas de coloração verde-bronze nervurada de branco-prateado e com bordas, face inferior e pecíolos púrpuras, estendiam-se alternadamente até a varanda onde eram arredondadas com margens recortadas. Lá, duas lamparinas abrilhantam suas inflorescências eretas com flores tubulares de cor alfazema-clara.
Papai estava lá, como de costume, sentado, fumando prazerosamente seu charuto. Ao perceber minha aproximação, levantou-se entusiasmado. Tenteei a cabeça, abri os braços com alegre saudação. Por fim, já próximo, veio direto a mim, e a primeira coisa que fez foi abraçar-me estreitamente e disse:
"Como tem passado meu filho! Espero que seu regresso não seja apenas uma simples visita. Julgo este momento da vida confortante. Com efeito, o dinheiro traz muitas compensações, mas, nenhuma maior que esta, de ver um filho consolidar o seio de sua família. Mas diga-me Camilo, como andas a Europa de Napoleão? Cá pra nos, que vergonha para o povo português ver seu rei fugir como um rato assustado."
Papai, sempre fora um homem ativo, trabalhador, honesto e capaz de amar tudo a valer. Aplicava com muita arte os negócios de sua propriedade o que lhe garantia lucros muito significativos. Conhecia bem a política interna da colônia, acompanhava atentamente a política externa. Formava um conjunto e princípios de opiniões política com muita astúcia, um maquiavelismo pairava em sua urbanidade pessoal. Enquanto lhe respondia estive alguns minutos falando, mas constantemente interrompido e novamente interrogado, e apresentado os fatos mais importantes e indispensáveis, mas não para agora; e desculpando-me disse-lhe que jantaria com Elvira e não podia me demorar mais. Seguindo o costume, encaminhei diretamente para meu quarto.
Fiz a barba com todo o cuidado, e durante os movimentos de arrumar-me, escutava as batidas de meu coração que apresentava em particular o fato de sua cadencia influir mais doçura a vida.
Pouco tempo depois, já estava eu voltando para a casa de Elvira.
Seguia pela praia.
Examinava atentamente as estrelas, e de repente, se estendeu tanto para leste como para oeste, cingindo o horizonte com uma estreita faixa branca, que se assemelhava a uma linha costeira muito baixa. Logo depois, chamou-me a atenção o aspecto avermelhado da lua e o estranho caráter do mar. A maré enchia, não por meio de ondas, mas por intumescimento. Operava-se, neste, uma rápida mudança, e a água parecia mais transparente do que de costume. A imensidão do mar que me separava do Brasil, não era maior do que o desejo de reencontrar Elvira.
Na entrada da casa de Elvira, notei que a porta fica voltada para a bela paisagem da praia, este aspecto de cultura fisicamente despreocupado e gozador na margem do elemento, distraiu-me e alegrou meus sentidos como antigamente. A porta mantinha-se entre aberta, bati levemente como se desejasse que fosse ouvido apenas por Elvira. Em tom vago, uma voz disse:
"Entre, por favor."
Procurando a origem daquela voz entrei silencioso; a casa possuía um aspecto confortável, uma sala mobiliada com elegância e modéstia, alguns quadros mitológicos. Sobre um consolo, garrafas de vinho do porto e cálices, consolos, piano, poltronas, cadeiras, mesa com duas velas, tapetes persa, espelhos; figuras sobre os consolos, álbum, alguns livros, lápis etc.
Do mesmo lado que havia vindo àquela voz, encontrei uma senhora simpática, com um vestido de seda azul. A tia de Elvira; ocupava o lugar de honra no canto esquerdo da sala ao lado da fresca brisa que vinha da janela. Sua fisionomia se exprimia de um modo natural e simples e sempre demonstrou que não precisamos de muita ciência para viver, e lembro-me quando falava para nós: "aquilo de que necessitamos trazemo-lo em nós mesmo".
"Como vai a senhora! comecei estendendo-lhe a mão, me parece bem disposta como sempre!"
"Tenho me esforçado para manter as comportas do meu coração abertas, manifestou com certa ação particular dos olhos, Mas, por favor, sente-se! O senhor também me parece muito bem disposto!"
"Muito mais agora! Não posso negá-la que experimento uma satisfação interior, que é á mais doce de todas as que senti!"
"Como a consideração do bem presente excita em nós a alegria, disse favorável ao momento, endireitando-se na cadeira, depois com um olhar de objeção, a vida promete muito, mas, se finda depressa."
Estava eu sentado em uma cadeira de couro lavrado, e pés em arco no momento que Elvira entrou na sala de repente no lado esquerdo meu peito senti algo abrir como se abre o orifício da artéria venosa e, sendo para ai impelido pelo desejo de alcançar uma alegria, o qual agitou ao mesmo tempo todos os músculos do peito. Suspirei profundamente e, para aquele animo angelical florescente frutuoso sorriso emanou; de sorte que ele é como uma fatalidade ou uma necessidade imutável. Sentia-me feliz de ao lado dessa jovem de rara beleza e alto espírito nobre. No altivo realce da cabeça e no elevo das feições cuja formosura se tocava de dois lemes esplêndidos, estava-se debuxando a generosa expressão do triunfo, que em Elvira exaltava a realidade de um desejo férvido e longamente ansiado.
"Elvira, disse levantando-se, como esta formosa. Sinto-me alegre de estar aqui; quando a alma deseja alguma coisa, todo o corpo se torna mais ágil e mais disposto a mover-se do que costuma ser sem isso, acabo de comprovar essa tese."
"Se assim o é, respondeu Elvira, com uma realidade tão boa e completa como eu esperava, e, quando acontece, além do mais, estar o corpo assim disposto, isso torna os desejos da alma mais fortes e mais ardentes."
Destarte, o conhecimento claro e seguro de minhas palavras soubera, Elvira justificar e exprimir com tanta acuidade como sempre ela fazia, só que agora, extraia algo ainda mais luminoso do reino da certeza.
Cortejando-a e, dando-lhe a mão, fomos sentar numa confortável poltrona Windson. Ela sentou-se rebatendo às amplas folhas da saia para dar lugar a mim. Elvira uma jovem de rara beleza, não necessitava de adornos admiráveis para aparecer como uma princesa encantada, seu adotar modesto punha habilmente em relevo sua beleza peculiar, já que todas suas perfeições ecoavam-lhe de forma inteiramente natural.
A senhora Berta que mais parecia mergulhada em pensamentos oníricos latentes uma vez que não demonstrava nenhum vestígio de atenção, repentinamente, como imergisse de exames exaustivos da realidade que a torna plena e completamente consciente disse persuasiva:
"Perdoe-me este reparo, mas um cavalheiro como o senhor não pode ter deixado, a meu ver, de ter observado muitas cenas e incidentes dignos de notas, no decorrer de sua viagem."
"Testemunhei alguns, realmente, disse com condescendência, conheci lugares maravilhosos e pessoas de muita fama. Embora, isso não seja tão importante do que estar aqui em vossa companhia."
Elvira sorriu, aumentando sua formosura, conforme se podia verificar o grande afeto que minha presença lhe proporcionava. A senhora Berta acenou levemente com a mão, e, como numa indisposição insignificante, pôs-se de pé, com alguma circunspeção disse:
"Ser-me-á mais conveniente lhes deixarem a sós, e desejo que tenham um ótimo jantar, ficando a nossa prosa para outra ocasião. Que a benção divina os cubra. Aproveitem bem a vida, porque tem encantos raros, porém muitas são as horas de sofrimento. Tudo se esvai como a fumaça, e com certa exortação saiu dizendo, se chovesse ficaríamos livres desse calor."
Houve um silêncio. No olhar de Elvira manifestava-se um enunciado de suavidade um brilho como de partículas virtuais que aparecem e se aniquilam mutuamente, perto do horizonte de eventos de sua abertura central da íris. Eu de fora desse horizonte de eventos, mas sob a constante de sua alma, percebia em todo o seu ser, que a felicidade a inundava cada vez mais.
"Estava ansioso por chegar logo. Estar perto de vós é para mim uma alegria. Percebes o quanto a amo! Lembra-te das letras que líamos em pensamento, "e, a, q, v, t, l, e, p, d, p, v, n, t, e, m, t, i, c, t, d, n, a, s, p."
O significado era: "Este amor que vos tenho, limpo e puro, De pensamento vil nunca tocado, Em minha terna idade começado, Tê-lo dentro dessa alma só procuro".
Elvira reconheceu logo o poema de Camões que costumávamos ler quando adolescentes. Fitou-me com aquele sorriso como se fosse ela própria uma deusa.
"Não duvido disso, meu amor, replicou Elvira, Sabes, porém, esse: "u, m, s, c, m, p, n, s, m, f, d, a, s, s, e, m, u, s, c, d, e."
Por alguns segundos não conseguia decifrar o que Elvira dizia de quando em quando a fitava nos olhos como se ali mesmo estivem escrito seu significado; a felicidade fazia minha alma flutuar não havia maneira de encontrar as palavras a que correspondia á inicial, mas, através de seus olhos encantadores percebia tudo quanto precisava.
Durante o jantar, conversamos sobre uma variedade de assuntos, cada suspiro, cada brinde o néctar do vinho parecia expandir nossas almas para uma execução de rituais. Aquelas palavras meu amor pareciam tocar meus sentidos como o som produzido por um habilidoso artista que muito bem sabe como se obtém certo efeito, de modo que, as iguarias do jantar fazendo parte dessa estreita conexão ainda assim não nutria tanto como o poder das palavras.
"Perceba Elvira, disse com consideração, o som do vento e o murmurar do mar. Parece um ritmo evidentemente jâmbico."
"Há aqui uma bela qualidade de silencio, o que nos faz conceber a existência das coisas criadas," e..., Elvira parece buscar as palavras a sua volta, essas coisas parecem explicar a duração do tempo.
"E essas noções são muito mais claramente percebidas por nós quando se esta na presença da pessoa que amamos."
Num gesto de assentimento, Elvira pega o cálice e leva-o aos lábios como se desejasse beijá-lo. E, ao extrair o sabor do sedutor néctar das uvas – aquela imagem produziu algo de flutuante entre a realidade e irrealidade. De repente (por mais estranho que possa parecer, essa livre fantasia), uma hera parecia brotar da cadeira em que Elvira estava e os tufos de seu cabelo leves cachos de suas frutas. Ouviu-se um som de flautas e o cheiro agradável do vinho espalhou-se em torno.
"Seus olhos parecem ter-se tornados atônitos, disse Elvira com as próprias palavras de uma deusa.
Já havia voltado, porém, a realidade e, tentando não rir disse:
"Vênus parece mostrar-me à faculdade das intuições, mesmo sem a presença do objeto."
Elvira, sem entender achou graça em minhas palavras.
"Espero que tenha gostado, disse Elvira, tomando o cálice novamente na mão.
"Do jantar e principalmente de estar junto de ti, minha ninfa, respondi.
Ao levantar-me, puxei a cadeira de Elvira e, deste modo, bem próximo de seu corpo, pude sentir-lhe a doce fragrância de seus belos cabelos, ligeiramente enrolados em forma de dedo, com um penteado que cobria as têmporas em leves ondas, dando uma moldura para seu rosto alvo, de formato franco, intensamente simpático. Em pé a seu lado, senti a brisa que entrava pela janela e seguia seu caminho favorável e conveniente. Atravessamos a sala, então, espontaneamente, aproximei da minha boca a mão de Elvira; depois, inclinei-me a procura da sua boca e, assim, um afetuoso beijo foi trocado entre nós.
"Seus lábios são tão doces, disse-lhe com a ponta do nariz encostado ao seu, Há neles graças que não se encontra em outras bocas."
"Tu beijaste muitas bocas, Camilo."
"Nenhuma como a tua."
Elvira com um sorriso estreito deixou claro um certo sentimento de emulação. Mas, nada de invulgar havia em sua alma, e, esse sentimento seria natural devido o tempo em que estivemos separados.
"Já o passado não importa é como se eu deixasse ermos caminhos para enveredar as trilhas de seu coração."
E dizendo isso Elvira, abraçou-me fortemente.
"Ah! Que prazer enorme é abraçá-lo, que alegria imensa sinto em estar com vós. E não sinto nenhum receio de expressar-lhes meu sentimento é como se algo projetasse o meu ser para possibilidades."
"Eu também sinto uma alegria muito intensa. Parece tudo agora se completar, conservei o calor de seu corpo junto ao meu, prodigalizando-lhe beijos afetuosos, e a sensação desses movimentos dava aos sentidos o que se chama deleite. Olhando para o relógio de parede disse, Já são quase nove horas. Eu estava pensando..."
"Em sairmos, andar pela praia, respondeu Elvira tão bem adivinhando meus pensamentos. "Logo que partiu para a Europa, lembro-me das várias noites sem dormir. Recordava os nossos momentos de infância. Ó! Quero recordá-los e não esquecer no mais remoto futuro. Nossas atitudes, nossas corridas em volta daquela velha construção na praia, lembra-te."
"Momentos inesquecíveis aqueles, disse entretendo-me com as lembranças, e concernente a isso a ideia veio fortalecer mais meu desejo, Afinal tu dizias: anda, não fiquemos por aqui, vamos para o nosso caracol."
Tudo em torno de nós era solidão, mas uma solidão agradável, de mar e estrelas. Em alguns momentos, pequenas nuvens faziam a lua desaparecer, ai, as estrelas surgindo no leste, tornavam-se ainda mais latejantes. Com entonação apontando para as estrelas disse:
"Olhe só para essas estrelas! Que universo maravilhoso nós vivemos."
A notável grandeza do universo parecia impelir minha alma a considerar a natureza inteira como a veracidade da existência de Deus.
"Veja, Camilo, aquelas estrelas, ali, disse Elvira, apontando para o cruzeiro do sul, Este céu parece repleto delas! Algumas são azuis."
"Se meus cálculos estiverem certos existe uma variação em suas tonalidades, disse, constatando que as estrelas estão distribuídas mais ou menos uniformemente pelo espaço, Apesar de observarmos que existem estrelas azuis e outras avermelhadas, exprimem sempre o mesmo sentido em relação a seu formato físico, isto é, só aparentam ter realidades diferentes, mas que matem entre si alguma coisa de comum, o que eu chamaria de estágios evolutivos."
"O que admiro em ti, disse, Elvira adotando uma posição positivista, é essa sutil dedicação ao desconhecido."
"Achei no livro de Nicolau Copérnico uma voz afirmando que nosso planeta não passava de pequenino satélite dum pequenino sol. Nicolau foi o homem que simbolizou as lutas pela liberdade do pensamento cientifico, contra a dogmática imposta à mente humana pelas obscuras forças medievais."
Tinha algumas partes do caminho que éramos obrigados a caminhar pela praia. As ideias invadiam meu cérebro, se confrontavam com a imensidão do espaço, até deparar-se com a ideia que, a natureza está submetida a leis que fazem com que os fenômenos estejam ordenados entre si, havendo, portanto, uma ordem natural. Elvira concebia esta razão de ser de forma nobilitante, mostrava-se cada vez mais atenta as minhas palavras, sempre de forma natural e espontânea em aprender cada vez mais. Era sem duvida esse laço que nos unia. Um determinismo necessário, ideias mais claras, desejos mais intensos.
O vento rígido com seu aroma marítimo excitava ainda mais minha alma. Nuvens corriam em frente da lua. O mar dançava. O passeio não era muito longo, estávamos quase chegando quando a lua começou a se esconder por entre as palmeiras. A percepção consciente do espaço abria a porta para as lembranças de infância, existia nesse local um dispositivo para nossas principais diversões, caça, pesca os banhos de mar, além de vaguear por entre as pedras em busca de conchas ou espécimes entomológicas. Nessas excursões, habitualmente acompanhado por Elvira.
"Lembra-te, disse eu, tentando construir uma descrição geométrica com a mão, da noite em que lhe entreguei o tosco desenho que eu fizera da velha construção. Recorda-te ainda que fiquei zangado contigo, por sua insistência de que meu desenho se assemelhava a uma igreja."
Elvira sorriu.
"Quando vós, pela primeira vez afirmou isso, continuem, lançando um olhar galhofeiro, pensei que estavas brincando, mas, depois recordei as linhas características vista de outro ângulo, ai sim, concordei comigo mesmo, em que sua observação tinha de fato alguma base."
Esta orla da costa é formada quase que só de areia e, tem cerca de duas léguas de extensão. Insinua-se através de uma vastidão de dunas quase totalmente despidas de vegetação. Via-se alguns iguanídeos que ao perceber nossa aproximação, corriam escondendo na vegetação rasteira. Nossos passos eram certos e só poderiam atingir um resultado, em poucos minutos chegamos ao caracol (a velha ruína de uma torre de dois andares). No passado um ponto estratégico para observação em que os colonizadores usavam para interceptar os navios inimigos que vinham da Europa. Localizado bem junto ao mar. Por ali se acha disperso, meio afundado na areia. Paramos bem a sua frente e, contemplamos a cena que tínhamos diante de nós.
"Parece exatamente como antes, disse, com uma revivificação espiritual ao estado normal da solidão.
Com onze metros de diâmetro e paredes muito grossas, dispõem de quatro portas muito estreitas. No seu centro uma grossa coluna sustenta a rampa que forma célebre escada em caracol, através da qual se atinge a câmara retangular do andar superior – para lá nos dirigimos, como era de costuma. A ascensão á torre por meio dessa escada é difícil, pois, ela se inicia não ao nível do solo, mas no principio da abóbada, e termina num pequeno quarto com duas janelas para o mar, a qual fornece uma ampla visão. Encontra-se também neste quarto circular aberturas orientadas para os pontos cardeais, de modo a permitir a determinadas horas, e épocas do ano. Conhecia tão bem essa velha construção, como sei que o sol ao se pôr no oeste, na manhã seguinte nascerá no leste.
Esse conjunto de imagens causava-me a possibilidade representativa suscetíveis de evocar num todo quase simultâneo ações ou acontecimentos passados. Todos os dias nós finais de tarde, mesmo antes de meu pai ter considerado meus afazeres, escapulia por entre a plantação de piaçava, montava em pelo no baio, embrenhava-me num trote rápido por entre as palmeiras até alcançar a orla, ai, seguia galopando para o sul, quando não encontrava com Elvira no recôncavo da enseada era porque ela já estava no caracol a me esperar.
"Sinto-me perfeitamente feliz, disse Elvira, junto à janela e, dirigindo os olhos para o aspecto das estrelas.
Suas palavras tinham o mesmo tom daquelas tardes com um lindo rapto de inspiração.
"Esse é de fato nosso mundo! Olhe só para a janela do universo. Perceba Elvira, as estrelas, a escuridão ilustrando a plena natureza do infinito."
Cada vez que me encontrava nesse lugar, sentia estar mais perto de entender a natureza do universo. Por trás do fluxo dessas coisas parecia também ter uma ação afetiva que fazia sentir meu corpo como apenas um pedaço de matéria, se unificando em gestos que visam além dele, assim as palavras que dizia para Elvira, consideradas uma a uma, pareciam pequenos cristais que retêm evidencias de signos inertes aos quais se corresponde a ideia vaga ou banal, inflam-se subitamente em coordenadas que se perdem no tempo. Aproximei-me de Elvira, ajuntei seu corpo contra o meu como se fossemos um único todo e, beijei-a. Minhas mãos subiram e desceram pelas costas de Elvira; ela mantinha-se calma, somente sua respiração um pouco ofegante e suas faces mais rosadas revelava sua emoção no nascimento do desejo. E, sacou fora à saia de seda fina, deixando perceber suas belas pernas, que a camisa só cobria até os joelhos. Aquele contato voluptuoso fez minhas mãos descerem das costas para a maciez das suas nádegas, daí percorrendo as roliças coxas, sentia a volúpia inflamando nossas almas; achando com os dedos a fonte de seu prazer, experimentei com tamanha excitação, a sua essência. Aí fui mais longe do que a decência me permite contar.
II
Quando apareceu o crepúsculo, nascido pela manhã, eu e Elvira estávamos sentados na areia, junto ao que sobrou de uma fogueira, a essa existência divina nossos sentidos que permaneciam levemente adormecidos, pareciam se adaptar à recepção de estímulos diante do contato direto com o mundo externo. Elvira com as costas apoiada em meu peito e sua cabeça levemente descaída em meu braço, nesse aprazer indolente da alma, podia sentir a efetuação tranquila das batidas de seu coração. No exato momento em que o sol emergiu no firmamento, seus olhos se fixaram abertos, como uma influência de um ser para outro ser, espantoso especifico vem ofuscar a sombra da terra. Nossos ouvidos eram afetados com o canto das aves marinhas que se ocupavam em deixar seus refúgios que se espalhavam por entre os rochedos, nas copas das palmeiras uma profunda canção era cantada por aves nascidas na véspera. Pouco a pouco, o sol, ia-se erguendo sobre o mar, afogueado, esplendido e perfeitamente circular, majestoso disco de foco, arremessado pela própria natureza na limpidez da aurora. Seus reflexos sobre o mar e no céu criam maravilhas que a força e a ordem da natureza nos proporcionam a buscar o conhecimento e a alegria da compreensão. Ensaios de asas rumorejavam em volta de nos, era uma doce conversa há um tempo igual. Essa contemplação da objetividade dava-me as funções que a atividade da alma necessita para permanecer conforme a excelência às concebe. Ocupa completa constantemente uma vida de felicidades, e, estes atributos permanecem por toda vida, frequentemente, engajados na prática ou na contemplação do que é conforme a excelência. Essa atividade particular de pensar é ainda mais nobilitante quando crescemos junto a suas instruções e seus modos, isto é, a própria natureza.
Assim, o dia começava mais belo que nenhum outro aquele ano. Percebia o poder dessa realidade subjacente em seu duplo aspecto. O céu tão azul, esse mar imenso, a terra borbulhando de vida – num universo misterioso e privilegiado; estávamos aqui nós, em busca do que se não fosse verdadeiramente o amor e porque nossas mentes estão livres para explorar todo o universo. Penso que temos tudo para sermos felizes, se compreendermos e agirmos segundo nossa natureza. O vento soprava, trazendo e levando pensamentos numa percepção clara dos infinitos modos de pensar.
A arquitetura, o inorgânico mundo exterior, ordenado segundo as regras da simetria, comunica-se de forma condizente com a objetividade orgânica, que bem representada pelo espírito do homem forma a comunidade em face de particularidades subjetivas dos sentimentos e dos atos. A casa de meu pai encontrava-se assim, nesta intima união. Rodeadas de palmeiras e um frondoso jatobá ao lado direito da casa, com a frente voltada para o leste proporciona uma ampla vista do mar aberto. A armação da varanda é toda em aroeira e carnaúba, e a configuração como tal que promove esse acordo externo possui uma resistência à compressão que tanto mais elevada quanto mais forte for á densidade do material, fazendo que esses dois pontos de vista coincidam na consideração dos objetos como belos. Quanto às escoras fazem com que as dimensões sejam tais que quase toquem em um único sentido, ligado de modo a formar uma escora continua. Estas escoras, destinadas a distribuir a carga recebida pelo conjunto das colunas é solidificada por uma viga posta por cima, janelas e portas de pau-amarelo, há também uma mureta de pedra, começando na saia do aterro e subindo, fazendo leve inclinação no meio e terminando na entrada da varanda. Papai e mamãe estavam lá como de costume, sentados em volta da mesa de jacarandá, eis os anais da primavera e do outono de uma vida. Sentia aquela vívida identificação de mim próprio quando retornava todas as tardes os sinais e estágios da adolescência e da maturidade equivalente e paralelo à vida de meus pais; mamãe tão forte e estoica quanto a papai, carregando em seu corpo a corrente da vida e vencendo a morte a força do útero. Enquanto papai se gasta fora da casa na faina do solo, mamãe mantém o nível demográfico da raça e a rejuvenesce.
Ao aproximar-me da varanda, perceberam minha presença.
"Camilo, exclamou mamãe olhando-me de maneira expressiva, Não o ouvi chegar à noite passada, nem sair tão cedo o que significa que não dormistes em casa".
"Tua suposição esta correta querida mãe".
"Bem, o que importa", considerou papai com seu modo vigente, "é que me parece muito alegre, então, sente-se aqui ao meu lado, temos muitos assuntos a falar".
"O coração amante apanha as inclinações do coração amado, disse mamãe vindo em minha direção, muito meiga, pega-me na mão, "aqui está o que são os homens românticos, venha meu filho, sente-se aqui, vou mandar que Iza lhe traga um bom café".
Mamãe sai.
Sentei-me ao lado de papai apoiando os braços sobre a toalha de renda branca bordada de chita vermelha com araras franjadas.
"Muito bem, meu pai, disse com entusiasmo, "parece que o bom tempo está firme".
"Vai tudo muito bem, apesar da pouca chuva o clima tem sido generoso conosco, esse ano vamos exportar uma grande quantidade de piaçava, as temperaturas altas também favoreceram o plantio do feijão e melão, devido a uma reforma nas pastagens, o gado também tem se saído muito bem, esse capim africano que chamam de colonião se deu muito bem ao nosso clima, oh, meu filho como preciso de voz, tenho muitas coisas que não estou podendo olhar como deveria e, parece se agravar os problemas políticos, para voz ter uma ideia existe agora, embora seja algo que já venha sido formado á algum tempo, as causas determinantes da tal cabanagem o que venha ser isso, deixe-me explicar numa síntese, é o ódio dos brasileiros de cor, pretos, mulatos, caboclos, mamelucos, pelo povo português, eu até entendo suas causas, mas, não fui eu que escrevi as leis tão pouco separei as raças e religião eu tenho feito minha parte para que isso acabe um dia, demorou-se mais de cem anos para a Provisão Régia declarasse injusto e abusivo tudo que se exigia pelo uso do mar e praia, observei essa discrepância quando cá cheguei, o contrato de carne verde por exemplo sempre esteve não mão de hum só homem com exclusão da liberdade de que todos devem gozar, ai um representante do senado do Recife me disse alguns dias atrás, "voz não é conhecedor do velho ditado do nosso país, uma andorinha só não faz verão, esqueça essa ideia de liberalismo".
Uma elevação veemente estampa-se na face de me pai, expressão que se julga necessária do homem em face da natureza e do próprio homem. Com caracterizações ingênuas de seu pensamento, manifestando, assim, um campo de conciliação entre nós já que eram raras a vezes que conversávamos sobre esses assuntos. Seu desejo foi sempre de ver seu único filho homem estudar ciências naturais, à espera de um terreno comum em que, pudéssemos exercer ação conjunta, isto é, que eu me dispusesse a estudar única e exclusivamente o conjunto dos métodos científicos aplicáveis à agricultura a pecuária. Isso é que era lucrativo e importante uma vez que dispúnhamos de todas as possibilidades e, a nossas terras serem bem administrada. Só que nem tudo é como se deseja. Desde pequeno gostei de estudar as letras; passava horas e horas lendo livros, repetindo versos de Homero, deleitava-me com as mais encantadoras historias da mitologia era como se o Monte Olimpo fosse o velho farol da praia. Hoje posso sentir como se o intelecto despertasse em busca do próprio caminho.
Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. E, num instante apareceu Iza, trazia uma travessa, dirigiu-se com seu andar gracioso, para o lugar em que eu estava sentado. Respondendo a sua cortesia com uma leve inclinação de cabeça, puxei a cadeira para mais perto da mesa.
"Hum, como é bom voltar sentir o cheiro da comida de casa".
Enquanto tomava o café, papai continuava a falar dos negócios. Depois mudava de assunto, a sua presença venerável impunha sem artifícios uma grande bondade obsequiadora, não proferia palavras ofensivas dos seus adversários políticos; não aceitava donativos dos seus correligionários. Fazia angarias reacionárias que não queria doutores das escolas modernas, citava a ignorância do Bernardo da Costa, a grande mortandade que ele fizera no conselho em três anos que tivera no partido.
"Diz-me, filho, perguntou-me com meditação e análise, sabes existirem certos homens a que se chama ingratos".
"Sei, respondi-lhe".
"Tu também sabes porque recebem esse nome".
"Sim meu pai, falta lhes a virtude, recebem benefícios e que, podendo não manifestam reconhecimento".
"Muito bem, meu pai sempre dizia, há homens de destino e homens de ação".
Enquanto papai expressa o motivo que o leva à eloquência, mamãe retornou trazendo uma jarra com suco de abacaxi.
"Pela conversa, notastes, sem dúvida que seu pai é hábil no que concerne aos negócios públicos", disse mamãe, servindo-me com sua sutil finura.
"Está claro", concordei como espectador, "é igualmente laborioso e diligente em suas diversas atribuições".
Sentia um enorme prazer em estar ao lado de minha família, essa disposição que a alma experimenta é indubitavelmente reconhecida como boa, pois, quando se vivem em harmonia o homem julga tudo corretamente, e em cada grupo de coisas estas lhe parecem o que realmente são. Essas ideias pareciam dar-me uma capacidade de passear pela galeria de retratos feitos no espaço, como se eu tivesse uma antivisão, percebia a delicia de examinar aquela cena, cujo aspecto me deslocava para outro campo de visão. Ai vinha o entusiasmo de existir naquele momento de perceber o intuito que absorvemos a busca do bem real, a escolha de cada um sobre o que deliberar e escolher, nossas ações relativas aos meios devem estar de acordo com o nosso poder natural de atuar. Efetivamente, a finalidade não poderia ser outra; esses momentos, risos, a alegria, delineando a jovial junção, onde a norma e a medida do nobilitante e agradável não são apenas um bem aparente, mas um verdadeiro bem real.
Depois, já acomodado em meu quarto, percebia que, em relação à situação e decoração, era quase completamente idêntica desde minha infância. Cansado, atordoado pelo redemoinho desta manhã, sentei-me numa poltrona à janela aberta, ascendi o holandês, relaxei tirando breves baforadas, á fumaça misturava-se a leve e brilhante suavidade da brisa. O mar tomava uma cor verde-esmeralda, o ar parecia mais leve do que nunca. Assim, fiquei perto de uma hora, descansando, pensando como a mente na medida que compreende, é um eterno modo de pensar.
III
Suma alegria manifestava-se em Elvira, a cada vez que entrava em sua casa, afeiçoada a seu ameno sorriso seus traços pareciam cultivar ainda mais seus encantos.
"Ah, Camilo, há algo em ti que eu percebo ser novo, não que o ache mudado, não é essa a palavra, mas apercebe-se um aprimoramento em sua alma, para quem o conhece uma aplicação visivelmente observada".
"Te agrada", respondi abraçando-a, docilmente inspirou harmoniosos murmúrios, ao comprimir seu corpo contra o meu, pude sentir a delicio sensação do eixo floral, beijei-a.
As palavras de Elvira inculcavam à acepção que ela fazia das ideias, como se fizesse parte da estrutura intima de meu pensamento. Enquanto eu a acariciava, parecia ocupar a posição terrena mais elevada. Havia tanta expressão sincera em seus olhos em seus movimentos, seu brilho assemelhava-se como as conchas do fundo do mar, a boca modelada com a mais rica mumificação. O beijo como arte de sua própria perfeição. Caminhando por entre as cepas, vede, porém, o talhe, a curva sedutora dos quadris, o trecho de pernas que aparece entre seu vestido de linho branco, e o tornozelo, uma sandália de couro, que mostra os pés graciosos, finos, esguios e ligeiros o que a torna atraente e sensual. A cabeça também não leva coifa, tem os cabelos atados em partes, em partes transados – tudo desleixadamente, mas de um desleixo voluntário e brilhante. Na cozinha dona Berta preparava um tacho com vatapá; uma cozinha modesta, com a simplicidade do trivial mais fácil, às mais estupendas mistura de dendê e pimentas queimadas. Apesar do calorífero que aquecia toda a casa, um fogo de hulha alegrava a cozinha; a mesa grande, as cadeiras, um aparador de mogno e dois armários de imbuia denunciavam o amor pelo conforto, ás longas digestões felizes.
"Fico feliz de vê-los alegres, disse dona Berta entre si, enquanto friccionava com a mão uma colher de pau dentro do tacho para se firmar na consciência da vigília, reconheço que não há nada para curar uma paixão do que o regresso de uma viagem. Já não há medo que o pássaro abra de novo as assas", Elvira realçou a objeção da tia aconchegando-se em meus braços com uma manifesta estimativa.
"Se assim é, mostrou-se gentil, pois, logo chegastes e veio nos visitar".
Essa agradável cadencia existencial prendia-se ao meu fascínio. Sentir essa coordenação era o mesmo que conhecer as qualidades que os contatos categóricos nos oferece de melhor no conteúdo social. De fato que sim, esta ligação da felicidade, este diário inicio regular da graça das circunstâncias vinha completar ainda mais o bem que me enchia de satisfação e alegria de viver, e esse amor ser aumentado ainda mais ao lado de Elvira, minha musa, deixando um dia de sol estender-se agradavelmente para outro dia.
Na manhã seguinte, quando o sol já brilhava com todo seu esplendor, e, a luz da ao olhar o lance ao conteúdo total da nossa existência, descobrindo o belo corpo de Elvira, até na mais vulgar consciência, maior variedade de qualidades e de meios para satisfazer. Vinha agora, a meio busto, tinha uma boa desenvoltura, membros roliços e bem torneados, a pele alva como a areia do mar.
Caminhávamos pela praia.
"Como é bela a junção dos dois extremos", disse, examinando o céu que parecia colado ao mar no horizonte.
Com a maré baixa a beira expandia-se numa superfície plana. Nesta parte da beira-mar forma-se muitas locas sob as pedras. Ora corríamos, ora parávamos e nos beijávamos. Um beijo profundo, a deliciosa volição, querendo que nossas almas se expanda á maneira do oceano livre, límpido e triunfante. O mar estava completamente azulado, imitando o firmamento. A brisa soprava deliciosamente, amenizando o calor. Havia em cada matiz, em cada canto um convite para a vida em plena liberdade. As cotovias e as gaivotas esvoaçavam em roda de nós. Um cordão de pedras lisas, postas de espaço a espaço, auxiliava a passagem até alcançarmos as locas que formam belos aquários naturais. Ajoelhei-me aproximei o rosto bem junto à água.
"Veja Elvira quantas variedades de peixes".
Á medida que colocávamos os pés na água, fugiam rapidamente. Diante das águas cristalinas, Elvira mergulhou, surgiu fora, com as mãos sacudiu os cabelos. Essas locas não são profundas, vê-se o fundo coberto de pedrinhas esverdeadas revestidas de filamentos, o que indica que nunca estão secas, assemelha-se a cabeças de crianças com cabelos verdes.
Ao ver nosso retrato refletindo sob as águas, percebia o quanto age e participa da natureza divina. A felicidade e a suprema liberdade além de tornar nossas almas tranquilas sob todos os aspectos, nós oferece a vantagem de gozarmos da distração imensa e fascinante do silencio do mar.
Nadávamos livremente.
Era deslumbrante ver o corpo de Elvira cheio de vida, destro e de uma graciosidade o gomo feminino; com os cabelos molhados e bela como uma deusa, surgi do fundo do mar; este aspecto inspira ideias mitológicas. Era como a arte poética de tempos primordiais, da origem da forma e da nascença dos deuses. Elvira parecia escutar de olhos fechados os primeiros sons deste canto que soava na sua alma, e pensava que ali era bom e que desejava ficar. Num desses entretidos movimentos, ficamos face a face.
"Meus esforços parecem ter sido recompensados", dizia ela, beijando-me as faces, depois, suspirando profundamente, trazia o alento da alma para fora olhando com seu sorriso gracioso cheio de felicidade, retribui, beijando-a.
Uma hora mais tarde, estávamos sentados em uma rocha descansando. A maré enchia pouco a pouco, de modo que as locas já começavam desaparecer, imersas sob as águas.
"Então me diga Camilo", começou Elvira com suavidade, cujo eflúvio das palavras expressava um querer dizer, "como é esta liberdade mais nobre do que aquela que os homens chamam de livre-arbítrio".
Essa atividade da alma que se expandia em Elvira, consequentemente afetava-lhe a excelência intelectual e seu crescimento era cada vez mais especulativo à medida das acepções que fazia de minhas palavras.
"Os homens que procuram a bondade de acordo com a razão, isto é, homens que, sob o impulso da razão, procuram o que lhes seja útil, o que desejo para mim, necessariamente devo desejar para o resto da humanidade, ai foi o que de mais importante consegui discernir, é que, ser poderoso não é colocar acima da humanidade, governando outros, se estes fossem escravos, mas ficar acima das afecções e frivolidade do desejo deformando o governar do seu próprio eu, devemos usar o determinismo de forma favorável e não de maneira repreensiva. Aprendi Elvira, a velha lição de que Deus não é esta personalidade caprichosa absorvido nos assuntos privados de seus devotos, mas a invariável ordem de sustentação do universo, portanto, a teologia cristã só derrama medo, superstição, fanatismo e despoja a classe ignorante, dessa mesma forma, apreendi também, Elvira, o não pensar que é a atividade moral a chave para a interpretação de toda a realidade, e que a justa atitude no campo das indagações nos demonstra o sentido positivo".
Elvira se encheu de espanto com a quantidade de palavras que pelas suas recordações nunca as havia ouvido de minha parte. Mas, por outro lado uma ação condicionante parecia lhe dar forças para esperar e refletir essa nova representação subjetiva de minha conduta.
"Esse peso do racionalismo, deu-lhe a confiança desejada".
"Sim, sinto-me como se estivesse mergulhado num lago cristalino e olhando o sol tinha a sua imagem imitindo apenas centelhas finas por um clarão difuso, agora, imergindo, posso perceber que o sol é uma parte apenas do céu, olhe Elvira, olhe para tudo isso, o que mais poderá ser essa força divina do que senão o próprio Deus, onde mais haveríamos de procurá-lo, senão concebendo sua força e necessidade de agir, somente uma alma impotente deixa-se levar pela superstição e paixões negativas da imaginação que, incapaz para perceber as leis necessárias do universo, oscila entre o medo dos males e a esperança dos bens, uma tal consciência dilacerada por paixões contrarias e atônicas diante do infinito jamais alcançara a verdade nem se sentira unida a Deus, isto é, a natureza; não estou dizendo-lhe que encontrei a verdade, mas uma direção segura para seguir".
Elvira continuava com os olhos pasmado como se contemplasse as coisas possíveis de variação; mas não ousava deliberar sobre coisas que até então julgava invariável. Parecia à busca e a repulsa pairar na esfera do desejo e essa afirmação tendia em seus pensamentos dando-lhe a percepção ou situado na consciência da natureza prática. De modo que, pouco a pouco a função de seu semblante foi protagonizando a boa inteligência prática que existe em sua combinação de pensamento e caráter.
"Sua palavra Camilo, disse Elvira, demonstrando sua capacidade de conceber uma infinidade de modificações, mas impossível de desfazer-se tão prontamente dos sentimentos a adesão que imprimia profundamente em sua memória essa nova realidade que se apresentava ao conhecimento, mostra-me demasiado ao considerar o quanto meu espírito tem de fraqueza e de pendor que o leva insensivelmente ao erro ou dúvida não sei bem, entretanto, a reflexão me dá a conquista de uma certeza; seus olhos trazem uma satisfação e que parecem seguir constantemente a virtude, dando-lhe assim um hábito á sua alma que a meu ver nada mais é do que a própria tranquilidade e descanso da consciência; e isso, afeta-me com uma espécie de alegria, a qual creio ser o amor ou a mais doce de todas as coisas, porquanto sua causa depende apenas de nos próprios, consequentemente, no sentido mais geral sinto-me agora muito mais segura e serena e no interior de minha alma a uma satisfação quase que palpável, um calor ou agitação que dispõe a alma a se entregar poderosamente à execução das coisas que ela quer fazer, assim, creio que em ti também haja uma disposição para empreender e executar todas as coisas que julgue serem as melhores para nós, e que, esse amor venha nos unir cada vez mais".
"A maneira que vós concebe produz em mim a alegria tão desejada, dizendo assim, abracei-a, de modo que ela pudesse experimentar o calor de meu corpo e o quanto este sentimento é verdadeiro, distante de ti e, quando a saudade chegava, procurava recebê-la com alegria, no começo foi difícil, mas, à medida que o tempo ia passando entendia a necessidade de sentir-se alegre comigo mesmo, só assim, venceria o desejo de reencontrá-la, cada dia minha alma ia nutrindo o desejo de juntar seu corpo ao meu e nem mesmo os encantos da cidade ofuscava esse estado afetivo, ao passar pelos jardins de Paris, sentia uma inquietação doce que afervorava minhas lembranças, havia uma expectativa como se fosse encontrá-la ali em alguma parte, depois minha imaginação fugia para uma outra parte, estendia-se em alguma praia silenciosa, fechava os olhos, de maneira que via vós correndo ao meu encontro, com seu olhar límpido e alegre com aquele vestido que a vi pela ultima vez antes de partir, lembra-te, sobre os ombros usava um enfeite de tule branco, largo, com decote em V que deixava livre seu pescoço macio e flexível".
Enquanto falava, percebia algo de novo brilhando em seus olhos, algo profundo que um estado afetivo exerce sobre toda a personalidade; aproximei-me de seu rosto e os meus lábios pegaram a curva arredondada dos seus, suas faces acetinadas diante da pequena extensão que os separava dos meus, guiou sua boca até encontrar-se com a minha e, ai, com um dinamismo manso que deixava uma boca até então infantil, para manobrar uma habilidade doce de mulher. Uma influência lascívia em que eu sentia todo o ardor do seu desejo, fazia brotar a volição voluptuosa de ater-se no ponto sensível do lado dela, e ali com certa afabilidade mantinha-se, para fazê-la contorcer-se, interrompendo o beijo, comprimi-lhe o pescoço com a boca. Minha boca junto a sua ali se demorou por minuto aturdido, depois com a mão apertei-lhe as costas, as nádegas com fascinante prazer, beijei-a com sofreguidão.
* * *
No ano seguinte, numa tarde de julho quando o vento sopra muito mais fresco vindo do sul, estava eu e Elvira em uma cabana coberta de sapé; estas que os pescadores costumam-se assentarem depois das longas pescarias. Desde quando voltei da Europa eram raras às vezes em que não ficávamos juntos nos finais de tarde. Sentados em um banco, eu, com uma perna de cada lado, de frente para Elvira, de modo que podia ficar bem perto de seu corpo, sentindo o perfume de seus cabelos.
"É melhor casarmos logo, disse ela, com os olhos ternos e risonhos, cumpriremos todos os princípios católicos, concordas comigo meu amor".
"Sim, se for de teu agrado, que assim se suceda, também será do meu".
"Devo comunicar logo a minha tia".
"Vamos contar-lhe esta noite", disse com entusiasmo.
"Sim, quando mais cedo melhor".
"No próximo sábado, iremos a Salvador tratar dos programas e compraremos um anel de noivado".
Elvira suspirou profundamente e, disse que não havia no mundo alguém mais feliz do que ela. Que doce sensação ao vê-la tão alegre, tão natural em manifestar seus sentimentos, seus olhar brilhando como o sol do meio dia. A elevação de seus desejos e prazeres agora emanava muito mais preponderante, e, eu, me deixava atrair-se por eles, por desejá-los e amá-los, esse modo de pensar dava-me a ideia clara da coisa amada. Percebia dessa maneira algo em mim projetando-se sobre o mundo, algo que me dava à certeza de não estar sozinho, fato que nos conduzia ao amor e uma comunicação direta.
IV
Diante do espelho observa minha imagem, ajeitava a casaca de cor verde-musgo, a gravada de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao pescoço saia muito rijo de goma entre as lapelas desnudadas do colete de veludo preto. A calça de pregas, ampla, de cor bege, as botas de polimento novas. "Assim, parece estar ótimo".
À noite em casa de Elvira, tendo degustado uma agradável refeição disse:
"É sem dúvida um momento muito especial este, e aqui a temos diante de nós com sua atitude modesta, sua serenidade de sempre, aureolada de um triunfo que traduz perfeitamente seu valor, e que tinge com as cores de seu talento".
"Oh, senhor Camilo obrigado pela consideração, mas o que tenho com a graça de Deus, reverenciou a senhora Berta de maneira restritiva, na verdade, foi edificado sobre as mais duras pedras do sacrifício, e, muito devo aos ensinamentos de meus pais e ao estimulo dos amigos que tive, percebi bem cedo senhor Camilo que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança, peço a Deus que permita minhas forças não se esgotarem antes de vê-los, assim, felizes para sempre".
Neste momento, olhei para Elvira, enquanto a senhora Berta contemplava algumas figuras mitológicas, que ornavam a parede defronte de sua cadeira. Fiz um sinal que era chegado à hora.
"Sendo assim, senhora, tenho a satisfação de valer-me desse perfeito particular, com a convicção de todo o amor que Elvira me tem demonstrado, e pelo amor que a tenho retribuído, quero do mais profundo de minha alma pedir-lhe a mão em casamento e o consentimento venerável de vossa parte".
A senhora Berta recobrou-se como de um desmaio, e exclamou:
"Muito bem me parece esta novela, mas posso persuadir-me que seja isto verdade, e, sendo assim, faremos nesta data em que o mundo nos sorri mais uma vez, e para minha maior alegria e singela prova de minha ternura, levantando-se, se aproximando de nós, estendeu a mão direita e a pôs sobre minha cabeça e, fazendo o mesmo com a mão esquerda sobre a cabeça de Elvira, o Deus que me sustentou durante a minha vida até este dia, o anjo que me tem livrado de todo o mal, abençoe este rapaz e esta moça a viverem unidos com o precioso óleo sobre suas cabeças, como o orvalho de Hermon, que desce sobre o monte de Sião. Assim, os abençou".
E havendo acabado de dizer isto, abraçou-se com Elvira, ajuntando seu rosto ao dela, com um sentimento de tão viva ternura, em que as lágrimas vieram dar provas indubitáveis de seu amor, além de um amor de preceitos e incontestável prática, o amor puro de uma verdadeira mãe. Em seguida, levantei-me, abracei-a com mostra de muita consideração.
Elvira vestia um vestido de percalina rosa de quatro listas, traje simples, mas de muito bom gosto como sucede a todas as pessoas em que uma distinção natural realça os menores acessórios.
Esse era o prazer necessário que minha alma desejava. Mas, de uma forma tão natural que ninguém chamaria tal prazer de incontinente, e, parecia esse desejo mover cada parte de meu corpo agindo assim sob a influência da reta razão, qualificando ações moderadas, exercitando o conhecimento da circunstancia, percebia desse modo como este esforço é a primeira e única base da virtude.
Brindamos com alegria o meritório momento. Depois fomos até a varanda. A noite iniciava-se bela, que vai para o sublime longe desconhecido nas asas da felicidade e da perseverança. Uma deliciosa brisa marinha, e um cheiro de terra se misturavam no ar, como a animação da terra primitiva. Na direção sul, bem acima da linha costeira surge uma estrela bem brilhante pulsando sem cessar. O céu é importante, ele nos dá uma ideia da infinita evolução do ente supremo. Mesmo com essa imensa distância que nos separa das estrelas é notório vê-las mover-se com uma graça sistemática. O murmurejar das ondas e o vento que açoitava as arvores em volta da casa, dava à consciência os movimentos de uma terra em transição, onde seu interior cambiante assiste a atividade tácita espacial; em nós, dotados do discernimento reconhecemos sua representação que aos nossos olhos oferece. Como é linda uma árvore apontada para o céu, muito mais onde a vegetação é rara, o que torna os lugares místicos, ascéticos em sua selvática natureza.
Além de amor que havia entre nós, existia ainda uma ligação de espírito e de alma que direcionada para a mesma finalidade, unia nossos objetivos a pensar constantemente à utilidade comum, percebia o quão raro é um relacionamento dessa forma, e, assim, éramos levados a viver livremente. Sempre que aparecia com um assunto novo, Elvira se interessava no sutil das ideias, da lógica, do racionalismo proposto com ideal supremo, é claro que algumas vezes se deixava elevar um pouco pela imaginação, mas nada excessivamente subjetivo como é natural do espírito feminino, procurando sempre um exame inteligível dos fenômenos da vida real que, por conseguinte sua emoção fica intensamente explorada; claro que suas palavras não fossem apenas para me agradar, vem por uma aclamação natural onde cada significado era a exaltação de uma nova espontaneidade, a ponte de ligação entre nós o que me fazia desejá-la e amar cada vez mais. Sempre então, que tentávamos interpretar o mundo exterior ela acreditava que o homem se apresenta na sua melhor imagem quando mais próximo da natureza, assim, admirava o trabalhador do campo do mar da floresta, o "selvagem nobre"; embora eu pense que o estado natural não seja o melhor para o homem. No semblante de Elvira transparecia um fragmento afresco, que desde então procurava vislumbrar sempre que estava junto dela ou quando apenas pensava nela incitado pela imaginação. Docilmente, Elvira sorria para mim, depois nossos olhos se fixavam no céu, sentados a porta, nossa consciência bem mais alta, dava-nos um momento da mais pura abstração, como se sua causa estivesse purificada de toda efetividade e completamente exangue; como se Minerva falasse conosco até que roupa no horizonte a aurora.
"Quando a noturna sombra da noite envolve a terra, disse ela, olhando para longe, como se sua palavras fossem atingir o céu, eleva-se em mim uma estranha vontade de conhecer o lugar em que nasci; mas, de súbito me toma o corpo, gelado o sangue e trêmula, recuo. Quando ia para me deitar, meu único consolo era que mamãe ou meu pai viria me beijar na cama, Boa noite minha filha durma bem, mas tão pouco durava aquilo, pois, havia uma criatura que está em toda parte; cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto e, é desse destruir que suas forças brotam, então, nessas noites ficava tentando imaginar o formato de seus rostos como poderiam ser só apareciam em vultos e, por mais que me esforçasse não conseguia alguma definição, assim, friamente contemplava o desespero e o gozo, de modo que, nunca pude ver mais que aquela espécie de laço luminoso, recordado no meio de trevas indistintas; talvez o amanhã da vida abrira meus olhos, em meus sonhos, contemplarei nesta ambição inquieta".
Elvira emocionava-se quando falava de seus pais; virava-se olhando para o céu, para o horizonte como se o vento fosse segredar-lhe aplicando uma emissão de muito longe, de modo que esses componentes subjetivos penetravam em sua alma, atravessando sua cabeça, onde o material em série que lhe era apresentado não lhe dava as informações necessárias, causando-lhe assim uns mistérios legados, inexplorados. De modo que, essa atividade da alma era-lhe vigor, necessário para descobrir sua origem. Era perceptível na função do desejo de seu olhar, deixando correr, se assim, posso dizer, ao longo das veias por onde o domínio da visão era integrado ao campo do desejo. Essa era sem dúvida à parte do episódio que mais interessava à Elvira, sua existência. Muito mais agora estando eu á seu lado, sua vontade não faz mais do que veicular para um futuro sempre curto e limitado o que ela sustenta de uma imagem do passado, mas igualmente desconhecido que se associava tão deliberadamente como abertura para um mundo com uma aliança séria com tudo que existiu. Tinha agora esse desejo como algo indestrutível, e não queria que ele se escapasse ao tempo. Ela sabia de algumas coisas, mas também não sabia de muitas outras, por uma razão ou por outra a senhora Berta não havia revelado de todo que ela gostaria de saber, de forma que Elvira ficava sem saber o impedimento desta e de outras razões, que a prova disso lhe aumentava ainda mais a curiosidade. E, consequentemente a minha, supunha então estarmos circunstanciado algum mistério, ou descobrindo algo de muita importância que o tempo até então não tinha nos mostrado em questão.
"Não sei, continuou Elvira, que impressão pude até aqui causar em ti; então, á medida em que ia passando o tempo, minhas investigações se tornavam num emaranhado de enigmas, o que mais me desperta a curiosidade é que meus pais morreram ou foram mortos num mesmo dia, esses acontecimentos ocorrer num único dia é deveras intrigante, há uma série de acasos e coincidências, obtive esses fatos de tia Berta depois de muitas perguntas e incansáveis insistências, insistências essas que me deixava muito irritada porque não eram bem explicadas em tudo, todas vezes que tocava neste assunto parecia desagradar, e, essas atitudes dela faziam formar em minha mente ideias vagas e semiforme que desejava de toda forma compreender, a razão Camilo, para me trazer para tão longe do lugar em que nasci, meu objetivo último é apenas toda a verdade, e a vou buscar até o fim, penso, entretanto, que talvez nem ela saiba de toda a verdade, mas não é entre o visível e o invisível que, nos outros, temos que aceitar, com vós ao meu lado, tenho mais coragem e confiança a segurança necessária que me faltava para descobrirmos todas as respostas de maneira suficiente".
"Com certeza meu amor, se interessa a ti, a mim ainda mais".
Assim, dizendo-lhe, abracei-a fortemente. Nesse momento a sensibilidade deixava-me evidente como a vontade o desejo é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; Elvira, sentia ou melhor deixava-se perceber sua vontade que seus pais estivessem vivos para vê-la tão feliz, e, tão logo esse sentimento se exauria, percebia, ao mesmo tempo, a fonte de todo seu sofrimento e, de como seus sonhos era o prazer fugaz e parecia de fato não existir satisfação durável mas, uma ilusão de um bem presente. Entretanto, agora, haveria um ponto de partida para novas aspirações, como se algo apontasse algumas vias para a supressão da dor.
Ao repontar da manhã de sábado, logo apôs o café, preparávamos para irmos à cidade. Na frente de casa, a sege já esperava. Era uma bela manhã, uma fina substância de água e sal acumulava-se nos vidros das janelas; as aves marinhas como de costume voavam em volta da casa, e o mar resplandecia os primeiros raios de sol. Algumas galinhas ciscavam o chão, uma porca com sete leitões coçava-se na mureta de pedra, alguns gansos batiam ás asas como preparados para levantarem vôo o grande jabuti se movia bem lentamente na direção da porta da cozinha.
"Até logo mamãe, disse, voltando-se para frente da casa para, onde minha mãe acenava Elvira ao meu lado retribuía com seu belo sorriso.
Assim, num instante a sege deslizou o pequeno declive para ganhar o caminho. Neste momento via-se por entre as ervas e arbustos que cercavam em tabuleiros na eira o negro Manuel, tangendo o jumento manhoso que retouçava num valado. Ao deixar os limites da casa, começamos a correr esses caminhos de penetração, desde os mais primitivos, palmilhados, apenas pelo homem, até os que já eram, também, percorridos por animais de tração ou de carga. Muitas dessas trilhas foram aproveitadas pelos primeiros colonizadores, que as transformaram em trilhas carroçáveis, sendo alguns trechos cobertos por fino cascalho devido á enorme quantidade de areia. Dessa maneira íamos cortando por esses caminhos, ora por sobre as dunas, ora pela orla, seguindo o enleiramento permanente das palmeiras que se distribuíam em centenas de cordões em contorno. Enquanto percorríamos ao logo desse caminho paradisíaco, observávamos quanto esse era belo, a lei suprema da representação natural, a exuberante e primitiva natureza produzindo as formas que o homem pode, de certo, ter interesse em produzir aparências. O som das ondas do mar, os pássaros, macacos, enalteciam o valor dessa obra da infinita arte da natureza.
Em alguns trechos da estrada, devido a certos aluviões a sege dava alguns solavancos, mas não algo de tão incômodo que nos tirasse a agradável expressão que nossas almas absorviam. O vento ameno amoldava-se as nossas faces, suavizando, assim, os movimentos que se alvejavam pela frente.
Às dez horas em ponto descemos no largo da vitória.
Minutos depois, estávamos diante – assim como diz o vulgo – da carismática igreja da Vitória. Foi só mais algum passo e penetramos em seu interior.
Lá dentro beatas emendavam fitas azuis e brancas que se estendia do passadiço até as proximidades do altar, mostrando assim, que hoje celebrariam uma cerimônia. Para uma mente supersticiosa e imaginativa, a nitidez artística das formas barroca fazia morar um espírito sagrado na porosidade do mármore, e que realmente havia em proporções elevadas; as telas das escrituras sagradas das escrituras sagradas, onde a cor do antropomorfismo artístico vivia idolatrada. Ficamos por alguns instantes experimentando aquele sentimento artístico que a contemplação dá ao prazer atento à harmonia da simetria, da arte em manifestação da sensibilidade, do acordo das impressões, com a vibração perceptível excitáveis. Sobre o imponente altar, estava rica, no trono iluminado, sobre três ordens de lírios, a imagem da senhora Conceição da Vitória; alto a fronte a coroa de prata, onde engastava pedrarias os reflexos das luzes. Enquanto Elvira permanecia limitada às preocupações do espírito, sem olhar para cima, na modéstia curvada das orações, eu, limitava-me em apenas observar a bela construção da nave. Depois de alguns segundos, tomei Elvira pela mão e, atravessamos o santuário, manobrando esse talento de império, e entre uma coluna que sustenta a abóbada, penetramos por uma porta, com uma cortina roxa bordada em toda a volta de amarelo. A sala geral de estudo tinha inúmeras outras portas de uma delas o sacristão fez uma aparição súbita, refletiu um breve instante olhando para nós e indagou em seguida:
"Querem marcar um matrimonio, e pelo visto, o mais breve possível".
"Sim, respondi observando a gravidade indutiva do sacristão, e pelo que me parece, o senhor está disposto a ajudar-nos, estou certo".
"Muito bem, meu caro rapaz, reputou o cristão com resguardo, o senhor escolheu uma bela dama, por favor, sentem-se".
E, ao dizer assim, puxou uma cadeira para Elvira e outra para mim junto a uma mesa. Elvira com sua jovialidade e expectativa, sentou-se, realçando ainda mais sua elegância. Na mesa havia dois castiçais, alguns livros seminaristas, um tinteiro e uma pena, e um cristo crucificado, fundido em bronze. O sacristão parecia procurar alguma coisa; abriu uma ou duas gavetas e tirou de uma delas, um livro grande de capa rosa, assim feito, colocou sobre a mesa. Tinha o sacristão pelo menos uns cinquenta anos; andava bem nutrido, suas mãos eram grandes, escarlates, e sobre o dorso de cada dedo tinha um espinhaço de cabelo rijos como as cerdas de um javali.
"Então, deixe ver, disse ele, folheando o livro de capa rosa, pois bem meus filhos, seguindo as ordens, só poderão se casar nesta igreja a partir de 1º de outubro, se marcarem ainda hoje".
Olhei para Elvira com assentimento, ela com interjeição disse:
"Marque para o dia 15 de outubro".
Seus olhos pretos pousaram sobre os meus, vivos e impacientes tornando-se ainda mais belos, mas, sem duvida, mais belos. Assim, então, acertamos o casamento para o dia 15 de outubro, às 19 horas, na igreja da Vitória. O padre Sadoque que celebraria a cerimônia. O impulso e desejo da tia de Elvira, que o conhecia há muitos anos; sua preferência particular que nunca falhava. Na solenidade de entrada da noiva era o desejo de Elvira que tocasse uma música, que já algum tempo escolhera.Tocada em violino, "Polvo en el Viento"; o sacristão prometeu fazer o possível para dar o aspecto mais eclesiástico, muitas flores, margaridas e ternas do modo pelo qual a gota d'água recebe o raio de sol sem ser desfeita, tão grande quanto as outras, brilhara como esta, com igual intensidade.
Uma vez tratado desse assunto, lançamo-nos pelas ruas do comercio, pensando em flanar até á hora do almoço.
"O que me diz de passarmos a lua-de-mel na ilha", disse entusiasmado.
"Maravilhoso", respondeu Elvira no mais absoluto desejo.
Íamos, assim, de braços dados e, aquilo que está bem e consoante á ordem da nossa alegria, era percebido por cada passante que, pelo caráter vivo e dinâmico da vida em sociedade, se descobria em nossos semblantes que, independentemente da nossa conversação, saudávamos uns aos outros por um olhar amável ao passar.
Havia na rua dos Andradas, uma loja de joias, que se chamava Tazulita; entramos.
Na loja, sob o olhar deslumbrante de Elvira, comprei um anel de noivado, com duas pedras de um quarto de quilates engastadas num par de corações de platina.
Em seguida, entramos e saímos de mais algumas lojas. "Espere um pouco!" disse, parando em frente a uma loja de flores. Elvira ficou na frente da loja com benevolente expectativa, voltei logo com uma rosa vermelha. "Sua essência, assemelhasse ao nosso amor." Prontamente a contive em meus braços, e, as transeuntes que passavam, olhavam com indiscrição a cena que parecia voar dali misturando-se a excitação do vento, subindo agitando asas brandas.
Determinado por aquela ação positiva, seguimos depois, por ruas ermas e saudosas, velhos casarões patriarcais, ás vezes o som de uma melodia, chegando aos nossos ouvidos, causando uma sensação de felicidade sem fim, que nós, nossas almas as continham e não permitiam que ela se extinguisse jamais, permanecia em nossos cérebros se elevando dali, misturando-se ao éter que tudo envolve e, para as infinitas alturas se anunciando tão deliberadamente como uma abertura para uma ilha no espaço, e, nós criaturas penetrando nos clarões incontáveis; cada um assumindo em primeiro lugar seu significante planeta num sol desolado numa esquina da Via Láctea, de modo que deixa-nos perplexos diante do absolutamente ente supremamente perfeito. Desse modo ia, percebendo o quanto o corpo exprime a maneira certa e determinada, a essência da natureza; e, por essa quadra de flores minha alma tinha conceitos, isto é, ideias que palpitavam ao vento como uma abelha à volta das corolas de um ramal de flores. Um período de aéreos perfumes, um minuto, um instante, onde nada se perde nem se esquece.
Depois, o ar fresco duma esquina no pelourinho, aprazível e rústica, abria sobre duas longas filas de sobrados seculares, formando sombras, onde o sol penetrava horizontalmente. No meio do quarteirão havia um estabelecimento onde se preparavam ótimas comidas. Na entrada ficava uma barrica suspensa no ar com o nome: Pedro da Silva Pescada.
Entramos pela porta principal e subimos uma longa escada, onde encontramos um amplo salão. Em algumas mesas ainda havia pessoas almoçando, em outras só permanecia a louça que servia àqueles que já não se encontravam mais. Algumas garras brancas sobre a mesa com restos de vinho, cintilavam a claridade reverente que vinha das janelas, onde se podia apreciar os telhados das casas que se estendiam nos quarteirões adjacentes e, que a tudo dava um aspecto mais ou menos pitoresco com a bela vista arquitetônica do Colégio dos Jesuítas; casas de todas as cores misturando-se as ruas tortuosas, estreitas e longas da colonização. Escolhemos uma mesa junto à janela. Assim, nesse ambiente aprazível, almoçamos tranquilamente.
Passava das três. Começava a soprar a variação da tarde, e o tempo refrescava. Elvira atenta ao anel que eu lhe dera, abria e fechava sua mão; era uma joia que combinava ao brilho alegre de seus olhos.
"Sinto-me tão alegre ao teu lado, disse ela com o mais puro sentimento que sua alma sutilmente expressava, é uma sensação nova esta, como se algo incógnito legitimasse a nutrição de minha vida".
"Esse amor que sinto por ti é como se meus próprios desejos tornassem uma parte quase indistinguível da natureza, respondi, como se meus olhos estivessem sempre para os princípios fixos e imutáveis da personalidade de Elvira, sua maneira natural e sincera de se expressar torna-me ainda mais feliz".
Logo mais à noite, fomos ao teatro. A peça era Frei Luis de Sousa de Garrett, com uma companhia teatral muito famosa de Lisboa, procediam de Recife onde foram muito aclamados.
O terceiro ato da peça terminava, o movimento de curiosidade se fazia, o mérito principal das belas maneiras e do bom tom da sociedade oferecia todo harmonioso onde tudo se combina tão bem, que choca, os candeeiros de gás que além de darem excelente luz eram de um asseio a toda prova o drama romântico estava em moda o conflito entre o amor e as convenções sociais, além da exploração do patriotismo e do destino trágico, o cenário era deslumbrante onde abrigavam sobrevivências medievais com toques ou manchas orientais, mocinhas vestidas de anjos tudo ao gosto europeu.
"Parece gostar", disse ao ouvido de Elvira.
"Muito boa peça, empregamos bem o tempo, isso nos mostra porque o autor conseguiu finalmente a consagração teatral, o cenário espetacular".
Na nossa excelente vista permitia-nos ver os binóculos assentados para os camarotes. Alguns cumprimentos e recomendações. As mais elegantes mulheres examinava certamente a Sra. De Almeida Prado que chegara recentemente de São Paulo; porque todas sorriam falando umas às outras. Então por final, o pano baixara.
Muitos aplausos.
Na manhã seguinte que no intuito de andar um pouco, vaguear, entre a praia, as pedras parava, olhava para mar, sentido a sensação do vento batendo em meu rosto o sobro da natureza articulando perguntas enigmáticas aos sentidos. A presunção, não da natureza em si, pois, esta nos apresenta seus atributos e títulos reais de forma que nos faz contemplar a densidade de sua interpretação incomparável, em contrapartida os acidentes mundanos na vida do homem os desviam de eterna aquisição. Assim, caminhava pensativo pela praia; durante a noite passada minha mente demasiada ocupada para poder dormir e passei á maior parte da noite sepultado em meditações. Certas passagens especiais afetaram-me a imaginação. Quanto mais eu pensava sobre eles, mais intenso se tornava o interesse. A questão da morte dos pais de Elvira era sem dúvida uns dos assuntos que me fizeram desconfiar, em conjunção com os fatos tão poucos explicados, que lhe fora comunicado como um segredo por sua tia. Sempre conversávamos sobre esse assunto, porém, as coisas começavam a tomar um novo alento. Minha vontade era de fazer algumas perguntas para a senhora Berta, todas as dúvidas que eu pudesse ainda entreter a respeito da insanidade dos fatos, mas minha ação de atracar ainda era limitada; precisaria de uma oportunidade de intercalar uma palavra. Era esse o assunto de minha reflexão; supunha apesar dos fatos poucos esclarecidos, de não haver dúvida alguma a respeito das mortes terem ocorrido num mesmo dia. São indícios claros de um crime. Mesmo se houvesse ocorrido um acidente, porque então a senhora Berta não nos contaria? Parece haver um cuidado premeditado como uma nevoa. Entretanto, esse termo assim aplicado me parece um tanto estranho. Bem, de uma forma ou de outra combinamos de irmos até o local e verificar com nossos próprios olhos.
Elvira Launay, nascera em São Paulo, e perdeu os pais quando ainda tinha um ano e, deste então até um ano e oito meses viveu aos cuidados de um certo Sr. Diogo Bernardes, que era nada mais nada menos que o irmão da senhora Berta e, o caseiro da família Launay. A tutora de Elvira, isto é, a senhora Berta sempre fora muito prestativa na criação de Elvira e, por esse meio nunca lhe faltara recursos necessários para sua boa formação. As coisas continuaram assim até que a senhora Berta recebeu uma carta de senhor Diogo Bernardes. Até ai, Elvira sabia, pois ela mesma o havia contado. Contudo, o conteúdo da carta é que não lhe fora revelado. Portanto, pode haver algo ou melhor alguma coisa de muito importante que esteja relacionado aos fatos que tanto importa a Elvira. Através desse ponto, nossa minuciosidade, nossos argumentos tomam forma e têm unicamente por objetivo, primeiro, conhecer as razões de terem trazido-a para tão longe. Em nossas conversas falava-lhe sobre a importância de encontrarmos essa carta; através disso teríamos o fio condutor se de fato houvesse referência com seu nome, um elo de ligação uma vez que era preciso estabelecê-lo, entre a ação ou a omissão e o resultado, para se imputar um fato. "Parece haver uma necessidade que eu não saiba de nada", exclamava Elvira dirigindo seus olhos para a lua e as estrelas. "Minha querida, disse eu, vamos com calma, não devemos julgar os meios. Sabemos, todavia, que o critério dos fatos exige clareza no que diz respeito à tipicidade do objetivo, uma vez que não se admite precipitação e interpretação analógica. Entendemos, porém, que o raciocínio bem desenvolvido levara-nos a uma conclusão lógica". Ora, enquanto assim, pensava, via meu reflexo na solidão das águas. Essa realidade transitória; meu corpo, meus pensamentos, minha espécie e meu planeta em tudo há uma realidade subjacente, e, eu exposto ao vento ao mar, essa força infinita da natureza na eterna ordem de leis e de variáveis relações dá-me a conclusão de uma causa imanente que não posso explicar. Durante esse tempo, enquanto observava essas regiões sinistras da praia, que dava a cena um ar da mais lúgubre solenidade, quiçá, nesse próprio momento Elvira em sua casa buscava maneiras nas quais poderia tocar na questão da carta com a senhora Berta. Não obstante, ainda havia uma concentração, uma atenção meticulosa para se alcançar o desejado. "Andava de um lado a outro como um tigre numa jaula, lembrava-se das minhas palavras: esta carta é muito importante". Fez um gesto, pondo a mão na nuca, toma fôlego e vaia a sala; sentada na cadeira de balanço, com a boca entreaberta, a senhora Berta parecia adormecida. Vendo-se, pois, Elvira livre dos olhos da tia, pareceu-lhe oportuno o momento para procurar a carta, e, tentar dar fim àquela proporção, em que tinha tanta intensidade, importância e, assim, com determinação, foi-se para o quarto. Sabia perfeitamente que se houvesse tal carta só poderia estar lá. O aposento achava-se na mais completa ordem, os moveis muito bem arrumado. Diante da porta Elvira faz uma pausa, reflete um instante; "é melhor deixar a porta aberta, assim se ela vier arrastando os chinelos, poderei ouvi-la". No momento as janelas de quarto permaneciam abertas, de forma que o sol, descendo no ocidente, mostrava-se no vão da janela, exatamente como se quisesse espreitar-lhe; avançou alguns passos escutando o som ofegante de sua respiração; convencida que a senhora Berta de fato dormia, abaixou-se, e sabia haver em baixo da cama um pequeno cofre de ferro (e sobre a fechadura a chave); estava aberto, conservando ainda a chave na fechadura, arquejante, abriu-o; que haveria, pois nele? Ela o contemplou por um instante – seu celebro girava em torno de milhares de pensamentos, e, um entorpecimento, uma enregelante sensação penetrava instantaneamente em todo o seu ser; não continha senão velhas cartas, bem como outros papéis de pouca importância. Exasperava-se igualmente tendo sua tentativa frustrada, um sentimento irascível tornava-se mais vivo. Contudo, não tinha razão alguma para acreditar que tal carta ainda exista. Após um lapso de segundo, empurra o cofre de volta para baixo da cama, tal como o achara; aparentemente, chamou-lhe a atenção, a penteadeira que havia três gavetas, um grande espelho – em sua curiosidade pareceu-lhe assim, a principio – ergueu-se e, abriu as gavetas, mas seria absurdo acreditar que estivessem ali, afastou-se com um passo fraco e vacilante, diante do espelho, sua própria imagem era sua adversária, do peito arranca um lânguido suspiro. No mesmo instante a senhora Berta entra sem que perceba. "O que esta fazendo!" Elvira, ao ouvir sua voz assim, vencida por um ímpeto de angustia incontida que se manifestara a principio, por impressão de surpresa, de espanto, de sobressalto; em meio a essa angustiosa meditação que se achava não pôde perceber a aproximação da senhora Berta; e, assim quase a viu numa intromissão importuna. "Nada tia", respondeu Elvira, tentando se tranquilizar. A senhora Berta franziu a boca numa expressão de dúvida e desânimo. Justamente nesta ocasião Elvira pensou que poderia começar a conversa, mas, tão pouco durou apenas o suficiente, e, pouco a pouco, o olho cintilante da senhora Berta mostrou-se, num total abatimento. A senhora Berta soltou um suspiro enorme. "Ah, meu Deus... exclamou sentando-se na cama com as mãos sobre os joelhos, enquanto cochilava um pouco na cadeira, começou-me a faltar o ar, oh, que sensação terrível, pensei que fosse morrer. Depois como se não bastasse sobreveio uma batedeira no coração, e, os pés ficaram duros e gelados, tentei até chamar-lhe, mas a voz não saia. Essa ideia de morte que já tivera uma vez voltara com mais intensidade, tomou meu corpo, meu cérebro como uma derradeira esperança. E, com muita dificuldade pude chegar até aqui". "Ora tia, fique calma foi apenas um mal estar, disse Elvira tentando acalmá-la e, com comiseração, pode sentir sua mão ainda fria apertando-lhe contra o peito, fitava-a, examinava-a, com um ar de surpresa até então, pois, o que a retinha trêmula e fanada era a impressão de nunca a ter visto tão abatida. Fique aqui deitada enquanto preparo um chá de erva- doce, está bem, não demoro, deite, assim, já volto, não demoro". A senhora Berta não se mexia, ficou inerte nem os olhos piscava com a claridade que entrava pela janela, idiotizada, como se não pertencesse mais a esse mundo. Elvira ficara como se sua alma flutuasse, com os chinelos da tia nas mãos, ficou sem saber que atitude tomar, seria melhor chamar um médico, é melhor fazer um chá primeiro, pensou enquanto olhava admirada para o semblante desfalecido da senhora Berta. Enquanto dirigia-se para a cozinha imputava o quanto corre o assunto que pretendia ter com a tia, desvanecia-lhe o animo com a ideia que ela poderia morrer a qualquer instante, ainda a opinião de que havia dado um salto em vão, e o que não lhe responderia tudo aquilo que gostaria de ouvir, por uma razão ou por outra, e tendo pelas poucas respostas que dispunha sinais manifestos de que ela era verdadeiramente sincera em tudo que dizia, mas a apreensão produzira em Elvira parecia ganhar cada vez mais força, fazendo com que ela de uma certa forma negligenciasse tudo o que invalidasse seu objetivo.
Será que Elvira executou seu plano! Pensava. Depois, voltava-me para a natureza. Junto ao ar fresco do mar, onde o crepúsculo expandia exuberantes tons sobre tudo aquilo que limita, permanecia parado, olhando como a extensão é eterna e infinita, a reflexão da luz nas águas demonstrava este espaço como um verdadeiro corpo, causava em mim um semblante de profunda concentração que me esquivo de adjetivar as ondas vão e vem como o vento com a diferença que este apenas sentimos já as ondas, temos a certeza que não se tocam umas às outras e com longuidão volve as preguiçosas ondas. Pouco a pouco o mar ia-se tornando sombrio. A visão e o olfato que são mais desenvolvidos nos mamíferos terrestres não são de grande utilidade nas profundezas do oceano. Consideremos este planeta raro, o único talvez com uma superfície oceânica de água líquida. Após termos descidos das árvores, evoluímos para uma postura ereta, nossas mãos ficaram livres, nossos pensamentos especulativos, possuímos uma visão excelente; podemos assim, olhar com nossa inteligência e habilidade para o céu, para o mar, enquanto nossas indagações estiverem limitadas a uma ou duas linhas evolucionarias em um único planeta. Sem dúvida, nós os seres vivos da terra somos a semente do mundo, humanos de um mundo moderno; o que nos impede de criarmos raízes e florescermos? Darwin insiste que o homem é um simples animal como a ostra, o lobo ou o chimpanzé. A permanência das estrelas está sendo questionada, a injustiça da escravidão não! A realidade atingia minha consciência como um objeto intencional que reporta todo o mundo circundante. Assim, ficava vagando por horas tentando entender como o objeto percebido é habitado por uma expressividade que liga cada um de seus aspectos aos demais. Algumas nuvens começavam a se formar no horizonte oeste, nuvens escuras, com jeito iam alcançando todo o céu tornando turvo o que se revelava ou que se mostrava por si mesmo que a chuva afinal viria encher o perpétuo jejum da terra e, dar por fim a natureza tons ainda mais belos.
Mais tarde em meu quarto, com uma camisa branca de algodão desabotoada no peito, sentado junto á escrivaninha antecipava algumas notas; Elvira permanecia sentada em uma poltrona, espreitava, podia ver sua imagem através do espelho, seu olhar insinuante de desejo, voluptuoso, lúbrico, admirável e sedutor. Sobretudo a perspectiva de sua presença antecipa-me os passos. A janela permanecia aberta, as cortinas açoitavam-se com o vento, mesmo assim, não ousávamos fechá-la; lá fora o brilho dos relâmpagos clareava tudo simultaneamente, alternadamente após cada estrondo das trovoadas; o barulho do mar cada vez mais encrespado. As chamas das velas do castiçal que estavam sobre a escrivaninha, tremulavam com o vento, mais pareciam muito inerentes às velas; num velho tinteiro mergulho a branca pena, a cabeça levanto encontrando o rosto de Elvira iluminado pelos relâmpagos; leve sorriso então assoma seus lábios; a racionalização do divino conduz sua imagem como uma visão, expressão documentada da mito-poética, como que seu personagem emanasse das epopeias homéricas; com sua certa unidade na ação divina, levanta-se da cadeira, vem para perto de mim, com destra mão e delicadeza, massageia meus ombros. Subitamente, então, começa um barulho, vindo de longe, não sei que direção, como se centenas de cavalheiros sacudissem a terra, e, tão logo o assustador barulho se aproximava começa a desatar grossos pingos de água – o barulho cada vez mais perto, mais intenso, o telhado parece que vai ruir, permanecemos apreensivos. Elvira fecha as vidraças e, vê-se através destas, grossa chuva de granizo cair. Um incrível intrépido fazia-se no telhado; o estardalhaço mantinha-se incessante e a continuidade do fenômeno nos enchia de uma atenção especial, trêmula, Elvira prendia-se a mim; neste momento acudiu-lhe o pensamento e os cuidados com a tia; a fim de aplacar seus cuidados, asseverava-lhe que não haveria perigo; assim, que o barulho ia gradativamente cessando, Elvira foi até a janela, olhava com paciência, seus olhos pareciam da cor da chuva que agora caia em lençóis, em toda a volta da casa; a chuva rugia e fustigava tudo em sua volta, derretendo o solo arenoso, banhando as palmeiras que se inclinavam como se fossem cair, enchendo os pequenos riachos até então secos, embora não os fizessem transbordar, pois, seu curso era tão pequeno que suas águas iam logo encontrar o mar; no vão da janela, acumulavam-se alvos cordão de gelo, muito raro chover granizo em nossa região. Depois, Elvira na cama mais relaxada, tirava suas meias de seda, enquanto eu beijava-lhe, acariciava a extensão voluptuosa de suas costas macia; exprimia com frases cortadas de suspiros aquela deliciosa sensação; e já não contendo mais o agrado de minhas caricias, vira-se com jovialidade, e, seus olhos sinalizam a luz do amor, como uma lâmpada numa mina em que se ilumina no momento em que o veio de ouro nos aparece; sobre a cama, no jogo de luz e sombra, que se misturam ainda aos relâmpagos, o corpo de Elvira, seus braços e pernas se torcem e contorcem causando em mim um êxtase cada vez mais excitante; e, já então nu me deito sobre ela, mal pude beijá-la e num instante, ardente chama, logamente, eternecidamente, balbuciava inconscientemente "meu amor, meu amor ah...ah...
Lá fora o vento a chuva, batiam na janela, eram testemunhas do nosso amor, pois, as cortinas permaneciam entreabertas, causando esta visão, mais que qualquer substância intima essa qualidade do mundo circundante, formava a alegria de um mundo apreciador.
V
A senhora Berta, passara a noite tranquila e repousante no profundo silêncio da praia de Estela-Mares e, uma hora a respirar o ar fresco e fragrante da manhã imediata apagando-lhe os efeitos da fadiga do corpo e do mal estar ao dia anterior; mas, ainda assim, parecia sobre si uma nuvem que essa grande mulher não poderia menos perceber e, por mais que procurasse sua origem, dissipava-se em formas abstratas; tinha um ar misterioso, tão desusado quanto assustador; o espírito da senhora Berta, como o de todas as mulheres verdadeiramente grandes, estava sempre aberto à persuasão; era rápida e vigorosa no raciocinar, e um momento de reflexão bastou-lhe para convencer que era chegada á hora de esclarecer o que tanto Elvira desejava conhecer; por alguns minutos deu algumas voltas ao redor da casa, examinando o que a chuva havia feito na noite anterior; parava, de quando em quando olhando para os rochedos e, num instante sobressai-lhe lembranças, não do interior da consciência como uma pedra no fundo d'água, mas, algo exterior como uma retração que nós descobre a si mesmo; os rochedos pareciam-lhe uma possibilidade, a esperança que ele um dia poderia voltar, não poderia ter se afogado, pois, Matheus conhecia muito bem o mar, mas foi-se tão cedo e, seu corpo nunca fora encontrado! Depois de um momento, nos mimos de sua intimidade sua intuição e vivência diziam para si: Ah, é ... eu sei, não deveria ter ido aquele dia, mas, tão logo vou te encontrar Matheus!
A tempestade havia desfolhado toda a plantação de mandioca, apenas os caules permaneciam em pé, em algumas palmeiras cachos inteiros se desprenderam, as palmas das carnaubeiras do buriti ficaram alisadas; lençóis livres, alimentados pela chuva, formavam-se nas camadas permeáveis próximo da casa; desta forma à senhora Berta ia compreendendo o significado da nossa existência, se entestado com a porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casa; havia uma parreira de maracujá, cujos pilares se vestiam de festões de roseiras vulgares e descuradas, alastrando-se pelos beirais da casa e por terra e, formando assim, alcatifas de flores de maracujá; formavam um caramanchel enverdecido de trepadeira, os frutos que estavam mais maduros haviam caído com a chuva e se espalhavam pelo chão; a senhora Berta, abaixou-se e com paciência ia pegando um a um e pondo-lhes num cesto; olhando assim para o chão e, toda vez que erguia o olhar para cima, um branco atava-lhe a visão, quando passava essa insensibilidade nesse breve espaço tinha cada vez mais certeza que seu aparecimento só podiam provir de uma determinação e, que só os muros de um túmulo a impediria de fazer instantaneamente o que tinha em mente; assim, entrou pela porta estreita que dava na cozinha; Elvira neste momento estava sentada de fronte da porta, com as costas voltadas para o armário; um cheiro de aipim cosido se misturava ao ar marinho; sobre a mesa uma bandeja de prata com frutas tropicais; Elvira, mordia lentamente a fatia de um abacaxi; usava um vestido verde estampado atado ao peito e sem manga, deixando a mostra seus alvos braços, com seu aspecto exterior único e natural, bem como penhores da ternura, como a luz, como ar seu movimento de pura transcendência, ato de "ir ao encontro do mundo".
"Ah, bom dia, disse a senhora Berta, circunvagando a vista pelas paredes, depois, encarando Elvira, exclamou, parece que chegou tarde ontem ou melhor chegou cedo hoje".
"Bom dia tia, a senhora dormiu bem, respondeu Elvira, tentando dissolver-lhe o pensamento, me parece bem disposta".
A senhora Berta encarou-a com as sobrancelhas franzidas.
"Sim dormi bem, replicou à senhora Berta, depois de tomar o café, venha até meu quarto", e dizendo assim, sai.
Ao ouvir isso, Elvira levanta-se imediatamente, como se aquelas palavras a tivessem evocado algo misterioso e real; redobra-lhe o animo, olhando em direção a porta lateral, enxuga as mãos e, vai adiante do corredor que leva ao quarto da senhora Berta.
"A senhora esta melhor tia", perguntou Elvira de maneira significativa enquanto entrava no quarto.
"Graças a Deus, estou um pouco melhor, a chuva também parece ter contribuído para isso, disse voltando-se para Elvira, aproxima, fita-a, e reflete, põe-lhe a mão no ombro e a convida para sentar-se em uma cadeira, pois bem, é chegado o momento, não posso mais abreviá-lo".
Elvira passa a olhar atentamente para a senhora Berta com expectativa.
"Assim, Elvira, tornou, diante dos fatos e acontecimentos, da responsabilidade de que me fora exposta, a fé que isto me vem e que hei de encher o vazio do meu temor, e trazer a lúcida claridade ao escuro de teus olhos, com grande silêncio estive eu por quase esses vintes anos, e com tal força se imprimiu à razão, porém, eu que, ainda que pareço ser sua tia, mãe, não sei, sou contudo senão sua tutora, ainda que eu nunca tenha lhe escondido tal fato, mas agora, que estás encaminhada e o bom Deus pôs esse moço em sua vida, o que eu somente muito desejava, assim, tudo tem seu tempo, sua hora, nada nós escapa a percepção de reflexão, sinto também que minhas forças estão se exaurindo e, tenho quase certeza que por de trás de um pequeno abalo, vem um grande tremor, de modo que cabe a eu entregar-lhe imediatamente o testamento de seus pais", concluído isso a senhora Berta vai diante de um oratório, no armário em que fica a imagem da virgem Maria, e com a mão esquerda a introduz por trás da imagem, e com os dedos força o fundo do nicho que se abre automaticamente flexionando uma pequena mola, Elvira admirada, acompanha atentamente a cada movimento da senhora Berta, dela, então, tira um envelope, continha duas folhas de papel, entrega a Elvira, esta os separa e conhece incontinente seu conteúdo, a primeira era reeditada pelo órgão do ministério publico, sendo referente a herdeiros ainda de menores, no caso um inventário, e não havendo mais do que um herdeiro, estava redigido o seguinte:
"I Os administradores e demais representantes das pessoas jurídicas de direito privado, para haverem dos seus antecessores a entrega dos bens pertencentes à pessoa representada, no caso compete à ação de emissão de posse a Srta. Elvira Launay".
"II Eu, Antonio Coelho Lousada, juiz, no gozo das atribuições que foram conferidas e de todas as minhas faculdades físicas e mentais, declaro por meio deste instrumento cuja circunscrição me houve verificado o óbito procederá, dentro de vinte e quatro horas, a arrecadação dos bens dos falecidos, cientificado o órgão do Ministério Público".
"III Comparecendo à residência dos finados, marquês de Gilles Launay e da marquesa Taiza Pigault Launay, acompanhado do escrivão, e presentes, ou não, o órgão do Ministério Público e o representante da colônia de Portugal, o juiz mandara arrolar os bens e descrevê-los em auto circunstanciado, confiando-os à guarda de depositário idôneo até que seja nomeado curador. No presente caso a Sra. Berta Barbosa Bernardes. Sendo assim, tornando nulos e sem valor, por esse modo, quaisquer documentos anteriores feitos. Com a única exceção das doações testamentárias enumeradas abaixo, logo todos os bens matérias, dinheiro e a propriedade a Srta. Elvira Launay, herdeira única e legitima, respeitando as seguintes condições":
"Primeiro: que a mencionada propriedade situada no bairro de São Bernardo do Campo, capitania de São Paulo, doravante denominada apenas a "Torre" conheço a estima e o afeto que consagrou seu caseiro, o Sr. Diogo Bernardes. É unicamente graças a sua bondade, a sua confiança e determinação ao seu apoio inquebrantável que assim serviu por todos esses anos os finados patrões, que continuara como tal, recebendo um salário estipulado pelo juiz, por influência do serviço, sendo-lhe ainda concebido, quando se aposentar uma pensão justa".
"Segundo: que o legado só continuara beneficiando a propriedade enquanto ele tiver o devido apreço, gerenciamento e capacidade do citado Sr. Diogo Bernardes".
"Terceiro: que o citado Sr. Diogo Bernardes será responsável pela administração e pela canalização dos mencionados bens materiais; propriedade, como retratos de família em pinturas, coleções de medalhas, livros raros, quadros e obras de arte, móveis e sua devida conservação. Os bens não serão vendidos se perder habilitação do herdeiro se este o requerer".
"Quarto e ultimo: que, o juiz é a pessoa a quem cabe determinar sobre a ação de entrega da menor Elvira Launay a Sra. Berta Barbosa Bernardes e ficando-lhe assim, toda a responsabilidade e obrigação e de cumprir a consequência jurídica que lhe fora confiada".
São, portanto, obrigação legitima:
Nunca faltar com os recursos necessários ao sustento, habitação etc; não faltando com medicamentos, privando de assistência médica etc. Perigo material: perigo de maus tratos, de moléstia contagiosa etc; oferecida pela pessoa a quem é feita à entrega. Abandono intelectual: deixar, sem justa causa de prover a instrução educacional em idade escolar. Abandono moral: consiste em permitir alguém que não autorizado, sujeito a seu poder ou confiado à sua guarda ou vigilância; I – frequentar casas de jogos ou mal afamadas.
Assim dessa forma, eu Berta Barbosa Bernardes, me declaro ciente e responsável por todas as atribuições que me fora confiada, São Paulo aos 3 de agosto de 1798".
Β.Β.Β
Á ultima folha estava anexado a um recibo de depósito em ouro, fornecido pela Casa de Administração Geral dos Diamantes.
"Fica nesta Casa da Administração Geral dos Diamantes a quantia de duzentos e seis escudos em ouro da conta da Srat. Elvira Launay, que se lhe pagará ou aquém este apresentar. São Paulo, 1 de agosto de 1798".
N° 372
O testamento estava devidamente assinado, datado e testemunhado.
Enquanto Elvira esteve lendo o testamento, a senhora Berta permaneceu sentada diante da janela, olhando fixamente para os rochedos. Uma chuva fina começava a cair; aguaceiros repetiam-se com pequenas intercadências, varejados pelos ventos que vinham do sul, por fim, as nuvens rolaram pelos desencostar do mar como escarcéus a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem uma nesga, e uma chuva serôdia veio regar a terra.
"Meu Deus, exclamou Elvira impressionada, que motivos tão altos me pôs nesta terra". Ela não podia ver as páginas em suas mãos através das lágrimas e, afastou-as de si antes de borrá-las. Extremamente pensativa, ficou Elvira, ao passo que aquelas lágrimas, as primeiras que derramavam desde a meninice, lhe caiam sobre o dorso das mãos, mas não caiam sobre o papel. Ficava muito mais evidente a oportunidade de sair de Salvador, e da perpétua obscuridade, o ensejo de descobrir o elo de ligação elucidar-se um mundo até então misterioso, incógnito. E tudo isso numa idade muito ditosa, mas ainda se afundava num certo torpor, por mais que se esforçasse não lhe escapava a ideia que seus pais haviam sido assassinados, parecia não haver duvidas, sombras e fragmentos de algo semelhante á ideia que lhe atravessava a mente. Havia, acaso, uma decisão para ser tomada. Ela, porventura, já sabia, soubera mesmo antes de conhecer o testamento, o dever a fazer. As lagrimas tinham secado, com sua graça habitual, ergue a cabeça. "Muito bem, disse se levantado, um caso complicado e muito estranho, agora só resta saber se foram mesmo assassinados".
A senhora Berta permanecia sentada com os olhos fixos para fora, mergulhada em pensamentos, com a pergunta de Elvira absorveu imediatamente sua impressão sólida e séria.
"Foi numa manhã, começou a senhora Berta suspirando com alento, na sala de aula recebi uma carta de Diogo, na carta ele dizia que havia acontecido uma coisa horrível, seus patrões haviam sido violentamente assassinados, brutalmente, aparentemente sem razões, e, que diante das circunstancias havia uma criança de apenas um ano, completamente indefesa, precisando de todos os cuidados necessários, o juiz é quem decidiria seu futuro, rapidamente acudiu-lhe o pensamento a pessoa que julgava capaz, confiável para tal responsabilidade, ademais, a consideração e estima que tinha pelos patrões lhe explanava a cruciante incumbência, contudo, essa decisão não seria tomada por si, mas, esforçar-se-ia para que fosse a melhor essas duas grandes questões aliou-se a seu espírito, foi ai, que rogou para que eu fosse até lá, pelo amor de Deus não pode haver outra pessoa, insistia ele, toda sua preocupação dirigia-se para sua dor que o atormentava uma dor surda, a lembrança de seus patrões, uma morte tão repentina, a dor enervava-o, deixava-o exaltado, fazia-lhe atingir um estado de êxtase, então mais que depressa fui até lá, daí para frente vós já sabes, quem vai poder contar-lhe mais detalhes é ele próprio, pois, tenho certeza que vós irá para lá, é seu dever minha filha, eu em seu lugar faria o mesmo, Diogo é um homem muito bom, trabalhador, muito honesto, com um espírito de uma abnegação antes de qualquer coisa, às vezes é muito engraçado um pouco sarcástico, seu rosto de traços muito indeterminados, mentalmente, fala, mas em nada há de maldade em seu coração, lembro-me o que ele sempre dizia, é melhor, portanto, ser rico de espírito do que ter os cofres cheios de ouro e a alma cheia de tormentos".
Enquanto a senhora Berta esteve falando, Elvira andava de um lado para outro como se buscasse uma pista para algo que ultrapassava sua área de conhecimento na qual tinha descoberto.
"Mas porque, disse Elvira com delírios e ilusões de uma psicose, cobre o rosto com as mãos, senta-se na poltrona, quem e porque teria feito isso, as coisas que lá estavam foram roubadas sequer", volta a caminhar de um lado a outro com extrema impaciência.
"Não, Diogo disse-me que nada havia sido roubado", respondeu á senhora Berta com a mais pura tranquilidade.
Elvira parecia estar à beira da compreensão, sem que, no entanto, pudesse compreender nada.
"Vós me dirá, continuou à senhora Berta, com efetividade nos olhos sem dúvida, mas porque não me contastes tudo isso antes, as coisas, em geral, constituem grandes obstáculos no caminho, dessa forma não poderia abrir-lhe o baú pela metade, deveria abri-lo por inteiro, mostrar-lhe o testamento e contar-lhe ambas as coisas ao mesmo tempo, a agora por hora, minha filha se acalme, afaste de seus pensamentos a ideia perturbadora de um motivo, pense, em seu casamento por hora, depois terá todo o tempo, a tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à vontade e a teu gosto, preste atenção minha filha, reitera á senhora Berta com designação, tudo que agora te peço e me parece possível e terreno é na realidade, minha última vontade, tinha agora no rosto sinais de lágrimas, suas palavras pareciam divagar por imaginações dispersas e, apontou para os rochedos, ali bem ali, Elvira que eu o vi pela última vez, a maré levantava a barca, Matheus, podo-se de pé sobre a panca, eu gritava para que ele sentasse, ele não me ouvia, Matheus levantou-se sobre a borda e ergueu os braços, uma grande onda bateu na barca, se caiu naquele momento é duvidoso que tornasse a aparecer, a vaga batia entre a panca e o rochedo, eram inevitáveis ser esmagado, é ali, Elvira, que desejo ser enterrada, concluiu voltando-se com sofreguidão, vós me promete, Elvira, minha filha".
Elvira mergulhada em seus pensamentos, interceptou apenas as últimas palavras, à vontade da senhora Berta, olha para ela com lágrimas, segura-lhe as mãos.
"Não fale assim tia, disse animando-se, levanta e vai até ela, abaixa-se, segurando em suas mãos, meu desejo é de vê-la viver ainda muito tempo, mas, em tudo farei sua vontade, pois, além da vida lhe devo a felicidade e a esperança que sinto agora e, nunca hei de esquecer-me tudo que sua honestidade me dera, sem dúvida estaria caída na desconhecida estranheza do sobressalto, mas Deus me pôs em suas mãos, enfim, fiada na bondade própria, firme em resistir com silencio a quantas perguntas lhe pudesse sobrevir, e agora entendo que, por haver sido sua demora excessiva".
E, dizendo isto, sorriu, segurando com as mãos a mão direita da senhora Berta, enquanto que com a outra mão acariciava-lhe o cabelo, assim, Elvira repousa a cabeça em seus joelhos, pois, tudo se cifrava em dilatar por pouco tempo o cumprimento dos seus desejos.
VI
Chegara o dias 15 de outubro, Elvira ficou a pensar naquilo do casamento, horizontes, aspectos de vida nova traços de uma alegria expressiva, alisava o bando sedoso, por entre a janela, com os olhos afeiçoados nas gripas das carnaubeiras que ramalhavam pelo vento norte, já era quase verão, havia grande calor, a ideia de marido unia-se a da temperatura, fogosidade do leito conjugal, as doçuras suaves, quentinhas e licitas do matrimonio, desandou da janela para o espelho de vestir do toucador, diante do espelho, refestelada numa poltrona de répteis alaranjados, achava-se em plena forma para as funções nupcial, acariciava-se com confiança os delicados seios, redondos e das pernas torneadas, traços marcantes, uma beleza agressiva, a silhueta curvilínea e sensual que bojavam premidas pelo elástico repuxado da liga, Elvira é uma deliciosa surpresa de beleza muito bem distribuída, acima destas considerações realistas, preocupava-se com a moral, a religião o sacramento, administrar os sacramentos especialmente da confissão e comunhão, a de ter se entregado a um homem, mesmo antes da fé à presença real da eucaristia, mesmo sendo o sublime e único amor de sua vida, mas não pudera resistir e, que os que não estavam condenados a beber o cálice, totalmente o beberam, e seria de toda inocentada, as palavras do antigo testamento a consolavam das fragilidades humanas, assim, dessa forma imaginando, infelizmente, ainda essa ideia de escravidão pairava em seus pensamentos teológicos, ela tirou do peito, como um gás que se expande, um grande suspiro e proferiu, "Que Deus tenha misericórdia de mim".
Tínhamos ideias de onde pretendíamos morar e, o real começava por aparecer como possuidor de uma existência externa latente, dominador de uma realidade sensível como algo que pertence á constituição fundamental da nossa presença de modo que, à medida que as horas avançavam a atitude de nossas almas, consciência se torna acessível à comprovação do mundo externo. Ficaríamos alguns dias na ilha e ao retornarmos a Salvador, partiríamos para São Paulo. A senhora Berta escrevera para seu irmão, informava-lhe que preparasse a casa para receber o casal, que não deixasse nada a desejar. A vida da senhora Berta que haveria de mudar, acostumada com a companhia de Elvira agora ia ter que se arranjar, mas, estava contente, pois, confiava em nossa prudência, e nós desejávamos que ela nos acompanhasse na viagem para São Paulo, porém, sua vontade era de permanecer aqui mesmo onde estava agora parecia muito mais aliviada, como as denguices que fazem saltar dos peitos dos velhos uns pensamentos verdes, como lagartos de
entre as ruínas de resto, se a saúde não recrudescesse ao rebentar das árvores, era preciso contemporizar, disfarçar, a sua vontade e a situação exigiam-lhe.
Pela manhã estive na cidade com um casal de amigos para apadrinharem o casamento.
À tarde já em casa, acoite-me por uma hora na rede da varanda, imerso em conteúdos que encarnava uma ideia aqui, outra lá, ouvia a voz de mamãe que se entendia com o carteiro, recebera uma carta de minha irmã Mariana, na carta um cartão, desejando toda a felicidade do mundo aos noivos, desculpava-se de não poder estar aqui, não houve, porém como, viajar, pois, Mariana estava em Obersalzberg no sul da Alemanha e teria de viajar até Bernen para pegar um galeão até Portugal depois outro para o Brasil, não daria tempo, "Oh, minha querida filha dizia mamãe, tenho certeza que se pudesse estaria aqui, seu irmão ficaria muito feliz".
Na casa de Pedro Malan, Iza ficou a dirigir os preparativos do jantar nupcial, muito atarefada, gesticula a todo instante, fazendo rir os criados.
A madrinha do casamento que ajudava a vestir a noiva, Cristina, na rua dos Costas, amiga de colégio de Elvira, prestativa, disposta, caprichosa e cheia de ideias, bonita e de muito boa família, na parede um velho relógio, cujo tique-taque monótono não deixava que a sala caísse em absoluto silencio, os ponteiros marcavam sobre os enorme algarismos romanos, assinalando 16 horas, o soar das badaladas repercute por toda a casa. Cristina de Bragança acolchetou-lhe o vestido de cetim branco, obra primorosa da rua São Caetano, com rendas finíssimas de uma transparência ousada para a época, deitou-lhe o véu de blond, cingiu-lhe a coroa de margaridas e, lançou-lhe o adereço de ouro ornado por uma pedra de crisólita, assim, trajada Elvira Launay, parecia mais à rainha de Bruxelas do que a rainha de Portugal na cena de coroação.
A igreja está inteiramente enfeitada de margaridas, cujo tom sobressai por entre os outros matizes espalhados pela majestosa nave os convidados vão, um a um, tomando o lugar nos bancos à espera dos noivos, todos se vestem de maneira muito elegante, as senhoras e as jovens ostentam variado luxo, reina enorme expectativa e o silencio é quebrado apenas por leves murmúrios, de repente chega o cortejo nupcial aguardado com grande ansiedade, na primeira berlinda veio os padrinhos, desceram e penetraram na nave em direção ao altar, todos olhares voltam-se para eles, ouve-se um falar em voz baixa, depois alguns minutos, chega Elvira, lindas meninas, vestidas de damas-de-honra, conduzem graciosos ramalhetes em suas mãos, papai a salda com garbosidade e a conduz, de cima da galeria entoa a suave melodia de um violino, igual a que Dante diz haver nos céus, em quase todos os semblantes brotam emoções do fundo da alma, mantinha os olhos fixos em Elvira, estás realmente linda, parece uma ave flutuando sobre as nuvens e que trocou o colorido de sua plumagem por uma flor eterna da natureza, recebendo-a com um leve beijo na mão, vamos ajoelhar no altar-mor, defronte ao sacerdote imponente em sua capa de asperges, tanto meus pais como à senhora Berta, mostram se muito emocionados, a cerimônia chega ao fim emocionando a todos, seguem-se os comprimentos na sacristia.
Depois, já na casa do Pedro Malan, no meio da sala, Elvira preparava-se para jogar o buquê, de costas para as moças que se exprimiam dando-lhes um verniz que lhes ocultavam as leivas do anseio, com veemência aspiração de pegar o buquê da noiva, que diz, aquela que o pegar será a próxima a se casar. Elvira joga o buquê. Cristina de Bragança é quem pega.
"Tu serás a próxima", disse Elvira virando-se sorridente pela sorte da amiga, se abraçam.
Nesse momento aproximo-me de Elvira, com duas taças de champanhe, entrego-lhe uma, e falo bem próximo de seus lábios, "Meu coração de ardente amor suspira, bebamos à nossa união".
"És o dia mais feliz de minha vida, e posso prová-lo", beija-me sensivelmente.
"Bravo, bravo, branda Pedro Malan, senhoras e senhores, abram a sala".
Vai para o piano, senta-se e começa uma valsa.
Entrego as taças a papai. Dançamos.
"Isso sabe eles tudo quando há, a valsar", disse Bernardo Freire de Andrade, com secreto júbilo de ver o filho bem colocado numa sala, mercê da elegância, entre titulares, comendadores, alegres em intimidades expansivas. Ao fim da valsa muitos aplausos.
Logo em seguida houve o jantar nupcial.
Elvira apareceu vestida de seda bege, com saias de rijas que faziam frufru e, botinha de duraque preto, o adereço de ouro que usou na cerimônia, era de ouro ornado com uma pedra de jade também a pulseira ofuscada pelo alvo braço, mimoso que surgia das folhas da manga com uma azaléia dentre as ramagens da flor-de-lis, durante as primeiras conversas ao jantar, muitos brindes.
Papai, sentado a nossa frente disse beijando mamãe no rosto, "E agora, bebamos outra taça, Elvira, Camilo, bebamos todos". Papai brindou com mamãe e a senhora Berta que se assentava a seu lado. Na mesa havia peru, pato, leitão e algumas lagostas de contra peso, uma travessa de vatapá, arroz, farofa com abacaxi e, tudo isso regado a champanhe e vinho branco, a mesa era bem grande, eram, entre os convidados, umas vinte e cinco pessoas, raios de alegria brilhavam em todos os semblantes.
"És um dia muito feliz especialmente para mim, disse papai levantando os ombros para que todos ou ouvissem, ver minha família expandir-se, não existe cerimônia mais bela do que essa, é verdade, e, casos assim, encontram meios para expressar a felicidade", reinou silencio por alguns instantes e, papai continuou, "Talvez o melhor seja a expressão de alegria aqui manifestada para explicar o que tenho no pensamento, por pouco talento que a natureza me deu, sempre soube que a persistência, a coragem, a audácia, a resignação ou melhor a virtude, eis a grande companheira da humanidade e, tornam-se mais bela para aqueles que a cultivam, sem ela, nossos passos não poderão seguir a cadência do triunfo".
Enquanto papai discursava, Elvira permanecia imóvel, com o olhar cogitativo, fixo em algum ponto da mesa, podia perceber algo eu seus pensamentos que a distanciava de tudo a sua volta, talvez o breve lapso de angústia de não ter os pais a seu lado, dar-lhe esse prazer de á vê-la tão feliz, tão bonita e receber a recíproca, o amor materno mesmo que fosse por um segundo, poder ver seus pais felizes, recebendo os comprimentos calorosos, mas essa imagem desaparecia num segundo tornando-se como um tesouro que se enterrará para sempre.
"Tenho certeza de que se estivessem aqui estariam muito felizes", disse ao seu ouvido.
Elvira segura em minha mão e sorri reconfortada.
"Ninguém pode caminhar sozinho neste mundo, continua papai recuperando o tom expressivo, nosso triunfo, nossas derrotas, a espera, nossas alegrias, nossas tristezas, precisam encontrar parceiros na suprema partilha da vida, assim, neste venturoso dia em que meu filho uniu-se no altar, fica aqui marcada toda a expressão carinhosa de minha felicidade e de minha esposa, desejas falar alguma coisa querida", reitera papai olhando para mamãe.
"Parece que já falastes tudo querido, estou muito feliz também", disse mamãe de forma laudável.
"Muito bem, muito bem", disseram algumas vozes.
Enquanto papai falara uma emoção parece ter visitado a todos, mamãe e a senhora Berta apresentaram-se como as mais afetadas seus olhos brilhavam umedecidos de ternura.
"Esse momento é tão belo", disse Elvira com lagrimas nos olhos e, beija minha mão com profunda efusão.
"Que momento maravilhoso, disse abarcando-lhe em meus braços, e quando penso no amanhã, tudo se torna ainda mais maravilhoso, mais sedutor, sinto-me leve, cada vez mais amante da existência real, estar á seu lado é como tornar a felicidade visível".
O champanhe estoura naquele momento, fomos interrompidos para corresponder a uma longa coleção de brindes que o Pedro Malan principiou a desenrolar, em seguida, então, foi servida a sobremesa.
"Estás na hora de partirmos, disse para Elvira, consultando o Rotherham, a escuna vai partir em uma hora".
Os convidados já haviam se espalhado pela sala, jardim e varanda, o aroma dos charutos assoma por toda a casa. Na varanda começamos a nos despedir dos convidados. A senhora Berta muito emocionada segurava a mão de Elvira, abraçam-se, depois Elvira beija-lhe a face carinhosamente, "Fique tranquila tia, logo estaremos de volta", dizendo assim, abraça-lhe mais uma vez.
"Senhor Camilo cuide bem da minha menina", recomenda á senhora Berta emocionada.
"Cuidarei muito bem senhora Berta, fique tranquila", respondi retribuindo-lhe com um abraço.
Mamãe nos beija, "Que Deus os acompanhe por toda à parte", papai acena apontando o coche parado em frente ao portão, diz:
"Regozijo-me em vê-los tão felizes, divirtam-se".
E assim, rapidamente partimos.
Duas horas depois, movido a vento e boa vontade, a escuna deixava o porto, em seu percurso de um lado a outro da Bahia de Todos os Santos, sob o vento sul, rumávamos para leste através de um mar calmo e tranquilo, permanecíamos sentados no convés, dava uma sensação de estarmos conduzindo a embarcação, quando, olhávamos para trás as últimas luzes da cidade refletiam ainda nas águas turvas do mar, deste ponto em diante, chegamos ao meio de travessia. Não havia lua, as estrelas formavam um clarão viçoso, exuberante, olhávamos para elas, piscando distante e imaginar como seriam, de quando em vez, lufadas de vento açoitavam as velas do barco, nesse trecho da baia havia uma certa luxação das águas e, podíamos perceber uma certa modificação em relação às condições naturais de navegação, as águas corriam mais velozes. Que lugar privilegiado ocupa nosso planeta na Via-Láctea que esquema maravilhoso e estupendo temos aqui da magnífica vastidão do cosmo, tantos sois, tantas terras talvez, e cada sistema contento sua própria harmonia, as ligações da luz da escuridão, aqui na terra do vento do mar, parece dar ao conhecimento lógico a direção absorvente que evocam nosso sentido de curiosidade que estimula a exploração do desconhecido. Esse fenômeno que se operava em meu sentido tinha de certa forma um grau de receptividade das sensações que se apresentavam na forma subjetiva de Elvira, vê-la ali, sentada, o vento penteando-lhe os cabelos, seus olhos brilhando como o brilho das estrelas, entregue assim a uma volúpia tão espontaneamente extensiva, os traços de seu corpo pareciam assumir a necessidade de amar, pois, tão delicadamente parecia emanar uma aréola a sua volta semelhante à que tinge as nuvens no crepúsculo e essa aurora cobria-me como um desejo, aquela vontade, que é por natureza de tal modo livre que nunca pode ser compelida, e, não vendo ninguém da tripulação por perto, tive a vontade de amá-la ali mesmo, sobre o ameno hesitar do mar, debaixo desse magnífico céu, mas, a prudência, fez-me em contentar-me apenas em beijá-la, ardentemente. O vento soprava ainda pela polpa e, navegamos com todas as velas enfunadas, muito embora, parecia estarmos sendo impelido pela forte corrente marítima. Deslizávamos suavemente sobre o mar e, em pouco tempo, a ilha de Itaparica ficava cada vez mais proeminente a nossa frente.
"Acredito Elvira que haverá um dia em que os homens navegaram pelos céus, assim como estamos navegando agora, as leis da natureza pode ser deduzido pelo pensamento puro imaginável, o que são de fato as estrelas, esta pergunta é tão natural como o sorriso de uma criança, sempre fizemos esse tipo de pergunta e continuaremos a fazer, até termos a certeza, por hora temos algumas respostas, talvez sejam realmente sois, se o forem devam estar muito distantes de nós", Elvira concordava com minhas suposições, era também grande sua curiosidade pelas ciências naturais, pela cosmologia, e, expor nossas ideias, previsões bem investigadas dava-nos uma ocupação prazerosa e apaixonante, assim, nossos pensamentos tornavam-se disponíveis á consideração e ao entendimento, enquanto os jovens de nossa idade conversavam apenas a respeito de constituições, movimentos liberais, nossos pensamentos e ideias navegavam para outras teóricas na história da ciência.
Chegamos à ilha. O pequeno porto fica num recôncavo na costa.
Desembarcamos. Estava tudo muito silencioso em volta de nós, nada mais se ouvia a não ser o baque oco das ondas da maré cheia contra o talha-mar do barco, pouco depois, entravamos numa sege.
"Pára baiuaco, disse ao cocheiro fechando a portinhola, seguindo a orla a última casa depois da colônia".
"Sim senhor", respondeu o cocheiro dando rédeas as mulas.
Elvira entrelaçou-se, reclinou a cabeça sobre meu peito, sentia a fragrância doce de seus cabelos, às vezes murmurava palavras em seus tons mais suaves, lúbricos, cansados, estamos casados, "Estou feliz, muito feliz", ouvia essa consonância suave de suas palavras e, deixava-se ir assim, sentido o prazer como objeto principal da vida, beijava-lhe a face, segurava-lhe a mão, sentido toda a felicidade germinar em sua alma, fluir num sentimento muito mais profundo do que onde às vezes se aflige tanto o coração humano, mas agora uma felicidade ia de encontro a seus anseios, através da realidade na qual podia tocá-la, e, isto, fazia-lhe um grande bem, ademais, a viagens que nos levaria ao lugar onde nascera, unia mais os elos de sua alegria, onde crescia mais robusta a raiz de sua ansiedade.
A distancia, era curta, pois, depois de virarmos para uma rua estrita e muito escura, entramos na rua do centro da vila, de qualquer ângulo, era a imagem predominante das velhas casas em estilo colonial de traços barroco, do lado esquerdo, o vulto imponente, voltada para o mar, à velha igreja do Senhor de Vera Cruz, o carro sacolejou pela rua afora como costuma fazer os carros de aluguel, o cocheiro notando o desconforto dos animais no calçamento de pedras abrandou-lhes as rédeas, quando o chão era de areia batida, seguiam a uma boa velocidade, conservou assim, a seje designativa a seus animais.
Afinal, deteve-se o carro diante de uma casa com janelas de lintel de curva de três centros.
"Esta é a casa Elvira".
Elvira olhou com seu jeito afetuoso.
"Deseja vosmecê algo mais", disse o cocheiro, apoiando seus braços sobre os joelhos.
"Por hora nada", respondi tirando do bolso uma moeda e, jogando-a em suas mãos.
Satisfeito com a moeda, o cocheiro arreou-a gentilmente, meteu-a no bolso, acenou e partiu.
Essa casa de papai era usada quando ele vinha para ilha negociar com tropeiros que vinham das terras de Dom Álvaro da Costa, carregados de sementes de pimenta do reino, castanha, açúcar, couro etc, papai tinha também grandes currais de peixe formado entre a praia e os arrecifes, espia de 100 braças de comprimento e dois ou três sítios de coqueiros muitas dessas vezes eu o acompanhava, papai sempre dizia "São muitas as coisas vós deve a olhar isso também", adorava estas paragens era sempre um ano típico, observava os muitos navios que saiam com destino ao mundo, descendo ou subindo a costa do Brasil. A casa fica junto à enseada, num ponto peculiar e de uma espetaculosa vista de toda a baia, à noite com a maré cheia pequenas ondas chegam quase a tocar os limites da casa, a porta de entrada fica a poucos metros do calçamento, o perfil desta é recurvado, voltando-se em forma de cotovelo em relação ao eixo da orla, assim, fazendo um plano horizontal, ao lado da porta em vão pequeno de forma retangular uma lâmpada vermelha projeta a porta, aproximamo-nos, girei a chave e, entramos, a sala iluminou-se debilmente com a mesma luz da porta, acendi os castiçais, e, num instante a luz iluminou a escuridão que os aposentos estavam envolvidos, Elvira olhando ao seu redor fez um gesto de assentimento.
"Bem confortável, adorei", disse ela adentrando-se.
Era uma casa antiga, mas, muito bem construída, um ar de asseio pairava em tudo, de uma fruteira sobre a mesa sentíamos um eflúvio agradabilíssimo, sobre o piso de madeira, recortado em crista, nossos passos soavam, as divisórias de pedra natural tornava o ambiente ainda mais arejado, a disposição de cada base compõe a espessura das paredes, havia apenas duas entradas, a da frente e a do fundo que dava a um pequeno terraço, janelas laterais, dois quartos, sala e quarto de coser, na sala os principais moveis úteis e ornamentais eram poltronas, uma cadeira de espaldar de couro lavrado em pés em arco, mesa, tapete, consolo sobre o qual havia uma balança, uma ampulheta, espelho e, pendurado na parede um quadro com o desenho de um galeão em grafite, um arpão no canto da parede, arcos e fechas também pendurados e um grande anzol ao lado de uma velha angorá, um grande relógio suíço, no meio do corredor que leva para o resto da casa fica o quarto de banho, um lavatório e um espelho de barba, uma calçadeira, um banco tosco de assento quadrado sem encosto, um forno de pedra tosca, uma mesa redonda com quatro cadeiras, um armário que sustenta uma jarra chinesa um vaso alto e bojudo, provido de asas, próprio para conter água fresca, e por fim, suspenso sobre a parede uma grande cabeça de um peixe espadarte. Na sala, perto da mesa, faço algumas caricias em Elvira, ela suspira, pego-a nos braços, beijando-lhe e, a levo para o quarto, segurando-a com designação, detenho-me diante de uma cama de madeira talhada e, deito-a suavemente, com o semblante em frente um do outro, começo a despir-me, nossa sede de amar é comparável como á sede que sentimos em dia de calor, aturdido e entrelaçado em seus cabelos, começamos uma longa noite de amor, sobre sua pele alva afigurava-se um body sculptre de cor preta perfeito mostrava o desenho de sua deliciosa silhueta, modelando a cintura, o dorso e pondo o busto no lugar e o arco no bojo dos seios, a concepção do traje refletia um ato de tamanha sedução elaborada de caricias ousadas, percebia que o momento despertava em Elvira o desejo de uma entrega total, dessas que marcam na memória o instante arrebatador e único, sabia de suas caricias prediletas íamos à procura e propício do prazer, numa qualidade rara de amor intenso, num grau elevado de atividade, movimento, a na mais pura integra; nosso cansaço bateu asas. O tempo voava nessa persecução de voluptuosidade, uma intermitência de movimentos sem se levantar, estendendo a mão ao lado, pego um cacho de uva, volto-me, lentamente arraigando sobre o peito de Elvira, ora punha-lhe o fruto na boca, ora passava-lhe sobre o ventre, juntando, assim, essas duas essências do prazer, beijava-lhe, tirando um pedacinho de uva de sua boca molhada, sentindo o sabor gostoso, a gustação do céu de sua boca, depois desses rápidos intervalos, começava a beijá-la celeremente, com o braço em torno de seus ombros, trazendo de novo toda ação do desejo de excitar, aquele irresistível estado de lubricidade. Elvira passou-se rápido por cima e, mexendo com frenesi seus quadris sem poder conter-se, estira as pernas para o alto, ai, vendo-a assim tão maravilhosamente no prazer, apodera-se de mim excitação tamanha que, sufocando-a em meus braços, sugava, beijava seu pescoço sofregamente, sua boca, sentido o hálito quente, abrasador de uma fêmea no cio, agora lhe metia as mãos por baixo de suas costas, ela sabendo o que ia suceder-se, com sagacidade, instalava as duas mãos em meu pescoço e, sentido obter a aptidão, puxei-a para o alto sem nos desatar, num movimento de insuflação divina, não contendo muito tempo nessa posição, então, deito-me para trás e, ela sabendo o meu tencionar, fica acocorada, galopando como intensa agilidade, que dava mais forças a seus sussurros e suspiros, segurando-lhes as grossas coxas que mais pareciam duas alavancas, dando-lhe o interfixo e, não podendo nos conter mais, explodimos num gozo duradouro e profundo, nesse êxtase da mais pura satisfação, apenas as fibras nervosas, transmitiam as impressões claras, viva, inextinguível da sensibilidade que se propagavam pelo corpo todo, Elvira ficou inteira deitada sobre meu corpo, de modo que sentia as céleres batidas de seu coração, sua pele quente inundava pelos poros rosto, espáduas, peito, uma vertente transpiração suavizava nossos corpos, assim, dessa forma pouco a pouco fomos ficando adormecidos, numa sensação normal periódica da atividade orgânica, dormimos profundamente abraçados um ao outro. Eu, no entanto, bastava que estivesse dormindo meu próprio sono profundo, ressaltando a formação do relaxamento que imobiliza o impulso instintivo que é comumente suprimido por um desejo inconsciente que encontramos durante o sonho, quando, algum tempo depois, sobressaltou-me um sonho confuso ininteligível ou positivamente absurdo com o que contradiz o que sabemos da realidade, visto que, enquanto sonhamos, atribuímos realidades objetivas ao conteúdo do sonho, ou seja, coisas que vemos, ou já vimos outrora, conhecemos, mas, este, contudo, dava uma qualidade de excitação anormal, intensa, mórbida, visto nunca ter conhecido ou estado num lugar como tal, achava-me "subindo uma longa escada, e, toda vez que olhava para o alto infatigavelmente meu corpo parecia voltar-se nos primeiros degraus, uma espécie de regresso ao estado anterior, como uma coisa restituída, essa modificação que se operava sensação física repugnante, enfastiava-se, entediavam-se os órgãos dos sentidos, eu tentava entrever, compreender, entender, já que tinha consciência do próprio estado, em determinados pontos, parava, olhava para cima e para baixo, porém, não alcançava com a vista o fim daquela escada, uma construção árdua e alta, anexa a um tipo de posição vertical de uma edificação, através de um vento frio que existia eu estremecia, gritava, excessivamente por um nome, entretanto, minha voz parecia manter-se por entre os dentes não produzia sol algum, o que me oprimia uma insuportável ansiedade, um calafrio apoderava-se de meu corpo, e com o desejo predominante de conduzir-me, baixei a cabeça e sem olhar mais para cima, palpitante comecei a difícil escalada, como um louco subindo para um céu de extremo terror, contudo, não conseguia alcançar a extremidade, o intento desígnio e então, com o sentido e a busca me levando na direção, e, sempre mantendo os olhos fixos nos degraus que me levavam para o alto, sem parar, quando apontou por fim, o último afinal, assim tendo concluído, meu corpo caiu pesadamente num abismo de predição, escuro, como se o céu e um buraco negro apontasse para o centro da terra, numa perdição eterna". Despertei convulsivamente do sonho, com a respiração ofegante, devagar, tirei meu braço que estava por baixo do corpo de Elvira, ela , dormia tranquilamente, meu coração batia forte, transpirava inteiramente com os sentidos agitados, coloquei-me de pé, nesse momento, proferia anexamente as silabas como se quisesse ouvir o som das palavras que no sonho produziam som algum, "Que sonho estranho este, disse espantado com as próprias palavras, parecia minha alma voando nas sombras do desconhecido, mas de onde poderia provir uma situação tão estranha, aquele lugar". Fiquei a pensar, tentando entender a ação daquela imaginação, sua causa e efeito relação, interpretação, anexo ao que da consciência, seria mais fácil de compreender o funcionamento normal da mente do que entender o sonho, a memória do que sonhamos parece ser mais ampla logo quando acordamos, depois parecem mais reflexos do passado, mas, vejo com clareza que isto se liga à memória, desse modo refletia, tentando relacionar distinguir com nitidez ilusão e vigília, suas interligações e reconhecer os determinantes da perturbação, no meu consciente se estampara claramente, exatamente como era a construção, a escada, ademais, tenho a impressão que era por Elvira que chamava e consentia com os pormenores da conexão dos fenômenos, pois, pareciam paginas escritas, ou ainda não escritas, mas, de um mesmo livro, muito embora, não deixasse de considerar que tudo aquilo era só um sonho e, sonho faz parte da vida mental.
O horizonte avermelhado cedia lugar à luz ofuscante do dia, uma cor dourada refletia sobre o mar calmo, claro e transparente da enseada da ilha, com longas faixas de areia, moldada pela mata, palmeiras principalmente que cobre boa parte da baia de Itaparica, os recifes e corais quebram a força das ondas, transformando longos trechos da orla em piscinas naturais, as aves marinhas voam próximas uma das outras como numa força atrativa, harmonia e coexistência simultânea, o sol com seus raios ia pouco a pouco tingindo as paredes da igreja de São Lourenço, onde fora assunto religioso durante dois séculos, com padres e sábios debruçados sobre manuscritos antigos sobre a localização do éden, na colônia os pescadores começavam a estender suas longas malhas, nativos introvertidos, queimados pelo sol tropical, velhos, jovens, empurrando jangadas para dentro do mar, quebrando as ondas até saírem remando mar adentro, havia vários currais, formados entre a praia e os arrecifes com mourões cravados no fundo, tecidos com varas, atados com cipós, pouco a pouco janelas e portas iam se abrindo nas casas da vila, rostos sonolentos de mulheres aparecem, uma gaiola de papagaio é pendurada sobre a parede, um burrico corta a rua bem lentamente, dois negrinhos pés-de-cabra disputam quem sobe primeiro em um coqueiral, até que o mais inquieto baixa-se, enche a mão com areia e, num movimento brusco, atira sobre o rosto do outro e, rápido como um serelepe, segue escalando o coqueiro.
Na sala de coser às nove horas tomávamos o café, a porta estava aberta, os raios de sol penetravam junto à brisa da manhã, Elvira expansiva com o som que vinha de fora, a maré enchendo, aves concomitantemente anunciavam-se, escutávamos com curiosidade a designação melodiosa dos maçaricos, com seu som ço ço, agudo e alongado no fim, Elvira confortando-se sobre o encosto da cadeira, voltava-se para o lado onde reencontrava o som em que havia uma perfeição concebível, e, quando eu falava, ela sorria, como se minhas palavras também fizessem parte daquela feição exterior, de onde o belo nos faz perceber suas puras definições, o cabelo preso formando um delineamento no corpo, de olhos a tomar formas de seu feito particular, vestida num leve de linho marrom, sem mangas presos por finas alças, apresentada o ar de uma ninfa que anda pelas enseadas e mares.
O sol agora lançava raios ardentes, o brilho do azul do céu e a transparência do mar eram exuberantes, seguíamos pela praia, levava comigo um arpão, uma faca de caça e uma bolsa de couro, vestia uma camisa de linho fino, descalço, as pernas nuas até os joelhos, andávamos atentos observando a tudo, Elvira vinha com um chapéu de praia que tinha como destaque uma pena de açor, presa na parte superior, ressaltava-lhe ainda mais sua graça, como só a pura individualidade tem por fim o nascer da beleza humana, enquanto andava mexia os quadris afetados pela mais derriçada meninice dando-lhe assim, a mais pura sensualidade a meiguice mais ingênua dando um perfil exato da mais pura sedução. Enquanto caminhávamos, notava-se uma paisagem variada em todos os ângulos, mar de ondas brandas, pedras em alguns trechos de mangues, grandes bancos de areia, perfazem um cenário de beleza diversa, é quase uma légua de manguezais distribuídos, envoltos por uma mata quase impenetrável que abriga uma fauna voluvelmente rica que serve de local de desova para várias espécies de peixes e crustáceos, essa parte da enseada não é habitada e há um profundo estado de paz agradável, solitária por todos os lados, ao chegarmos à parte desejada, ficamos sombreados a fresca de uma tamareira e de outras penhas das famílias das palmáceas, estando assim, ambos ficamos sentido a tranquilidade desse ar paradisíaco, a sensação dos movimentos chegando aos nossos ouvidos como uma canção suave e sensível da natureza, depois, de contemplar essa paisagem, permanecemos a flanar pela camboa e remanso, procurando crustáceos e moluscos, em certos pontos as águas batiam em nossos joelhos e em outros pontos nas canelas.
"Ali", exclamou Elvira como se tivesse visto alguma coisa, e, seus olhos treinados haviam visto algo mesmo, afasta- se um pouco, abaixa-se com cautela, mentem olhar fixo nas águas, baixa as mãos, procura centralizar-se ainda mais, assim, toma posição, faz um movimento afirmativo com a cabeça e, rapidamente, num salto perfeito, entrelaça um siri com uma das mãos, segurando-lhe pela cabeça, levanta-se então, vem em minha direção satisfeita com a presa, "Nããããooo, olhe Camilo será que serve esse, não se assuste bichinho".
"Espetacular querida, tem o tamanho ideal".
Enquanto Elvira segura o bichinho, tirei a bolsa uma linha de pesca, amarrando-a em uma de suas pinças ondulantes, certifiquei de estar bem presa, "Assim, agora vamos lá para aquelas pedras", disse reforçando com o indicador o lugar desejado.
O sol estava bem a pino, o que indicava que deveria ser quase doze horas, caminhando na direção das pedras e, com água batendo quase na cintura andamos umas vinte braças até atingirmos um pequeno recife onda à calmaria e transparência das águas dava-nos uma visão quase nítida do fundo, colocando o arpão e a bolsa em uma das bordas, alcei Elvira, e depois me ergui, e, num instante estávamos instalados, "O lugar é perfeito", disse posicionando-me, tirei o siri da bolsa, desenrolei a linha, olho com atenção para toda e extensão, a profundidade estava de acordo, o excedo fazia-se propício, escolhendo então, a parte menos escorregadia da rocha e, com a linha livre, ágil, o siri preso a linha, arremessei-o para dentro d'água, ao cair e ao chegar ao fundo, o crustáceo tentou a fuga, desdobrava-se, tentando entocar-se, mas preso à linha eu com olhar fixo o patenteava, sabia que ali era uma presa fácil, Elvira associava-se a um sentimento de entusiasmo.
"Agora é só esperarmos", e, sentamos, mantendo a vigília, atentos à aproximação do esperado.
"Amo o mar será que vou me acostumar longe dele, vive até hoje junto a ele é como se fizesse parte de mim", dizia Elvira pensativa como se seu olhar penetrasse buscasse a resposta nas profundezas e, na possibilidade de evocar ou produzir imagens, encontrava nos corais um tridente um símbolo que abalava seus pensamentos mais que em nada a fazia recuar era como se algo a puxasse sobre o mar, enquanto os delfins brincavam em seu caminho, ela, então, reassumiu a realidade, "Esperei por esse momento longo tempo, agora nada mais me impede de prosseguir e, ademais, não vamos ficar tão longe do mar assim, não é mesmo querido".
"São Bernardo do Campo fica a poucas léguas de São Vicente, respondi com um olhar animador, de modo que podemos visitar regularmente o mar, ademais se não nos acostumarmos, voltaremos para cá, concordas querida".
"Claro, e pouco me importa o que interessa é estarmos juntos, tendo mar ou não".
"A propósito, esta noite, disse sobre o sonho, sem perder o siri de vista, tive um sonho estranho, não sei se confuso ou cheio de significados".
"Que sonho", perguntou Elvira com ponderação.
"Então, sempre me interessei pelos sonhos tentando entender de maneira lógica a possibilidade do conteúdo dos sonhos e suas relações com a realidade à incerteza da discriminação entre ele e a vigília, mas os sonhos parecem não ter lógica, o que acontece em sonhos não parece tão claro e distinto quanto o que acontece durante a vigília isso me parece uma primeira inferência, a outra é que os objetos dos sonhos são de certa forma coisas que conhecemos como convenção, ou seja, objetos explicitamente conhecidos denominados e, sabemos para que nos servem muito embora, não se pode assegurar suas relações com a realidade, mas, bem, vamos ao sonho, subia uma escada uma escada que parecia não ter fim, estava cansado, fatigado, de modo que toda vez que olhava para cima meu corpo retrocedia nos primeiros degraus, pareciam até a condenação de Sísifo, ai ficava absorvido num esforço físico inusitado, uma sensação terrível, gritava, pelo seu nome, porém, minha voz abafada não saia, não tomava som completamente, nunca estive ou vi um lugar como aquele, até que por fim, consegui, depois de muito esforço, chegar ao fim da estranha escada, onde meu corpo se descolou num passo derradeiro, nesse momento acordei assustado".
"Parece ter sido um pesadelo", considerou Elvira com uma expressão hermenêutica.
Nesse momento o siri começa um movimento de agitação, tenta se enterrar na areia, inquieto, move-se com frenesi, levanto-me, estico a linha mantendo-o visível no fundo e, bem a frente nadando rente ao fundo sobre as águas transparentes, com impulsos rápidos, surge um cação de bom tamanho.
"Elvira, rápido o arpão".
Elvira se vira para trás, rapidamente executa todos os movimentos, dando-me a fisga, segurando-a com a mão esquerda, enquanto que com a direita mantinha a isca cada vez mais perto da borda, o peixe se aproxima tomo posição, seus olhos são fixos no siri que agora se mantinha imóvel, assim, numa ação efervescência, sublevação das nadadeiras e calda, instantaneamente abocanha o siri por inteiro, agora o tinha prendido, pela linha procurando contê-lo o mais perto da ação de alcance, então, aproximando-se cada vez mais, o mantendo na mira, desferi o arpão fum, aferrando-lhe pouco acima da cabeça, o peixe ainda agitou-se um pouco, mas, pouco a pouco ia se tornando inerte.
O sol descia lentamente, deixando um rastro de luz avermelhado no horizonte misturava-se ao bosque de palmeiras fazendo uma linha como pontos de um balão que esta sendo inflado, algumas manchas escuras no sol formam, pequenas espículas num mistério real e não resolvido, um halo de cor lilás ia se formando em torno do astro e o ar mais fresco, ia trazendo o embevecimento da noite, há este tempo havíamos voltado para junto da tamareira, ali na camboa, limpava o peixe, enquanto Elvira ajuntava uns gravetos para o foco, passando a costa da mão na testa, segurando a faca de cabo de osso, observava que escurecia rapidamente, meti a faca no peito do peixe e abri um corte da cabeça a cauda, depois enfiei os dois polegares no corte, em cada lado da fina pele, e onde o espinhaço ficava pregado à carne dava pequenos talhos até arrancá-la por completa, depois a ponta da cauda, raspei-lhe a pele e abri a barrigada do peixe e extraí-lhe as entranhas, deixando cair sobre a água, depois, lavei bem puxando com o dedo o resto da pele, então, preparado para o foco, espetei-lhe no arpão.
"Olhe que beleza", disse, aproximando-se da fogueira, um gesto com o braço, viro o peixe de um lado a outro, sobre as duas estacas deitei o arpão, Elvira espargiu sal sobre o peixe que ia adquirindo uma cor rósea, as chamas projetavam sombras sobre a areia branca, o céu tornava-se cada vez mais negro, o planeta Vênus brilhava com intensa limpidez, seguindo o rastro do sol, sentamos no chão, ao lado da fogueira, de quando em vez, alimentando-o com gravetos, endireitei a ponta do arpão apoiado sobre as estacas e, lentamente fui virando-o, "Foi uma bela pescaria, vós fostes muito útil apanhando aquele siri".
"Somos felizes vivendo junto à natureza, disse Elvira olhando para o fogo, nossas necessidades inatas bastam para sermos auto-suficiente, veja esse momento da vida, o peixe comeu o siri, e agora vamos comer o peixe a autopreservação esta presente em todos os momentos da vida primitiva, caçamos, pescamos e comemos às vezes eles nos caçam e nos comem, somos parte um do outro nessa luta pela sobrevivência"
"O homem tem necessidade dessa vida, disse aproximando-se dos pensamentos de Elvira, e, procurá-la se ainda não a achou, deve pressenti-la, sentir, obedecer vivendo assim seguindo as leis da natureza, só assim, encontrará um mundo diverso, inteiramente seu, poderíamos viver aqui mesmo, aplicando-se neste estado natural, longe da civilização, inspirado na ingenuidade dos sentimentos numa afeição profunda esse conjunto de fenômenos cerebrais e efetivos que é o amor, mas, até que ponto o estado natural é bom para o homem, essa maneira de viver não afasta o homem da concórdia, e desvia-lhe do que entendo de uma vida propriamente humana, aquela vida que não se define apenas pela circulação do sangue e realização das outras funções comuns a todos os animais, então, não seria muito mais vantajoso vivermos segundo os preceitos da razão, encontrando a virtude da alma e a vida verdadeira", enquanto falava ia lentamente virando o peixe sobre o fogo, os olhos de Elvira parecia refletir com todo seu brilho exterior, continuei, "sinta que olfato agradável, o fogo é uma maravilha e também muito útil, certamente um presente da natureza para o homem, tem um odor especial, de certo modo é vivo, e, também se alimenta, como plantas, gravetos, galhos de arvores e até arvores inteiras se deixarmos, é muito forte, mas não muito esperto, de uma certa forma inconscientemente delineamos os pensamentos dos nossos ancestrais remotos, aqui parece ser o melhor lugar para se viver no mundo, temos tudo do que necessitamos, poderíamos viver a vida toda aqui se quiséssemos, mas, conhecemos a civilização evoluímos, constituímos uma sociedade, temos o sentido do tempo, uma rota a seguir na busca do néctar, e, é bem uma dádiva do instinto humano", as estirpes das palmeiras, envoltos pelo vento produziam um som noor, ergui-me e apanhei do chão um coco, levei-o a boca e tomei dois goles de água, fiquei a segurá-lo, sentindo a casca lisa e cerosa.
"Parece que já podemos comer", disse entregando o coco a Elvira.
"Está bem assado", respondeu Elvira tomando um gole de água de coco.
"O primeiro pedaço é seu, experimente, disse pegando a faca e cortando um pedaço, está que é uma beleza, só falta sair à lua, hum, parece que está bom mesmo, tornei a cortar outro pedaço antes de sentar-me e ferrei os dentes no peixe arrancando um bom pedaço e comecei a mastigá-lo, ta muito bom mesmo, falei e dei outra mordida, precedida de uma careta de satisfação, Elvira riu, comia delicadamente, olhando o pedaço de peixe.
"A lua está lá, e deve sair daqui a pouco, disse ela, agora olhando para o céu como que dá uma informação, mas o peixe ta que é uma delicia", acrescentou mordendo com mais furtividade. Olhava para ela com a boca cheia de carne, mastigava e sentia os músculos do meu pescoço se ondeando á medida que engolia o peixe.
"Camilo".
"Sim", respondi de boca cheia.
"Tu não se importa mesmo de viajarmos, deixarmos este lugar tão lindo, o lugar em que fomos criados, que crescemos e estamos acostumados, aqui é tão belo, maravilhoso, tornou Elvira olhando tudo a sua volta, poder-se ia viver aqui mesmo, é encantador, mas, agora, tímida com pressagio olhando para o céu, baixando a mão que segurava a carne, olhei-a sem para de mastigar, depois de uma pequena pausa, continuou, ir até lá é uma necessidade para mim, não indo é como se eu deixasse parte de minha vida sepultada, enterrada viva, sabendo de tudo ou quase tudo será bom, espero que seja, oh, meu Deus, isso afastará de mim esta constante insatisfação da qual meu espírito esquiva-se e cria uma inquietação que temo não ser suportada, e indo até lá talvez consiga essa maneira de obter, nem que seja ilusoriamente, a segurança desejada, parece fazer parte de minha existência, tu compreendes".
"Claro que sim querida, disse, agora comendo, lentamente e com o olhar pensativo, mirava o fogo, mas, não sei bem e, nem posso vos esconder, que tenho certo pressentimento, coisas aliás, que não fazem parte da forma como penso, entretanto, parece haver uma coisa alheia, e assim, haver algo de nocivo naquele lugar e, isso de outro lado faz crescer ainda mais à vontade de ir para lá".
Nesse momento o vento tornava-se mais forte, o fogo avivava-se, espertava-se pelo elemento provocador, as areias da praia soam assobiadoras, numa canção consoladora, sinistra melodia comparada a fabulas das sereias de navios, notas de piano, bater de tambores, monstruosas harpas, a síntese que sentíamos era de repousar arriba de gigantesco instrumento de cordas, enquanto que o arco vai passando levemente por estas, do mar as ondas murmurantes interroga, conta ao vento da noite às dores suas, de modo que passa receber determinadas ondas, com exclusão de todas outras, recurvadas vão a caminho, crespas do vento que sussurra e passa, minha imaginação tornava-se excitada com o consolar da atmosfera, quando por acaso ou de propósito vimos passando ao mar uma vela, não muito longe, como uma sombra, tinha um vestuário negro como a noite, deslizava sinistra, lúgubre, as trevas que a envolvia era mais do que trevas, era o desconhecido, ela perpassava ante nossos olhos e a vimos, não como uma embarcação que voltasse depois do pôr-do-sol, mas, como uma sombra funesta numa convivência tácita involuntária, não como uma coisa para se admirar, mas para se analisar, mas real, silenciosa, quem se arriscaria a navegar numa noite escura como essa, sem ao menos um archote na proa ainda com todos os escolhos na flor da água, ia se afastando a vela como um fugitivo, lentamente através da escuridão, tal como apareceu, quando por fim desapareceu no vasto espaço noturno.
"Que barco estranho", disse erguendo-me ainda tentando ver a vela que sumirá para noroeste, fiquei alguns minutos ainda a observá-lo, depois recuei lentamente para perto de Elvira, em nosso redor em todas as direções, ficara escuro como um breu, apenas a luz viva das chamas bailava, agora com menos intensidade, a sombra da tamareira desenhava-se na noite como um monstro, e os rumores das ondas e o assobiar melancólico das areias chegavam a nossos ouvidos como clarificação tardia e secundária, envoltos por essa combinação de fenômenos permanecíamos indiferentes apenas nossos pensamentos e sentimentos nos revestia-nos e fazia percebermos uma quietude fascinante.
Nossos dias de núpcias iam-se estendendo assim, viçosos, exuberantes, efetivos em momentos ora contemplativo, ora especulativo, acordávamos cedo, mas, ficávamos na cama até mais tarde, depois tomávamos o café e saiamos, um banho de mar, um caminhar pela praia, depois, seguíamos para o centro da Vila a comer bolinho de tapioca, quitutes, andando por entre a feira, por entre as barracas e panos que se estendiam pelo chão, as vibrações sonoras das vozes simultâneas formavam uma elevação diferente, uma disputa de vozes, o espaço era todo ocupado por barracas de peixe, carne-de-sol, frangos presos em grandes gaiolas, leitões amarrados pelos pés, perus, sacos de farinha de mandioca, frutas, cocos, abóboras, feijão tropeiro entrelaçados nos varais, tudo com sua forma própria e peculiar cada qual desejava fazer ouvir mais que os outros pronunciavam, divulgavam, espalhavam-se falando de uma ocasião, "Quem quer comprar, O peixe é para a noite, Você só para o jantar, Como é hospede não quer", Que tenha o pior lugar", Elvira sorria ouvindo o povo, no meio da praça, agachado agarrado a uma viola, um trilhar de um cantador dizia, Vi-ti-vi, Vi-ti-vi, Vi-ti-vi, Oh, Conceição, Vem agarrar-te a meu coração".
Íamos andando devagar, a brisa suave do vento causava um prazer constante, algo apreciador que parecia exercer um poder físico rejuvenescedor, visitamos a igreja de São Lourenço, bela construção vigorosa, robusta, corpulenta armação que parecia mais uma fortaleza, de cima da praça fortificada olhávamos para alguns pescadores que se agitavam apontavam para o mar, nas direções indicadas, nadando tranquilamente pela enseada uma enorme baleia rompia a superfície da água, um animal surpreendente que causou alvoroço entre os pescadores, ficamos a observar o belo espetáculo, "Boa hora em que viemos para cá, veja que belo animal", disse Elvira apontando para as maiores criaturas do planeta, e ora afundando, ora emergindo, ia o enorme mamífero expelindo o recolho, como a desfilar todo seu esplendor sobre as águas, se afastava em direção do mar grande, até que por fim afundou e não a vimos mais.
O céu estava completamente azul sem uma nuvem sequer, as sobras da tarde já começavam a se projetar das palmeiras e mangueiras, nas ruas da Vila havia um quê de apreciador, na praça algumas pessoas se assentavam para conversar, sentir a brisa fresca da tarde, relaxar e só então se aperceber calmamente a delicia de viverem num lugar tão tranquilo, as famílias aqui da ilha não são um simples conjunto de indivíduos isolados numa porção de terra e água, é uma realidade uma humana complexa, com condicionamentos biológicos e fisiológicos certos, regulados ao meio físico, culturalmente uma realidade formal variada em relação à sua inserção no mundo exterior, aqui parece haver tudo de que necessitam para viverem, podendo, de certa forma abstrair-se do mundo que os norteiam, num conjunto adjunto natural de muito grande apreço.
Assim, o tempo ia passando o mais objetivado possível, à noite, e o dia seguinte, de manhã andávamos pelas praias, à noite descobríamos os mistérios da ilha, sentados a mureta de pedra que margeia a colônia, com o resto da claridade do dia analisávamos um mapa de João Teixeira Albernaz, procurando lugares que ainda não havíamos explorado, os últimos reflexos do sol rosavam o poete como sempre nesses meses, de um lado, no oeste o sol se pondo, a leste impelindo-se sob o mar a lua nova, brilhante com seus cornos inclinados para leste, uma fiada de casebres tornava traços obscurecidos, mais ao norte palmeiras, em qualquer praia viçosa, refletiam precisamente a flama dos últimos raios que as atingiam por um instante.
No dia seguinte, ao amanhecer, no terraço da casa, quando o sol já despontava sobre o mar, avistei um moleque de mula, que vinha tangendo uma mutuca com o chapéu, chegando perto da casa valendo-se do seguro reparo indagou, "És o Sr. Camilo", "Sim", respondi, o moleque sem apear, passou a mão pela cintura e, tirando um envelope acenou, "Um momento", disse indo de encontro a ele, "É da parte do Sr. Bernardo", tornou o moleque entregando o envelope, "Obrigado", retribui-lhe dando uma moeda, voltei-me lentamente abrindo o envelope, parando junto à porta.
Camilo,
Não queria incomodá-los, nessas horas em que o céu perpetua sobre a
Terra, tão venturosa união, mas, a vida não nos oferece apenas horas de
ameno convívio, exigindo de nós paciência para o inesperado que nos
espreita, lamento informar-lhes que a senhora Berta está passando mal
e, tem um desejo aflitivo para ver Elvira, antes que sua alma irremedia-
veemente chegue ao derradeiro passo do circulo, em que as trevas vêm
ante a Luz do amanhecer.
Teu pai.
A leitura do pequeno papel deu-me um conjunto de pressuposições, deve, pois, ficar claro que a senhora Berta tinha algo ainda de importante para revelar a Elvira, não podia acreditar que se tratasse apenas de uma comunicação referencial emotiva, supondo-se que a vida lhe escapava, entretanto, sua vontade denotava algo mais, dirigi-me rapidamente para o quarto, Elvira ainda dormia tranquilamente, detive-me por instante a olhá-la, deitada de bruços, descoberta pelo lençol, com uma perna esticada e a outra dobrada, representando uma bela escultura que esbanjava erotismo, enaltecia, exaltando o mais profundo da alma, aproximei-me lentamente, até beijar seus deliciosos ombros.
VII
Já começara e anoitecer quando o coche parou enfrente a casa de Elvira, mamãe nos recebeu, parecia aflita, "Graças a Deus que chegaram".
"Como esta ela", disse Elvira com sinal de tristeza, mamãe fez um gesto tácito com o rosto, e, num silêncio contrafeito, seguimos seus passos através dos cômodos que tinham aspecto funesto, entramos no quarto, onde a senhora Berta jazia estendida na cama, com as faces cor de cera e os olhos cerrados, como se não tivesse mais vida, pela janela aberta entrava uma leve brisa que quase nem mexia as cortinas, Iza se instalara na poltrona, com um cálice e umas compressas, parecendo muito atenta, "Então", articulou Elvira em voz enfraquecida, "como estás abatida", com um vestido de linho branco, os cabelos soltos em cachos de canudos que se esparramavam pelos ombros a emitir ainda o brilho e o calor do sol, debruçou-se junto à cabeceira da cama e conservou ali suas mãos a mão da senhora Berta, com ternura protetora, o que a fazia sensibilizar ainda mais, "Tia, Tia, tia Berta", chamava Elvira com cautela serenidade, enquanto pronunciava essas palavras o silencio era tão profundo que apenas os murmúrios das ondas que quebravam na praia, era o único som que ali se ouvia, a singular criatura dormia desditosa, com suas mãos talhadas pelas carquilhas dos anos, de repente, o tronco se mexe, o tronco melancólico e sombrio, em seus lábios traços de murmúrio, a hesitar, a resistir, "Hum, é você Elvira", expirou a senhora Berta, agora encontrando alguns motivos para abrir os olhos e não duvidar entre o delírio e a realidade dos sentidos. "Sim, sou eu tia", respondeu Elvira com entusiasmo. "Oh, Elvira, minha menina", tornou a senhora Berta, como lhe costumava chamar, com os olhos cansados, distantes desse mundo, "Havia cruzado o limiar de uma porta bem pouco usada, avançava com passos vagarosos e já o crescente lunar se reclinava em seu leito no horizonte quando, afinal, ouvi sua voz me chamando, desembocando em espaço aberto ao pé de um monte", nesse ponto para, nitidamente o ar lhe falta, com certa dificuldade prossegue, "Ah, eu, parece meu peito tão pesado". "Não se esforce muito tia", ajuntou Elvira emocionada, "agora estamos aqui e a senhora vai se sentir melhor". Seus olhar compraziam-se em admirar Elvira, e já admitia que teria de partir, assim, porém, sabia que a hora final se aproximava, e seu último desejo de ver Elvira, sua alma ficara mais confortada, assim, encontrava alivio na justiça e na esperança de deixar esse mundo. Elvira tentava não demonstrar sua tristeza ao ver o aspecto da tia, aqueles olhos cansados vagos, porém ainda conscientes. "Camilo", disse a senhora Berta com os olhos interfixo, "você esta ai".
"Sim, estou aqui", respondi, aproximando-se.
"Camilo, continue cuidando muito bem dela, escute meu filho", faz um esforço se vira me encarando, "não a deixe sozinha naquela casa não a deixe", volta-se fatigada, "ah, estou morrendo", balbucia, entrecerrando-se os olhos pela falta de ar, "Elvira, minha menina", esforça-se para dizer de maneira significativa, tenta erguer-se "dê-me um copo com água".
Depois, segurando o copo com água, volta-se para mim e torna a repetir, "Não a deixe sozinha naquela casa", bebeu tranqüilamente todo o copo de água, estendeu-se em silencio e, algum instante dá um profundo suspiro e cala-se para sempre. A pavorosa calma da noite foi apenas alterada por uma grande mariposa noturna, que entrou pela janela e vou, atordoada pelo quarto em torno da lâmpada, Elvira abraça a senhora Berta, beija-lhe as faces e, murmura palavras carinhosas que eu ouvia quando ainda crianças.
No dia seguinte que se seguiu os funerais da senhora Berta, o tempo mudou, o vento sul trousse uma chuva fina com rajadas de vento muito forte, havia ondas muito altas, mutações na coloração das águas, nos á sepultamos como desejará, junto aos rochedos, eu, Elvira, mamãe, papai, Iza e mais três homens formávamos todo o cortejo, os três senhores se retiraram após ataúde descer à cova, o barulho áspero da pá jogando a terra sobre o caixão causava um sentimento pungente, melancólico, Elvira com lágrimas nos olhos, trazia algumas flores e colocou-as ela mesma sobre a terra arenosa, sobre o rochedo, então, que volve seu longínquo olhar para o mar, ficou apenas uma pedra erguida à cabeceira e um liso bloco cinzento aos pés, as aves voavam e revoavam bem perto de nós, os ventos as faziam flutuar, sobre aquela que repousava tão profundamente, num ponto da terra em que um dos hemisférios branqueava, enquanto o oposto mergulhava em trevas.
Aquela quinta-feira marcou por uma semana a morte da senhora Berta, consistia em escrever os pormenores do resto do dia e, levar-me-ia longe de mais se fosse só imaginação e, uma coisa engraçada aconteceu, estávamos na casa de Elvira, enquanto nos preparávamos para deitar, escutamos sensivelmente um ruído estranho que progredira, pois já o tivera ouvido alguns minutos atrás, embora, não distinguisse em que parte da casa ouvira, Elvira aproximou-se da porta, colocando a atenção no som, percebeu que vinha da sala, já havia me deitado, a lua brilhava através da janela que se mantinha entreaberta, de onde emanava uma brisa suave, o tempo não havia modificado tão pouco, as velas já estavam apagadas, "Escute isso Camilo", disse Elvira pousando sobre mim seu olhar. "Sim já havia notado esse barulho, o que é", Parece vir da sala", tornou Elvira fazendo um sinal com a mão, abriu a porta do quarto e o barulho ficara mais nítido, com passos leves sai do quarto. Decorrido alguns instantes Elvira retorna assustada, "Que houve Elvira parece ter visto um fantasma", "Venha Camilo, venha ver que coisa esquisita", disse com sobressalto ascendendo uma vela, na porta Elvira segura em minha mão e, o barulho parece agora mais intenso, o corredor que leva do quarto a sala, estava escuro, mas na sala, sem embargo, estava quase extinguindo-se uma vela, a medida que avançávamos já podia distinguir perfeitamente o som, era da cadeira, a cadeira de balanço da senhora Berta, no desvão paramos, Elvira segurando forte em minha mão sinalizou com o olhar a velha cadeira, que balançava e balançava com aspecto sinistro, a luz diminuiu mansamente e, apenas a vela que segurava podia clarear o aposento, "Meu Deus", ajuntou Elvira segurando-me pela cintura, ficamos olhando para a cadeira, por um minuto sem avançar, e parecia balançar agora com extraordinária alteração, observando dessa maneira, avancei circundando-a com circunspeção e, avizinhando-se, descobrir o gato da senhora Berta, vigoro, porém triste, vinculado em movimentos de vibração ao assento da cadeira, como se o bicho sentisse a falta do achego de sua dona, relembrando então o acatamento que esta lhe proporcionava, "Eis aqui o nosso fantasma", disse pegando o gato e acariciando-o, "É natural que sinta a falta de sua dona". Depois, já no quarto antes de deitarmos, ao fechar a janela, olhei na direção dos rochedos, e, pareceu-me, embora fraco, indeciso, dois vultos sobre a rocha escarpada à beira do mar.
Com o correr do tempo chegou o natal. Na véspera encontrava-se Elvira na cozinha com mamãe e Iza, admirava-se a rebrilhante bateria de cozinha, punha seus bolos no forno, achava prazer em ajudar a preparar tudo com muito cuidado, mamãe dava a tudo seu aplauso interior e divino, dizia que Elvira despertava nela todo vigor de outrora lembrando que essa era a necessidade de uma boa dona de casa, de cuidar muito bem de sua família e de educar seus filhos com as mesmas determinações, elogiava-a a ver assim desempenhando junto às circunstâncias o papel de uma verdadeira mulher, mamãe dispunha-se se sentar e ficava a olhá-la cantarolando cantigas de natal.
Pela plantação de piaçava, papai mostrava-me como aquelas terras eram produtivas, como se podiam obter bons lucros através do bom manejo, sempre aprendia muito com ele, falava, gesticulava, mostrava e esfregava os dedos nas folhas de piaçava, afirmava que as folhas tinham que ser bem endurecidas, apontava para seu caule, explicava que não poderia haver fungos, esfregava-as nas mãos novamente, voltava-se para mim e falava com larga experiência, "Se fores comprar terras lá no sul meu filho, observe bem o solo, nem todos são produtivos quanto parece". O vento soprava com mais constância e as piaçavas agitavam incessantemente, papai lançou um olhar para oeste, nuvens grandes azuis escuras singravam o horizonte a precipitarem impelidas pelo vento forte, "Não tardaras que chova", disse papai, penetramos numa rua que orlava a plantação e fomos andando em linha reta até descrever uma curva para esquerda, depois outra para direita, iniciando a aproximação dum alpendre, agora podíamos ver as nuvens altas com cor de azul mais claro, nadando no céu rapidamente em direção ao mar, grandes pingos de chuva com frequência, despencavam com força do céu, a chuva começou com grandes aguaceiros, com intervalos de bátegas e gradualmente ia diminuindo, até então, a terra seca absorvia a umidade rapidamente, dando a sua porosidade as qualidades mais férteis, poças aqui e acolá se formavam temporariamente, nas partes mais altas corriam enxurradas galgando as margens de seus leitos, distribuídas através do nivelamento do terreno, penetrando assim nas plantações, irrigando-as de forma natural com seu líquido precioso, satisfeitos, voltávamos para casa, vendo o feijão baiano que brotava à superfície da terra, intercalando-se à piaçava, na nossa frente Manuel tangendo um jumento que carregava dois balaios carregados de mandiocas, abóboras, morangas e um grande cacho de bananas.
No natal a união cria nos corações um breve período de felicidade, motivo pelo qual as pessoas encontram-se neste feliz estado de espírito, compreendendo uma profícua maneira de se ramificarem em grupos, cada qual com sua família amigos demonstrando assim toda uma hospitalidade, alegria, a sinceridade escondida até nos mais duros dos corações, corações que pulsavam que agora não pulsavam mais, os sonhos as lembranças de infância, aquelas que não voltam mais, que agora são apenas saudades adormecidas, à noite estávamos todos nessa reunião feliz, antes de começarmos a ceia, já estando todos sentados à mesa, Elvira disse de maneira que todos a ouvissem, ter uma novidade, a sua exclamação numa alteração inesperada, "Que novidade", perguntei logo, imediatamente todas as atenções se voltaram para Elvira, "Bem", volveu Elvira com um sorriso muito expressivo, ao passo que seus olhos se pousaram em mim, "É que eu quero dizer... que eu e Camilo vamos ter um filho, sim é isso". A revelação aportou em mim como uma surpreendente novidade, ouve um tinir tocante e risonho sorridente de todos, a principio permaneci atônito, aos poucos todo meu espírito tornou-se extremoso, beijei-lhe com muito afeto, "Não poderia ter mais bela supressa esta noite", disse satisfeito com a noticia.
"Ah, ah, ah," ressoou a voz de papai, atirando para o ar o guardanapo e apanhando-o com suma destreza no momento exato que caia, "isto que é surpresa". Em vista disso, puseram-se as senhoras e senhoritas a cumprimentar Elvira com brandura, afáveis e alegres, precipitando-se em pequenos grupos ao lado da mesa, atiravam os braços em torno dela, apalpavam-lhe o ventre com mostra de sutileza afeição, mamãe que estava mais próxima a abundava de carinho, ao termino dessa revelação seguida suscetíveis brindes começamos a comer com grande satisfação, papai na cabeceira da mesa enquanto trinchava falava em seu tom modesto, e a cada pausa os convidados bebiam um copo cheio a sua felicidade, levava em conta os sentimentos que as lembranças do próprio casamento despertava, tingindo de legítimo sentimento seu coração, e a ceia decorria bem animada, recordando os anos passados, planeando o tempo o em contar historias, "Camilo, meu filho", disse papai entusiasmado, "Conte aquela da cadeira", fiz um gesto de abstenção, pensem que as narrativas, por mais que seja feita com habilidade não deixam proporcionar em certas pessoas preceito sobrenaturais e, nunca foi minha intenção despertar-lhe mais superstições, os convidados enchiam os copos e o champanhe tornava a circular, papai principiou a cantar sem o menor embaraço,
Esse é um belo dia
No verão que cá se faz
Com a consciência enaltecida
Pra tinir o meu natal,
Lá no céu estás luzindo
A estrela ocidental
Não a neve nem oliveiras
Pois o clima é tropical,
Que saudades de minh'terra
Com mui grande sentimento
As lembranças que são tantas,
Emulo és meu desejo
Que me agrado e me atrevo
Dos fandangos que eram tantos.
A canção foi muito aplaudida, e o festim estendeu-se pela noite adentro, todos se retiraram muito tarde, eu e Elvira ficamos na varanda sentido o frescor da madrugada, conversávamos sobre nossos projetos, compartilhando nossas alegrias, a revelação de Elvira surpreendeu-me, a ideia de ter um filho me entusiasmou a ponto de tirar-me o sono, a prudência, a alma, estava tudo entregue a uma alegre disposição, à felicidade, à continuidade do processo de metamorfose de poder procriarmos sorria para ela, a vida nos mostrava a eterna continuidade da espécie, Elvira com sua angelical doçura debruçou-se em meu colo. No dia seguinte, o almoço de natal decorreu tal animado quanto à ceia da véspera, um pouco menos ruidoso, aromas saborosos que resultavam e se evolavam em nuvens pelas janelas da cozinha, a casa estava com todos os aprestos para festa que se prolongava, por a casa de papai ser um pouco afastada da cidade, alguns convidados não puderam comparecer, porém, os que estavam presentes mantinham ruidosa animação.
* * *
Interrompendo o que escrevia, levantei-me da cadeira, olhei para cama onde Elvira já dormia, fui até a cozinha, tomei uma sopa de lentilhas que já havia esfriado em seguida voltei para o quarto, poderia escrever mais um pouco meus sentidos, tinham um forte desejo de dormir. Meus olhos se fechavam, percebia meu corpo como uma extensão a partir do sujeito presente que permanecia ali inerte, a respiração ligada à consciência mostrava-me o "eu" como variável aparente de imagens que não me pareciam familiares mais que eu as conhecia tão bem, segue-se que os dados físicos como referentes era nossa infância, todos os finais de tarde ficávamos vagando pelas praias, pelas pedras no caracol, aproveitando o tempo que nos arrastava, ai, inversamente, qualquer entidade com a qual alguma coisa se familiarizava nos mostrava a vida adulta, olhava para trás sobretudo aquilo de minha vida, os olhos discerniam vagamente tudo ao redor, "Agora entendo quando você disse que este lugar faz parte da nossa vida", falava, olhando tudo que nos cercava, "Tudo parece celebrar a nossa presença", observava Elvira, com uma expressão imaginária para a construção que ia ficando para trás, "Quando pequena sempre sonhava com este lugar, que nós nos escondia dos piratas que vinham do mar, e, quando dizia que havia visto dedos na janela lá em cima, lembra-te, depois de ver minha expressão, você ria, franzindo as sobrancelhas dizendo, São os dedos do quebra-ossos". "E você nem se assustava, lembro-me quantas vezes saia de casa escondido para encontrar contigo, vinha correndo, sabia onde achar-te, de longe avistava sua cabecinha, abaixada, pegando conchinhas enterradas na areia, tudo parece exatamente igual apenas nós é que crescemos, lembra-te quando cortou o joelho nas pedras, tentei até carregar-te, a sua sensibilidade trouxe-lhe lágrimas e soluços, tentava entreter-lhe que não era nada de mais, apenas um arranhão, e ai apareceu uma enorme tartaruga andando na areia, e eu insistia para você sentar-se sobre ela, pois, acreditava que ela nos levaria para casa, lembra-te, só que quando você sentou-se sobre ela, imediatamente parou de andar, no caminho perto da pedras avistamos a senhora Berta que vinha a tua procura, bradava "Elvira, Elvira, onde se meteu essa menina", ficávamos escondidos a vendo passar, ai então corríamos para casa e, quando ela lá chegava nos encontrava brincando na rede, "Elvira sua fujona por onde andastes, e você seu moleque vá já para casa," como era bom ficar aqui deitado nessas escadas, olhando para o céu, naqueles dias nuviosos, as nuvens se compondo, com lentos movimentos, desenhos alegóricos, vi bem claramente a figura de um homem, dando-me conta de que ele parecia andar, mas ao mesmo tempo parecia imóvel flutuando no céu, olhava atentamente, parecia formar-se agora, em uma de suas mãos uma espada, trazia-a erguida, passando a vista ao redor descobri, à direita bem a sua frente se formando rapidamente a cabeça de um grande lobo, com a boca aberta, a língua exibida para fora com orelhas pontudas, chamava sua atenção, olhe, olhe, olhe aquilo Elvira, olhe para aquelas nuvens, ficamos parados observando, estendidos os braços e, aquele que segurava a espada mantinha-a para baixo, parecia bradar, avançava na direção do lobo ou nuvem como quiserem, ao alcançar-lhe de modo que a espada penetrou de todo na boca do lobo, à medida que os traços de sua cabeça foram-se apagando, se desfazendo, enquanto que a imagem do homem triunfante avançava". O sol descia lentamente no horizonte, expelindo nuvens cor de chamas, e antes que a penumbra transforma-se em noite escura, virei-me de lado, abri os olhos e percebi que já clareava novo dia.
VIII
No dia de ano novo, nossas ocupações eram em arrumar as malas para a viagem, Elvira mostrava-se em estado de pura felicidade, ansiedade fazia que sua personalidade se tornasse ainda mais vivaz, o despertar de um momento tão esperado, já era tudo, ou então tudo que ainda viria a ser, abria a janela onde o crepúsculo procedia em clarear suas faces rosadas, relaxava, suspirava, fechava os olhos e deixava-se a imaginar, conjeturar a iminência que vivia, contemplava-a aquele rosto angélico, animava meus olhares, depois lhe percorria o corpo todo, era delicioso observar suas formas e os contornos através de uma túnica transparente, e sem que percebesse que a observava, aproximei-me, pouco a pouco, tocando-a com as pontes dos dedos nos ombros nus, percebi um latejar doce indicio, feliz do amor e do desejo, passando-lhe a mão pelo ventre, pude sentir que ele se inchava, mas não era obstáculo, pois despertava todos meus desejos de amá-la sem resistência de vinte maneiras diferentes.
Logo após o café, enquanto mamãe mostrava alguns pontos de tapeçaria à Elvira, desci até a baia, era o caminho que percorria desde criança, ver e andar de cavalos era o meu maior prazer, "Dandará, cuide bem dela Manuel", enquanto recomendava todos os cuidados com o animal, alisava seu pelo com a escova, "Pelo menos duas vezes por semana escove ela, o rolão de milho, o farelo e a cana picada em dias alternados, tenho certeza que a tratará muito bem, minha vontade mesmo era de levá-la conosco, é amiga vamos nos afastar um pouco". Manuel aplanava-lhe a crina que lhe caia elegantemente pela fronte, "Fique tranquilo sinhozinho não vai lhe faltar nada", o animal relinchou como se pressentisse nossa separação, "È eu também Dandará vou sentir a falta do sinhozinho".
"Minha vontade Manuel era de poder levar todos conosco, aqui, este lugar, vocês fazem parte da minha vida", disse voltando-se e, pousando-lhe a mão sobre o ombro e, fomos andando na direção da casa, "Enfim, sinto-me ligado a tudo isso esse cheiro da baia parece existir por um caráter temporal e por conseguinte, pelo tempo é como poderia te dizer, como se eu estivesse sentido o mesmo cheiro de quando eu ainda era criança você me entende, algo que através de representações correntes trás as mais agradáveis lembranças, vou sentir muitas saudades daqui, em breve tudo isso ficara apenas nas lembranças a curiosidade pelo desconhecido nos faz querer ver mais longe olho para o mar e pergunto o que encontraremos lá, seguiremos os fluxos intensos dos raios de sol, uma dimensão que sempre reencontramos e se pretendemos formalizá-la devemos seguir seu próprio curso nossa paixão pelo desconhecido já é manifesta quando começamos a andar como um instrumento de nossa sobrevivência, ai caro amigo, vamos em frente".
"Sim senhor, sim senhor", dizia Manoel com um perfil afetuoso.
A manhã do dia 2 de janeiro de 1816 chegará, papai e mamãe acompanham-nos até o porto, mamãe permanecia cala com os olhos cheios de lágrimas, papai, por seu lado, estava triste, mas seu jeito eloquente fazia que as coisas se tornassem mais realista, abandonando assim os modos mais comuns de examinar as coisas, falava com sua voz envolvente, tudo em sua volta parecia lhe dar uma força inesgotável para tornar os momentos difíceis numa reflexão silenciosa, com que ao mesmo tempo exprime a esperança e que a felicidade não é algo transitório mais, algo temporal incapaz de se fixar no espaço, era mais ou menos o que ele sempre demonstrou agarrando-se a vida, com a cartola inclinada para trás, cabelos derramados sobre as orelhas, os olhos flamejantes, as mãos ofegantes, mamãe uma grande mulher, capaz de admitir qualquer tipo de obrigação, desde quê não toque os laços familiares à ideia de dissolução lhe torna retraída, mórbida, cheia de ansiedade e temor, seu ímpeto individual surgia com os prenúncios de quando minha irmã partirá, parecia adotar os mesmo pressentimentos, para ela a pegada de um animal (e que tem função significante) é algo mais que a impressão classificada de uma figura, de fato, uma pegada é interpretada também no sentido de sua direção, e a direção é que há preocupava indicações vetoriais percorriam-lhe a profundidade da mente, "O santo nome de Deus os abençoe e os acompanhem meus filhos", dizia acenando sem procurar impedir as lágrimas que agora corriam lhe pelas faces, papai a segurava pelas mãos, sorria mais com visíveis convulsões emocionais.
Elvira, finalmente sentia a alma despertar de um sono profundo, permanecíamos em pé junto à proa, acenando para meus pais ao vento de um belo dia de sol, experimentávamos o balanço compassivo que as pequenas ondas causava na embarcação, a luz do sol refletia, brilhava na Bahia de Todos Os Santos, o navio levantará âncora, içamos velas, movia-se de um lado a outro, deslizando sobre as águas, e pouco a pouco papai e mamãe foram se tornando apenas pequenos pontos até por fim desaparecerem, o navio largava-se da Bahia afrontando mar adentro, a ilha também ia ficando dispersa, suas léguas de comprimento, dava-nos a contemplar os tênues de coqueirais que prosperavam na costa, ali de fato a ostensão causara um dos momentos raríssimos de nossas vidas, tal paragem tomada e mostrada de longe parecia ser morada dos deuses, Elvira apoiada em meu ombro sorria ao mesmo tempo em que lágrimas deslizavam pelo seu rosto. Assim, a retomada que agora parecia nossa possibilidade de ter sido, o existencial presente nos possibilitava uma nova retomada surgindo de um projeto presente e tornava cada instante uma abertura para nossos anseios. A cabina em que nos estalamos era até bem confortável, havia lugar para as malas e o cofre, a embarcação provinha de Portugal com sua escala em Salvador daqui aproximadamente há uma semana deveríamos aportar em São Vicente, iria depender dos ventos e marés, de oito a quinze dias era a previsão da viagem. Havia a bordo comerciantes portugueses, atraídos pelo comercio de açúcar, escravos que se expandiam pelas províncias da Baia e Recife, agora o navio havia se afastado completamente da costa, navegávamos em alto mar sobre uma bela brisa e o azul do mar respondia ao do céu, a tarde escolhemos uma extremidade de pouco circulação de passageiros e, ficamos encostados na borda que oscilava docemente, as sombras das velas enfunadas nos protegia do sol forte, ao nosso lado passava uma corda muito grossa que subia até a velas, descendo uma outra em sentido horizontal se prendia num enorme grampo no limite traseiro do navio, junto à borda onde se insinua à popa, havia também um senhor, de casaca de abas largas com botões dourados e um chapéu panamenho, debruçado, parecia embrulhado em profundos pensamentos, nada parecia abstrai-lhe a concentração pois parecia fundindo num mar de substancias. O dia se seguia quente, exatamente na direção em que seguíamos começavam a surgir nuvens densas, por instantes momentâneos, encobriam o sol causando uma suave brisa, a calmaria e o suave balanço da proa, preenchia uma revelação do nada, por todo lado que se olhava o nada existia como algo ininterruptamente e a profundidade de seu imperar corresponde paradoxalmente e insignificância do elemento que pode provocá-la, o mar o céu, se tornavam meros figurantes de seu domínio, a superficial reflexão mostra o nada como conceito raro, o nada num mundo talvez pequeno singular com um oceano e um céu azul-esbranquiçado coberto por nuvens, talvez esse nada seja um momento único, talvez existam oceanos ainda maiores, nadas ainda maiores do que esse, bem maiores do que nossas ideias mais corajosas possam imaginar, talvez.. Em Elvira, encontrávamos a sensação de um mundo novo que se abria em sua frente, à eclosão surgia, o efeito, intuito que lhe prevalecia, recebia-o com o semblante cintilante a alma risonha, levava o invisível a seus olhos e, tão claro em sua mente introduzia a luz adormecida e irradiava, sobrepujava como raios de sol sobre o mar nesse êxtase, voltava-se à face para mim, calmamente e sua essência tocava em meus lábios, face amena, fresca tão doce que veio emudecendo como os sons maviosos de uma flauta, subindo, expandindo-se pelo mar.
"É mesmo excitante a ansiedade que nos cerca, mergulhar nesse mundo de sombras é como entre nós e tudo que nos cerca começasse a irradiar, nomear, indicar, coisas efetivamente existentes, para dizer que existe algo e que esse algo é feito de certa maneira e, esse interesse centra-se exclusivamente na medida que avançamos, como se o mar, Elvira, espelha de uma ou de outra forma o referente, o céu, que dá a conhecer não apenas pela simples figura, mas mediante ações de todo tipo e essas modificações de conhecer e querer é que se abre diante de nossos olhos, pretender é isso procedimentos, ações variadas".
"Nem qualquer individuo nem qualquer ação pode ser destituída de significado, veja nos aqui", Elvira falava com um sentimento doce que nela se embelezava e se fortalecia a cada instante, "que felicidade viver esse momento, mesmo em sua rapidez ele fixa em mim contornos que se constitui de sentimentos e amor que se encontra em todos os ângulos, queria agora descansar um pouco". Voltamos ao nosso alojamento, fizemos um breve repouso em seguida almoçamos. Na manhã seguinte, acordamos cedo, o balanço ocioso das ondas havia aumentado ocasionando certo enjoar em Elvira, subíamos a proa para respirar o ar da manhã, nessa parte da embarcação a oscilação parecia ainda mais acentuada, era de se esperar que Elvira sentisse mal-estar, "Sente-se aqui querida", puxei uma cadeira para perto de onde estávamos, " logo vai passar esse enjoar, é natural pois não estas acostumada", à medida que descíamos a costa rumo ao hemisfério sul, o céu tornava-se cada vez mais circundado por grandes nuvens, até a cúpula se tornar de toda encoberta, apenas a faixa diagonal das latitudes, circundado por um halo claro e azul era visto, outras zonas tendiam a se tornarem encobertas por nuvens altas, o tempo em um planeta com uma atmosfera modesta, havia uma certa movimentação dos passageiros no convés, pois alguns traziam suas famílias, mulheres, crianças e outros passageiros comuns se encontravam perto do timoneiro, "Prefiro andar um pouco", disse Elvira se erguendo e aspirando a fragrância da manhã, "parece ter melhorado um pouco o enjoar", andamos de um lado a outro do navio até pararmos junto à borda, observei que o mesmo homem de casaca de abas largas e chapéu panamenho, estavam lá, como se tivesse permanecido no mesmo lugar, naturalmente com a mesma fisionomia, exceto os olhos que circunviu, hesitante, observado-nos, mas, voltou a assumir um ar de reflexão, foi quando um vento forte arrancou-lhe o chapéu e, por pouco não caindo ao mar, vindo em nossa direção rodopiando e voando, no momento que ia definitivamente juntar-se ao mar, pude com um movimento rápido, salvá-lo.
"Agradeço-lhe senhor", disse o homem com acatamento, se aproximando.
"Não foi nada senhor", respondi, entregando-lhe o chapéu.
"Estava um pouco distraído", tornou o senhor de casaca de abas largas com o semblante um pouco mais simpático.
"O senhor parece gostar de contemplar o mar, és viajante".
"Sou comerciante, meu nome é Afonso de Melo", apresentou-se o homem compassivo com sotaque forte lusitano.
"Sou Camilo e minha esposa Elvira, muito prazer senhor", respondi estendendo-lhe a mão.
"O prazer é meu senhor, senhora", tornou o senhor Afonso de Melo com acatamento, "tu perguntastes se gosto de contemplar o mar, sim senhor gosto, bem lhe conheço, ventura, quiseste mostrar o prazer quam pouco dura, quando o queres desviar, parece hoje um pouco mais agitado do que ontem, é pois, sinal de que logo as de encrespar".
"O senhor parece conhecê-lo muito bem", disse encontrando o ponto de partida para conhecer o fato da consciência e torna plausível a circunspeção.
"Oh se nunca conhecera cousa tam desconhecida, nam gastara minha vida, nem folgara ter servido quem mo nam agradecera, fortuna desordenada, que meu bem desordenou, vosmecê desculpe-me", volveu o senhor Afonso de Melo, inclinando a cabeça em sinal de assentimento, como se tiveras a sonhar, continuou, "o mar quantas lembranças, é pois disser como se olhasse um espelho refletindo o passado devemos dominar o mar não podemos deixar que ele nos domine, é admirável, mas cruel, insondável, traiçoeiro, às vezes tenta nos consumir, sim sou comerciante, agora, a propósito de escravos", concluiu como se tivesse entorpecido num passado ou coisa parecida. Era um homem com fisionomia descortês, brutal, mesmo estando bem vestido, sua formação de rosto, a pele queimada pelo sol, um nariz curto com a ponta voltada para baixo, como um bico de gavião, aparentava ter uns cinquenta anos sua constituição física era de uma armação forte elevada, seu olhar menos vivo, fez-se mais ambíguo, a inflexão da voz mais sonora, suas palavras governam um idioleto estético medieval, um modo áspero parece esconder um certo descontentamento, enfim, as palavras apagava pouco a pouco o brilho das frases e, o espírito dava lugar a um devaneio profundo.
"Uma atividade lucrativa, porém desumana", minha objeção parece que fez com que recobrasse o animo, respondeu com um vislumbre das possibilidades que a colônia nos colocou na mão.
"Meu pai dizia, deste á hora do nascimento, alguns são destinados a sujeição, e outros ao comando, algum tempo atrás comercializa tabaco e açúcar que vinham de Angola, agora as coisas estão mudando, a cultura da cana se acomoda bem a grandes propriedades do Recife e da Bahia, exigindo cada vez mais latifúndios para seu desenvolvimento dando assim, mais ênfase a Casa Grande, o engenho e senzala, daí a necessidade em comerciar escravos, visto poder-se plantar tudo isso aqui mesmo, vejo grandes horizontes nessas terras, ainda mais agora com a chegada do café, devemos nos regozijar com o fato de que o bandeirismo continua a florescer por aqui, em São Paulo, em particular, e no Brasil em geral".
"E com essa intensificação cresce a grande fecundidade própria da estirpe racial, todo conjugado às condições subumanas que são tratados, transportados como animais, vendidos como objetos, é uma instituição vergonhosa intolerável, uma aquisição que não tem nenhum respeito pelos direitos humanos". O senhor Afonso de Melo, não se opunha as minhas afirmações, parecia lograr tal reputação a um preço tão barato, repulsou uma expressão grave, olhando-me com desdém.
"Oh, os diretos humanos, uma bela ideologia meu rapaz, entretanto, o que significa entendê-la, um grande número de estímulos rapidamente mutáveis, ensinar-lhe-emos baseado no que vemos, é mais real imaginarmos a coisa da seguinte maneira, a escravidão negra na verdade é uma fuga da pobreza da miséria que vive em seus países, em Luanda, quando lá tive pela primeira vez havia lugares que não tinha alimentos suficientes, condições extremas de se viver, a seca consumia boa parte do país, corriam para nos como animais atraídos pelo alimento e, se fossemos fogo, ao invés de fugirem do fogo, se jogavam dentro dele, é meu caro rapaz, a concatenação de fatos e o ligeiro raciocínio que nos faz verossímil, temos um caminho a seguir e devemos o seguir impassível, pode somente existir como tal enquanto em equilíbrio com as forças externas a ele, não gosto do que faço, mas faço por necessidade, às vezes contra a identificação do instinto, mais, no entanto não fui eu que escrevi as leis, nem tão pouco fiz o mundo".
Sua abordagem em termos de tipos ideais se dava a partir dos conceitos mais gerais do comportamento social, para mim uma interpretação causal e sem querer discorrer mais sobre o assunto, o senhor Afonso de Melo fez uma expressão de sobrevôo. "Mas porque estão a viajar", disse como se buscasse um fragmento de um universo que o próprio pensamento dividiu.
"Estamos em lua-de-mel", disse sem dar mais detalhes, "o senhor parece se familiarizar com o mar", refletiu, percebendo minha intenção em desviar o assunto, baixou seu olhar e, calmamente voltou-se para o mar, longínquo espantosamente imenso, a expressão de seu rosto tornara-se enigmática, com o olhar claro e distante.
"Familiarizar com o mar, eu, é isso que lhe parece", disse inquisitivo, "É o que parece demonstrar, senhor", proferi encarando-o com gravidade.
"A realidade senhor muitas vezes não esta manifesta na aparência", disse como se entrasse numa regressão infinita do pressuposto, "Não gosto do mar, nem tão pouco me familiarizo com ele, pois, levou-me o que tinha de mais importante na vida, ah, se para me tornar feliz fosse necessário nunca mais vê-lo, não hesitaria um só momento, podeis crer, quando deito e percebo que estou sobre ele desejaria não ser despertado mais do sono, serro os olhos e os acontecimentos passados se tornam real e fantasmagóricos pois, bem, vosmecê deve estranhar minhas palavras, mas atentai para minhas razões, quando encontro forças para continuar a viver, o passado e o futuro, acham-se em continuidade sempre reversível, há vinte anos, eu, minha mulher e meu único filho de oito anos viajávamos de Lisboa a Macau na China, e, todas a vezes que estou num navio estas lembras parecem tão vivas imprimindo-me na memória como se fosse hoje o momento, então quando navegávamos pelo estreito de Sumatra com o arquipélago da Malásia, uma forte tempestade nos engolfou com tamanha fúria, era de madrugada, dormíamos, o vento jogava o navio como se fosse uma bola de papel, limitando-se sua estrutura a aguentar por muito tempo, amedrontados subimos para a proa em condições aterradoras, havia grande confusão, um desespero apossava-se de todos os tripulantes, o capitão gritava com seus marujos, segurava o timoneiro que parecia não mais governar o navio, a ideia desesperadora de morrer cercava a todos, segurava bem meu filho e minha mulher, comprimia-lhes, reclinando para as ondas não os arrastar, até que em uma dessas inclinações partiu-se ao meio o mastro grande da proa, o navio ficara penso para o lado onde o mastro cairá, quando ouvimos um grito, Grande onda há esse bordo, grande onda há esse bordo, todos se prostraram ante uma enorme parede de água que nos abateu devastadora, enquanto o juízo de Deus nos abatia, por alguns instantes permaneci sem sentidos, e quando consegui abrir os olhos, via ainda pessoas a serem jogadas para fora da embarcação, meu filho e minha mulher foram arrastados, um a um, o que restava da embarcação chocava-se contra os rochedos, rolava sobre as ondas, fiquei preso a um pedaço da proa com um braço quebrado e pude ver bem a minha frente meu filho e minha mulher gritando por socorro, quando tentava alcançá-los uma outra onda enorme nos levou para o fundo e não os vi mais, meus sentidos sumiram, e preferia que não os tivesse voltado mais, até que fui despertado pelo sol forte de uma praia da Malásia, eis meu caro rapaz, que dessa vida ora de louvor e veneração, ora de infortúnios e desespero foram desenvolvendo-se em mim certas fraquezas".
Se inserido no contexto do senhor Afonso de Melo, percebia o quanto à expressão e conformidade de atos pode resultar numa assunção justificativa, tendo nos contados as respectivas lembranças, parece ter restituído uma atividade interior consciente de uma vida ainda em curso e isso pressupunha que consideráveis resistências tinham sido desfeitas.
"Vosmecê tem uma bela dama", disse o senhor Afonso de Mello assumindo uma maneira cordial com certo aspecto sonoro, "e, para uma bela dama que caracteriza particularmente o amor, é para o homem, necessário dar-lhe um belo presente". E dizendo isso tirou do bolso de sua casaca um bornal de veludo e, abrindo esparramou sobre a palma da mão pedras preciosas.
"Oh, como são lindas", disse Elvira considerando-as como uma fonte acessível de interesse.
Olhei atentamente, notando o brilho das pedras que lançava uma nova luz sobre nossos olhos.
"O que me dizem", aguçou o senhor Afonso de Mello em tom sigiloso, olhando ao redor, as pedras se inflamavam pela luz, dando maior ardor que despendiam brilho e desejos aos nossos olhos, "são crisólitas, turquesas, crisópraso, topázio, jade, turmalina, esmerada e essa bela safira que veio da África, uma beleza não é mesmo, muito bem lapidada, nem preciso defender minha observação com relação a seu valor".
"Maravilhosas", disse Elvira aproximando-se.
"O senhor tem a intenção de nos vendê-las", disse sem mostrar qualquer interesse.
"Sim, faça-me uma oferta", disse o senhor Afonso de Mello, deixando cair na palma da mão o resto das pedras que haviam ficado no bornal, com dedução contou as pedras, olho-nos cordialmente, olhou de novo para as pedras, fixamente na palma da mão aparentando muita reflexão, repetiu, "vamos faça-me uma oferta".
"Não sei, nem tão pouco lhe pôr preço, é seu o negocio, e ademais não estamos interessados", respondi olhando de soslaio para Elvira.
"Ora meu caro senhor, não se faça de desinteressado, quando o olhar de vossa dama manifesta os mais ardentes desejos", inferiu o senhor Afonso de Mello de maneira trivial e segura, "então, o que me diz vinte e cinco escudos, só esta safira vale mais que a metade das pedras junta, tu tens um ótimo negocio".
"Faça-lhe uma contraproposta", disse Elvira em tom sigiloso.
"Posso pagar dezoito escudos," peguei a safira na mão, senti-lhe o peso, era realmente uma pedra valiosa de umas dez gramas no mínimo, em seguida devolvi-as.
"Senhor, vinte para fecharmos o negocio", disse o senhor Afonso de Mello em tom ardil.
"Não senhor, dezoito escudos", e sem esperar resposta, nem dizer mais palavra alguma, ameacei retiramos.
O senhor Afonso de Mello, friccionou varias vezes com uma das mãos a barba não-espessa, olhou para o alto parece ter encontrado uma noção de intersecção reunindo numa expressão afirmativa, "Muito bem caro rapaz, tome as pedras". Em seguida descemos para nossa cabina, alegres de termos feito um bom negócio e passamos ali o resto do dia, à tarde Elvira sentiu enjôo seguido de entontecimento o estado natural da gravidez refletia de forma peculiar, no dia seguinte o céu amanheceu todo encoberto com uma penumbra, névoa e um chuvisco açoitado pelo vento sul, o mar tornara-se agitado e sombrio em alguns momentos o sol parecia vir ao nosso encontro dentro de um mundo de sombras e nuvens, aparecia numa visão obliqua desvelando á temporalidade dentro da sua posição fixa dei uma volta rápida pela proa, a maré e o vento estavam á nosso favor, Elvira ainda dormia, o capitão mantinha um diário de navegação e um registro, disse-me, que pelas suas considerações estávamos nesse momento próximo à costa do Espiro Santo, e que chegaríamos entre oito ou dez dias ao nosso destino. O decorrer do dia se seguiu nebuloso o mar se encrespara o capitão se mantinha vigilante, a divina providencia os mantinha em alerta sempre que o cinturão equatorial norte encontrava-se com massas de ar mais frio vindo do sul, embora estivéssemos no verão, á atmosfera se apresentava turbulenta e inconstante, esperávamos evitar imprevistos o capitão disse, "Netuno nós abençoa de dia e, ás vezes nos amaldiçoa a noite", permanecemos em nossos aposentos escoando o tempo ao ouvir a proa do navio fendendo as ondas, cortando-as com desdém rumor sem visualizar o domínio do infinito como um lugar onde seu mistério se expande para sempre, fecho os olhos, e, podia ouvir os lamentos amorosos de uma baleia, deslizando entre grandes volumes de oceano à procura de seu par, doces canções, glissandos, compasso por compasso, cadência por cadência, nota por nota, subindo numa escala musical em varias oitavas, uma alteração regular de sons que diferem em quantidade, e assim ficava ouvindo essa doce canção à harmonia pela alternação regular que se expandia pelo mar sombrio.
Na manhã do décimo dia, Elvira apontava com o dedo os tênues sinais da ilha de São Vicente, o tempo havia melhorado, o céu estava limpo e claro, o mar mantinha-se calmo, parecia tudo estar a par do êxtase de antecipada felicidade em que nos comprazia, a brisa marítima nesse hemisfério é bem mais fresca, os ventos alísios do sudeste constituem uma circulação atmosférica que sofrem variações descontinuas ou brusca de temperatura, algo diferente do que até então estávamos acostumados, estafamos em fim chegando, o traje de Elvira tornava-se um amálgama junto à atmosfera suave, o verde crepom do vestido mais a sombrinha de renda da mesma cor tornavam- se amavios dando um aspecto de unidade de sutileza e elegância, o resvalado e delicado chapéu de veludo dava também um unidade harmoniosa que, enquanto assinala o momento de que se compõe, a face macia, traçadas com nitidez que se alongam de maneira sutil, cuja boca forma linhas que se alongam de maneira uniforme que satisfazem-nos como a pureza do céu e a transparência do ar. O sol já começara a se inclinar para oeste quando escutamos lançar âncora, era outra vez á civilização, o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento nos encarna em um estado de coisas, dimensões subjacentes emergindo de cada olhar, uma espera, aquela que designamos dizendo: "eis ai o momento chegou". Na hora do desembarque a luz do sol refletia seu áureo espelho no mar, havia em tudo uma movimentação invariável, o lugar de embarque e desembarque era constituído de uma enorme prancha de onde saía outras menores linhas horizontais, prepostas a um senhor com traje de marinheiro que com gestos interjetivos procurava sem muito sucesso orientar os passageiros que se apresavam através do entardecer cintilante, compondo com seus movimentos a formigas desordenadas, os carregadores ofereciam-se muito eufóricos, pronunciavam em alta voz instruções de exceder a bagagem, habilidosos iam se espalhando pelas docas, suas roupagens claras mostravam a figura, vultos de pessoas que se grunhiam entre si numa cobertura junto a um comprido balcão de madeira onde muitas pessoas quinadas se encostavam, enquanto do outro lado, funcionários, marombeiros de faces lentiginosas e aventais amarrados na cintura, conferiam os invólucros da bagagem. Segurando as maletas de mão seguimos, junto às sombras do carregador, passamos por grande portão ladeado de dentículos e penetramos numa larga rua que margeava o porto, grandes casarões lanzudos, maristas tudo envolto por forte cheiro marinho, vozes se confundiam, cada qual tomava seu caminho, a noite chegava, espectros, sombras acendendo lampiões que clareava paredões acinzentados.
"Bem ali, senhor", disse o carregador, apontando para uma estrebaria que ficava numa ponta de esquina e, seguia sem demora, empurrando o carrinho de mão com a bagagem, ao chegarmos um moço nos recebeu. "Em que posso servi-los", "Uma estalagem, aqui perto", disse parando junto à porta. "Na praça dos portuários tem uma que lhe agradará, senhor, são apenas cinco quadras daqui", a esta resposta trocamos mais algumas palavras de acenos e gestos, verifiquei se os baús estavam bem fechados, "Partiremos amanhã bem cedo", disse circunvagando os olhos, "Vamos, rapazes", gritou o estalajadeiro, "Tirem uma sege, mexam-se, depressa". O moço da estrebaria e os criados rapidamente atrelaram os cavalos e, saiu á sege, e lá se fomos, pelas ruas obscurecidas, as ferraduras retiniam no calçamento irregular, vencida, porém, essa distancia, paramos, pus a cabeça para fora da janela, distingui logo as enormes letras pálidas, rodeadas por azulejos, Pousada Mares do Sul. Estávamos demasiado cansados para fazermos observações minuciosas, mas o que passava pelas nossas vistas era outrora um sobrado patriarcal semi-urbano com duas escadas largas em cada uma das extremidades, um balcão bem ao centro, o porteiro nos recebeu com um aceno de cabeça, em seguida voltou-se rapidamente para o atendimento, um senhor baixo, recurvado, vestia uma casaca preta e camisa branca que por conseguinte, dava-lhe uma aparência de um bizarro pinguim, constantemente estralava um dos dedos, mostrando-se muito ditoso, visivelmente esforçado em nos acomodar rápido, tocou a campainha e logo apareceu uma senhora corpulenta de rosto polido, fez um sinal para segui-la, levou-nos escada acima até alcançarmos um quarto limpo espaçoso e mobiliado, atrás de cujas janelas se descortinava na noite, a praça dos portuários, uma vista pitoresca, donatário, entre sobrados via-se a torre de uma igreja, Elvira se aproximou da janela e ficou por alguns instantes, olhando para fora, faz um movimento com a mão como se quisesse abranger não só o quarto, mas toda e extensão que a norteava, depois se sentou com brandura num largo canapé, franziu as sobrancelhas, suspirou profundamente. A mulher corpulenta trouxe algumas toalhas, verificou a luz, acena com a cabeça, ao mesmo tempo, coloca sobre a mesa uma ficha preencho-a com nome estado civil e procedência, "Traga-nos o jantar em meia hora", "Sim senhor", responde com um breve sorriso. Após o banho, jantamos e fomos para cama.
IX
Estava escuro ainda quando deixamos a pousada Mares do Sul, no céu algumas estrelas, ainda podia ser vistas, cintilavam com um brilho constante, outras bruxuleiam, tremeluzem pela inquietação das nuvens que se turvam, as ruas eram iluminadas a lampião de azeite de peixe suspenso por correntes de postes altos, ao entrar na carruagem e sentar-se, Elvira estremeceu os membros, o ar frio da madrugada lhe causou um arrepio, uma espessa camada de névoa se estendia pela cidade que dormia, nem um único transeunte, apenas sombras que se adensavam, no silencio difuso surgiu um som que se aproximava vagaroso, como um ser que se esquivasse ou se aproximasse de algo, o esforço por representá-lo e defini-lo, apareceu a nossa vista o entregador de leite com uma carroça puxada por uma mula.
"Podemos seguir", disse, entrando no carro.
"Sim senhor", respondeu o cocheiro, estalando o chicote, rapidamente os cavalos negros, lustrosos começaram a galgar pelas ruas silenciosas, o retinir das ferraduras era o único que se ouvia, ao longo da fresca e quieta madrugada antes do alvorecer, em frente às casas que íamos passando, enquanto as olhava, através das janelas, uma luz fraca surgia em cada casa, duma chaminé brotava fumaça cinzenta, e cheiro de pão assado, ao virarmos para esquerda, para a direita e novamente para esquerda numa contextura de encadeamento de ruas que não ousa desfazer-se de seus vínculos com a metrópole europeia, sob a débil luz dos lampiões, mais forte nas ruas do comercio, deixamos a cidade e tomamos um caminho arenoso que margeava um grande mangue, e íamos de encontro a Serra do Mar, atrás de uma vegetação rizoforácea havia algumas casinhas pintadas de branco cobertas de sapé e outros vários mucambos, ladeadas lagoas e desaguadouros, a leste, o brilho pálido da alvorada aumentava rapidamente de volume e extensão, o céu de arroxeado ia-se tornando salmão, até que as grandes barras de nuvens se tornarem dum vermelho desbotado, a grande muralha ao norte tinha uma cor verde-escura, misturava-se numa névoa mais cinzenta provocada pelo crepúsculo matinal, a carruagem seguia em frente, deixando-se tragar pelas espirais de névoa que iam se tornando mais densa. O sol já despontara no horizonte, devíamos ter percorrido uma três léguas, quando chegamos nó inicio da serra. "Uo-ho", o cocheiro bradou, "vamos, agora, força". Os cavalos vinham embalados para impulsionar mais a subida, mas aos poucos foram perdendo potência até forcejar-lhes num passo necessário e obrigatório. A névoa se tornava cada vez mais densa, sombria e consequentemente mais fria, a respiração ofegante dos cavalos parecia oferecer as narinas de dragões que respiram o ar e impelem fumaça, assíduos, seguiam, e apesar do caminho se estreitar e ser mais pedregoso investiam num passo sincronizado, era uma serra com declives árduos, de fato uma muralha, a trilha serpeava, sinuosa sempre subindo por vegetação impregnadas de vapores aquosos que escorriam das encostas, invólucros esverdeados pela Mata Atlântica, emaranhada, uma barreira quase intransponível, por instantes, quando a neblina dispersava-se um pouco, dava-nos uma visão espetacular da grande muralha, podia-se ver toda anfractuosidade da elevação, varias quedas d'água, rumorejando por entre as pedras que serpeavam pela densa mata. Que subida penosa é a serra do mar, os cavalos já haviam decidido parar, quando seu condutor lhes permitiu em breve descanso, por alguns minutos, verificou se as juntas, pernas e cascos estavam em seus devidos lugares, o vapor e a untuosidade que escapavam dos corpos suarentos dos laboriosos cavalos mesclavam-se à neblina tornando-se quase palpável de tão densa, após, ao breve descanso, retomaram a marcha, "Uo-ho, vamos", bradou o cocheiro, o líder fremente balançou a cabeça, expurgava-se erguendo a cauda e com os olhos arregalados como tentasse penetrar no futuro, enquanto, liberto desta exaustão, encontraria um sítio onde pudesse por fim descansar, essa diretriz utópica parecia dar-lhe forças para prosseguir, o cocheiro para amenizar-lhes a pena, caminhava serra acima ao lado de carruagem. Chegamos ao alto, o sol envolto pelas densas nuvens, ora subitamente desaparecia, ora mostrava-se metálico, esférico, ameno para olharmos a luz branca de toda sua circunferência, estrela insípida perdida em alguma esquina esquecida do universo no qual deve haver muito mais estrelas do que pessoas, em certos momentos transitórios, por toda extensão do céu por onde raios, transpassava-se até atingir as criptas da serra, formando círculos que refletiam nas grandes árvores, fontes de energia metódica de luz solar, olhávamos pela portinhola e a sensação de frio na barriga que dava ao abeirarmos o profundo pélago, até onde nosso ângulo observável podia alcançar, a suscetível sensação encantava nossos olhos, árvores frondosas, ipês amarelos e brancos Paú-brasil, araucárias, jequitibás-rosa e jacarandas, notabilizam-se, sobretudo, pelo destaque da massa verde, que pela grandiosidade da sua extensão e da variedade de espécies, tornam-se prodigiosos uma impressão de exuberância e mistério encerrados nas centenas de léguas da Mata Atlântica, um emaranhado incrível de troncos, cipós, raízes aéreas, galhos e folhas tudo mergulhado numa nevoa intransitável, quase no cume, na borda esquerda, havia uma casa de pedra de misterioso aspecto, passamos pela sua frente, examinei estreitamente o aspecto real do edifício, bem ao alto da fachada, umas letras feitas com ardósia produziam com certa redundância as letras C.D.S.N., pareciam índices como tipos de signos causalmente conexos com o objeto edificante, chegando ao cume, fizemos uma pausa, enquanto os cavalos recuperavam o fôlego, o cocheiro calçava as rodas para a descida, em pouco tempo os cavalos voltaram a trotar rápidos pelo declive e alcançaram a planura do caminho e, íamos sacolejando por terras de massapé e salmourão. Elvira olhava o sol que procurava surgir de entre as nuvens, seu olhar calmo, suas faces rosadas impressas num anseio deleitável, quando a claridade insigne do sol sobrepujava-se de entre as nuvens, fixava o olhar na terra em cada ponto que ia ficando para trás, de conformação acidentada o caminho era mais pedregoso em alguns pontos, e, ora se apresentava parda, ora acinzentada, um conjunto de plantas e gramíneas cresciam espontaneamente num relevo variável, caracterizada por superfície plana levemente ondulada, limitada por aclives ligados aos contrafortes da serra do mar. "Que lugar diferente", proferiu Elvira, "é mais frio por aqui". "Sim, em consequência da altitude variável, mas por sinal parece ser um clima agradável, veja aquelas garças", disse apontando para leste, "essa névoa, a fauna, o céu é algo que não estamos acostumados, parece nos dar uma maior sensibilidade". O conjunto de condições atmosféricas parece dar uma expressão motivada na forma do conteúdo inorgânico e as mesmas marcas visuais e táteis na relação entre o mundo orgânico, algo variável, mutável, mas eficaz e necessário no espaço tal como o concebemos por meio dos objetos e de seus movimentos, meu pensamentos fluíam em sua neblina, fragmentos do que ia ficando para trás, a ordem da natureza em comparações significativas do que ia-amos descobrindo, o entusiasmo que a qualquer outra coisa nos levava para algum destino, esse instinto, dispositivo que nos cerca, nos leva a necessidade de seguir, e nós a desejamos, porque temos que desejá-los, o desejo parece um apetite do qual estamos conscientes, e não me importa a conclusão que se aproxima como um presságio de atormentada existência, de modo que, quanto mais refletia sobre os fatos em questão, mais crescia a busca de uma luz em meio à crescente escuridão, contudo, seguíamos nosso curso, o céu, agora, estava completamente encoberto, os cavalos seguiam galgando estrada á fora, quando bem á frente, em ambos as margens do caminho começa a surgir sulcos de águas, até formarem grandes lagos de águas escuras que se espargiam em diversas direções, margeados com uma densa vegetação aquática que se estendia por inúmeros arroios, aguapés que se mesclavam nas abas, e, sobretudo garças que formavam um tropo mélico sobre as águas lustrosas e sombrias, adiavam, esvoaçavam espalhando-se formando pontinhos de exaltação, aqui e acolá, quando nos aproximávamos, gazeavam, num denotar exuberante. "Veja Camilo como são lindas", dizia Elvira apontando-as, apossava-se de um sentimento de exaltação, como se estivesse presenciando algo de novo, e o era, a mudança concebida na mais pura abstração, via as garças e nelas seus ágeis membros, convergindo a ser um só, não de vez, mas em grupos compondo-se uma em cada canto, e, iam se misturando fundiam-se permutando os caminhos perdidos na distância, a este ponto, alcançamos a parte do caminho em que as lagoas se caldeavam com isso o cocheiro á bridar um pouco, e com um impulso necessário, lançamo-nos sobre uma ponte de armação de madeira, cujas patas dos animais ressoaram num estrépito derrocado de pó e terra encerrada no regaço.
"Pareces tão pensativo hoje", observou Elvira de maneira afável, "algo lhe preocupa".
"Não querida, nada me preocupa, apenas pensamentos que prevejo, as circunstancias que nos prepara o destino, e tenho certeza que partilhas meu pensar".
"Claro que sim".
"O Sr. Diogo Bernardes deve estar nos esperando", disse olhando para o ignoto, "o que nos ira dizer, suas explicações sobre os acontecimentos, será, que nos quer aqui, até que ponto deve-se confiar nele, estamos quase chegando, e cada légua que percorremos, cresce plenamente os cuidados ativos de desvendar um duplo mistério, essa ideia me entusiasma, muito embora não possamos nos esquecer de prudência, e temos que tê-la a tempo antes que nos prejudique nas investigações, às vezes tenho a impressão que estamos indo encontrar alguém de nossa família, alguém que devemos de fato confiar, entretanto devemos ter muita cautela e, assegurar-nos da veracidade de suas palavras e o tempo necessário para conclusões seguras".
"Pois prometo que o terá, disse um sábio, que para dissipar seus temores, bastava quase sempre lhe aprofundar a causa, persiste na suspeita que o senhor Diogo Bernardes tenha alguma culpa na morte de meus pais".
"Os fatos não nos dão certeza de nada, suspeitas são sempre suspeitas, mas, pergunto-me, se ele estava lá na noite ou no dia não sei em que foram mortos, não o teria evitado, ou apenas prolongado um pouco mais até que o assassino tivesse a chance de surpreendê-los, mas isso não tem muita importância, existe outra possibilidade, que possa ter havido um acidente, enfim circunstâncias e fatos ainda muito obscuros para análises mais profundas, oh, Elvira, desculpe-me se te desagrado com esse assunto, mas, agora mais do que nunca teremos que viver com essas ideias, até termos certeza do que de fato aconteceu".
"Não, não me desagrada, apenas esforço para entender que razões ele teria para matá-los e manter-me viva, se foi um acidente porque não o teria dito a Tia Berta", Elvira procurava julgar os fatos pelo fácil profetizar após o acontecimento, pelo seu êxito apreensivo e o inconcebível domínio que tendes sobre si, o que a tornava com mais coragem, "nunca um mistério iníquo dura por muito tempo". Esboçando-a de modo impassível, persuadi-la que descobriríamos toda a verdade e suas pretensões. O cocheiro ia açoitando os cavalos, por um caminho, ora sinuoso, ora em declive, e, por toda à parte os campos se estendiam verdejantes, floridos, mas sombrio em sua plenitude, depois, de ter percorrido certo tempo por este caminho, começávamos agora distinguir que avançávamos na direção oeste, desde que subimos a serra deveríamos ter percorrido uma duas léguas e meia, mantínhamos atento, era como que em cada ponto descobríssemos algo novo, uma emoção nova, uma espécie de satisfação ou de desafogo ao pensar que estávamos cada vez mais perto do nosso destino. O meu pensamento divagava nas regiões estranhas e insondada do caminho, até que minha atenção foi desperta por uma represa grande e misteriosa com uma densa névoa que a oclusão não permitia ver o outro lado da margem, ora era esse o ponto de referência do mapa que a senhora Berta havia nos descrito.
"O mapa por favor, Elvira parece ser esse o lugar onde devemos virar para a direita".
Elvira tirou de uma das bolsas um papel rabiscado, as linhas da estrada, as duas lagoas assinaladas uma ao lado esquerdo do caminho principal, que deveria ser esta, a outra aparece bem a sua frente, separadas pela estrada, seguindo para o norte por um outro caminho vicinal que sobe margeando um alto barranco, "é essa que devemos seguir". Logo a frente surgiu um desvio, um pórtico de pedra entre a extremidade leste o extremo oeste, sinalizando a entrada indicada no mapa, o cocheiro diminuiu a marcha, parando junto ao pórtico, apeei, e caminhei em volta dos pilares, havia uma sinalização dizendo, São Bernardo do Campo 5 léguas, São Paulo 22 léguas.
"E agora senhor", indagou o cocheiro.
"É esse o caminho que devemos pegar agora", respondi apontando para uma estreita estradinha que subia, "não devemos estar longe agora, vamos".
"Vamos para a direita agora", bradou o cocheiro com seus animais e, soltou-lhes num impulso açoitando-lhes com a ponta do chicote, "vamos, muchachos", vociferou o cocheiro burlesco, "que tenho eu se nasceram quadrúpedes". O cocheiro além de um bom condutor parecia ser um homem também de raciocínio rápido, e assim que transpassemos o topo e principiamos a descida, avistou um homem que vinha com uma foice em sentido contrário, e que pela aparência mostrava ou pelo menos se supunha conhecer os arredores. "Hoa, hoa, hoa", bramiu o cocheiro, refreando a carruagem junto ao homem que nos olhava com mesura. "Boa tarde, vosmecê poderia informar-nos se ainda está longe a sítio da família Launay", a interpelação o homem voltou-se numa vicissitude reflexiva e com certa impassibilidade respondeu. "Launay, não me é estranho". "è onde mora o senhor Diogo Bernardes", disse eu pela portinhola. "A sim", tornou o homem a elucidar, "continuem descendo, quando chegarem lá embaixo encontrarão uma curva à esquerda, logo depois algumas casas ao lado da represa, logo à frente avistarão um portão a mão direita da estrada, é o único desse lado, é lá". E sem demora o cocheiro deu rédeas aos cavalos estrada abaixo. Enquanto íamos nesse proceder, continuava Elvira muito atenta com um aspecto de puro entusiasmo, observava tudo cada detalhe com a ansiedade de que se aproxima do lar depois de uma longa ausência. O lugar possuía uma mata densa, uma casa aqui, outra ali afastadas umas das outras por árvores sombrias, algumas faziam fundo com a represa, descendo alamedas à beira da estrada, névoa impregnava-se por todos os lados e, exatamente às três horas da tarde chegamos a frente aos portões, havia dois gárgulas um de cada lado do portão, guardiões encimados proporcionavam admoestação embebidos numa substância esverdeada da vegetação, o coche irrompeu o portão reduzido a mero andadura oscilando e avançando para cima envolto numa essência odorífera de vários vegetais, o sol momentâneo rompia o céu encoberto e se espargia por entre as árvores que se aglomeravam se apertando uma as outras, que se condensam, umas tortas outras eretas, umas já velhas, outras em pleno viço, pássaros galhardeavam por todos os lados, esclarecendo o motivo da chegada, alegres por nos receber, toda essa luz se estendia sobre nossos semblantes como uma seleção e coordenação igualmente forte, as semente igualmente plantadas eram férteis, e que havia em toda sua plenitude germinadas depois de uma longa espera, Elvira agora, mais do que nunca sentia a ansiedade e a alegria desabrochar de seu olhar, o coche finalmente se aproximou da casa, o primeiro olhar perceptível que tive era, ao mesmo tempo admirável à construção, uma impressão de arcano que as funções diversas se conjugavam em cada ângulo, a fachada de uma grande casa, cujo telhado quase que se encostava à alta torre que emergia de entre as árvores, surgia diante de nós como um sonho, a luz débil do sol por entre as nuvens, foi substituída no mesmo instante que a carruagem parou à porta da casa por uma sombra enigmática.
X
Era uma construção com dois pavimentos muitos amplos, a parte inferior construída de alvenaria de taipa-francesa, enquanto que a parte superior ostentava um chalé no estilo suíço, o telhado da fachada se insinua bem abaixo das janelas superiores, descendo em meia-água, adornando toda extensão da varanda, sustentada por duas colunas de pedras colocadas transversalmente como perpianhos, duas grandes portas, uma em cada extremidade da fachada, enleadas por janelas de ventilação situadas perto do piso cuja evacuação do ar viciava para o teto, eram separadas apenas por pequenas juntas de ligação de pedras, a torre que fica na parte posterior, aparece como uma edificação de refúgio, com uns vinte cinco metros no mínimo de altura, construída com pedras e janelas de lintel de arco que se insinua a meio metro do piso e abrange toda a sua volta, divididas em conjunto de seis até o nível da casa, ai, então é formada de vãos que não atingem sua extremidade. Tudo ali estava tão quieto, excessivo silencio recôndito, acompanhado apenas pelo ambíguo arrolar de uma juriti num compasso solene, tinha uma sensação que alguém nos observava, mas de onde, parecia, na verdade um lugar de sonhos casa admirável, própria para encantar o espírito, no mesmo momento em que bati a aldrava da porta, senti um estremecimento, uma densa névoa começava emanar do bosque profundamente sombreado, vinha pouco a pouco se propagando encerrando um indefinível arcano a quietude da atmosfera, meu sentimento misturava-se à admiração e perplexidade, bati por mais duas vezes, e não tendo resposta, voltei-me para junto de Elvira. "Parece não haver ninguém em casa, será que nos esperava", disse olhando ao redor e notando que tudo permanecia quieto Elvira parecia mergulhada numa admiração magnética com uma importância circunstancial como se estivesse em seus próprios sonhos. "É melhor", ao pronunciar essas palavras Elvira tomou sua mão a minha numa espécie de leve esforço, "Olhe Camilo, olhe ali", com as pálpebras estremecendo Elvira apontou para a extremidade de onde provinha a nevoa, parecia haver uma particularidade, não obstante, que, então pudemos perceber uma sombra negra, como característica de uma mácula difusa, e pouco a pouco, fomos constatando, ainda que a névoa causasse certa dissolução, como uma peculiaridade sobrenatural, um cachorro preto de grande porte, sentado de forma distinta, nos observando enigmático, notando em seu aspecto não reconhecer aqueles que ali estavam, espreitava-nos, tal como um predador esperando o momento certo para articular seu ataque, o nevoeiro não ocultava seu olhar feroz e cruel. "Não se mexa Elvira", um suspiro talvez fosse o bastante para nos atacar, decorrido uns poucos segundos de conturbar-se com o ataque iminente, minha atenção foi absorvida por um som, que apesar de oculto e vago, distingui perfeitamente que vinha ordenado em nossa direção, num segundo, chegava a nossos ouvidos o ruído de folhagens secas partindo-se sob pisadas firmes, a aproximação do som, entretanto, não causou nenhuma indiferença no animal que nos espreitava, exceto quando subitamente cessou, e, precisamente com igualdade perceptível, o animal, ordenou-se a inclinar a cabeça na mesma direção em que o som havia se extinguido, então, depois de uma pequena pausa, os passos voltaram a ecoar, agora mais distintos e o cachorro como se estivesse vinculado a ele, voltou a nos observar, no mesmo êxtase em sequência, eis que vimos como um espectro espesso condensar-se em meio à névoa, enquanto a súbita aparição impelia-se ao lado do cachorro, pudemos afinal perceber um homem, ao tempo que mantinha baixa a cabeça, refletia sobre o melhor caminho, trazia com a mão direita um feixe de lenha amarrado por uma corda, enquanto que o braço esquerdo sustentava um machado apoiado sobre o ombro, sustentando os passos sem nos notar, até levantar a cabeça e olhar supresso, veio em nossa direção e, quanto mais se aproximava, mais parecia crescer sua irresolução, chegando bem a nossa frente, o cachorro acompanhava seus passos bem lentamente, aproximava-se como a vigiar, suspeitoso a aqueles que ali estavam.
"Boa tarde, és o senhor Diogo Bernardes", disse em tom cordial. O homem parou a uns quatro passos de nos, olhando para Elvira como se estivesse vendo uma visão não deste mundo, mas de um outro revolvido pelos ventos, fora dos limites de sua própria compreensão. Olhei-o atentamente e repeti, "És o senhor Diogo Bernardes", agora, a indagação feita em tom mais grave, parece tê-lo despertado de seu torpor. "Sim", respondeu tomado de emoção, baixa o feixe de lenha, e acrescente num tom familiar, "Sou Diogo Bernardes, meus filhos". Era um homem de cerca de sessenta anos, vestia uma roupa própria para trabalhar na mata, com botas de cano alto, com ar sóbrio e um rosto circunspecto, uma face levemente rubra, com traços claramente de um homem que dirige a cultura de uma quinta, o nariz, delgado, estava ligeiramente apertado no topo de cada narina, nesse momento, conferiam um ar perplexo, ora olhava para mim, ora para Elvira, examinando com atenção essa expressão era auxiliada pelas linhas da boca e das órbitas dos olhos, as carquilhas malgrado não lhe causavam uma aparência de deterioração, após saudar-nos com respeitosa cordialidade, então, sucedendo a Elvira e a mim como seu singelo criado. "Por Deus como se parecem", pronunciou o senhor Diogo Bernardes, tornando a fitar Elvira, olhando-a como se ela de fato tivesse saído de um episodio, "Por favor, vamos para dentro, devem estar casados, ah, ia me esquecendo, volveu voltando-se para o cachorro, "Este é Rott, um bom amigo, ao contrario do que se parece, ele não é bravo por natureza, Rott receba nossos amigos". O cachorro parecia entender cada palavra de seu dono, tão logo que ao nos farejar, parece ter nos admitido. As primeiras impressões que pude ter do senhor Diogo Bernardes, era de um homem cortes, com modos serenos, sinceros, uma voz grave e cometida, e que nossa presença de fato o estava agradando, ajudou com nossa bagagem, "Venham, por aqui, por aqui", dizia muito prestativo. Entramos pela porta do ângulo esquerdo da varanda a, mesma que a pouco havia batido, o senhor Diogo Bernardes, virou duas vezes uma grande chave, era uma porta espessa, solidamente fechada, guarnecida de ferrolhos e encimadas por espigões de ferro denticulado, sentia um profundo anseio, em cada rangido de seus gonzos potentes, encontrava uma plenitude de mistério, todo um desejo antepassado de meditações solenes e agora as observações ainda mais solenes. Contudo, o recinto de acesso era pequeno e irregular uma espécie de ucharia, o piso sem juntas constitui-se por um agregado de pó de cortiça serragem e pedra, as paredes de ladrilhos de arenito de cerca de um centímetro de espessura, o cômodo contíguo, era amplo e quadrangular, uma sala esplendidamente mobiliada, muito embora ainda a obscuridade não nos desse uma ampla visão dos objetos nela contida, o senhor Diogo Bernardes acendeu alguns castiçais, depois atravessou a sala na direção das janelas, e, com agilidade, descerrou-as, logo a claridade e o ar fresco penetrou pelo aposento, apesar de parecer estar sempre o maior tempo fechadas á atmosfera do interior da casa, espalhava uma impressão de asseio. "Senhora Elvira", disse o senhor Diogo Bernardes em tom respectivo, apontando para uma bela tela que emoldurava a parede central da sala, "eis, o retrato de seus pais, o marques Gilles Launay e M. Taíza, foram os únicos e melhores patrões que tive em minha vida", concluiu com prerrogativa. Elvira olhou impressionada para a tela, a imagem obstinada que tentará decifra em toda sua existência, estava ali, agora, tão viva, tão real, diferente de todas imagens que imaginará, os traços, as impressões pareciam se tornar intermediaria de algo que ela não poderia ouvir, tendo diante de si, apenas as imagens para lhe falar, lhe preencher o presente que se transformara no passado, um elevo se formará em sua face, aproximou-se como se fosse de fato abranger as imagens, e tão perto podia tocá-los, e o fez com as pontas dos dedos, "Meus pais", disse num tom quase angelical, "Meus pais, Camilo", repetiu olhando-me como se desejasse apresentá-los. A semelhança de Elvira com sua mãe era algo notável, os traços físicos a altura, provavelmente quando o quadro fora pintado ela deveria ter a mesma idade que Elvira tinha agora, o marques um pouco mais alto, muito bem vestido, com uma fisionomia agradável, o rosto sob outros aspectos belamente formado, usava um fino traje de cavalheiro, havia um écharpe franjado próprio de uma vestimenta de cerimônia, um brasão típico de famílias nobres com as letras "G.L". Aproximando-me da magnífica tela, pude notar que havia sido pintada por "Vigée Lebrun". Como a tela os móveis, os objetos que havia na sala, era tudo muito belo, muito bem cuidado, como se seus antigos donos aqui vivessem ainda, a mobília, mesa, cadeiras, divã e o oratório eram todos de cerejeira maciça, louças chinesas, candelabros de marfim torneados, em cima de uma mesa de despacho havia uma copa de marfim que a observando bem pude notar que era uma peça rara do século XVI, na parede transversal uma lareira de tijolos refratários com o fundo em chapa de ferro fundido, em conexão com ao lado da lareira vãos que se embutiam em armários de forma retangular, em meio a essas minuciosas observações, notei, quase que impercebível, uma escada de madeira, encimada, presa por duas grossas correntes, a escada ao que parece era o único acesso ao aposento que fica em cima da sala que estávamos, numa projeção horizontal na altura do forro, dando assim, certa possibilidade para puxá-la, meu olhar caiu então, sobre uma ostentosa tapeçaria persa que cobria boa parte do piso, um sentimento de súbita imobilidade em tudo que nos cercava, pensava, media com os olhos, refletia, Elvira, parecia em um sonho, ora olha para os objetos ora olhava para o retrato dos pais, mas o conteúdo manifesto era muito mais que uma simples elaboração onírica, é de fato o mecanismo real da vida concreta e, que a qualquer outra consideração era-lhe à condensação e o deslocamento de um estado livre móvel como se estivesse dentro de seu jardim, onde tendo plantado árvores frutíferas, via agora, seus frutos florescerem. "É como se meus antigos patrões estivesse retornado de uma longa viagem e, o que sinto é o dever de fazer o melhor, servi-los com a mesma dedicação de outrora, é claro, se assim lhes agradar", disse o senhor Diogo Bernardes tomado de um entusiasmo comovedor. Elvira fitando-o de maneira relevante, disse "O senhor cuidou muito bem da casa durante esses anos, estou feliz por isso, espero retribui-lhe com a minha confiança e respeito". Volta a olhar para o retrato dos pais, enquanto eu tomado de curiosidade e excitação, me adianto para outra sala adjunta, embora menor, era o gabinete todo revestido em cerejeira maciça com batentes de Pau- brasil ostentava uma primorosa coleção de livros, sob a mesa ornava um castiçal e um elaborado tankard de marfim prata dourada, entre esse aposento e a sala onde Elvira estava há um corredor que conduz a uma escada aos aposentos superiores da casa.
"O senhor mora sozinho aqui", disse voltando para a sala. "Moro com minha esposa, ocupamos a casa que fica ao lado do portão leste", respondeu o senhor Diogo Bernardes indicando com a mão a direção desejada, "podemos ver o resto da casa". "Claro", acatou Elvira. Primeiro mostrou-nos o mecanismo da escada que se encaixava ao forro da sala, o ruído das grossas correntes ao descer era exatamente o mesmo ao subir, prossegui e nos o seguia, passamos pelo gabinete e subimos a bela escada de mármore com ressaltos e juntas perpendiculares a cada inclinação, ao chegar ao patamar, ficamos diante de três portas. "Essa porta", disse o senhor Diogo Bernardes, apontando aquela que começa da direita para esquerda, "leva a uma das salas que pertence a um dos andares da torre, a do meio é um quarto de hóspede, e aqui", concluiu, abrindo a porta, "era o quarto do marquês e da marquesa Taiza", suponho que queiram ocupar esse aposento. "Sim", disse Elvira, entrando e, circundando o aposento com um olhar de afeição seguido de uma expressão admoestativa. A beleza da mobília do quarto seguia realçando-se com a do resto da casa em estilo francês, o teto em abóbada, o piso coberto por um belo tapete persa, uma cama com cortinas as peças do quarto de banho que fica anexo são todas em mármore branco esculpidas em relevo, dando destaque para uma banheira esculpida em peça única de mármore carraro italiano, tudo de uma nobreza sedutora que embeleza cada canto do quarto, era com que a volúpia de cada objeto mostrasse, representasse o sentido do tempo daqueles que aqui viveram e, o momento presente era o nexo entre o passado como se tudo isso coincidisse com as indicações temporais da nossa chegada, essa sensação estimulava ainda mais minha vontade conhecer de fato o que houvera nesta casa. O primeiro contato com os elementos dava a ideia de muitas coisas que influíam de maneira própria, o que houvera mais a realidade presente o que havia se dissipado no tempo nossa presença era o principio da equivalência, mas eram também essas flutuações como pares de partículas que aparecem juntas em algum momento, daí, afastam-se e depois voltam a se reunir e as aniquilar reciprocamente. As palavras, gestos do senhor Diogo Bernardes, causavam efeitos indiretos em minha mente, tais como as pequenas mudanças na energia dos sentidos, a percepção resumia tudo como num campo gravitacional flutuante fazendo que a incerteza fosse á primeira instância, o modelo à expressão de seu semblante parecia ser sinceras, muito embora esse teor possa ser apenas suposto, tão exatamente quanto possível, combinar e corresponder à expressão eram apenas uma via para os contextos e todas as circunstâncias, correlacionar todas as possíveis interconexões era a melhor maneira para formularmos o que se seguira, enquanto Elvira tomava seu banho, aproximei-me da janela do quarto, olhei pelo postigo, em seguida abri a adufa, fazia um belo crepúsculo, o sol se ocultava esplendoroso, camadas de nuvens se estendiam em diferentes imagens geométricas onde predominava o lilás, rosa, vermelho e tendo como fundo tênue traço de um azul que se dissipava para dar lugar a um escuro não tão grave que ia subindo pouco a pouco do leste, embaixo das arvores mais densas o espaço se misturava à escuridão, a janela do quarto de onde eu estava fica a uns três metros do piso de um estreito corredor que margeado por um talude se estende por trás da casa, bem ao nível da janela coberto por um limo esverdeado, de modo que qualquer individuo destro de um salto poderia alcançar os postigos se precipitar assim para dentro do quarto, à parede bem abaixo tornava quase impossível a um assalto devido sua altura se fosse escalada talvez, mas com certeza deixaria algum tipo de vestígio mas estando descalçado seria impossível qualquer indicio, sinal e ainda o grande espaço de tempo que sucedera ocultaria qualquer tipo de traços, por fim, meus olhos voltaram-se para o aposento depararam uma vistosa penteadeira, ao observar atentamente suas bordas, pude notar, quase imperceptível, entre o vão que a separava da parede, o que parecia ser um cabo de escova de cabelo, conservando a atenção ao objeto conclui que havia caído de maneira descuidada o até mesmo fortuito, com uma das mãos puxei, desatando-a, estava ali havia muito tempo, empoeirada com cabelos ainda presos era como se alguém num primeiro impulso ativesse deixado cair ali, ou mesmo poderia ter sido arremessada, era na verdade, sob todos os aspectos a escova da mãe de Elvira, pondo-a em frente ao lume e desatando alguns fios de cabelo, percebi que eram quase idênticos aos cabelos de Elvira com pequena diferença que esses eram um pouco mais escuros, para estar de acordo com minha suposição, a senhora Taíza poderia estar se penteando, quando algum som, talvez um grito forte, ou mesmo alguém se lançando pela a janela, causando-lhe um sobressalto, prossigamos em nossas suposições, se ela ouviu algo deve ter vindo dos aposentos subsequentes, olhando para a escova em minha mão, avancei, silenciosamente, provindo-me de um castiçal de uma luz, o aposento que visitei primeiro ficava ao lado do nosso quarto, um quarto de tamanho médio com duas camas e mobília de muito boa comodidade, as considerações que regem as paredes divisórias são iguais a anterior, porém, em menos tamanho, a janela que do outro quarto fica na direção leste, esta por conseguinte fica na direção sul que tornava esse aposento um pouco mais frio, um pouco mais sombrio, silencioso, pela janela entreaberta pude notar um nevoeiro fumegante que vinha envolvendo todas as coisas e sem dúvida concorria para aumentar causar-me impressão igual a que eu experimentava quando menino, ao ouvir historias sobrenaturais que minha avô contava, meus passos ecoando no piso parecia despertar a matéria adormecida, um calafrio originando-se no tronco cerebral desceu em ramificações até a medula espinhal, como num agrupamento de circuitos inter-relacionados, abri caminho desse quarto para o aposento seguinte, o simples fato de estar nesses aposentos proporcionava-me a intensidade da ansiedade que supostamente era maior que qualquer perigo objetivo, abri a porta bem devagar, o aposento estava imerso na obscuridade o fulgor revelou-me um notável mobiliário a imagem da minha sombra se projetando no andar circular da torre formava uma figura bastante estranha, em lugar do castiçal que segurava que, parecia ser de um crucifixo, dos que vemos nas igrejas antigas, as batidas do meu coração aumentarão, que me vez olhá-la mais atentamente, voltei os olhos para os outros objetos que se achavam no aposento, era um lugar perfeito para passar o dia todo ocupado em meditações ou mesmo destinado a uma constante vigília o exílio de um espírito conturbado, em um determinado ângulo do quarto havia uma escada de madeira giratória, numa espécie de serpente atingia o andar superior, olhando para cima fui me aproximando, apoiando-me com uma das mãos no corrimão comecei a subir o som que o peso de meu corpo causava na estrutura da escada era realisticamente apavorante, até o ponto onde terminava a escada examinei um alçapão, minha mão, até onde podia alcançar elevou a tampa o bastante que pude sentir uma corrente de ar que divagava de cima para baixo num som aziago ao exceder para esse outro andar a ação do vento fez extinguir a luz que trazia na mão, num segundo tudo se tornou sombrio, sinistro, o som do vento agora se misturava ao pio lúgubre de uma coruja no cimo da torre, um pavimento circular tendo percorrido alguns instantes e meus olhos se acostumado ao ambiente escuro notava que nas paredes havia indefectíveis armas de caça, lanças, espadas, adagas, machados e mais sinistro ainda pelo também indefectíveis despojos de animais, pontas de animais, chifres, garras das quais mostrava todo um apresto do seu senhor, continuei a subir mais uma escada até por fim chegar ao último patamar, agora podia ver a coruja como se estivesse ali cinzelada á muito tempo encarou-me com seu olhar grave, nas extremidades havia gretas que proporcionavam uma visão em todas as direções ao me aproximar do parapeito a coruja voa rapidamente, ao longe, luzes tremeluziam perdidas na sombra da noite e algumas estrela esgueiravam-se por entre as nuvens bem ao leste desse cimo sinistro escancara-se represa assaz larga e profunda sobre os limites da propriedade Launay.
A mesa da ceia estava preparada na sala principal, o mesmo aposento instalado na parte térrea da casa onde outrora o marquês e a marquesa Taiza ocupavam, cercados de todos os luxos que convinham à condição de nobres num país distante, em tudo predominava a nobreza do estilo do antepenúltimo Luis XIV, a diversificação se dava por muitos objetos que eram ilustrações de antigas páginas da história da França. "Falta só o vinho", observou o senhor Diogo Bernardes junto à mesa, "estava esperando o senhor descer para irmos a até adega. Junto a um dos armários que fica ao lado da lareira o senhor Diogo Bernardes tocou com a mão em um dos ornados da cornija, automaticamente abriu-se uma porta do armário, mostrando-se uma passagem para dentro da parede, "É por aqui senhor", disse o senhor Bernardes abaixando-se um pouco e, entrando. Segui-o, fazendo os mesmo movimentos, o compartimento em que havíamos introduzido era escuro e sombrio, o senhor Bernardes ateou uma lamparina e, num instante o lampejo sobreveio sobre o negro das trevas, a principio tivera um arrepio pelo corpo, como se cada fibra do corpo estremecesse, bem a nossa frente um corredor descia num declive, morcegos atormentados pelo clarão repentino voejaram revoltos procurando espaços mais sombrios. "Por aqui", ecoou a voz do senhor Bernardes que descia para o fundo do corredor. Estendi os braços para o alto em torno de mim, queria perceber a largura e altura e, com o corpo meio encurvado com receio dos morcegos desci seguindo o senhor Bernardes, era um estreito corredor com piso de pedra a parede também parecia de pedra muito lisa, úmida e fria, a descida não demorou mais do que alguns instantes, chegamos ao fim do corredor numa sala circular que olhando com atenção percebi ser o subsolo da torre a claridade dos archotes projetavam as sombras de dois grandes tonéis suspensos por fortes correntes o ar era úmido havia uma corrente de ar que parecia emanar de outro ângulo um outro corredor menos iluminado. "Estes tonéis estão vazios", disse o senhor Bernardes numa voz frisante que ecoou por todos os ângulos. "Foram esvaziados pouco antes do marquês morrer, aqui ainda resta algumas garrafas", reiterou o senhor Bernardes virando-se na direção do outro corredor cujas paredes acomodavam enumeras garrafas embutidas horizontalmente. "O marquês era muito bom negociante de vinhos, dizia que a vinha e seu uso era um presente dos deuses, as pessoas mais influentes da corte vinham até aqui comprar e provar do seu vinho, olhe isso", revelou o senhor Bernardes clareando uma parede lateral. Era um grande desenho feito com carvão do rosto de Baco enlouquecido por Juno, aproximei-me olhando aqueles traços que envolviam minha imaginação. "Estamos em baixo da torre", disse como se tivesse voltado de algum sonho. "Sim", respondeu o senhor Bernardes, "bem embaixo senhor do quarto que encontrei os patrões mortos", reiterou com uma expressão de vivacidade selvagem e sinistra. "Como morreram eles", disse depois de observá-lo por alguns segundos. "Foram assassinados com uma mortificação impiedosa", respondeu o senhor Bernardes como se tivesse tido um calafrio por todo o corpo, continuo parecendo voltar para um letárgico pesadelo, "Oh, algo desumano cruel, implacável, foi numa sexta-feira, naquela época cortejava Florinda que hoje é minha esposa, como toda as sexta-feira que fazia ao terminar os afazeres ia encontrá-la, naquela tarde fazia um crepúsculo tempestuoso mas nada impedia a vontade de vê-la, assim, deixei o marquês e marquesa Taíza no então tranquilo aposento superior, o marquês achava-se sentado lendo como era de seu costume, a marquesa junto ao marquês com a pequena Elvira no colo, ficava mais cogitativa ao perceber que se aproximava uma tempestade, ao contrario do marquês que sempre mantinha o estado tranquilo do espírito o retumbar dos trovões deixavam a marquesa inquieta ia para a janela voltava andava por todo o quarto com a pequena nos braços "Por que não se acalma é só uma tempestade", dizia o marquês numa completa insensibilidade, o olhar da marquesa se perdia em algum ponto lá fora, quando passei pela frente da casa ainda a vi na janela ao avistar-me acenou para mim como se reprovasse minha conduta, foi a ultima vez que os vi vivos, à noite ao retornar, coincidência ou não havia caído uma árvore na estrada principal retornamos e o coche seguiu pelo caminho da torre, encontrei a casa numa quietude assustadora, a atmosfera chuvosa ainda abrangia todo o campanário só que bem mais moderada, naquela noite havia bebido um pouco, talvez um pouco mais do que deveria, mas não a ponto que meu senso de percepção misturasse imaginação circunstancial a fatos reais, de modo que percebi algo singular e divagante no ar, ao dar uma volta em torno da casa, notei que a grande porta gótica que se mantinha adormecida, estava enigmaticamente aberta, observei-a com certa perplexidade, depois entrei."Nesse momento a expressão do senhor Bernardes era terrificada, colocando a mão sobre a testa e conservando-a ali, como alivio para suas lembranças, continuo erguendo os olhos para cima: " já na entrada havia manchas de sangue, parecia pisadas que vinham de cima, a principio meus sentidos pareciam duvidar do que era tão evidente, a veracidade clara e conturbante fizera aumentar as batidas do meu coração, fui subindo as escadas, sempre olhando para o alto, quando chegue ao aposento que esta bem acima de nos notei outra porta aberta num tom mais amargo e sério, havia sangue por todos os lados uma apreensão tomava todo meu corpo, o aposento achava-se em tamanha desordem moveis caídos lançados por todos os lados, parecia ter havido uma luta corporal e pelos objetos que encontrava indicava não ter se originado ali, atei mais dois candelabros e, deparei-me com uma cena que encheu-me não só de horror como de assombro, junto a escada que dá acesso aos andares superiores jazia o corpo da marquesa com a cabeça horrivelmente mutilada, mal conservava qualquer aparência humana, respirava fundo para não perder os sentidos um mal estar profundo se apoderou de todo meu corpo, dei mais alguns passos não havia sinal do marquês, meu olhar fixou-se num dos degraus da escada, meu Deus, um braço cortado na altura do ombro, voltei o olhar para o corpo da marquesa, não lhe faltava nenhum membro, olhei agora atentamente para o braço mutilado em um dos dedos da mão reconheci um anel sendo do marquês sentia que minhas expressões faciais desfaleciam pelo que experienciava um suor frio, e assim por diante, minhas pernas pareciam perder a força, mas algo me empurrava para cima, respirei de novo profundamente endireite-me e, subi o resto dos degraus no último patamar o corpo do marquês havia sido horrivelmente esquartejado, pedaços por todos os lados, vísceras, pernas e a cabeça...oh meu Deus a cabeça... havia sido decepada e fincada numa lança de caça presa à parede com os olhos pendentes fixei o olhar inexpressivo do marquês e, numa simultaneidade de relâmpagos num curto instante a face do marquês parece ter assumido a sua altivez rígida manifesta àquela luminosidade momentânea, é difícil traduzir suficientemente o espanto o horror que se apoderou de mim ante o espetáculo que se apresentava e, virando-me aproximei-me até uma das janelas, abaixei a cabeça o ambiente me causou um profundo mal estar, a boca salivava como de um cachorro louco, assim, olhando para baixo pude contatar num instante não sei se uma sombra ou uma vibração abstrata da minha mente o fato é que seja o que for cortou rapidamente o espaço entre a torre na direção do atalho numa atitude evasiva para o bosque, supondo ser aquilo o causador da tragédia desci como uma onda luminosa em sua direção, afundei-me pelo bosque adentro, correndo, correndo até ser atingido ou bater a cabeça em alguma coisa muito dura, daí em diante não me lembro de mais nada, despertei no dia seguinte com o corpo todo dolorido tremendo de febre. "Mas quem poderia ter feito isso", disse perplexo. "Uma alma revoltada", acrescentou o senhor Bernardes numa fluência misteriosa, "imbuída de um insuportável desejo de vingança da ferocidade brutal em que havia sentido injustamente o peso quando seu senhor o prejulgou". "O que o senhor quer dizer", disse encarando-o com desdém. "Não quero dizer senhor, estou dizendo, senhor Camilo o que lhe disse até então pensei ser melhor que fosse dito na sua presença por grotesco e horrível, dizendo estas palavras na presença da senhora Elvira temia que a impressão produzida se tornasse para ela o sinal de uma nova desgraça e, não é essa minha intenção, de modo que já a tenha dito ao senhor a maneira terrível e que os patrões foram mortos, vejo agora a necessidade notória que a senhora Elvira participe daqui para frente da nossa conversa". "Muito bem senhor, continuaremos amanhã".
Elvira cortou uma costela de carneiro em seguida levou sua taça de bordo aos lábios quando tornou a pousá-la sobre a mesa. "Gostou da casa Camilo", disse calmamente fitando-me com atenção, "Camilo o que foi parece distante". "Oh, sim, simpatizei-me muito é uma bela casa". "Sim, mas responda-me o que lhe preocupa, notei que desde que voltastes da adega algo lhe incomoda, o que é". "Você se parece muito com sua mãe", disse olhando para retrato na parede. "Camilo". "Elvira", disse com um olhar onde não conseguia esconder uma crescente inquietação, "não quero que fique longe de mim em nenhum momento, é, não desejo passar-lhe nenhuma preocupação, mas, é melhor nos precaver-nos, parece haver algo de muito perigoso aqui Elvira, isso ou essa sensação não posso lhe esconder". "O que você viu lá embaixo", tornou Elvira em seu tom mais grave. "Não vi nada de mais Elvira, ouvi alguns relatos do senhor Bernardes foi só isso amanhã conversaremos nos três, por favor não se preocupe não quero passar a vós nenhuma sensação de desconforto nesse momento em que parece incorporar-se ao lugar em que nascestes tendes uma identificação grande com esse lugar sinto alegria por estar feliz muito embora não possa lhe esconder uma certa preocupação até descobrir tudo o que aconteceu aqui é isso querida". "O que pode haver de perigoso aqui Camilo", disse de modo lúcido e conclusivo. "Talvez a nossa simples presença, devemos ser cauteloso com tudo que nos rodeia a prudência quando mudamos é algo essencial modificações circunstanciais nos dão uma aparência calma tranquila de tudo que nos cerca, contudo não devemos nos esquecer que o homem como sucede com outros organismos estão sujeito a inibições, fixações, estados abúlicos e, em seu desejo de evitar perigos físicos, pode imitar os erros dos répteis revestidos de carapaça, em cada ângulo dessa casa Elvira parece haver um eco uma insurreição e os caracteres dessa individuação não me dão a certeza de ser algo bom". "Tendes alguma desconfiança do senhor Diogo Bernardes", disse Elvira como se o movimento das coisas fossem em torno de si mesma. "Porque não deveria ter, acabamos de o conhecer o fato de seus olhar assemelhar-se à sinceridade da senhora Berta não nos dá nenhuma certeza nem mesmo de o prejulgar, qualquer outro animal é um representante acabado de sua espécie, o homem, entretanto, fica sempre, sendo o animal inacabado, tal qual a lagarta chamada agrimensora". "Admiro em ti a prudência que lhe dá uma habilidade em penetrar a essência das coisas, mas, não posso negar-lhe que em meu mosaico de dados sensoriais e de lampejos de experiências individuais vejo sinceridade e indulgência nas explicações do senhor Diogo Bernardes". "Essa singularidade em conceber as situações é o equilíbrio necessário para estarmos sempre unidos, extremamente conscientes de si mesmo, te amo querida". Houve um silencio e nesse momento levantei-me fui até uma das janelas. "O que há Camilo", disse Elvira com o olhar centralizado na direção em que eu estava. "Você não ouviu, passos na varanda", disse voltando para a mesa. Antes que tivesse tempo para sentar-me novamente apareceu o senhor Diogo Bernardes. "Perdoe-me", disse ele, "Estivera dando algumas voltas ao redor da casa e antes de retirar-me para meus aposentos queria certificar-se que não precisam de mais nada". "Era o senhor então que estava na varanda", disse encarando-lhe com receptividade desconfiança. "Não precisamos de mais nada senhor Bernardes, fique a vontade". "Vendo-os sentados assim, ocupando o mesmo lugar que outrora pertenciam aos meus antigos patrões fico muito feliz, sinto que meu espírito reage a algo até então adormecido, era assim que fazia todas às vezes antes de retirar-me, desculpe-me se lhes causo estranheza". "De maneira alguma senhor, tenho conhecimento do que foi sua lealdade com os meus pais e, a confianças que lhes concebia", disse Elvira em sua linguagem onde fórmulas cortezes de tratamento era sua marca. "A propósito senhor Bernardes estamos a que distancia de São Bernardo do Campo", perguntei-lhe com discrição. "Quase seis léguas", respondeu com naturalidade. "E de São Paulo", indagou Elvira com entusiasmo. "De vinte a vinte duas léguas senhora", reiterou o senhor Bernardes. "Oh, que bom, estamos bem perto da corte Camilo". "Sim, em breve conheceremos o caminho que Anchieta fez". "Bem agora devo deixá-los, senhor, senhora tenham uma boa noite", e dizendo isso o senhor Bernardes saio pela mesma porta que havia entrado. "Será que estava nos escutando", disse Elvira, enquanto eu certificava-se que o senhor Bernardes já havia se retirado. "Não sei, por mais que eu tente reproduzir e desenvolver sua conduta acabo ficando com frações pequenas, mas a acumulação é o que constitui o progresso, logo teremos uma certeza de suas verdadeiras intenções, por ora não posso negar que tenha se mostrado discreto", aproximei-me do retrato que destacava a principal parede da sala, linhas traçadas com nitidez que se alongam de maneira uniforme a matéria sensível expressa na mais pura naturalidade, "É mesmo um belo retrato, sua mãe era muito bonita, seu pai deveria orgulhar-se dela, suas fisionomias parecem imitindo sons simples, a algo, qualquer coisa de agradável e atraente, a unidade apresenta-se como um acordo". "Sempre imaginava como seriam seus rostos, seus gestos, e sorrisos, olhando-os tenho e impressão que não há diferenças oposições e contradições, vejo-os como uma unidade harmoniosa, tendes a mesma impressão querido", dizia Elvira por um mais profundo sentimento. "Sim, mas parece haver uma particularização independente e diferenciação real, seu pai tem uma aparência tranquila, entretanto, seu olhar parece sombrio e distanciar-se da sua exterioridade, o que poderia ter feito aquilo". "Como", disse Elvira como se não tivesse ouvido as últimas palavras. "Quais foram às razões que levaram seus pais a virem para o Brasil, os momentos que antecederam a revolução muitas famílias fugiram de Paris, a tão falada fuga para varennes, arrastou muitos aristocratas para a Inglaterra e Suíça, temendo o medonho engenho que constantemente voava para o alto e desabava decepando-lhes a cabeça". "Você acredita que meus pais tiveram que fugir da França", disse Elvira tocando-me com a mão o peito. Suavemente pequei sua mão levei-a aos lábios e beijei-a, era como se nossa imaginação se fundisse em uma só direção. "É muito provável querida, mas não entendo por ter-lhes escolhido o Brasil, um país distante, assim que Luis XVI foi privado do seu direito de veto foram introduzidas leis que confiscavam as propriedades de todos os emigres, embora ainda não lhe impusessem a pena de morte, a revolução ia de encontro aos aristocratas como um leão faminto avista sua presa, quer sentir-lhes o sabor de seu sangue, muitos castelos foram incendiados outros saqueados os senhores feudais foram perseguidos como animais selvagens violentaram suas esposas e filhas, queimaram seus documentos e títulos destruíram suas propriedades, penso que seus pais tenham saído ou fugido da França antes desses acontecimentos, quando, porém, perceberam a "nova filosofia" que se aproximava e a realeza se deteriorando, o povo voltando-se contra seus opressores e não medindo os bons com os maus eram todos imputáveis à tirania dos grandes senhores, então, partiram para cá, mas porque aqui tão longe". "Deve haver alguém da família ainda vivendo na França, alguém que poderia nos dar informações da vinda de meus pais para cá, parece termos começado pelo meio, não era mais prudente de nossa parte que fossemos até lá saber tudo que aconteceu antes de virmos para cá". "Sim, concordo, cheguei a pensar sobre isso, mas não sei se encontraríamos alguém para nos dar informações, algo seguro é como te disse varias pessoas foram mortas, documentos queimados, nessas circunstancias aqui penso que podemos encontrar e descobrir mais informações eu particularmente acredito numa hipótese muito remota de eles terem sido perseguidos por fatos ocorridos na França, é uma conjuntura duvidosa mais verossimilhante, ou seja, não devemos descartá-la por completo, por ora Elvira, minhas observações se debruçam sobre o fato sem se apoiar em nenhuma ideia diretriz, se necessário for para descobrir a verdade iremos com certeza para a França". Elvira abraçou-me e pude sentir o calor de seu corpo como se penetrasse fundo na minha alma. "Vamos nos deitar agora o amanhã revela um dia cheio de novidades". Em consequência do toque da sineta acenderam-se as luzes no aposento continuo que agora refugia através da porta, subimos as escadas até nossos aposentos. O sol nascente as noites em alto mar as grandes ondas a chegada e a pousada e todo o caminho até aqui, deitado na cama rememorava trechos da nossa jornada até chegar aqui, Elvira diante do espelho soltava seus belos cabelos, virou-se aproximando da cama arregaçava as longas mangas de seda dos seus braços nus de admirável contorno e realce deslumbrante, mostrou então seus seios encantadores seus olhos azuis que enlanguesciam despendendo serenamente um brilho ás faces animadas da mais bela púrpura, misturada ao mais puro alvo adornado o nariz delicado como se fosse modelado pelo mais hábil escultor, deitou-se sobre mim entrelaçando seu corpo na mais ardente volúpia esfregava sobre meu corpo atiçando a virilidade que crescia a cada beijo um calor que me invadia até a medula dos ossos. Lá fora o silencio da noite pairava sobre a casa intercalando-se apenas pelo pio hipocondríaco da coruja no topo da torre.
Às oito horas descemos para o café. "Senhora Florinda sente-se conosco", disse Elvira sob o pretexto particular em implantar uma relação de amizade, "a senhora vive aqui á muito tempo". "Sim estamos aqui deste que a casa se ergueu", disse a senhora Florinda num sotaque paulista que era híbrido de brancos peninsulares, "logo que casamos viemos para cá, gosto muito daqui parece já fazer parte da nossa vida, depois que os patrões faleceram procurei conservar tudo da melhor maneira possível". "E a senhora tem conseguido", atribui Elvira com lisura. A conversa seguia animadamente, a senhora Florinda mostrava-se em todas suas palavras e gestos uma constância pela harmonização do seu temperamento, dos seus anseios, das suas tendências de gente inquieta até mesmo com a personalidade ou configuração do bandeirante esse conjunto de normas sociais e de cultura estabelecido era ainda mais acentuado no senhor Diogo Bernardes, ou seja, espíritos ou deuses regionais que os antigos identificavam com certos sítios ou regiões. "Sinto-me feliz em servi-los, a casa parece ter adquirido uma nova vida, hoje tudo parece estar diferente até os pássaros parecem cantar com mais jubilo". "Fico-lhe muito grata pela vossa simpatia", disse Elvira na mais pura identificação de amizade. Enquanto Elvira conversava com a senhora Florinda eu analisava um levantamento topográfico da Vila e rio de Santo Amaro em uma das extremidades do mapa vê-se as ruínas da fabrica seiscentista de ferro. "Bom dia senhor senhora, espero que tenham passado bem à noite", disse o senhor Diogo Bernardes entrando na sala, trazia com ele um envelope e três cartuchos cilíndricos. "Bom dia senhor", respondi com simpatia. "Bom dia senhor", disse também Elvira com sua expressão cordial. "Por favor, sente-se senhor", disse-lhe mostrando o lugar na mesa. "Estes documentos e esses cartuchos estavam guardados com muito cuidado", começou o senhor Diogo Bernardes colocando os objetos sobre a mesa, "Tal com os encontrei aqui os tão", em seguida o senhor Bernardes abriu os cartuchos e espalhou sobre a mesa dezenas de moedas de ouro uma meia dúzia de diamantes, "Esses documentos não pude entender muito bem por estarem escrito em língua francesa", continuou o senhor Bernardes entregando-me os papeis. Eram títulos outorgados por súditos do próprio rei Luis VXI, incluía várias propriedades em Paris e um castelo no sul da França, li-os com um olhar absorto entreguei-lhes a Elvira. Correspondente a nossa absorção de tudo aquilo que se abria para nossos olhos o senhor Bernardes permaneceu em silencio observando. "Por favor, senhor continue", disse percebendo claramente como a importância do sentimento é característica essencial da existência humana. "Eis o que posso relatar alinhando o melhor que possa minha recordação", começou senhor Diogo Bernardes, "Naquela época em que começa o relato dessa casa eu morava numa casa aqui perto, trabalhava como horticultor de uma família muito simples, numa tarde em que o crepúsculo já se aproximava e o clarão dourado do sol se esgueirava por entre as nuvens na primeira semana de dezembro creio que no sexto dia do ano de 1795, eu caminhava ao longo dessa estrada que margeia a representa, essa mesma que os trouxe até aqui, a cerca de meia hora de distancia de minha casa, quando um coche veio por detrás de mim e parou um pouco mais a frente, não conhecendo ninguém que tivesse uma coche por aqui, desvie-me dele e quando comecei a se afastar uma cabeça assomou a janela e chamou-me, respondi voltando-se em sua direção, o coche se encontrava pouco a frente de mim dera tempo de um cavalheiro descer antes que eu chegasse até eles, notei ser um homem muito bem vestido, usava sapatos finos sobre o colete branco ondulava a fita negra de suas lunetas, a casaca de cor de damasco se recomendava pelo talhe e pela forma de um estrangeiro, aproximou-se de mim, olhando-me com curiosidade. "O senhor mora por aqui", disse com um sotaque que reconheci logo se tratar de um francês. "Sim um pouco mais adiante senhor", respondi apontando para a estrada que seguia, "Posso ajudá-lo". "Pode ajudar-me muito se assim o senhor desejar", declarou com distinção, "Estou construindo uma casa aqui perto e preciso de gente para trabalhar estou disposto a pagar bem". Suas palavras generosas havia uma certa mistura de agudeza e rigor. "Cavalheiro", disse, "perdoe-me, mas será meu auxilio por úteis que sejam amoldar a ordem à constância e outras qualidades que lhe apetecem". "Qual é o trabalho que o senhor está acostumado". "Todo aquele que me é confiado, honesto e esteja em tendência natural com minha capacidade, embora não posso negar que minha especialidade seja lidar com plantas e jardins". "É de uma pessoa como o senhor que eu preciso, venha comigo", e ao disser assim, mostrou-me a entrada do coche. Apesar de imperativo o cavalheiro parecia ser sincero e suas palavras exprimiam exatamente suas necessidades, sem excitar entrei no coche. "Vamos", ordenou o cavalheiro, o coche virou-se rapidamente e tomamos a direção leste, "Meu nome é Gilles Launay", disse com gravidade. "Diogo Bernardes", respondi dando-lhe a mão. Quando chegamos no local em que ia ser construída a casa já estava anoitecendo, a mata estava sendo derrubada, era um mato fechado havia apenas uma aberta ocupada por três palhoças, os escravos estavam desmatando o lote em que se levantaria a casa, enquanto o cavalheiro que me trouxera até ali conversava com o feitor fiquei observando como formas da paisagens era modificada pela presença humana, não demorou muito e o feitor veio a meu encontro, era um homem barbudo com um olhar de desdém chegando bem Berto de mim, olhou-me por um instante como se estivesse farejando, "Senhor Diogo Bernardes", disse num tom nada encorajador. "Sim", respondi. "Acompanhe-me", declarou, virou-se e começou a caminhar eu o segui com passos impávidos, "O marquês disse que o senhor é jardineiro", naquele momento que fiquei sabendo que o nobre cavalheiro se tratava de um marques, "O senhor vai ter um jardim de muitos espinhos por aqui semeados de cobras venenosas", e desatou no riso sarcástico, "O senhor terá o encargo da derrubada das árvores e roçada que consiste na eliminação de toda a vegetação ao alcance da foice para facilitar a movimentação no interior da mata, não há talvez exagero em supor-se que nesse terreno a ação humana para salvar-se da morte não fique unicamente com aplicações de urina e fumo, além das inevitáveis sangraduras, a semana passada um negro forte foi atacado não sabemos ainda bem ao certo o que fora, achamos com a boca, nariz e feridas cheios de bichos, mas vendo que lhe palpitava ainda o coração e que tinha outros mais sinais de vida, o recolhemos na rancharia, curando-lhe as feridas com urina e fumo, e sangrando-o com a ponta de uma faca, estou-lhe dizendo isso senhor para ficar atento a qualquer moléstia ou malefício, que por aqui qualquer um de nos estamos sujeitos". Paramos bem ao centro da aberta como já começava a escurecer os escravos voltavam para os palhoças. No outro dia antes de nascer o sol eu já estava de volta. Um cheiro de comida vinha de dentro das palhoças um fogão de forquilha e um trempe se dava a cozer o abará e o caruru as ordens do marquês era que os negros fossem nutridos com feijão e toucinho, com milho ou angu, com pirão de mandioca, com inhame e até arroz, alimentados três vezes ao dia e que descansasse pelos menos uma hora, assim se destacavam num vigor de ação e produção acima do esperado. O feitor mostrou-me o mapa, o desenho com o traçado de toda a propriedade os locais onde seriam aberto os diversos caminhos e construções, canais, canteiros nada de senzala apenas mucambos, jardins tudo de uma rigidez que conservasse a tradição francesa, o engenheiro um francês de nome L.L. Vauthier que o próprio marquês mandara buscar em Recife, varias plantas eram cultivadas para o plantio decorativo. "A principio", dizia o feitor, "pensei que o marquês fosse construir um sobrado nobre desses que nós vemos em São Paulo no Rio, mas, a residência é diferente de tudo que conhecemos por aqui". Então rapidamente fui tomando minha posição uma guarnição de escravos fora designada à minha disposição, trabalhávamos do amanhecer ao entardecer, seguindo apenas os intervalos da alimentação num serviço árduo e bruto. Os dias iam-se passando e pouco a pouco o terreno da mata ia dando lugar às formas desejadas da construção, o sol forte de fevereiro sobrepujava-se nas clareiras, as madeiras de lei eram cuidadosamente reunidas nos carreiros para serem usadas na forração da casa, monseigneur marquês, era assim que o engenheiro se dirigia a aquele homem muito bem vestido que pelo menos uma vez por semana vinha ver o andamento das obras, olhava tudo cuidadosamente cada detalhe, o aterro que se formava, cada árvore derrubada não admitia que tirassem mais que o necessário da mata, andava por todos os lados seguindo as trilhas já abertas e as que deveriam ser as que dariam frente para a grande torre, qualquer duvida em relação ao mato e o tipo de planta sempre me chamava, conversávamos sobre as condições topográficas e do solo que segundo ele aqui no Brasil eram muito diversificadas, monseigneur marquês além de um profundo conhecedor de urbanização era um naturalista tinha um espírito abertamente voltado para a natureza e a fauna que julgava ser a do Brasil uma das mais rica do mundo, falava com todos num mesmo tom tinha um dom de persuadir mais do que designar, entretanto, sua fisionomia não lhe prenunciava sua alma por inteiro havia em sua virtude um excesso de energia que era de uma têmpera explosiva, o que se dava a perceber bem no fundo de seus olhos alguns vestígios de perversidade cuja ordem e justeza de seu raciocínio advertia e ameaçavam de longe, contudo, era justo com os empregados dando a cada um o que lhe era devido. Foram quase dezoito meses de trabalho ininterruptos interrompido apenas pelo mau tempo, as chuvas de verão fortes persistiam por vários dias e quando cessava trabalhávamos a finco, assim, no final do mês de novembro cobrimos a casa com as melhores telhas de São Paulo, concluímos os trabalho, ficava admirar tudo aquilo que ajudará a construir no decorrer de longos meses de trabalho, a imponente casa surgia então de brumoso entardecer, a grande torre elevava-se de entre as árvores como um gigante ameaçador, olhando, espreitando, advertindo quem ousassem penetrar em seus domínios. Durante as semanas que se seguiram varias carroças carregadas de móveis e outros objetos da casa subiram de Santos, só no dia da inauguração da casa é que vi a marquesa Taíza, tratava-se de uma dama de grande beleza, muito educada e uma bondade que lhe realçava ainda mais o semblante. Nesse dia ouve uma grande festa, estavam presentes um senhor estadista com o nome de José Bonifácio, visconde de Castro, marquês de Santo Amaro e muitos outros nobres altos funcionários e oficiais da corte portuguesa o suntuoso jantar fora servido as vinte e uma horas, naquela ocasião eu caminhava na frente da casa, fazia uma noite quente, monsieur marquês recomendará para que eu ficasse por perto, as janelas abertas dava-se a ver o grande divertimento dos convidados que dançavam ao som de uma banda que viera de São Paulo, composta de dez figuras, uma trombeta, um trombone, clarinetes, fagotes, violinos e excelentes cantores, a marquesa Taíza e o marquês dançavam com muita animação, a sonância das notas mais a soltura dos corpos sobrelevava-se com ademanes vista à exaltação que vinha a somar à volúpia. Fora da casa o som mágico da musica misturava-se à quietude da noite ao compasso de um vento brando que envolvia a mata, havia uma brisa precursora de aprazimento que fazia manifesto a verdadeira natureza da realidade.
Alguns dias depois visto não considerar perpétua minha permanência por aqui, muito embora não houvesse qualquer manifesto por parte dos patrões para pensar que fossem me dispensar, resolvi perguntar ao marquês se continuaria aqui lhe prestando serviço, monsieur marquês estava andando numa manhã por volta da casa com as mãos para trás como era de seu costume, observava com atenção as variedades de gérberas e violetas que começavam a desabrochar junto a uma aléia de azaléias rosas por toda extensão da casa uma nevoa opaca se dissipava ao sol, fui me aproximando dele. "Deseja falar-me", disse monsieur marquês como se tivesse um sexto sentido, sem tirar sua atenção das flores que mais pareciam elucidá-lo sobre a clareza de minhas intenções. "Sim monseigneur", respondi. "Pois fale", disse o marquês olhando para mim com gravidade. "Senhor permite-me perguntar-lhe se desejas que eu continue aqui a trabalhar ou se estou dispensado visto ás obras já se terem acabado eu...", não tive tempo de concluir o marquês fez um gesto com a mão e eu permaneci tácito.
"Não o senhor não está dispensado", disse adquirindo uma expressão que conduzia a clareza de minhas intenções, "É agora senhor Diogo Bernardes que começa realmente o trabalho, ao menos que não seja de vossa vontade continuar aqui". "Desejo sim senhor continuar trabalhando aqui e lhe retribuindo a confiança que vós tendes me demonstrado". "Pois então de hoje em diante o senhor cuidará da criadagem os serviços da casa do jardim que preparastes tão bem e toda a propriedade, entrego-lhe aos seus cuidados e seu salário será dobrado, o senhor está de acordo", monsieur marquês posou a mão em meu ombro e em enquanto andávamos ia dizendo como tudo deveria ser feito produzia frases que me davam a escolha de refutar ou não seus juízos indicavam uma certeza do que predica ou não um objeto percebia que em suas perguntas o algo pertencia ou não ao conceito correspondente sondava o conhecimento com uma habilidade profunda, formulava conselhos e não ordens imperiosas, em que conheci percebia pelo menos partes da intenção de seus pensamentos muito embora era evidente descobrir o orgulho em seus olhos, dizia-me; que quando começou sentir as admoestações que germinavam na França estava chegando sua hora, numa noite quente ao retornar ao castelo encontrou-o em chamas seu irmão mais novo lutava contra uma insurgência de desafortunados com a espada em punho investiu sobre aqueles homens que mais pareciam abutres famintos seu irmão por mais destro que fosse com a espada não pode evitar que um golpe lhe atingisse o peito e, com coragem, conseguiu ainda lutar, mas a morte aproximava-se a passos rápidos, quando caiu por terra ainda lhe gravaram mais de uma dezena de golpes, nesse momento enquanto eu lutava ferozmente algo pesado me atingiu a cabeça fazendo que eu perdesse os sentidos, quando acordei estava numa sege com minha esposa e um sobrinho indo para Inglaterra, de lá viemos para cá, visto não ser prudente voltarmos para Paris. Esse era um dos motivos de ter vindo para o Brasil, à escolha de um lugar tranquilo as saudades e a felicidade e seus deveres com o rei da França era contra a revolução que se aproximava, pois justificara que essa lhe tiraria a alma da França e isso parece que o pensava de verdade por quanto o repetiu mais de uma vez sempre dizia que um dia voltaria não demoraria muito. Paramos na parte de trás da casa tínhamos uma vista de todo o espaço em que se levantara, imergia como uma visão imprescindível para unificar as prerrogativas dos que tem o poder. "Veja o que construímos", disse o marquês contemplativo, "É uma construção modesta comparada às que vi meu pai edificar, tenho saudades da vida no castelo as caçadas meu pai plantando árvores frutíferas, possuidor de terras símbolos de poder e nobreza dizia: a recompensa a uma nobre ação está em ter realizado, o fruto do trabalho é o próprio fruto, É meu pai onde é que o senhor esteja aqui estou num país distante mais trago comigo seus ensinamentos as mais belas recordações dos mais belos dias e os símbolos exteriores do nosso sangue jamais se apagara". Suas palavras tiradas do mais profundo sentimento misturavam-se ao vento ali, onde aspirava viver numa ínfima parte do grande todo, onde às perseguições e os desencantos não lhe tirará a fé na vida. Numa fria manhã de julho nasceu o primeiro bebê o primogênito de uma família que estavam longe de sua terra, naquele dia estava ocupado com a jardinagem quando percebi a inquietação das mucamas entrando e saindo da casa, "O que está acontecer", perguntei a uma delas, "Nasceu, nasceu um menino, sinhá teve um meninão". Naquele momento através das árvores descendo por um atalho surgiu um homem que o marquês havia trazido de um engenho de ferro de Santo Amaro nós o conhecíamos por Mongongó, era um homem forte conhecia a palmo toda essa região tinha uma habilidade em construir canoas, monsieur marquês pedira-me para o manter aqui era mulato com a cabeça relativamente grande, testa bem inclinada para trás, as órbitas e as aberturas do nariz largas o maxilar superior maciço e pareciam estar sempre inchados em vista do grande seio facial andava sempre com a cabeça projetada para baixo, queixo arredondado também maciço e nada saliente, um homem que ostentava uma grosseira aparência com o corpo atarracado e os membros pesados, andava meio curvado e ademais, trazia consigo dois defeitos, não ouvia nem falava sua estatura não deveria ir muito além um metro e sessenta, mas, era uma criatura dotada de grande força, trabalhador obediente disciplinado para o que precisasse dele, um homem que não se devia julgar por sua aparência sua alma parecia própria e adequada as suas funções seu estado de espírito era imutável sempre tranquilo calmo mas pronto, um homem raro, porque seu espírito não se alterava com qualquer que fosse as dificuldades não fixava em coisa alguma que não fosse seu trabalho, nem ele nem ninguém sabia explicar de onde viera, um velho índio que encontrei um dia o único que parece o ter conhecido melhor disse-me que ele trabalhara muitos anos nas minas de ferro próximas a vila de Santo Amaro, era filho das grandes águas irmão da mata, desde crianças vivia nas matas e serras alimentando-se de ervas e palmito aqui na casa eu era a pessoa que mais o compreendia, ao passar por mim olhou-me com seu modo unânime trazia um machado e uma pelota de cipó verde. No terceiro dia após o nascimento o menino fora levado a São Paulo para ser batizado, o coche saiu sedo e só retorno no final da tarde do dia seguinte, minhas ideias parece nunca ter sido tão esclarecidas que revelassem porque o homem ao penetrar as razões insondáveis de suas obras reconhecendo que a felicidade e a desgraça da divindade caminham lado a lado mostrando suas duplas faces que ora no faz rir, ora no faz chorar, jogando-nos num poço e que pouco a pouco a luz vai se extinguindo sem poder esperarmos o que encontraremos no fundo dos acontecimentos, à primeira vista, a impressão que tenho é que a infelicidade espreita a felicidade e esta por último dura muito pouco não sendo dotada de uma força suficiente para combater a primeira que mais sagaz estala-se facilmente na natureza humana, assim, penso, que ao outorgarmos que a felicidade se estale em nós devemos esperar com ponderação que a desgraça não nos arranque os alicerces. Pois, então, o nascimento da criança veio alegrar ainda mais a vida conjugal, avivando também os quartos corredores e salas da casa que até então se mostravam melancólicos, o marquês vez vir da Europa uma institutrice e, o menino era acordado todas as manhãs ao som de uma harpa para que seus ouvidos se tornassem refinados e das nove horas até as dez era levado para tomar sol, enfim, cercado de todos os cuidados o menino Michel ia levando uma infância incerta de sujeição rigorosa sem austeridade nem lágrimas, assim foi até os três anos, o menino como quase todos os garotos de sua idade era dotado de uma atividade que adjunto com uma esperteza perspicaz implicava numa vigilância cuidadosa para os serviçais que foram incumbidos de sua custódia, adorava quando levavam-no para banhar-se na represa, a marquesa determinava o tempo para ele permanecer na água, e, quando excedia o tempo e, anunciavam-lhe que era chegada à hora de voltar, insistentemente recusa com relutância que por conseguinte causava um certo embaraço nos serviçais, ele gostava tanto de brincar na água que esse elemento parece ter-se estalado em seu consciente, congênito com a vontade pueril de uma criança que começa a descobrir os divertimentos que o cerca, naquele dia os patrões haviam saído cedo para São Paulo, o pequeno Michel tinha ficado, visto os longos percursos causar-lhe enjôos, nas primeiras horas daquela ensolarada manhã estava ajudando o Mongongó a instalar um jirau ao pé de um jatobá, fazia a amarração com cipó maduro enquanto que o Mongongó começava a trabalhar com a espátula à casca do jatobá num serviço de cunha, ele seria capaz de fazer todo o serviço sem ajuda de ninguém se não fosse sua falta de audição, esbarrava-se nesse ponto, mostrava-me com gestos onde deveria bater na casca e o som dava-se a perceber que já estava solta, era notável a destreza daquele homem em transformar a casca de uma árvore em uma canoa, fazia o acabamento nas bordas com todo o cuidado tirando toda a camada de cortiça depois, atava fogo para amolecer as fibras que restavam, à medida que as fibras iam amolecendo colocava os tarugos para estivar, quando terminamos ajudei-o a levá-la para a represa, deixei-o no pontilhão preparando os remos e fui terminar um serviço perto da casa. Era umas três da tarde, eu estava roçando umas trilhas nas partes altas da propriedade, chamo partes altas onde fica a torre e partes baixas onde se encontra a represa, quando avistei uma escrava que habitualmente olhava o pequeno Michel, vinha correndo através da vereda que enleava a trilha, assustada como se tivesse visto alguma coisa que não fosse deste mundo, enquanto corria gritava meu nome, "O que ouve mulher", disse, "Parece ter visto o próprio diabo", "Não senhor, ainda não o vi, mas, receio o ver em breve, senhor uma desgraça, senhor venha logo, o filho do marquês caiu na represa, venha logo senhor por favor", pronunciava apavorada. "O que está a me dizer", disse com espanto. "Venha senhor o menino se afogou, oh, meu Deus...venha logo senhor no pontilhão". Desci correndo mais que podia e as palavras em meus sentidos se afogou ecoavam como um eco nefasto, mais ainda me consolava uma ideia que aquela mulher assumia uma atitude precipitada e o menino poderia estar apenas desacordado, mas, quando cheguei ao pontilhão e encontrei os servos da casa envolta do corpo do menino e vendo seus semblantes desolados, foi como se estivesse sido minha esperança atingida por um golpe desvalido prostrei-me junto ao pequeno corpo reuni minhas mão eu seu peito massageando, seus lábios já arroxeados, assombrei ar em sua boca uma duas vezes, desafeiçoado não reagia, insistia com frenesi, balançando seu corpo já sem vida, "Meu Deus o menino esta morto", disse segurando-o nos braços, naquele momento uma nuvem escura sobrepujou o sol, deitei seu corpo sobre um pano escarlate suas faces adquiriam o tom arroxeado da morte, num dos lados de seu pequeno rosto havia um sinal, consequentemente de uma pancada, "Meu Deus o que foi acontecer", disse sentindo um calafrio por todo o corpo, meus olhos se voltaram para onde estava o Mongongó, contorcia-se numa cólera convulsiva, fazia som e gestos como eu nunca havia visto antes, Deus que me perdoe mas parecia que estava se transformando em algum tipo de animal uma angustia parecia consumir sua alma. O que ocorrera fora uma fatalidade, neste dia, Rafaela a institutrice não se encontrava na casa, a serviçal de maior confiança da marquesa fora incumbida da guarda do pequeno Michel, o menino dormia tranquilamente em seu quarto ao retornar para dar-lhe o leite da tarde percebeu que o menino não estava na cama e muito menos no quarto, assustada, confusa, foi para os outros aposentos do andar superior e não o tendo encontrado desceu para os outros aposentos, chamando por seu nome e virando-se de um lado para outro com profunda perplexidade, até que, ao sair para fora da casa, notou sobre a grama, reconheceu imediatamente seu corro de dormir a posição e a direção que estava supôs ela que ele tomara o caminho da represa, "Michel, Michel, meu Deus...", assim, desesperada desceu pelo caminho ao alcançar o passadiço que atravessa por baixo da estrada, percebeu que o portão que se mantinha sempre fechado estava estreitamente aberto, emergindo do outro lado e excedendo-se de entre as árvores, avistou, naquele instante o menino que andava sobre o tablado aproximando-se da borda do pontilhão, "Michel...Michel", gritava desesperada, sentado a beira do pontilhão aprimorando os remos da canoa estava Mongongó, de costas para o menino que avançava, a serviçal gritava, gritava em quanto descia em sua direção, mas, era inútil, pois, ele não ouvia, assim, naquele exato momento em que o menino abeirava o pontilhão, Mongongó levantou-se e, num movimento brusco, virou-se com um dos remos na mão, enquanto que o menino do lado oposto, foi atingido em cheio caindo na água, Mongongó não percebeu absolutamente nada com a queda do menino, permaneceu assim, de costa até abranger com o olhar a mulher em brandos desesperada, apontando para o local onde o menino havia caído, Mongongó era um sujeito falho de audição mas era-lhe perfeitamente compreensível os gestos e sinais de boca de quem lhe falava, assim, sem entender bem ao certo o que havia ocorrido, deduziu pelo menos o que a mulher expressava e num instante pulou na água mergulhando das águas escuras e profunda emergiu um ou duas vezes sem resultado na terceira tentativa parece ter desaparecido uma expectativa assustadora as águas se tornaram silenciosas já era quase dado por certo que também se afogara até que começou a surgir empolas do fundo e, pouco a pouco sua imagem foi surgindo do fundo trazia consigo o corpo do menino seu corpo ao afundar ficara preso em algum calho devera ter engolido muita água e seus pulmões pequenos não resistira. Aquela cena dava-me uma obscuridade de fato era penosa tanto para o espírito como para os olhos temia profundamente o efeito que aquilo produziria em um homem como o marquês, sua mãe. À tarde, quando os patrões retornaram, ah meu Deus que momento difícil em dar-lhe a noticia que circunstancia dura para eles recebê-la como lhes informar que situação, reuni todos os empregados na sala só o Mongongó, este desde á hora do acidente não abandonara o pontilhão, permanecia lá parado olhando para água com o espírito abstruso à alma amofinada. Quando os patrões entraram na sala depararam com a esfera de ambiguidade que nos cercava. "O que está acontecendo aqui", perguntou o marquês num tom grave. "Senhor desejo falar-lhe", disse eu adiantando-se, "Por favor, senhor, acompanhe-me até lá fora". "Mas o que há?", inquiriu a marquesa olhando com estranheza para todos nós e, percebeu uma coisa terrível em nossos olhos, "Onde está Michel, trago-lhe uma surpresa"? Fora da casa o marquês segurando em meus braços, "O que esta me dizendo, o que esta me dizendo", e empurrou-me para o chão. De dentro da casa veio um lamentoso brado da marquesa que havia descoberto o corpo do menino. As horas que se seguiram foram as piores que passei em minha vida, eram como se um mal nos tivesse atingido e seus fragmentos nos aniquilavam de diversas formas o castigo a vingança são os piores desejos de um ser humano, os brados e lamentos da marquesa pareciam propagar-se tornando tudo aquilo mais assustador até suas expressões perderem o sentido e caiu desfalecida, tomado de ódio e uma revoltada conturbadora monsigneur marquês arrastou furiosamente a criada para fora da casa levando-a para parte posterior da casa, amarrou-a em uma árvore e surrou a pobre coitada impiedosamente, à medida que chicoteava a criada vociferava para que lhe trouxessem o Mongongó, era uma cena triste demais para vivenciá-la e nada poder fazer o semblante do marquês expressava-se sob o poder do demônio que o sujeitava, atordoado pela angustia experimentada chicoteava sem interrupção até que os gemidos da criada foram-se esvaecendo até diminuir no último vergar. As lâmpadas parecem ter dupla face os homens duplo corpo e rosto a conduta do marquês mostrou-me que a circunstancia de um incidente inopinado pode causar, alguns de seus atos foram extraordinários talvez nunca vistos. Estava na frente da casa quando vi passar o Mongongó, cativo, permanecia como sempre era silencioso, olhar voltado para o chão como se procurasse uma explicação para tudo o que estava acontecendo, seguia para onde estava o marquês, segui também naquela direção, sentia uma angústia por não poder fazer nada, incapaz de proferir uma só palavra seria atingido com o castigo até que o derrubasse para sempre, quando chegaram enfrente onde a criada estava sendo castigada e vendo logo a desgraça que causara a pobre mulher num gesto de frenesi pôs-se a golpear a própria cabeça com extrema aflição, seus gestos fez frear instantaneamente a exasperação do senhor que ao ver o causador de todo aquele mal se voltou ofegante em sua direção os olhos tomados de um brilho demoníaco e a faces recortava viva e musculosa à luz dourada do crepúsculo, subitamente o empurrou segurando-lhe os tornozelos com uma das mãos fazendo-o assim cair para trás, no chão aplicou-lhe dois golpes de vergastas e um chute na barriga ficou imóvel o que parece ter irritado mais ainda o marquês que em seguida chutou-lhe violentamente o rosto, o primeiro golpe pegou meio de raspão pois fora mal calculado mas o segundo acertou-lhe em cima do rosto e ouviu-se o crac sinistro de um osso que se quebra, Mongongó rolou para o lado permanecendo ainda imóvel sem imitir um único som em quanto que o marquês desferi-lhe ainda mais uns três chutes no ventre a escuridão também silenciosa nos envolvia e dava o perceber uma imagem de nossa frágil mortalidade. "Jogue esse infeliz na enxovia", bradou o marquês. O raio de luz de um archote descreveu o corpo retraído e achou o rosto quebrado do Mongongó. A quietude daquela noite sombria era quebrada apenas pelo som assustador das vergastas que atingia a infeliz criada, foi assim por toda a madrugada, condenada por um homem enfurecido que se dividia num encadeamento entre a vigília do corpo do filho e os impulsos de extrema consternação em açoitá-la, até que não percebera em um desses intervalos que açoitava um corpo já sem vida.
A aurora já começava a tingir o horizonte com seu manto flamejante quando eu aproximei-me da casa, ó meu Deus que noite triste! O marquês muito abatido não sai de perto do corpo do filho, seu olhar paralisado de uma profunda compaixão parecia tentar entender a causalidade da vida, mas em alguns momentos seu olhar assumia um brilho de ódio, virava-se como se soubesse onde estava o causador daquela desgraça, respirava profundamente passando as mãos pelo rosto. A marquesa mantinha-se imóvel um torpor tomava-lhe todos seus membros, nada parecia conservar do que fora a não ser a beleza. À tarde, sob um chuvisco e uma nevoa fria que emanava das partes mais lúgubres do bosque, o pequeno Michel foi sepultado. Além dos pais, estavam presentes todos os empregados da casa e alguns vizinhos, todos envoltos em meditações diante do derradeiro leito. A marquesa como um lírio cuja haste quebrara-se num jardim, curva-se para a terra que era jogada sob o caixão, suas lagrimas pareciam ter se esgotado pendeu sobre o ombro do marido, "meu filho", exclamou com uma dor incrivelmente grande, o marquês a segurava como se sua cabeça estivesse se tornando muito pesada para o pescoço, enquanto olhava a terra sendo jogada sob a cova sua expressão se tornara de uma desumanidade assustadora, parecia alterar-lhe a forma e o conteúdo e os fins de sua vida a capacidade de criar e unificar os órgãos necessários à sua expressão era impossível de explicar. Na quietude da noite que se seguiu ao enterro, estava em casa sentado na cadeira, ora meditava cheio de tristeza pela morte do menino, ora conjeturava sobre o destino do Mongongó, tudo parecia unir-se numa visão única, até meus sentidos se esvair, e dormi tão profundamente e despertando quando a manhã já se transformara em novo dia. Sai caminhando na direção da enxovia, o pobre homem jogado á dois dias sem água e comida, onde olhava via um aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida. Diante das circunstancias pensava se realmente somos de natureza boa ou estamos contrabalançados pelo inato desejo de fazer o mal aos outros o livre-arbítrio do homem civilizado é muita vezes injusto, o sentimento muitas das vezes nos surpreende. Quando me avultei do azinhaga, deparei-me com o marquês montado em seu lesto cavalo branco, mantinha-se de costa para a porta da enxovia, "Vamos logo com isso", branda o marquês inquieto, o cavalo agitava-se com o desafiar de seu dominador, com duas cordas estribou uma de cada lado da sela enquanto que um dos criados levou suas extremidades até o fundo da enxovia, o marquês sendo destro cavalheiro fazia o animal afastar-se com movimentos precisos, á até a corda alcançar o fundo. "Pronto senhor", disse um dos criados voltando correndo. Soltou a brinda, fez-se a corda esticar e, subitamente, num arranco partiu, tirando do fundo da enxovia o corpo do Mongongó, que mais parecia um despojo, amarrado pelas pernas e as mãos para trás, foi-se em disparada na direção da torre.
"Meu Deus", disse comovido com aquela cena, "para onde o marquês vai levá-lo".
"Não sei senhor", respondeu o criado assustado", "disse para esperarmos na torre", e saíram correndo atrás das riscas que se formaram pelo caminho. Fui subindo na direção da torre, quando ouvi o galope que vinha por atrás, saltei fora da vereda ocultando-me numa moita de bambus e, vi o marquês passar fustigando o cavalo que arrastava um corpo estirado pelo caminho, espojando-lhe até a alma, deu ainda duas voltas pela charneca até parar diante da torre.O pobre homem foi raspado, escarduçado até parecer um carneiro, o marquês enfurecido com as faces esfogueadas sua respiração ofegante ainda açoito-lhe até perceber um torpor em todos os membros; ai então o arrastarão até o portão da torre, e num aquinhoamento levarão escada acima, de onde eu estava podia ver através dos orifícios da torre o corpo sendo puxado pelas pernas. O castigo que o marquês impôs ao pobre homem nos deixa claro como na lei de natureza cada homem é seu próprio juiz, acusado apenas por sua própria consciência e desculpado pelos motivos de suas próprias intenções, portando cada um pode proteger-se com seu próprio poder, penduro-o no topo da torre do lado oeste, fazendo assim visível para todos ver as aves do céu comer-lhe a carne, ficou preso por duas correntes vinculadas aos braços que se mantinham estirados, era uma visão terrível ver aquele corpo suspenso no ar. A noite chegou sinistra e sussurrante na obscuridade do bosque uma canção triste era intercalada pelos animais noturnos, olhos faiscantes cortavam as trevas o sibilar de advertência de uma serpente encafuada entre as azaleias ambígua sons mafiosos que o vento produzia por entre as gramíneas de bambus que se curvavam com indignação, e vindo de mais longe o lamentoso uivar de um lobo que ecoou na mais desolada solidão como se comunicasse suas lamurias as rudes e inanimadas partes da natureza. Na casa reinava o mais absoluto silencio, as sombras das sólidas paredes adejavam misturando-se com o negrume da noite, eu me encontrava demasiado inquieto para dormir os acontecimentos do dia parecia uma esfera onde eu girava instalado tentando entender as designações possíveis e pensando suas condições, andava em círculos em volta da casa, até parar encostando-me na extremidade da pequena ponte de pedra que atravessa um sulco de águas transitórias, dali podia avistara a janela do quarto dos patrões com os postigos aberto à noite estava demasiada quente para o mês de setembro, as luz do aposento escoava através das cortinas, tão estranha parecia aquela luz misturando-se com a escuridão da noite como se algo sinistro irradiasse de seus domínios. Refletia se não seria melhor ir embora, parecia que num único dia encontrei tanto mal e tanta crueldade não sei se me sentiria como antes, o homem é de fato o mais cruel dos animais, a vida não vale nada, ou seria melhor eu dizer "eu não valho nada"! Apesar de tudo, seria um covarde ir embora, dar as costas a tudo um homem sensato não faria isso, nada de enfraquecimento tinha que estar acima do bem e do mal; permaneci ali até perceber a luz do quarto apagar-se extinguir-se, e sob a atmosfera lúgubre no mesmo instante como que ligado por uma força sub-humana, ouvi um lamentoso som que se propagou até onde minha vista podia alcançar, estendi o olhar para a direção que julgava vir àquilo, mas, nada me dava uma definição, em seguida começou intercalar-se com guinchos estridentes, por um instante e não mais se fazia uma pausa, e voltava com mais intensidade como se viesse das sombras infernais, fui subindo pelo caminho que vai até a charneca e enquanto caminhava o estranho som repetia-se na mesma regularidade pavoroso, na superfície plana onde fica a charneca pude certificar que aquele bramir vinha do alto da torre, fato que me encheu mais de terror do que admiração, pois, minha imaginação entregue a conjetura fazia um esforço em acreditar, sabia, pelo menos supunha que o Mongongô havia sido trancado lá em cima e que já tivesse morrido á horas e, como poderia ademais proceder aquele som de um criatura do qual eu nunca havia sequer ouvido um espirro, o que haveria de ser aquilo,em alguns momentos o bramir medonho parecia comunicar-se com a melancólica canção que vinha das profundezas do bosque. Na manhã seguinte, enquanto caminha para meus afazeres no jardim deparei-me com o marquês aproximando-se em minha direção acompanhado de um servo, pela pressa em que andava e pela sua expressão grave logo percebi que algo de errado havia acontecido.
"Venha conosco senhor Diogo", disse ele terminante. "O que houve", disse em tom baixo para o servo que ia ao meu lado, "O Mongongó desapareceu do topo da torre", respondeu-me embaraçoso. Quando alcançamos a charneca e já se faz visível o cimo da torre, o servo apontou para o alto, "Veja senhor, veja ele não está mais lá", dizia isso e persignava-se ao mesmo tempo. O marquês olhou perplexo para o alto onde avistou apenas as correntes estendidas. "Mas como o maldito pode ter escapado", indagou o marquês, "vamos até lá".
Mais surpreso ficamos ao chegar ao portão que dá aceso as escadas da torre, estava devidamente tragado como o próprio marquês o havia deixado no dia anterior, não havia sinais que o portão fora aberto, olhamos por todos os ângulos, o marquês sacou a espada e subiu correndo para o alto. Quando cheguei ao topo da torre encontrei o marquês atônito olhando as grilhetas descerradas, dobradas como se o aço tivesse cedido a uma força sub-humana e, para nosso maior espanto por onde havia saído não tinha nenhum vestígio de queda ao redor da torre, falei sobre os sons estranhos da noite anterior, o marquês olhou-me com desdém e disse: "Não acredito que aquele desgraçado seja de outro mundo deve estar em algum lugar, senhor Diogo procure-o bem deve ter deixado alguma pista não pode ter saído voando daqui, vamos achá-lo não deve estar longe". Seguindo as ordens de monsegneur marquês eu e mais três servos começamos a busca, rabisquei o chão mostrando a direção e as trilhas que cada um deveria seguir, "Se algum de vosmicê avistá-lo comuniquem-se com um assobio abreviativo entenderão", olharam-me afirmativamente percebendo minha intenção, "Agora vamos". Segui então as direções que me apontava os sentidos aprofundei-me mata adentro,examinando as folhas do chão os ramos de cada arbusto tudo que pudesse mostra qualquer vestígio, considerando em se tratar de um homem que conhece a mata como sua própria morada seria muita sorte de minha parte descobrir onde estaria encafurnado, as árvores pareciam tristes o sopro ameno do vento mal mexia os galhos que permaneciam pendentes como almas reclusas, ele poderia estar me olhando recolhido em seu refúgio, talvez de cima de uma árvore ou na margem empedrada, avançava não fixando os olhos em ponto algum caminhei enfrente até alcançar sítio onde ouvia o ribombar da água de uma cachoeira, quanto mais avançava por entre as sombras do espesso bosque o sinistro eco da natureza difundia-se numa sinfonia misteriosa, andei cerca de umas duas tudo parecia aprofundar-se para o ignoto, sentei-me junto a um arroio de águas cristalinas, voltando os olhos para o alto via-se por entre as grandes árvores o lindo aspecto do céu no oeste, dissipava qualquer esperança de encontrar o Mongongó, e para que procurar por quem tinha como mãe única à mãe natureza, ele havia retornado a sua morada onde apenas há erva crua como alimento ao céu aberto como abrigo e aos paus e pedras como defesa contra as feras da mata bastava-lhe para suas necessidades, procurá-lo para dar-lhe um destino ainda mais doloroso, ou talvez enviado por Deus, algum anjo o levará para o céu, "fique em paz Mongogó, meu amigo", o crepúsculo vinha chegando os animais diurnos iam-se e os noturnos estavam chegando, Vênus já estava proeminente no horizonte quando os dois servos e eu nos encontramos junto à torre, nada viram nem um vestígio sequer de um ser que fugisse em vicissitudes as coisas humanas.
"Nada senhor, nenhuma pista sequer de que direção possa ter tomado
desapareceu como o sol todas as tardes no oeste". Ao dizer isso o marquês assumiu uma fisionomia ainda mais grave como se já esperasse pela a resposta, voltando-se para a direção do bosque disse: "Trata-se essencialmente de saber do que se é capaz, se é capaz de fazer determinada coisa e de fazê-la até o fim, hei de encontrá-lo mais cedo ou mais tarde ou ele me encontrará". O proferir de suas palavras era como que a morte pode sobrevir a qualquer momento e a impassibilidade é o resultado positivo do exercício da própria alma, como uma prova pode-se vencer ou fracassar, pode-se ganhar ou perder, este gênero de exercício parecia estar sempre nas palavras de monsegneur marquês não que lhe parecesse uma regra, mas uma forma a vida o que lhe permitia ter, em face dele mesmo e dos acontecimentos o que constitui sua vida, a atitude que convém. Os dias que se seguiram o ar começou a tornar-se espesso cúmulos de nuvens acinzentadas tomavam formas variadas nos céus, arrebentaram as primeiras chuvas de verão, raios atingiam a terra à natureza tomava seu aspecto mais original. Naqueles dias passa a maior parte do tempo em considerar não só minhas ações mas tudo que se encontrava ao meu redor, as imagens dos últimos dias tornaram-se recorrências, as projeções as impressões tudo formava um bloco de hipóteses, por mais imprecisa que me pareça ás coisas da mente a ação humana intencional ou não-intencionalmente era um fato e esse fato no mundo era o que me preocupava, olhava pela janela a chuva o vento parecia estar numa relação puramente arbitrária, as admoestações da natureza é um código de como nos devemos ver o mundo, para conhecê-lo associar suas unidades expressivas, dois dias depois a tempestade e trovoadas foram se extinguindo pouco a pouco deixando a atmosfera mais calma e serena seu equivalente trouxe harmonia e ritmo a todos os seres vivos, a natureza parecia cantar uma música valiosa não só porque emana requinte de sentimentos mas também porque preserva e restaura a saúde.
Com o passar do tempo tudo parecia voltar aos antigos princípios, a casa suportava corajosamente os acidentes da vida comum, com seu aspecto imponente misturava-se ao admirável espetáculo da natureza, ora num belo dia de céu límpido, ora numa notável noite de luar, ou mesmo numa terrível noite de tempestade tudo era um movimento algo que combinado mesmo por deslindar por direções divergentes tinham adaptações e circunstancias num plano de conjunto é como que posso dizer um evoluir dentro de limites infinitos, eu não sei se consigo por via de regra expressar bem meus pensamentos, mas, sempre procurei mais entender o que se passa com o mundo exterior do que comigo mesmo, sendo assim notava mudanças que comparada em outras circunstancias dava-me um alcance de memória quase como que pudesse tocá-las se eram influenciadas pelo acaso ou pelas ações humanas não sei, o fato era que existiam e tomavam forma, o marquês perdera aquela imagem cruel seu espírito parecia mais sossegado, entretanto, apresentava-se cogitativo, andava pelos lugares mais ermos do bosque, era difícil julgá-lo pelos fatos mais comuns havia uma estabilidade que não lhe era natural mais nada exagerado era como que buscasse na solidão no isolamento uma resposta uma pergunta passava horas enclausurado na torre, ora vagava pele eclusa, ora pela charneca, a marquesa que mais lhe conhecia os juízos e sentimento renunciava a julgá-lo em seu conjunto pensando melhor em deixá-lo assim indefinido. A primavera chegara ás extensões que margeiam os bosques cobrira-se de flores, o céu mais azul límpido as sábias cantavam jubilosas nos riachos e ribeiros corriam águas transparentes, por toda a orla da represa, bandos de jaçanãs irerês e garças exibiam a força e a feliz influencia da natureza. Aquele dia a casa estava mais quieta que de costume, meus olhos tiveram um instante essa impressão quando passei pela sua frente, desci pelo caminho que leva até o portão, transpus o pilar de pedra, fazia uma tarde brilhante o sol tingia de dourado o topo das admoestadas figuras que vigiam a entrada, estava eu limpando a vegetação que crescia em volta das colunas quando, de repente, ouvi o aproximar rápido de um coche, o cocheiro conhecedor do caminho que seguia, desvio-se da estrada galgando pela entrada, olhou bem para dentro do coche e pude perceber a fisionomia oficiosa do Dr. Moreira Franco, "tive no pensamento que havia chegado à hora". Lá pelas dez horas daquela noite nasceu Elvira, uma menina robusta de belos traços, encontrei o marquês fumando um charuto na varanda, veio em minha direção radiante de alegria, "senhor Diogo hoje é como se eu voltasse a existir", disse com o olhar brilhando em lágrimas. Assim, a alegria voltara a ocupar os espaços vazios da casa como o fogo que aviva o frio, o descontentamento a cólera haviam passado, nascia então uma nova matéria que excitava o amor à temperança os encantos ambicionados que desejariam mostrar o que todos gostariam de ver, enfim, voltaram, o marquês parecia ter arrancado do túmulo aquela parcela de felicidade que dividia nos gestos mais sutis com a marquesa, estavam mais unidos do que nunca naqueles momentos, prestimosos gestos davam uma constante ansiedade pelo futuro que lhes apresentava, horas e horas passavam ao lado de Elvira o marquês a comparava com a fisionomia marcante da mãe, seu espírito recobrava seu equilíbrio suavizando o elemento irascível de sua alma, ei-lo, pois, novamente o que fora. Foi no começo de novembro seguinte que pela primeira vez os vi com a pequena Elvira passeando pelo jardim da casa, era uma manhã radiante o marquês a segurava nos braços, apresentando-lhe a toda resplendecia da natureza, apontava aqui, acolá, numa revelação entusiasta de um pai afetuoso, a pequena Elvira sorria regozijava para o mundo que lhe era revelado e a natureza parecia aplaudir aquela união formada pelas mais belas obras da divindade. Fora, então, com essa harmonia que os dias iam-se passando a felicidade com todo seu esforço havia sido alcançada afastei o pensamento de ir embora, a família vivia na mais pura união em todos os lugares em que os patrões iam a pequena Elvira os acompanhava era natural que com a filha diante de seus olhos ofereceria maior confiança uma vez que o espírito nunca esquece a inegável dor e a instabilidade que se exprime e, não pode ser esquecido ou deixado de lado, mas até onde a felicidade pode se tornar duradoura quando não conseguimos dominar nossas emoções nossas paixões nossos atos irascíveis nossos desejos de vingança, ora nadamos numa tormenta, ora numa calmaria parece um vai e vêm que não nos estabelece nem numa coisa nem noutra, esta parte da narrativa meus filhos, se assim vós permite lhes chamarem é sem dúvida a mais difícil para mim, não que me falhe a memória às lembranças daquele dia nunca esquecerei nem se vivesse mil anos, as imagens recordadas ainda me causam perturbação um desconforto um calafrio pelo corpo todo. "Naquela noite voltava da casa de Florinda por volta das onze horas da noite uma chuva torrencial caia em toda região, quando cheguei, aproximei-me de frente da casa e apesar de estar com a roupa e o corpo todo molhado tive ainda a calma de observar seu aspecto e, sob essa rápida inspeção notei uma coisa estranha e nada comum, a porta que dá acesso á torre junto a casa estava misteriosamente aberta, não vou negar que eu havia bebido, mas não o bastante para que minhas faculdades duvidassem do que via ou percebia, o fato é que tudo aquilo era real e dava-me uma sensação ambígua estranha, pensei que talvez aquela atmosfera em sublevação causava-me aquele efeito perturbador refletindo como sendo ou conjuntamente uma ou outra ou nem uma nem outra, entrei por aquela porta". "Meu Deus, que coisa terrível havia acontecido encontrar o marquês e a marquesa horrivelmente mortos não consigo relatar ao certo o que sentia naqueles momentos meus sentidos parecia ter amortecido, o que consegui raciocinar era que não havia ninguém na casa e eu precisava chamar alguém, falar com alguém, em alguns momentos parecia minha voz não sair, desci as escadas meio cambaleando acreditava se corresse poderia interceptar o coche antes que ele entrasse na estrada principal, arremessava-me para fora dos aposentos com uma centelha emanada das partes do inferno, precipitei-me por um atalho emaranhado correndo com uma insensatez de um desvairado, até que em um determinado ponto não diferenciando nada mais a minha frente e, meu corpo sendo atado pelo mato fechado e, num desses esforços para se lançar para frente, choquei-me com alguma coisa sólida que atingiu minha testa em cheio levando-me ao chão, tentei ainda recobrar os sentidos, mas, em vão exausto, entreguei-me a um desmaio que mais parecia á morte". Ao amanhecer quando meus sentidos começavam a encontrar-se com a realidade ou duvidar dela recordava alguns lapsos de imagens da noite anterior não era aquelas que o pensamento forma por sua conta, como acontece nos sonhos, era algo como uma marca ficada na alma era aquilo naquele instante que ordenava meus movimentos, "Meu Deus o que houve", pensava tentando entender as formas que constituíam as imagens ai a perplexidade tornava-me paralisado, agora uma dor no corpo todo em demasiado na cabeça, mas não o bastante para afastar as funestas imagens fiquei não sei quanto tempo ao certo nesse estado até o sangue parecer fluir em um pouco mais em minha cabeça ai a primeira impressão que me fez levantar-se foi: "Elvira onde estava a pequena Elvira" teria também o destino ter-lhe ceifado a tenra vida, afastando alguns ramos adiantei-me um pouco até perceber um tronco meio deitado cruzando o atalho numa altura relativamente acidental o que fez com que eu batesse fortemente a cabeça o mais rápido possível encaminhei-me na direção da casa. Ao retornar a casa notei que estava tudo quieto silencio desvanecedor pairava no ar a realidade que se apresentava era aflitiva repugnante e causava inquietação, olhei para a porta da torre mantinha-se entreaberta dava-me um arrepio só de olhá-la, a imagem da pequena Elvira voltou, desviei-me na direção da cozinha, alcançando-a, transpus-me apresado chegando á outra porta, abri e penetrei nesta sala, havia dois criados preparando calmamente a mesa para os patrões tomarem o café da manhã, minha feição completamente adversas a deles causaram quando passei um espanto que se assemelhava à visão de um fantasma, alcançando a outra porta apressadamente subi até o patamar, parei alguns instantes diante das três portas a que estava aberta era onde estava o corpo da marquesa meu espírito ainda parecia duvidar da realidade avancei alguns passados espreitando pela porta notei que o corpo da marquesa estava penosamente como o havia encontrado, voltei-me para o segundo aposento o quarto de dormir dos patrões, virei a fechadura, estava aberta, entrei, via-se ali tudo na mais perfeita ordem, aproximei-me do leito da pequena Elvira, estava vazio na cama do casal nada também encontrei, pareceu-me, pois, que a coisa que causara a morte dos patrões poderia ter levado a criança é seria pouco provável que estivesse no quarto de hóspede fui para lá e nada encontrei que explicasse ou desse alguma pista, voltei para o quarto dos patrões era como se ali somente ali fosse capaz de ter alguma resposta, a ordem que estava os objetos no quarto a porta aberta era um pressuposto embora ambíguo mas suscetível de receber algum sentido, fiquei alguns minutos tentando agrupar e relacionar os fatos mas é difícil quanto os órgãos dos sentidos se encontram mediante acontecimentos funesto ai parece que todos os esforços desse tipo não conseguirão atingir o resultado último, procurava manter a calma só assim poderia adotar um principio de acordo e com esse ordenar interpretar o que havia acontecido, olhava cada objeto do quarto como se neles estivesse qualquer resposta que me pudessem dizer alguma coisa quando se sucede uma desgraça é quase impossível termos moderação, aproximei-me da janela estava devidamente fechada por dentro nada entrara ou sairá por ali, voltei para porta, quando subitamente ouvi soar algo como um suspiro, meio abafado e mais impressionante ainda o som vinha de dentro do quarto um calafrio percorreu todo meu corpo pensara se aquilo era real ou imaginário, voltei-me examinando cada objeto o som num instante cessara, parecia surpreso comigo mesmo, permaneci parado, sem respirar, e, num segundo ouvi novamente o som, ai, distingui logo com clareza o ciciar de uma criança que vinha de dentro de um cesto de vime encostado á parede com um impulso de entusiasmo fui de encontro a ele, abri-o calmamente ou era Elvira ou um anjo, a claridade ao penetrar no interior do cesto fez eu descobrir os olhinhos assustados da pequena Elvira, foi como a mais bela visão ver a criança sã e salva, estendi os braços pecando-a no colo, ficara a noite toda ali, não havia sinal que tivesse chorado por um momento sequer, era como se um anjo estivesse o tempo todo ali ao seu lado juro que foi essa sensação que tive ao pecar Elvira nos braços, se era minha imaginação ou delírio por tudo que havia visto não sei, mas, juro que enquanto tirava a menina do sexto vi algo envergar suas vestes das mais ávidas cores saindo pela porta e tingindo o espaço com um arco, meio que paralisado, estagnado, e, sentido mais alivio do que medo, com as forças que ainda dispunha, saímos do quarto. Entreguei a menina aos cuidados de uma criada e pedi que fosse para minha casa e não saísse de lá até que voltasse, fechei a casa e, dispondo do melhor cavalo parti em direção de São Bernardo, vamos meu amigo, o animal relinchou como se minhas ideias antecipadas pela imaginação parecesse desferir a força e a vivacidade no tordilho andaluz, deu uma arrancada com seu maior vigor como se representasse objetivo de modo tão vivo que quase se podia compreender o que acontecera em poucos minutos alcançamos a estrada principal, despejava seu magnífico galope por solo que cortavam inúmeras árvores frondosas, parecia mais um raio lançado passando através de multidões de fantasmas, ora se erguiam encostas cobertas de árvores da qual jorrava arroios como da garganta de uma fonte, ora avançávamos por estradas descampadas que se estendiam em declives sobre a vertente de colinas até desembocarmos numa estrada cercada de morros, em pouco tempo alcançamos a estrada plaina que nos levaria até a entrada do bairro quase não havia sobrados na rua principal, tendo seguido até seu final parei diante da fisionomia um tanto severa de um sobrado vermelho sangue-de-boi com janelas envidraçadas, seu aspecto de inimigo da rua, lanças pontudas dos seus portões e de suas grades de ferro, o olhar zangado das figuras de leão nos umbrais dos portões, parecia defender a casa, da rua, era a casa do intendente geral de policia, ao receber-me informei que o motivo de procurá-lo, que se tratava de um caso importante um crime tão surpreendente que jamais havia ouvido falar com um semblante grave indicou o caminho até seu gabinete, ao entrarmos apontou-me uma cadeira e posicionou-se em sua mesa, "O que ouve então", inquiriu logo juntando as duas mãos de forma solene. Comecei então a narrar todos os fatos desde minha saída ao entardecer da sexta-feira até retornar a noite, as circunstancias em que encontrei os corpos e o efeito que tudo aquilo causara em meus sentidos a forma como havia encontrado a criança, o intendente-geral da policia ouviu-me silenciosamente em momento algum me interrompeu para anexar alguma pergunta aos fatos, quando terminei de falar, percebia as ideias sendo acesas no espírito do intendente geral da policia, manteve-se em profunda reflexão, era como examinasse o caso pelos sentidos e pela experiência, seu olhar suspicaz ora fixava em mim, ora fixava sobre a mesa, em alguns momentos pareciam divagarem da sua origem mostrando-se sob um escrutar minucioso com o braço esquerdo apoiado sobre a mesa, agora, usava uma das mãos para percorrer uma crespa barba que lhe dava um ar burlesco, esse gesto era repetido instantaneamente cada vez que a ponta dos dedos alcançava a extremidade do queixo, até que disse: "Vamos para lá", imediatamente".
Á tarde já ia adiantada quando aqui chegamos, apresentei a entrada principal, informei que havia mais duas entradas e vários atalhos que levavam até a casa, antes de prosseguirmos paramos junto á árvore que havia caído na noite anterior, mantinha-se ainda deitada sobre a estrada, desviando-se chegamos ao portão principal, o intendente geral da policia que vinha montado num cavalo baixo cujo rabo raspava no chão ficou um pouco para trás examinando de que modo á árvore havia realmente caído, quando o intendente geral da policia voltou a juntar-se a nos, subimos o resto do caminho até alcançarmos a frente da casa parando ao lado da torre, "Vocês dois", disse o intendente geral de policia a dois dos quatro cavaleiros que montavam muares e nos acompanhava, "examinei em volta da casa", mantenha-se com a atenção redobrada foi á recomendação do intendente geral de policia aos quatro cavalheiros, enquanto abria a pesada porta da torre o intendente geral de policia notou sob o piso, distintas nódoas de um liquido espesso, rubro, que distinguimos logo sendo de sangue, os vestígios vinham de dentro do aposento em linhas curvas se estendendo para fora, ou vise versa de fora para dentro ao retornar os dois cavalheiros e tendo informado que nada de estranho haviam visto o intendente geral de policia indicou-lhes as manchas de sangue ordenando que a seguissem até onde fosse, entramos na casa, subimos as escadas até chegar ao aposento onde estava o corpo da marquesa, o intendente geral de policia examinava tudo cuidadosamente, tudo permanecia da mesma maneira em que eu havia encontrado, agora, porem a luz do dia parecia tornar a cena ainda mais estarrecedora, seguindo um pouco mais para cima estava partes do corpo do marquês, um mal estar tornara-se manifesto na fisionomia do intendente geral de policia e seu ar grave de espanto esvaeceu num nausear-se incontrolável, visitamos os outros aposentos até retornarmos a sala principal tudo era verificado examinado isso os manteve ocupado até o cair da noite quando os dois cavalheiros que haviam saído retornaram relataram ao intendente geral de policia de maneira reservada que o rastro estendia-se por longo atalho até dispersar-se a beira de um arroio tudo era anotado em uma caderneta de bolso nas mãos do intendente geral de policia, em seguida pediu que reunisse todos os empregados da casa em pouco menos de trinta minutos os agrupei na sala o intendente reuniu-se na biblioteca com dois dos cavalheiros em quanto que os outros dois mantinha-se na sala como nos vigiasse, da onde eu estava podia perceber que na biblioteca seguia-se uma conversa cujo tom da voz crave era do intendente geral de policia, embora não me desse entender o que dizia, no mesmo instante um dos cavalheiros voltou-se para sala, olhando para todos os criados que se mantinham em pé, "Você junto á porta, venha"!, disse, indicando-lhe a porta da biblioteca, o criado obedeceu imediatamente meio amedrontado entrou e a porta foi fechada, permaneceram dentro da biblioteca cerca de quinze a vinte minutos num certo momento ouvi a voz alta áspera e arrogante do intendente geral de policia quando dizia: "Fale alto negro", até a porta voltar a abrir, o criado saiu primeiro parecia meio acanhado, tornou para o centro da sala, logo em seguida voltou o cavalheiro com a mesma expressão de desdém apontou para um outro criado, "Venha você agora"!, e a porta fechou-se novamente, foi assim, até o último criado entrar, uns demoraram um pouco mais que os anteriores eu permanecia na sala com outros três cavalheiros que conversavam o tempo todo entre si um deles o mais alto de cinco a cinco minutos levantava-se coçava o joelho e olhava com antipatia, o que parecia ser o último estava demorando mais que todos e sobreveio um silêncio como aquele que reina numa sala esquecida, olhava ao redor minha consciência parecia ter uma expressão vaga de tudo que estava acontecendo a ideia de que o marquês a marquesa estavam ali tão perto, mortos parecia causar uma dissolução na minha mente e a angustia impedia-me de localizar algo que pudesse distanciá-la, ela parecia de fato onipresente, com um sentimento de estranheza notava certo constrangimento no rosto daqueles homens quando saiam da sala, era fácil perceber que estavam sendo interrogados, entretanto, havia ainda algo que os deixavam com uma expressão de pejo, e isso era claro visto os conhecer bem, conforme havia presumido, quando o último criado saio fui chamado, na biblioteca o intendente geral de policia mantinha-se sentado escrevendo sobre a mesa parecia nem perceber minha entrada, meu olhar tombou como se fosse vencer a espaço e avistar o que aquele homem escrevia concentrado em sua caderneta, aproximei-me um pouco mais com discrição, então, repentinamente exclamou: "Ah, o senhor agora!" , sua atitude repentina fez-me voltar á postura, antes de falar o intendente geral de policia tirou seu relógio do bolso consultou-o calmamente olhou para mim folheando a caderneta e podo-se de pé voltou-se para mim, "Senhor Diogo Bernardes é esse mesmo o seu nome!" "Sim, senhor", respondi prontamente, "Pois, bem, pretendo fazer-lhe algumas perguntas e espero que o senhor seja objetivo e o mais sincero possível". "Com certeza o serei senhor". "Muito bem, como o senhor havia tido vos estás trabalhando aqui desde que a casa foi construída". "Exatamente senhor", "Presumo então que o senhor deva ter conhecido bem o marquês e sua esposa". "Se tratando na relação de patrão empregado posso dizer-lhe que os conhecia bem, visto saber o que lhes agrada e o que não lhes agrada". "Certo, tanto o marquês como sua esposa mostravam viver bem em boa harmonia, o senhor confirma isso"? "Até onde a particularidade permitia-me observar tratavam-se reciprocamente de maneira mais afetuosa possível". "Pagavam-lhe com pontualidade". "Com exatidão no prazo combinado, com todos os empregados que aqui trabalharam". "É em algum momento dessa curta convivência o senhor presenciou ou notou algum dos patrões tratarem com crueldade, severidade mais do que comum algum dos empregados"? "Realmente presenciei senhor". Após lhe dar essas informações percebia claramente que o intendente geral de policia estava comparando minhas respostas ou melhor fazendo relações com informações que ele já tinha, assim, narrei todo o episódio que ocorrera após a morte do pequeno Michel.
"Resumindo, o senhor pensa então que o marquês foi injusto com esse tal Mangongó", inquiriu o intendente geral de policia levantando-se da cadeira, ando pela biblioteca como se procurasse uma resposta em qualquer objeto enquanto ele andava pela sala mantive-me calado como se esperasse outra pergunta e essa pequena pausa deu-me tempo para pensar melhor antes de responder. "Fiz-lhe uma pergunta senhor", tornou o intendente geral de policia com certa irritação. "Penso que a emoção sobrepujou-lhe a razão, o que é um homem, e o que ele pode a vir se tornar? Por mais que tente sondar a alma humana, desvendando suposições e questionando convicções absolutas não consigo falar com facilidade de justiça, e injustiça". "Muito bem, senhor Diogo Bernardes o senhor parece ter um raciocínio apurado, então, vamos ser mais claro e exato, o senhor pensa, ou melhor, o senhor supõe que o Mongongó teria motivos então para praticar esse bárbaro crime"? "Se julgarmos sua pessoa seu caráter seus modos pacatos diria que não mataria nem um cabrito se não fosse para sobrevivência própria, mas seja qual forem os motivos as aparências externas não nos dão nenhum indicativo, já o que é algo interior me parece perturbador e é simples pensarmos que as formas de tortura que passou nem mesmo um animal embrutecido ou um miserável desesperado seria capaz de suportar sem que um desejo instintivo de vingança viesse aflorar-lhe o espírito, sinceramente, acredito que sim, que seria capaz de matar movido pelo ódio, ás lembranças, as marcas, as dores ainda sentindo na própria alma, contorções lamentáveis, gemidos os gritos que eram ainda mais aflitivos por não produzirem som algum, seria o suficiente para saciar sua sede de matar, mas, tem um segundo aspecto da questão que não encontrei a razão, é o fato que o levará a matar a marquesa uma mulher boa de sentimentos humanitários nunca a vi sequer falar alto ou com qualquer tipo de aspereza com os empregados ou escravos tratava todos como de fatos são seres humanos, não consigo imaginar que ele mataria a marquesa, por que razão, é exatamente nesse ponto que tenho um aspecto negativo que seria ele o responsável pelas mortes." "As respostas do senhor parece não ajudar muito, primeiro o senhor afirma que conhecedor dos modos e caráter desse tal Mongongó diz que não mataria nem um cabrito, logo em seguida idealizando efetividades e emoções reitera que ele, o Mongongó poderia ser tão perigoso como um tigre faminto, ora, senhor Diogo Bernardes quando pergunto-lhe quais os motivos estou me referindo a uma causa ou condição de uma escolha e essa volição ou ação pressupõe uma motivação seja ela reconhecida como vingança ou qualquer outra efetividade que o conduziu a uma atividade o senhor me entende, portanto, senhor, aqui, cumpri-nos não nos ater a aparências, observações ou considerações abstratas o que nos importa são fatos concretos que se insira e critérios de realidade, o senhor entende, agora". "Sim senhor, concordo que diante dos fatos, e, os fatos dão possibilidades, assim, minha segunda consideração é a que melhor se assenta nesse caso e os aspectos sobretudo, aqueles que a simples vivencia nos mostra muitas das vezes não nos dão suas formas legítimas, entretanto, senhor, o que causa modificação é sempre um caminho seguro para chegar a verdade". O intendente geral de policia olhou-me atentamente como se estabelecesse um nova concepção, "Senhor Diogo Bernardes, como o senhor já pode ter percebido estamos nas investigações preliminares de um crime brutal protagonizado por um assassino frio e calculista, descarto as possibilidades, pelo menos por hora de algum de vocês que estão aqui na casa agora serem o assassino que matou a marquesa e o marquês, mesmo que haja alguma participação indiretamente de algum de vocês o momento ainda se mostra prematuro para afirmarmos algo e, assim sendo não posso deixar de considerar que o assassino possa ter tido algum tipo de auxilio ou facilitação isso só as investigações precedentes que nos vão dizer, o assassino saiu daqui da casa gravemente ferido depois de uma luta com a corajosa marquesa Taíza a espada que ainda esta em sua mão nos evidencia que ela combateu até o último momento, posso até pensar que o assassino não tinha a intenção de matá-la como também posso pensar que isso seja apenas uma hipótese, mas, quando o assassino recebeu o golpe desferido pela a marquesa que lhe causou o ferimento que evidentemente deixou aquele rastro de sangue, ai, nesse momento possa haver tido o motivo, como a muito sangue por todos os lugares fica difícil percebermos qual sangue é de quem, mas, esse sangue que sai do aposento onde esta o corpo da marquesa tenho quase certeza que não é dela nem do marquês, vamos agora concentra e intensificar nossas buscas pelas redondezas, acredito que nas próximas horas vamos ter resultados congruentes", nesse momento o intendente geral de policia levanta-se novamente dá algumas voltas ao redor da cadeira em que eu mantinha-se sentado esfrega as mãos uma nas outras e reitera suas perguntas, "Então o senhor costuma sair toda as sextas-feiras". "Sim, exceto se os patrões não estivessem de acordo, mas, nunca se importarão". "E, o senhor teria como provar que na noite anterior encontrava-se onde disse estar". "Certamente que sim". "Por que mesmo é que os escravos se ausentaram da casa ontem". Novamente mostrava-se que o intendente geral de policia estava comparando minhas respostas julgando encontrar em algum ponto qualquer que fosse uma contradição. "O motivo de não estarem aqui é que ontem era o dia que comemorar uma espécie de folguedo, o Canto de Ogum, todo ano nesse dia o marquês os deixavam ir nesse agrupamento, uma dança e muito barulho de atabaques, o marquês não gostava de barulho durante a noite essa é a razão de não estarem aqui ontem". "Uma coincidência bem calculada, o senhor não estava os escravos também não, o criminoso parece conhecer muito bem seus costumes". "Pode ser que o assassino conhecesse nossos costumes como pode ser também que esteja aplicando uma estratégica para confundir-nos, certamente senhor, a única certeza que tenho é que não tenho certeza de nada". "Desejo instintivo de vingança parece ser algo inato no ser humano impressões correspondentes se relacionam a essa disposição e se designarmos o Mongongó sendo o assassino diríamos que os princípios de associação são deveras contumaz mais, muito embora essas ideias estejam conectadas, creio que ainda parece digno de atenção considerarmos outras possibilidades, deve aparecer algum fim ou intenção em outras associações, um ângulo de apoio vosso ceticismo senhor Diogo Bernardes, teria o senhor mais alguma informação que possa estar unido por algum elo ou laço a esse crime, se lembra de algum fato alguma consideração mesmo que seja de ambiguidade até casos isolados podem nos ajudar". "Não senhor, nada que me lembre que possa justificar alguma suspeita, o marquês como a marquesa eram pessoas muito reservadas ambos conversavam muito mais nunca vi algum empregado falar-lhes a não ser que fosse sobre o trabalho e suas obrigações no campo das relações sociais os patrões tinham amigos muito influentes em São Paulo e em outras províncias no dia da inauguração da casa esteve aqui pessoas importantes depois disso, raro era quando recebiam visitas". "Desse modo para finalizarmos por hora caro senhor vou pedir-lhe que seja favorável e não faça perguntas, certo". "Sim", respondi com determinação. "Tire toda a roupa". "Como". "Tire a roupa senhor, despindo-se", tornou o intendente geral de policia com continência. Então podia entender agora a razão daquele ar de embaraço na fisionomia dos criados quando saião da sala é claro que o intendente geral de policia procurava algum ferimentos, hematomas qualquer sinal de uma possível luta corporal era evidente que se o assassino havia sido ferido deveria ter esse ferimento no corpo mas minhas ideias pareciam convergir para algo de cumplicidade ora, mas era isso mesmo o assassino segundo ele havia sido ferido gravemente e que a essa hora poderia estar até morto e aqui entre nos esforçava-se em direção de uma co-participação de algum de nos a constante tensão de seu ser, o olhar incansável voltado para dentro, o que há de fechado, cauteloso, incomunicável em seu olhar de uma forma sutil acreditava que algum de nos havia participado nos crimes a ostentação de seus ideais pareciam duvidar que apenas uma pessoa haveria te ter feito tamanho estrago, levantou-se novamente da cadeira quando eu já totalmente nu se aproximou bem junto a mim sua expressão assemelhava-se de um médico legista, examinou atentamente todo meu corpo minha respiração parecia paralisada quando ordenou, "Levante os braços", olhou de um lado de outro e com assentimento concluiu, "Pode vestir-se senhor". O intendente geral de policia encostou-se á mesa parecia resignar-se em seus pensamentos e repentinamente voltou-se em minha direção, "Senhor Diogo Bernardes têm conhecimento se a marquesa Taíza tinha alguma prática em esgrima". "Sim tinha," respondi tentando me recompor. "Como o senhor sabe disso". "Presenciei várias vezes a marquesa Taíza e o marquês praticando essa arte, uma das quais que me chamou a atenção em particular foi quando voltava de uma caçada ao se aproximar da torre ouvia-se um barulho nas escadas da torre reconheci perfeitamente se tratar de lâminas de aço que se lançavam uma contra a outra eram os patrões permaneci exatamente onde estava pois, tinha uma visão privilegiada admirável de se ver como terçavam as espadas e para quem não os conheciam diriam de fato se tratar de dois habilidosos espadachins num verdadeiro combate, a marquesa era uma dama, bondosa, compassiva, delicada e uma hábil esgrimista". O intendente geral de policia insistia na tese de que se houve uma luta corporal foi entre a marquesa e o assassino, visto as evidencias mostrarem que o marquês foi apanhando de surpresa ou mesmo numa emboscada dentro da própria casa, sustentava que se devia ir além da lógica formal, o raciocino parecia mostrar-lhe uma direção segura, embora, algo se ofuscava para avançar no caminho da verdade, debruçava-se no raciocínio que o marquês foi morto, ou seja, recebeu o primeiro golpe num dos dois aposentos que constituem os andares da torre, subia, descia olhando cada detalhe dos aposentos o objeto em questão parecia ás vezes girar no vazio, as provas em alguns aspectos davam conceitos de conteúdos precisos como, por exemplo, a marquesa não estava no mesmo aposento no momento em que o marquês foi atingido pelo assassino com os primeiros golpes, deveria estar em seu quarto e algo um som talvez tenha chamado sua atenção, e se tratando de uma mulher corajosa, não excitou em ir até lá, o intendente geral de policia recolhia mais imagens no armazém da memória é o que lhe dava mais imaginação, continuou, "e agindo assim, abriu o armário, de onde tirou uma grande espada, veja aquela que esta faltando ali, que consequentemente está agora ao lado de seu corpo", tornou-se logo evidente que, se a marquesa não era mestra consumada na arte da esgrima, o seu gosto pelo menos fora cultivado por excelentes professores, as evidencias apontavam que por muito pouco não abatera o assassino. A noite seguia-se perturbadora e cheia de induções cada ponto das investigações traziam mais suspeitas, enquanto esperávamos os dois cavalheiros que havia indo buscar os ataúdes, voltamos ao local dos crimes o intendente geral de policia voltava a examinava tudo com a mais cuidadosa análise em momentos intercalados, repetia como se encontrasse uma pressuposição qualquer, "unívoco, equivoco, análogo", sempre com uma expressão que vincula um conteúdo, ai, repetia de novo, "unívoco, equivoco, análogo", foi assim até sua expressão mostrar-se capaz de significar um objeto com seu próprio significado, seu dedo apontado para o alto da escada dava-lhe uma ideia de aplicabilidade e longitude, não obstante, entender a razão do assassino, matar sua vitima e arrastá-la de doze a quinze degraus acima, por uma escada tão estreita, parecia ás vezes acreditar que fosse o próprio demônio fazendo-o ele mesmo ou utilizando-se de outros instrumentos terríveis, mas aquilo não era coisa de almas de outro mundo nem de espíritos noturnos, por certo que havia uma inteligência material com uma força superior que por mais que nos esforçasse parecia não sujeitar-se às regras de nossa inteligência, voltamos a examinar aquele rastro de sangue, descemos novamente as escadas em direção á porta de saída, o intendente geral de policia observava minuciosamente sob a claridade de um archote que produzia na espessa porta e a perspicuidade mostrava-se também nodoas de sangue junto á fechadura, "A certeza de cunho lógico que temos é que o assassino definitivamente saiu por essa porta", afirmou o intendente geral de policia com o olhar fixo na grande porta, "Mas não foi por aqui que entrou na casa", essa afirmação do intendente geral de policia é quase que absolutamente inquestionável uma vez que só existe uma fechadura pelo lado de dentro, "Mas por onde então esse maldito entrou", dizia como se seus sentidos ficassem neutros. Nesse ponto até eu cheguei a pensar que se houvesse uma segunda pessoa, poderia sim o assassino ter entrado por ali, a porta propositadamente aberta ou apenas encostada dava-lhe toda essa possibilidade, era possível perceber que o intendente geral de policia também considerava que tal probabilidade existisse, mas, o conjunto de regras que deveria seguir para ordenar bem a questão não lhe dava ou melhor, não lhe permitia chegar a algo acabado, examinamos novamente todas as entradas da casa, janela por janela, porta por porta e nenhum sinal de arrombamento como nos já havíamos verificado, nada que demonstrasse alguma penetração inoportuna, as incursões do intendente geral de policia foram incansáveis, entretanto, parecia tudo cair num sentido pejorativo, no seu justo sentido, podia defini-lo como um homem onde as imagens associam-se na consciência, formando uma espécie de discurso mental e, me pareceu uma tal associação um tanto quanto aventureira quando se parece estar sonhando. Os cavalheiros e o legista retornaram por volta das 3 horas da manhã eu estava sentado aqui mesmo onde estou agora, envolvido numa melancolia onde minha consciência ficava desesperançosa, desanimada, quando percebi os caixões sendo trazido para dentro foi como se meu espírito saísse de um efeito adormecido e encontrasse unicamente descoberto, inteiramente no efeito a consistente realidade, sai para o jardim, apanhei algumas flores e folhas perfumadas. Os funerais foram marcados para assim que clareasse o dia, os despojos permaneceram no mesmo quarto onde os corpos foram achados, as horas que se seguiram permaneci ali ao lado dos bons patrões que foram para mim.
Logo quando clareou o dia seguiu os funerais, eu o intendente geral de policia os cavalheiros da legião paulista levávamos os caixões, ainda o cortejo era composto de alguns vizinhos e os criados da casa, Constantina trazia a pequena Elvira nos braços, naquele momento em que os caixões baixavam à cova nada me parecia mais espinhoso em ver a angelical face de uma criança cujos acidentes da vida ou talvez as solicitações do destino tê-la feito, prematuramente destituída de sua família as covas foram abertas num verde talude junto à sepultura de Michel, num lugar plano onde a nesga é toda coberta pela relva fazendo uma espécie de triângulo cercado pelo bosque, as folhas das árvores caindo espalhavam-se com o vento de outono juntando-se sob uma camada de terra massapé e o gorjear dos pássaros pareciam suavizar aquelas almas que ali agora repousam.
Os seguimentos das investigações se estenderam por vários dias após o horrível crime, mas não chegavam a nada que alvorecesse o caso, o intendente geral de policia mantinha a persuasão que aquele que fugira ferido, talvez até arrastando-se não poderia ter ido muito longe e mais cedo o mais tarde o encontraria vivo ou morto os cavalheiros da legião paulista que estavam no encargo das buscas, mantinham-se acampados aqui, e todos os dias saiam cedo ainda com o escuro e só retornavam com o crepúsculo do entardecer, foi assim durante uma semana inteira, mas, nada, nem uma pista, nem um sinal no céu que indicasse alimento para os abutres. Sucessiva às vezes que compareci no Supremo Tribunal de Justiça para prestar mais esclarecimentos, a questão em pauta agora e sem dúvida que seriam necessário bons juízes era o futuro da pequena Elvira e todos os haveres que deixado pelos pais, as determinações, prescrições, ordens da lei, davam-lhe todo o direito integro sobre os bens de sua família. Contudo, questionavam que a criança não tendo nenhum parente próximo no Brasil e desprovido de uma idade apropriada, os juízes achando que de melhor razão em conceder seu destino era deportá-la para a França ou encaminhá-la a uma instituição onde se recolhe e educam órfãos. Numa tarde quando saia do Supremo Tribunal de Justiça com a possível resolução dos juízes em deportar a menina, o destino parecia preparar um propósito mais oportuno, logo que sai do prédio fiquei parado de costa para a rua observando a bela arquitetura do prédio, dispunha-se a voltar para casa, quando, de repente, dou de cara com o Conde de Mauá conversando com um homem que pelo sotaque mostrava-se ser estrangeiro, logo que o Conde viu-me, conheceu-me, imediatamente se aproximou, saudou-me afastando-se um pouco do seu interlocutor que iniciava uma resposta e a propósito desta, disse-me: "Vede este homem, pois acaba de contar-me o que se passou com o marquês e sua esposa, que coisa triste", considerou a Conde com desgosto. "Sim, caro senhor, coisa difícil de se acreditar", reiterei. "Nem uma pista ainda do assassino", acrescento a Conde indignado, "quais a razões os motivos dessa consequência monstruosa". "Os jornais dizem", adicionou o estrangeiro que era português, "não haver nenhuma pista do assassino". O Conde de Mauá era um homem de muitas influências na corte e além de uma grande alma era fisicamente de uma destreza e talentos especiais, um homem ágil, de ação, além do mais era muito amigo do marquês e tinha pela família grande consideração, passei-lhe, então, a relatar o que havia acontecido e o rumo que tomava o caso, o destino da pequena Elvira, deportá-la para França sem a certeza de encontrar alguém da família com o desfecho que a revolução causara no país, se ficasse aqui e tivesse um bom preceptor seria muito mais vantajoso, ai, quando alcançasse a idade adequada usufruir devidamente de tudo que lhe pertence, o Conde concordava com minhas palavras, passou a mão pela fronte bem desenhada com a limpidez e olhar penetrante, parecia engendrar um plano adequado para aquela situação, com sua afeição natural enterneceu-se e, dando-me a mão disse-me: "A menina não sairá da casa sem que eu preste atenção a tudo". Tive esperança que aquela objeção tomaria a devida importância e, com essa expectativa despedi-me do Conde. Ao retornar para casa tive uma surpresa que deixou meus anseios ainda mais avivados, ao transpor o portão avistei, bem á frente no eirado uma mulher que segurava nos braços uma criança, de costas para mim, balançava a criança com afabilidade, ao se aproximar receoso, reconheci logo o rostinho da pequena Elvira, acomodado ao ombro da mulher, ao perceber minha aproximação vira-se, surpreendido, reconheci minha irmã Berta, suspirei aliviado abraçando-a. Meu sentido pareceu sempre estar desprovido de qualquer emoção que resultasse de uma situação particular, mas, naquele momento, finalmente senti algo novo um sentimento que me fez perceber a própria alma não entendo bem as coisas da mente mas, o pouco que compreendo me surpreende a capacidade de nossa intuição, parece á imaginação governar grande parte das nossas ideias e uni-las, misturá-las não sem bem o que desejamos, o fato é que quando voltava pelo caminho vinha pensando numa necessidade de encontrar uma pessoa possível de deixar Elvira diante de nossos olhos e, impressionante, ao chegar senti tudo se resolver unicamente num olhar, minha mente é como disse, limitada para entender essas coisas que para mim só pode ser consequência da própria divindade. Já fazia mais de oito anos que Berta havia partido para Salvador, desde então, não a havia visto mais algumas cartas era nosso único contado, "Berta, minha querida irmã, Deus te trousse até aqui", disse-lhe ao subordinar as necessidades do momento. Naquele tempo Berta já era uma senhora com um rosto cheio sob um véu de ternura, a tez o jeito onde encontrava a sinceridade, viúva de um pescador e que parecia ainda viver em suas lembranças, "na verdade", dizia, "não tinha a intenção de vir agora, mas, parece algo me impelir para cá". Parece de fato que as definições ocorrem como necessárias á existência de mais algo além, assim, nossas resoluções e vontades estavam manifestas, aguardamos com ansiedade as decisões dos juízes. E, não precisamos esperar muito, no segundo dia após o encontro que tive com o Conde, á tardinha, quando terminava de cortar a grama de frente da casa, recebi um comunicado para comparecer na manhã seguinte às 10 horas no Supremo Tribunal de Justiça e, era indispensável á presença da criança Elvira Launay. Aquele comunicado deixou-nos mais apreensivos do que ansiosos, por que o comparecimento da criança, por outro lado sentia certa segurança visto a intervenção do Conde ter se mostrado bem contundente, enfim, o caso tomava um rumo decisivo e era de nossa esperança que fosse o mais favorável possível para a pequena Elvira, ademais, tinha consciência que fosse o que fosse, meu assentimento não teria nenhuma importância e, presenciaríamos uma decisão sem poder refutar em nada. O meu destino parecia também estar em jogo, mas isso não me preocupava em nada, minha vida sempre fora entregue ao acaso a sorte do imprevisto, continuava a trabalhar nos serviços da casa como se os patrões ainda estivessem em vida, sabia de meus deveres seus costumes o que lhes agradavam o que desejavam que fosse feito que fosse mantido era, como se recebesse suas próprias ordens meus hábitos se mantinham inalterados, privado apenas de velos passeando pelo jardim falar bom dia, mas a sensação que tinha é de que eles estavam sempre por perto e tudo parecia não ficar tão vazio. As investigações acerca do crime prosseguiam sem nenhuma pista do assassino, quase um mês se passara e os jornais ainda editavam "Crimes Extraordinários Ainda Sem Solução".
Na manhã seguinte por volta da 9 horas, chegamos ao Supremo Tribunal de Justiça, subimos as escadas da entrada fomos recebidos por um homem de estatura mediana, vestia uma casaca de tafetá preta uma camisa de colarinho redondo e duro e uma larga fita de seda rosa com um laço, tinha um semblante grave, após um comprimento comedido e, se certificado que era eu o senhor Diogo Bernardes, conduziu-nos para dentro do prédio, Berta segurava a pequena Elvira nos braços, por um instante nossos olhos se entreolharam excitantes ao atravessarmos uma grande sala, seguimos por um largo corredor com altas portas até paramos em frente de uma delas, "Senhor, senhora, por favor aguardem que o Conde de Mauá já virá vê-los", disse o homem, apontando para dentro da sala.Era uma sala de espera com quatro poltronas e uma mesinha de jacarandá no centro, Berta sentou-se e eu permaneci em pé, as palavras daquele homem mais a certeza que o Conde já se encontrava no prédio parece ter aplacado um pouco nossa ansiedade, deixou-nos mais tranquilos, percebia, então que ele realmente interviria em algo que favorecesse a pequena Elvira que no colo de Berta parecia atenta a tudo, minha irmã mantinha-se como sempre calma, tranquila secura de uma solução positiva tinha uma confiança em sua intuição que era de certa forma contagiante, fez um gesto com a mão para que eu sentasse e em seu olhar pude perceber as palavras "vai dar tudo certo", daquele momento em diante parecia os acontecimentos saírem de uma noite espessa para um amanhã de dias claros onde a luz das influencias nos davam um céu sereno, após uns dez minutos de expectativa espera, o Conde entrou na sala. "Bom dia senhor, senhora", disse o conde com seu tom afetuoso, num assentimento de olhar se aproximou de Berta que segurava Elvira, num gesto meigo olhou bem para a pequena Elvira tocou com a mão sua cabeça, "Que bela criança, como estas senhorita", considera-a com entusiasmo, depois, volta-se para mim, indica-me uma poltrona e senta-se em outra, "Me parece muito bem cuidada a criança", começa então num gesto de absoluta consideração, "Senhor Diogo Bernardes, a vida do homem justo me parece mais proveitosa, não é a justiça que domina a virtude e a injustiça o vicio", "Sem dúvida, senhor", respondi. "É o que dou a entender, o que estou a dizer senhor, é a boa asserção que o marquês fazia de sua pessoa, o marquês apesar de às vezes ser severo era um homem de bem, sabia a meu ver julgar um homem de uma nobre simplicidade de caráter, certa vez, quando conversávamos em minha casa deixava-me claro sua vontade de um dia retornar à França, ver, considerar seu país pós-revolução, e numa dessas conversas manifestava a necessidade de deixar suas particularidades, bens, haveres aqui do Brasil, entregues como dizia aos cuidados de gente muito boa que comandasse, administrasse suas propriedades enfim seus bens, dessa forma senhor sua vontade parece-me ter ficado muito clara e, não vejo nada mais justo do que fazer valer-lhe sua vontade, embora, de uma forma dolorosa, assim, senhor, ele dizia haver um homem a quem ele poderia confiar, esse homem, dizia ele, é habilidoso e profundo conhecedor na arte de jardinagem, ademais, aprende facilmente tudo que lhe ensina e tem profundo gosto pelo humanismo, consequentemente, senhor Diogo Bernardes, era á o senhor que ele se referia, e, portanto, não vejo nada mais justo que lhe manifestar á vontade e o senhor como um bom cidadão segui-las-á dignamente como até agora o tem feito, se assim o concordares é claro". "Bem, sendo assim, conferindo esse bom crédito em que me fora dado por semelhantes motivos, faço tudo espontaneamente para preservar a vontade de tão estimados patrões que por um curto espaço de tempo tive o privilegio de servir". Nesse ponto, percebia a necessidade de Berta falar, mas ao olhar-me considerei que seria prudente eu continuar. "A pergunta é muito clara e evidencia muito bem o que desejas, dessa forma, senhor, como nós também, e concordo plenamente que precise de uma boa educadora, portanto, tenho a impressão que precisamos de uma pessoa que corresponda a essas necessidades, uma pessoa dedicada, justa, capaz e que tenha o tempo disponível para delineá-la da melhor forma, asseguro-lhe senhor que essa pessoa não seja eu, visto que minha esfera de trabalho não corresponda às necessidades, contudo, temos aqui diante de nós essa senhora que os céus de tão boa vontade proporcionou-me que fosse minha irmã, assim, reitero, senhor, em virtude de toda a confiança em que o marquês depositou em minha pessoa e de vossa tão nobre vontade, retribuo de uma forma autentica e fiel a vossa memória, indicando essa senhora que dotada de muito boa saúde e predispondo de todos os quesitos necessários aqui citados, e, sendo assim de vossa vontade, vossa excelência pode ouvi-la com suas próprias palavras". "Senhora Berta", disse o conde com determinação, "gostaria de cuidar dessa criança". Berta conforta a criança nos braços, olha para o conde depois para Elvira, enternecida, volta a olhar para o conde com olhos em lágrimas fala. "Antes de responder-lhe senhor, desejo dizer que em cada etapa dessa minha viagem até aqui eu experimentava um sentimento intenso, como uma necessidade de aceitar a dor tanto quanto o prazer, que explica uma estranha vontade de vir, a dor que senti ao encontrar uma criança tão bela órfã de pai e mãe, tem agora um valor positivo para mim como se minha frágil existência se tornasse infinitamente importante, sim, caro senhor, ficaria muito feliz se assim os céus me provesse, e prometo-lhe seguir não só minha vontade, mas toda aquela em que for confiantemente entregue". Naquele mesmo dia por volta das 16:00 horas os juízes redigiram o testamento, dando o direito cuidados e a guarda da criança para Berta, até que a menina atingisse uma idade adequada para usufruir de todos os bens que lhe pertence, eu continuaria a desempenhar meus costumeiros serviços da casa tendo ainda a responsabilidade pela sua conservação todo tipo de restauração que fosse necessária e dever, retidão a todos os objetos de valor que pertencem à casa, até sua legitima herdeira assumi-la. Ficamos alegres, contraímos uma inclinação tão doce, tão natural e tão virtuosa que aquelas determinações pareciam ter sido emanadas das reais fontes da felicidade humana e dedicaríamos com o maior zelo à guarda e proteção de Elvira, uma satisfação simples espontânea que fluía sucessivamente animando e arrebatando nossos corações sem quaisquer paixões materiais que proporcionasse prazeres exaltantes ou mesmo qualquer tipo de gloria perante aos olhos de Deus, nossa modéstia sempre nos impelia para uma pratica de louvor e meritórias ações, agradecemos profundamente a confiança que o conde de Mauá nos depositara, sua benevolência seus sentimentos humanitários foram determinantes tão fortes que vieram iluminar a própria face da tristeza seu empenho foi como a luz do sol que opera nas teias de aranha, frequentemente invisíveis sob a luz comum tornam-se perfeitamente visíveis quando o orvalho que cai sobre seus fios durante a noite é iluminado pelo sol da manhã.
"Para concluir senhora Elvira", disse o senhor Diogo Bernardes pondo-se de pé, "é de minha obrigação tornar-lhe o conhecimento dos motivos e condições que minha irmã Berta a levou para Salvador, tendo transcorrido uns sete meses desde que fora determinada a guarda da criança para minha irmã Berta, começou acontecer coisas estranhas nesta casa, Berta já havia se acostumado ao lugar, o clima a localização isolada da casa, numa tarde de maio de um dia frio e de muita neblina, entrou em casa, apavorada com a pequena Elvira nos braços, "o que houve", disse eu percebendo sua expressão conturbada . "Tem... tem ...alguma coisa..." , o processo articulatória das palavras não encontravam a junção das cordas vocais. "Acalme-se Berta, senta-se aqui, deixe-me segurar Elvira", interveio Florinda com respaldo, Elvira muito assustada ainda soluçava, "tome um pouco desse chá". Passado alguns instante sua expressão facial parecia voltar ao normal, "Ah, que mal-estar, desculpem", começou a falar, "eu estava na sala circular (ela se referia a sala que fica no primeiro plano da torre), separava alguns papeis, não sei se em algum momento deva ter cochilado, quando senti bem perto de mim um sussurrar, baixo indefinido de que lugar fosse da sala, mas, tão real parecera que atônita pus-me em pé, foi nesse momento que ouvi com cruel evidencia o choro de Elvira, sai da sala o mais rápido que pude, quando ao passar junto ao patamar, vi, percebi, um vulto relativamente apavorante descendo rapidamente, ouve nesse momento uma confusão em meu espírito, pois, agora já não ouvia mais o choro da criança, fato que me fez ficar ainda mais angustiada, tudo isso se passou muito rápido até eu alcançar a porta semi-aberta do quarto, Elvira, Elvira, quando sorri na minha angustia de vê-la em pezinho no berço, oh, meu Deus, seus olhos abertos de horror, soluçava de medo não que fosse de algum sonho, nem da penumbra, mas, de algo que acabara de ver, o que te assustou minha menina disse pegando-a no colo, aproximei-me da janela, parecia me faltar o ar, ainda restava uma claridade do dia, agora esta tudo bem minha linda, assim, quanto a acalentava em meus braços, ocorreu uma sensação estranha em meus sentidos, como se...é...você estivesse sendo observado um perceber visual de algo te olhando, e que intuitivamente fez com que eu olhasse através do anteparo semi-aberto da janela, ai, vi, nitidamente uma figura de aspecto arabesco com uma cabeça de folha, desproporcional, nesse momento senti o batimento do coração aumentar seguido de um calafrio que desceu até a coluna espinhal e, que provavelmente influenciara a tensão muscular o que me fez sair da casa o mais rápido que pude, ao tatear o caminho, descobria em alguns ângulos a sensação de estar sendo seguida, de estar sendo casada, ainda o efeito dessa neblina absoluta foi uma experiência desafiadora, a superfície em minha volta parecia ter desaparecido, andava o mais depressa que podia, nem sequer ousara em olhar para trás, o que eu tinha tomado por caminho parecia agora, áspero e estreita senda arbúscula, auxiliando os dois braços em segurar Elvira a cada passo parecia existir figuras em atitudes ameaçadoras até, notar com grande susto a parede da casa, oh, meu Deus que alivio".
Esses acontecimentos se sucederam em tempos intercalados, visões, sons, até que no fim da segunda semana daquele dia, Berta voltou em casa com Elvira nos braços, ofegante, disse, "Não volto mais para aquela casa". Eu a conhecia bem para considerar o que era imaginário e real de tudo que estava acontecendo, assegurava-me pela superintendência pessoal de seus atos, a esfera das relações que se davam era de fato constituído por certa relação vivenciada, imagens enigmáticas como vivenciamos nos sonhos, encontrava-se diante de uma espécie de vivencia derradeira, diante da apreensão de um real derradeiro, eu não podia dizer o que ela estava vendo, como num sonho as imagens se descompõem se esvaece, se dissocia nos seu diverso plano, mas, percebia seu estado emocional se alterando, ela dizia que não conseguia dormir mais que duas horas durante a noite, e, quando adormecia os sonhos, as visões, tão angustiantes que lhe fornecia, pensava em ser melhor não dormir, a partir desse dia Berta e Elvira passaram a ficar em minha casa, passei considerar os acontecimentos passados com o curso dos acontecimentos presentes se havia de fato uma co-relação fazendo divergir totalmente os dois casos, nunca fui e nem sou um homem de percepção intelectual apurada, mais o pouco que a natureza me proporcionou fazia-me pensar em algo sustentável uma interrogação sobre coisas concretas nada sobrenatural que me pudesse colocar num singular embaraço, naquela noite dormi na casa dos meus antigos patrões, fazia um frio de rachar, tomei três o quatro copos de vinho, nada de excesso isso era para mim coisa normal sempre que o dia desmaiava, tinha um belo animal, notavelmente grande, um cão todo cinza e de uma sagacidade de espantar, Jacaré, era assim que eu o chamava, ele me acompanhava por toda parte que eu andasse, "vamos lá ver o que esta acontecendo", o vento frio que vinha do sul agitava as folhas das árvores, tornava o começo da noite sem perfis, toca-me ela mesma em sua unidade mística, fazia-me perceber que sou apenas um ser, um ser frágil como as folhas, eu ouço e vejo, penso talvez seja essa a única diferença, portanto, sou levado a ampliar minha investigação, a situação não pode alterar minha sensibilidade prudência em qualquer representação não me fará admitir ações indiferentes ou atribuir um valor sobrenatural ás ações humanas, pois é meu amigo você me dará a certeza do que eu quero conhecer, descobrir, se há algo de origem não humana ou de origem humana vamos descobrir, confio plenamente em seu estimulo extintivo meu amigo, fui falando com o cão se ele me entendia não sei, mas, tinha a impressão que percebia que havia em torno de nos e dentro de nos coisas das quais não me é possível dar precisa conta, materiais ou espirituais, foi só abrir a porta da casa e o cão entrou persuasivo, subimos para a sala circular do primeiro pavimento da torre, andei um pouco pela sala, estava tudo tão quieto, aproximei-me de uma das janelas, olhei a noite lá fora, havia uma escuridão absoluta, estarrecedora que era interrompida por rajadas de um vento de caráter violento mais intermitente, o cão depois de farejar alguns lugares da sala que julgara mais importante, acomodou-se no tapete persa bem sob a luz de turíbulo, seus olhos mantinha-se abertos como em profunda meditação, instalei-me no canapé de jacarandá envolto num couro de búfalo, não que eu desejasse se dissolver logo num sono e, que este fato fosse me privar de algo, mas, minha consciência dava-me a quase certeza de que se houvesse qualquer espécie de tensão dentro ou fora da casa o cão, imitiria um sinal,
assim com essa alternativa sem mediação não sei quanto tempo se passou para que eu adormecer, mas, ao invés de sono meus sentidos parece ter se pulverizado ou se deslocado, visto o pensamento não ter mudado como se o desfalecimento do tempo presente não se ajustasse á razão, a escolha, o porque eu estava ali, aquele sono parecia conservar o mundo presente para mantê-lo à distância, voltava-me para fontes que me mantinha ali, e os fantasmas dos sonhos iam e viam, revelam melhor ainda onde estão incrustados o espaço claro e os objetos observáveis, vozes, visões, a forma de uma imagem, a imagem de uma imagem, procurava nesse sonho onde encontrar o sentido para que caminhava o fausto e o nefasto, perecia meu inconsciente ter estabelecido uma espécie de relação com possíveis sinais do cão, sustentava que não havendo sinais aqueles vários traços que compõe o sonho eram apenas fontes de ilusão de minha existência e, foi assim, apenas essas aparições desses temas que o sonho constituiu aquela noite, quando meus olhos se abriram e clareou o dia, percebi que o cão mantinha-se deitado sobre o tapete, apenas sua posição mudara, na noite anterior deitará voltado para a janela sul, agora, posicionava-se na direção norte da porta de saída, o cão era para mim como já disse, um referencial, fiquei parado alguns instantes ao observá-lo, porque razão se virará para o lado da porta, talvez suas necessidades fisiológicas o estivessem indicando o caminho da saída, ou algo lá fora o mesmo dentro da casa atrairá sua atenção, ou mesmo algo rotineiro o fizera mudar de posição, a segunda consideração pensei ser pouco provável uma vez que qualquer tomada de atitude brusca o faria rosnar, logo, eu ouviria, chamaria minha atenção, foi só me levantar e ele imediatamente se pôs em prontidão, à noite que se seguiu não foi muito diferente da primeira, com um detalhe apenas, demorei-me um pouco mais para deitar, os pensamentos do passado parece ter reintegrado meu estado de vigília, olhava tudo ao meu redor como se fosse a primeira vez que estivesse ali e, que daqueles objetos ao meu redor pudessem me responder o que era real ou imaginário, o que de fato ouve aqui, nessa sala que a marquesa travara um combate mortal com o assassino, foi aqui que uma imagem ou som de algo chamara a atenção de monsegneur marquês, se as imagens de meus desejos pudessem se manifestar com os objetos a minha volta e permitissem, assim, reencontrar imagens apropriadas, com as quais ele possa opinar, ora, mas, era tudo tão quieto, tão inerte como a morte e que a realidade verdadeira tinha apenas uma intensa melancolia e, não havia nenhuma outra medida da normalidade das imagens senão aquela que o mundo imaginário da nossa consciência fornece, de modo algum era meu desígnio, porém, demorar-me sobre ideias de que algo sobrenatural dentro da casa fosse se declarar de forma direta, parece meu espírito revestido de um conduto, onde a economia imaginaria só tem sentido se posso influir nela, na medida que vejo algo numa ordem simbólica , em suma, tinha plena consciência que estava ali esperando por algo e, que isso sei lá o quê que poderia ser, falaria por si mesmo, o cão tomara seu posto com inteira exatidão, o sono foi chegando pouco a pouco, deitei-me, o tempo continuava frio e, quando já aquecido, adormeci, a ação da imaginação durante o sono como na noite anterior não mudará, as imagens interligadas as descrições que se formavam em minha mente caminhavam numa expressão de inquietante exame interior, era como que o sonho me desse uma possibilidade de procurar entender cada objeto cada imagem como um signo de um corpo real mais espelhado, as percepções despertas do desejo e dos movimentos respiratórios ficavam mais intensas, gritos ou uma luz distante misturavam-se vagamente, ás vezes o objeto parecia relacionado com um gesto, outras vezes mostrava-se efetivamente tomado e mostrado, mas, não se manifestava como referente, parecia mais uma expressão de algo, mais o quê: foi assim, até que, meu consciente foi se tornando pouco a pouco letárgico, até se exaurir as representações, concepções, imagens de tudo, quando despertei vi que o cão se encontrava, precisamente, na mesma posição da manhã anterior, ao tempo que eu tinha completado quarenta e oito horas na casa, era exatamente nove e meia, não havia visto nem ouvido nada de anormal ou sobrenatural, só minha imaginação no sonho parecia sustentar artifícios sinalizadores, que revelavam algo, mas, o mundo real não me dava consciência das propriedades reveladoras era como meu pensamento me ensinasse que a existência da consciência confunde-se com a consciência de existir, minha linha de raciocino começou a voltar-se sob a ideia de estados de consciência e características emocionais de Berta, li certa vez num livro de meu antigo professor que existem sentimentos imaginários em que estamos envolvidos o bastante para que sejam vividos, mas não o suficiente para que eles sejam autênticos, o que entendo por processo mental é a expressões das emoções, já o que as produzem, fico em grande perplexidade para interpretar, esse fato como todo comportamento que observava em Berta era algo explicitamente intencional, ou seja, havia algo exterior, nunca a vi agir inconscientemente ou qualquer atitude que se assemelhasse a distúrbios mentais, poder-se-ia ir além procurando um fogo continuo (e cotidiano) de atos conscientes e inconscientes, a principio, achava-me demasiadamente confuso com uma coisa ou outra, mas, tinha a impressão que nas próximas horas teria algum resultado, ao retornar para casa encontrei Berta junto á porta, tinha um olhar de embaraçosa tristeza, conhecia-a o suficiente para perceber que havia acontecido alguma coisa, parei junto a ela, "o que ouve Berta", a inquisição de minhas palavras pareceu libertá-la da relutância interior que se achava, "já tarde da noite, Elvira dormia bem junto a minha cama com uma vela na mão andei até a janela semicircular, percebi que havia alguma coisa do lado de fora da casa e que naquele instante tentava abrir a janela, aterrorizada corri para junto de Elvira, peguei-a nos braços e rompi para fora do quarto, ao transpassar o corredor que ia até o quarto de Florinda vi nitidamente transpor os batentes das janelas da sala um vulto que pelo movimento ia, na mesma direção", nesse ponto começou a chorar, "acalme-se Berta, vamos para dentro", compassivo compartilhando de suas propensões entramos. De toda aquela situação que estava vivenciado, tive como própria experiência a sutileza de examinar a mim mesmo, numa busca interior onde estaria em posição de legitimar a experiência que se forma toda a característica como pessoa, mantinha o controle da situação sem em momento algum subjugá-la, mesmo estando na casa por dois dias e sem presenciar nada de anormal, passei a refletir a constante situação da seguinte forma, o fogo da questão parecia ser Berta e Elvira ou Elvira e Berta ou apenas Elvira, tudo girava em torno desse eixo, não havia ou pelo menos assim se mostrava nada de errado com o espaço físico, ou melhor com a casa o lugar em si, nada que acontecesse na natureza ou decorresse das forças ou dos procedimentos da natureza, e que não poderia ser explicado com base neles, cada vez mais chegava á conclusão que não havia produção imaginaria ou inflação que fixasse, ainda mais qualquer sintoma de desajuste mental com minha irmã. As horas que se seguiram daquele dia ocupei-me em trabalhar por perto da casa, rosei onde era necessário, juntei o cisco, a prudência dizia-me que era melhor ficar por perto, Berta e Elvira estavam na frente da casa, o sol da manhã se tornava ameno ao misturar-se ao ar frio que emanava da mata em pouco tempo a nevoa chegaria como se desenhasse por entre ás árvores como sonhos que assemelham a sonhos de nevoas e árvores, a luz visível que irradiava do sol nos aquecia, fazia-nos sentir realmente vivos, a minha aparência é realidade, o ser da consciência parecia manifestar-se com essa realidade, sentir o calor da luz visível ordinária é sentir a própria vida o calor que nos aquece de um modo verdadeiro e, que tudo que é sentido por nós em nós mesmo não se acha, e, não demorou muito o clima úmido e brumoso começou emanar de dimensões perpendiculares da mata, a nevoa melancólica dava sensações estranhas, tudo ao seu redor tornava-se espectros febris pálidos como fantasmas, sempre tinha hora para chegar, mas sua dissipação era indeterminada, à noite após o jantar nos reunimos em volta da lareira, o frio era mais intenso do que nos anos anteriores, o vento fustigava as paredes da velha casa, Berta se mostrava mais animada, conversávamos a respeito de ajardinamento-paisagístico, lembrava de quando morávamos em São Vicente na casa dos nossos pais, meu pai trabalhava para um comerciante português muito rico casado com uma francesa que tinha um gosto muito especial em desenhar jardins, "você aprendeu muito bem a trabalhar com jardins, tudo aqui parece conservar a beleza original da região adaptando-se ao cenário circundante, a impressão que tudo isso me passa é como se seus patrões estivessem em viagem e, que em breve retornaria para encontrar na prevalência duma bela harmonia a paz e o descanso tão desejado", "a momentos em que duvido da realidade e penso exatamente assim, a cada manhã tenho a sensação que vou encontrá-los pontualmente ás dez horas passeando pelo". jardim", a verdadeira beleza é quando se agrada, deixar feliz o espírito humano". A alegria a ilusão, porém, desvaneceu-se rapidamente como chegara, e a lembro, tão só, para assinalar o dia da última conversação que ali mantive com minha querida irmã, mais tarde, quando todos se emergiam no sono, levantei-me da cama, já havia ouvido o cachorro rosnar uma ou duas vezes, agora, sua incitação se tornara mais cólera, deslizei pelo corredor até a sala, o bicho estava parado junto a porta fomentando para eu abri-la o mais rápido, "calma amigão, vamos ver o que tem lá fora", peguei o arcabuz, certifiquei que estava carregado, abri a porta a porta de uma vez, e o cão laborioso saiu numa investida impetuosa, num instante o perdi de vista, fora da casa não se reconhecia nada além de dois passos a escuridão mais um nevoeiro inebriante, pensei em um archote, era melhor não, me tornaria uma presa fácil, não, a situação me dizia que era melhor eu não ver do que ser visto, caminhei meio que pelo rumo através de um mar de nevoa, não tinha a mínima ideia que direção o cachorro tomara, devo ter andado uns dez passos, parei, avancei mais alguns passos, prestei ouvidos ao latido no recesso do bosque, antes de prosseguir minha consciência dizia-me que aquela situação poderia ser uma maneira de afastar-me da casa, tirar a circunvizinhança visual do protagonista, se eu seguisse poderia ter um resultado satisfatório ou contraditório segui-lo naquela circunstancia parecia-me uma ambiguidade, voltei-me rapidamente para casa. Na manhã, logo que o dia clareou, notei que o cão não havia retornado, a neblina se dissipara um pouco não o bastante para se avistar as copas das árvores, parado onde estava olhei para o eirado, notei pegadas, eram as minhas pegadas da noite anterior, aproximei-me e vi, que até onde havia andado não havia nenhum rastro, vestígio do cachorro o de qualquer outra coisa, o que evidenciava que Jacaré não fora naquela direção, como havia pensado, ao considerar isso como certo, voltei até a porta da casa perplexo, procurava lembrar de alguma imagem, até, afinal a reflexão veio em meu encontro, Berta havia dito que na noite interior alguma coisa tentava abrir a janela de seu quarto, e, ontem ao abrir a porta, mas é claro, o cão só pode ter ido na direção da janela do quarto, uma vez que não havendo rastro na frente da casa, ele seguindo pela varanda pode ter circundado toda a volta da casa sem deixar pista, aproximei-me da janela e notei para minha surpresa que na mesma direção onde se divide o piso do eirado estava as pegadas recentes do cão indicando a direção que tomara, mais ou menos uns quinze passos e se embrenhou mata adentro, prontamente segui tentando manter a linha horizontal das pegadas até sumirem na grossa gamada de folhas, durante alguns minutos, olhei atentamente a vegetação, não havia, naquela direção atalhos ou veredas, o ponto onde estava parado se dava no seguimento exato das pegadas, se ele não mudara de direção entrou exatamente naquele ponto, minha experiência de orientação nas brenhas selvagens indicava que ele não mudara de direção, ao transpor o mato e dar alguns passos adiante tive a certeza que estava no caminho certo, havia pequenos galhos quebrados, avancei ainda mais, até descobrir uma sequência de ramos quebrados, visto estarem quase na altura do meu peito com certeza não foram quebrados por um cachorro, continuei avançar pela mataria de parcialidade hostis, pouco passos adiante encontrei mais galhos quebrados, tinha perícia suficiente para distinguir ou identificar os menores vestígios da passagem de animais, um exame superficial das pegadas de um homem ou um bicho basta-me muita vezes para tirar as deduções mais precisas sobre sua origem, sua direção e o quanto tempo foram produzidas, assim, podia averiguar não só que ali tinha passado um cachorro, como determinar que ele perseguia algo grande e não me dava certeza se do que era, á poucas horas atrás, segui adiante, o terreno ia se inclinando na direção que estava não demoraria muito para alcançar uma senda, o mato menos emaranhado já dava quase para ver o caminho, antes de sair do mato consegui identificar uma folha trincada com manchas de um liquido rubro, os vestígios seguiam pela senda subiam na direção da torre, poderia conceber facilmente que aquele sangue era do cão algo o atingira, mas, mesmo ferido continuara a perseguição, a quantidade de sangue ia aumentando, considerei que algo de mal acontecera, rastreando cada passo, enxerguei a pouca distância, uma coisa misturado ás folhas do caminho ao aproximar-me notei grande quantidade de sangue, "oh, meu Deus, que espírito perverso faria isso", o bicho fora cortado ao meio, o que estava ali era o quarto traseiro do meu cão Jacaré, reconheci-o pela pelagem, indignação era o que eu sentia não entendia a razão de tal crueldade continuei a andar o sangue se estendia caminho acima, mais ou menos uns vinte passos, já se apropínquando da torre, que horrível aparência, encontrei o que sobrará do cão, estava com os olhos abertos, sua expressão era de que morrerá lutando, fechei seus olhos, aquilo me magoara profundamente, sempre fui de um espírito tranquilo de uma temperança que até me surpreendia, mas, aquilo, juro, por tudo sagrado desse mundo que se encontrasse o desgraçado que fizera aquilo, os impulsos primitivos do meu coração não incitariam em estrangulá-lo com as próprias mãos, fiquei ali parado como se esperasse uma resposta, Berta não estava vendo fantasmas, havia algo, algo pernicioso por perto. Na noite daquele dia conversei com Berta sobre os acontecimentos dos últimos dias, reunidos na sala de minha casa, enquanto falava Berta olhava-me a todo instante como se estivesse diante de um espelho tal como sempre fora onde o sujeito pode conseguir revelar a si mesmo muitos elementos de sua fixação imaginaria, podia até dizer que sublinhasse por meio de pintura o meu rosto, achei melhor não dizer nada sobre o que acontecera com o cão a forma como o encontrei, "A propósito não vistes o Jacaré", disse Florinda, "sua comida esta exatamente como a deixei sedo, não o vi em parte alguma", concluiu com estranheza, naquele momento me punha como espectador e reunia pelo pensamento os elementos da situação aos quais meu comportamento se dirigia para dar-lhes um sentido, o menos trágico possível, assustador possível, e, tentei projetar minhas intenções, pois, sabia haver algo de perigoso há nos espreitar, assim, meu pensamento por mais consciente tranquilo que parecera, deixara transparecer uma certa concavidade de preocupação e, Berta que me conhecia no nível da conduta simbólica mais exatamente no nível do traço de palavras, disse com o mais puro realismo, "É melhor partirmos e o mais depressa possível".
Dois dias depois eu Berta e a senhora, partimos para Santos, nos próximos dias uma embarcação zarparia para Europa e faria uma escala em Salvador, procurei avisar ao Visconde de nossa decisão e dos acontecimentos, mas fui informado que estava numa viagem pelo norte do país e demoraria no mínimo uns dois meses para retornar, de tudo que acontecera mais os fatos dos últimos dias, pensei ser essa decisão mais prudente, via tudo aquilo indistintamente e com bastante esforço tentava não acreditar que houvesse uma co-relação com tudo que acontecera nesta casa, e juro-lhes que até hoje não tenho certeza nem de uma coisa nem de outra, o intendente geral de policia retomou as buscas, mas, como antes, nada se encontrava, pouco tempo depois que partiram, encontrei-me com o Visconde de Mauá, relatei-lhe os acontecimentos, que existia algo que não sabia o que era de fato, e pensei ser melhor em não correr nem um risco desnecessário, "mas o que pode ser isso", dizia o Visconde inquisitivo, "o senhor foi prudente em tomar a decisão". Foi essa a razão senhora Elvira, de á temos levado para longe daqui, a decisão foi mais minha do que de Berta, talvez meus motivos fossem mais aparentes do que aqueles vividos por ela.
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Elvira manteve-se pensativa, em diversos momentos chorará seus pensamentos pareciam formarem uma espécie de coesão com os fatos que se apresentavam a sua consciência, as emoções simples, sentimental em virtude do amor pelos pais, seus olhos voltam-se para o retrato dos pais, levanta-se e vai até eles, aproxima-se toca a tela com a ponta dos dedos, as lagrimas correm pela face, Camilo ergue-se, posa a mão no ombro do senhor Diogo Bernardes e diz-lhe "Agradeço por tudo que fez senhor", em seguida vai até Elvira, toca-lhe os braços com ternura, Elvira olhando para o semblante dos pais diz com brandura "Se eu pudesse tocá-los, ao menos tê-los abraçados uma vez sequer, meus pais, meus queridos, agora me sinto mais aliviada, abrace-me Camilo, quero sentir o calor da vida, a lembrança á imaginação só parecem tão frias". O senhor Diogo Bernardes e Florinda se mantiveram ali, contemplando aquele sentimento particular onde a significação humana deixa transparecer seu encanto. Assim, passando aquele momento em que a emoção exalta o espírito e as ideias libertando-se desses breves lapsos de tempo, voltam a sustentar-se com a esperança de uma existência feliz e a alma então, parece sofrer um impulso nos presenteia está na descoberta de que a vida fática do homem, a existência, é um entre-aberto vivo, um desprender incessante.
Felizes, Elvira e Camilo estavam saindo de casa para ver, conhecer toda a particularidade da propriedade Launay que faz um contraste tão majestoso com a natureza, a tarde estava clara, transparente a natureza de Deus apresentava-se em pleno gozo em cada coisa sua presença se manifestava na sua onipotente existência ás azaleias de julho bordavam bem desenvolvidas por um estreito caminho que leva até o jardim principal, a cada passo o jubiloso casal se mostravam enaltecidos, a hera os conduziu até alcançarem o belo jardim, planejado num plano terreno em formas simétricas seu formato dava uma espécie precisa de losango, cercado pela vegetação nativa com árvores frondosas, cedros, canelas, canjeranas, canafistulas, guatambus, manacá-da-serra, ipês e jequitibás, e igualmente um santuário de samambaias, bromélias e orquídeas raras, tudo adornado por pequenos espelhos d'água, bem ao centro projetado com uma precisão incrível um triângulo com ruas ladeadas por azaleias brancas, onde em cada ângulo se via as figuras de Latona, Apolo e Diana todas esculpidas em mármore italiano, não só a importância ornamental mais sobretudo a simbologia que se relaciona à jornada espiritual no mundo material e físico, mudas de sálvias, splendens, sálvias farinácea, maciço de sálvias, hostos, dálias, petúnias, crisântemos e heras de suzana-dos-olhos-negros uma diversificada espécies de flores, em cada ângulo do quadrilátero havia um banco, alguns de pedra outros de madeira todos instalados estrategicamente para qualquer alma se sentir feliz, alguns cobertos com árvores frutíferas, outros com rosas trepadeiras, brinco-de-princesa, um em particular, ladeado por campânulas, gerânios e tuias estava protegido, pelo menos, assim se mostrava, pela figura de Cérbero também esculpida em mármore de carrara. "Que lugar magnífico", disse Elvira olhando a sua volta, "Me sinto como se estivesse num sonho, sinta esse bálsamo, tão pouco o conheço já és meu favorito, olhe aqueles bancos, venha Camilo", radiante, como se flutuasse nas nuvens desliza na direção onde julgava residir a mais pura beleza, "Olhe só para isso, Cérbero, é isso mesmo Camilo", "Sim, admirável, é sem duvida uma obra artística os traços da figura imprimem o valor de um habilidoso escultor", na expressão do rosto, nos gestos o admirável se manifestava em Camilo, conhecedor e frequentador dos mais belos jardins da Europa, observador como um experimentador, dizia que tudo ali se aproximava dos requisitos dos mais nobres castelos dos Países Baixos", além da anuência que os fortalecia com ideias que se mostravam proporcionais aos seus sentidos, a presença elementar de estarem ali, de sentirem, descobrir que aquele pequeno mais grande mundo lhes pertencia e que essa descoberta se tornara objeto de um cultivo especial, dentre as flores que se destacava, Elvira colheu algumas sempre-vivas europeias, e foram caminhando calmamente pelo jardim, o caminho desenrolava-se sobre um piso de pedra por diversas direções, contudo, para entrar ou sair havia quatro acessos todos eles posicionados geometricamente nas direções leste, oeste, norte e sul, seguiram na direção leste que leva até a charneca e para as partes altas da propriedade, o caminho coberto por frondosas árvores as folhas de agosto espalhavam-se pelo chão em tons de vermelho vivo e amarelo-dourado tudo se misturando a um mundo em miniatura não menos fascinante, sapos, borboletas, fungos e cogumelos, sanhaços, sabias salpicava entre as amoras silvestre, esquilos, saguis, mico-leão-dourado tudo em meio a vegetação iluminada pelo sol brilhante da tarde, era como se a natureza abraçasse aquelas almas que com alegria contemplavam o jogo eterno dos moveis átomos, em pouco tempo alcançaram a charneca sombreada bem a frente a capela de pedra, cercada por dois desenvolvidos cedros em sua volta, semeada por flores boca-de-leão, bem ao, lado na direção oeste, separada apenas por um baixo muro circundante no qual há algumas bromélias, três sepulturas, cada uma delas tem apenas para indicar o lugar de seus túmulos uma pedra erguida na cabeceira e um liso bloco de granito aos pés, "É aqui que estão", disse Elvira aproximando-se, "meus pais, meu irmão", lágrimas correm-lhe pelo rosto, "toda essa vida aqui em volta parece dissipar o temor da morte, tudo se mostra unido por um laço indissolúvel". Singela, com um olhar de proliferação indefinido, mas, como que seu espírito estivesse sempre pressuposto aquele momento, finalmente chegara, a longa espera dava-lhe a impressão que o encontro seria mais do que esse sentido de percepção, tão opaco, frio, distante como uma existência mental experimentada nos sonhos, agora, desdobrando-o no seu comprimento, revirando-o, onde a dimensão do sentido aparecia por si mesma e na sua irredutibilidade, a alma parecia flutuar-lhe naquele momento, colocou as flores que trazia, ordenadamente em cada uma das três sepulturas, na última debruçasse o túmulo de sua mãe, Camilo observa-a impassível, e, nesse momento, como se seu sentido fosse chamado, não menos que para reencontrar as fontes vivas de uma resposta no limite extremo de uma experiência alongada, desdobrada, vira-se, seus olhos, deparam-se com a visão insigne imponente, imergindo dentre as grandes árvores a misteriosa torre; majestoso universo esse nosso onde se interliga a ordem da natureza, ai, quando algo que nos parece estranho com a comunicação com outras coisas simultaneamente que a circunda o pensamento descobre que aquilo são "fontes" que precisam sempre de novo ser buscado, descoberto, liberado, como que o salto do olhar definisse a tradução do pensamento, a torre no dimensionamento do horizonte era um mundo paralelo como existisse num lugar sem lugar, muitas vezes aquilo que o homem edifica com sua inteligência não nos são tão claros e distintos como parecem, portanto, nos escapa sua intencionalidade, deixaram a charneca e tomaram o caminho da torre, ambos os sentidos se davam á contemplação á medida que subiam o caminho que corta o bosque, por toda a extensão até se aproximarem da torre , teias de aranha, uma emaranhado de teias suspensas no ar, enlaçam-se por entre as árvores que margeiam o caminho, "Olhe só para essas aranhas", disse Camilo, apontando com a mão urdiduras que entrecruzavam o caminho, "É o caminho das aranhas do qual nos falou o senhor Diogo Bernardes, a maior parte das teias são circulares, é notável", o que chamava a atenção também era o aspecto de certas plantas que evocava a figura de serpentes, cipós e trepadeiras serpentiformes, o conhecido cipó-de-cobra, não demorou muito por essas paragens até surgir, como um gigante petrificado, com altivez e assombroso aspecto a grande torre, circundaram toda extensão da torre e, aparentemente parecia não haver uma entrada, até Camilo descobrir um ressalto de pedras numa das partes da circunferência encoberta pelo mato e perceptível a olhos experimentados, pelo eixo da simetria poderia ser a frente da torre, seguindo esse indicio, seguiram por uma senda que os levaram até uma espécie de entrada subterrânea, tanto mais digno de admiração ao acharem bem abrigado um estreito portão de trilhos embutido em um vão em arco com grossas paredes de pedras, formando um traçado de duas linhas de ângulo reto sob um piso áspero com duas visadas reciprocamente perpendiculares, podia-se sentir assim, uma ventilação corrente de ar do interior da torre com uma evacuação sussurrante, "Que rumor sinistro", disse Elvira toda arrepiada, Camilo forçou o portão e abriu-se para o lado de dentro causando um som estarrecedor, um corredor estreito com paredes de pedra bruta interligava-se ao pavimento inferior, com a mesma circunferência da edificação sendo seu paramento entre a altura e a separação horizontal também toda em pedra, a partir dessas características dimensionais das paredes de sustentação, segue-se sua conclusão até o cimo em vãos de lintel com arco de alvenaria de tijolos a caixa onde se inicia a escada fica bem ao centro, subindo em forma de dois lanços em curva e patamar reto, no instante em que Camilo olhou para aquela escada e acompanhou precisamente a forma em que se estendia para cima, parece ter ficado entre uma espécie de agudez e julgamento, com uma espécie de irresolução nos sentidos, disse, "Estranho", "O que te parece estranho", indagou Elvira, cuja última silaba produziu eco, Camilo fez um gesto de irresolução como se duvidasse da expressão de um dado conteúdo, "Vamos subir", disse, e seus sentidos parecia buscar uma comparação imaginada, uma impressão, sintoma ou indicio, talvez tivesse descoberto uma pegada, mais, que indicações vetoriais seguir, "Lembra-te quando te falei do sonho que tive, aquele lá na ilha no qual havia uma grande escada", "Sim", "É muito estranho, mas não posso negar que a impressão que tenho é que essa escada e a do sonho, sejam absolutamente as mesmas, a extensão, graus, tempo, espaço ou quaisquer outras de sua circunstancias, consiste com a do sonho, o lugar parece exatamente o mesmo, tenho certeza que não são as causas exteriores que me fazem pensar isso, o lugar é fantástico mas, trago reminiscência suficientemente para dar conta do caráter figurativo, ou seja, imaginário, daquilo que se produziu no sonho", "Esse lugar parece ter me causado um sentimento estranho também", disse Elvira como se estivesse sob a forma de um sintoma, "Vamos subindo de vagar", disse Camilo tentando afastar aquela ideia confusa, "Admirável obra de arquitetura, veja essa escada, a proporção ideal entre a altura dos degraus e o valor do passo, a projeção em plano horizontal, permite para a pessoa subir correndo ou descer veja a precisão desses linteis ogivais as juntas das aduelas convergem para o centro das curvas espetacularmente alinhadas, o que mais me impressiona é o porquê dessa edificação, isolada da casa, posicionada como uma sentinela num ponto estratégico, terá sido apenas uma realidade que encarna uma ideia exterior, uma unidade interiorizada que possui um caráter indeterminado e que se manifesta como elemento formativo da mais pura manifestação da alma, ou um precativo do homem o único que conseguiu criar, da ameaça constante da morte, uma vontade de pendurar e, do desejo de continuidade e de imortalidade em todos as suas múltiplas e concebíveis formas por mais que conheçamos a influencia e importância dá técnica humana, por mais que entendemos a sanidade mental e a saúde do homem, essa natureza elementar, a parte essencial de sua subjetividade parece assumir um plano agnóstico, querer saber o sentido disso daquilo, é como se reduzíssemos o objeto a simples "mistério", em cuja interpretação os símbolos usados são todos inadequados, quando o senhor Diogo Bernardes falava da torre, juro que eu pensava que ele esta se referindo a torre da casa". Mesmo tentando manter suas ideias simples e conversando enquanto subiam, um simples movimento do corpo introduzia a mente de Camilo, os traços e as imagens tão fiel daquela visão em comparação aos objetos presentes e, toda vez que olhava para o alto, aquela mesma imobilidade que no sonho travava-lhe os movimentos, senti-a mais real, em pouco tempo alcançaram o primeiro patamar intermediário, o vento que ali vinha numa projeção horizontal atravessando os vãos fazendo assim um som vertiginoso e, que consequentemente permitia boa passagem da claridade exterior. "O que me diz da narrativa do senhor Diogo Bernardes", disse Elvira enquanto acompanhava os sucessivos passos de Camilo, "Coerência, coesão, a narrativa se refere á temporalidade passada com uma precisão quase que real, mesmo que de forma indeterminada, já o processo ordenado que descreve conjuntamente aos elementos e suas relações atingi um grau determinado de complexidade, tudo que ele diz me parece estar de acordo consigo mesmo, contudo, há algumas incertezas que não me convenceu", Camilo procurava facilitar o traçado do equilíbrio sobre os degraus que a mudança de inclinação provocava na linha de abertura, "o senhor Diogo Bernardes produziu três códigos organizados e correlacionou-os em código, ou se passo a passo primeiro correlacionou unidades desorganizadas que só depois se estruturaram em três sistema homólogos, uma opção entre as duas alternativas requereria um estudo do estado psicológico do sujeito em questão, e, pelo que nos foi dito deduz-se que, seu pai tinha vários homens que viviam em absoluta sujeição a ele, entretanto, o senhor Diogo Bernardes parece acreditar ou supor, que se alguém aqui da casa tivesse motivos vamos dizer assim, esse alguém era o Mongongô, estar de acordo com sigo mesmo é algo que se manifesta no discurso do senhor Diogo Bernardes, com efeito, é por intermédio do vocabulário que chegamos muitas das vezes aos estados emocionais do homem, é nessa relação que os fenômenos psíquicos se tornam manifestos, assim, como a enunciação é constituída pelo conjunto dos fatores e dos atos que provocam a produção de um enunciado, o modo de ser representativo, o processo de referencia também se inter-relacionam em sua estrutura, outro processo complementar são os diversos elementos sônicos, podemos utilizar esse processo para resolver ou correlacionar a configuração sônica nos múltiplos elementos portadores de informação no enunciado do senhor Diogo Bernardes, assim, a vários requisitos gramaticais de analise fonêmica que nos auxilia para a extração dos traços distintivos, configurativos e expressivos tudo isso apresenta uma certa orientação comum, estão por assim, dizer, regidos por um laço geral que não se pode contudo formular com precisão, e ainda temos a barreira do tempo dos acontecimentos que não nos auxilia suficientemente como o momento dos acontecimentos". "Admiro seu empenho em analisar esses dois processos mutuamente complementares", disse Elvira se referindo a análise e síntese de Camilo, "Pensas, então que há algo a ser descoberto". "Certamente que há, contentas-te em saber apenas que seus pais foram mortos, não te parece que há de ter um motivo, algo exterior que até hoje não foi descoberto, penso eu, que ainda possa estar lá fora um mal escondido que não conhecemos sua natureza", agora, atingiam o segundo patamar, Camilo observa toda extensão da torre o vento sopra cada vez mais forte, Elvira olhava tudo com sua peculiar tranquilidade pois sabia que a própria luz e evidencia, nunca mais traria seus pais de volta, contudo, admirava o empenho de Camilo. "Veja, estamos acima das árvores, falta muito ainda Camilo", "Estamos quase lá", disse Camilo, olhando para cima e para baixo, considerou que estavam no meio da torre, "Não falta muito, espetacular essa sensação", á medida que subiam, Elvira começou a perceber que existia algo no qual um não sei o quê de uma coisa tirada de outra, onde seu corpo sendo expelido para cima causava-lhe uma sensação de medo e, concluía com clareza sua alma unida ao corpo, daí, experimentava a extensão enxergada e deduzia as diferenças, concordâncias e oposições das coisas. "Oh, Camilo começo a sentir medo, estamos muito alto", disse Elvira, olhando para a direção vertical que abismalmente formava-se no interior da torre, "Olhe para cima, estamos quase chegando, se minhas ideias estiverem certas estamos próximos de descobrir algo importante, segure em minha mão, venha, parece evidente não entendo porque seu pai não tivesse descoberto", "Descoberto o quê", "Como um bom caçador, precisamos nos colocar atentamente em volta desse circulo", "O que queres dizer", "Já te direi". Alcançaram o último patamar, um pavimento lajeado com a mesma dimensão da circunferência da edificação encimada por uma cobertura coniforme, um estranho quarto com janelas de molduras de cerâmica unanimemente conformadas com toda construção da torre, voltado para a direção sul fica um vão retangular formado com um extradorso reto na parte superior com a largura e altura de uma porta, por todos os lados em que se olhe, dá uma ampla espetacular visão de toda dimensão da propriedade, a exuberante vegetação forma um vasto tapete verde que do lado oeste se estende até encontrar-se com a grande represa, moldado também nessa direção pode-se avistar a torre da casa que faz um alinhamento preciso num ângulo perpendicular com a eminente torre. "Observar a natureza aqui de cima é maravilhoso", disse Elvira com um sentimento até então nunca experimentado, "Veja como a face da terra se estende", acrescentou Camilo, "é inegável que o espírito humano encerre na alma um misticismo, pela concepção e pela audácia da construção, isso me parece á cristalização da arquitetura romanesca, a beleza, a força, a teurgia e a ciência encontram aqui sua final e última corporificação, olhe aquelas correntes", indicou os grilhões chumbados fortemente um de cada lado nas platibandas do vão, aproxima-se estende a mão, pega cada uma das argolas, "olhe só para isso, foram abertas quando ainda estavam cerradas, perceba a força que foi usada para entortá-las dessa forma", depois, estica as duas correntes, verificando que são exatamente do mesmo comprimento, consecutivamente as projeta para fora ao mesmo tempo, "eis como deveria ter ficado o corpo de um homem, pendurado sob os horríveis e repugnantes exemplos de crueldade, aqui de cima dá para imaginar, como se pudesse ouvir seus lamentos, mortificar-se, pelo comprimento das correntes uma pessoa apenas não conseguiria içar seu corpo, como então um homem desesperado sofrendo os mais duros flagelos conseguiria tirar da alma uma força excessiva para dobrar essas argolas". "Não creio que essa torre tenha sido construída só para algum fim de crueldade", disse Elvira como que buscasse uma sensação de estranheza no passado, "Eu também acredito que não, contudo, se considerarmos o enunciado do senhor Diogo Bernardes com o que estamos vendo aqui, há suficientemente razões para pensarmos que estamos diante de algo que possui vários sentidos, comparando as argolas pode-se perceber que o homem que estava preso a elas libertou o braço esquerdo primeiro, daí então, com espantosa agilidade conseguiu alça-se a esse vão, provavelmente que pela condição física o tenha impedido de soltar-se tão logo, pode ter ficado aqui por horas até a cólera o ter por sobre-salto, e, tendo por fim livrado-se dos grilhões, usando uma força descomunal ao contrario do que se pensava, procedeu a evasão". A comparação das ideias de Camilo o convenceu que suas premissas, pelo menos, pareciam condizentes, embora parecesse ainda misteriosa se consideradas a um homem que sofrera torturas terríveis, considerando pela ideia intuitiva que certas coisas são possíveis e outras, enfim, necessárias por sua própria natureza, aproximou-se da abertura, encostou seu corpo junto ao vão, estendeu o braço esquerdo alcançando sem muito esforço as pequenas aberturas de uma das janelas, como havia suposto, ai então, fez o mesmo movimento com a perna, apoiando-se a assim sobre o vão da janela, supondo que nessas condições, conseguiria sem maiores dificuldades escalar a torre, descendo ou subindo, "Oh, o que esta fazendo Camilo", descobriu Elvira o risco que corria", sai logo daí", e, no mesmo instante voltou-se com um impulso para o interior da torre, "Percebes o que quis demonstrar-lhe", "Sim, percebo também que se arriscou muito, olhe altura dessa torre", "Pois, bem, a maneira mais provável da evasão do Mongongô foi descer por esses vãos, é possível a qualquer pessoal com certa habilidade atingir o chão, ou escalar da mesma forma, porém, para subir há uma certa dificuldade, visto os vão estarem bem acima do nível do solo, não há outra saída em condições normais que não seja o portão da torre e naquela ocasião seu pai o havia tragado muito bem como nos relatou o senhor Diogo Bernardes, não entendo, porem, como seu pai não descobriu isso, há duas hipóteses, ou ele estava mais interessado com o simples fato do homem ter desaparecido do que a forma de como fugiu, ou sabia que a única maneira de alguém sair da torre se não fosse pelo portão, teria que ser escalando-a, mas, isso no momento da cólera em que descobriu que perdera sua presa, parece que pouco lhe importou, o que me parece mais provável, aqui irrompe uma dúvida, ele se empenhou muito em descobrir se houve um co-participante na fuga, ou seja, se alguém possa ter facilitado o Mongongô a sair da torre, pelo que nos foi dito seu pai não chegou a manifestar qualquer pessoa da casa que ele suspeitasse, mas, era evidente que haveria tal suspeita, ele permaneceu por vários dias investigando tudo ao redor da torre, árvore por árvore, galho por galho, olhava para o alto da torre examinando cuidadosamente cada palmo, surpreendentemente acredito que ele próprio deva ter escalado a torre, para provar para si mesmo que isso era possível, agindo assim, se manteve em silencio sobre essa questão, porque, acreditava que se fala aos olhos bem melhor do que aos ouvidos, se descobríssemos de quem ele suspeitava, mas, enfim, penso que estamos na trajetória certa, e como tudo parece acontecer de forma acidental, a realização do que desejo vai se revelar pouco a pouco". Camilo acreditava que suas conclusões eram seguras suas ideias iam atracando fatos de um mostrar-se a si mesmo, tudo que era condicionado a um limite de ações não era delimitado mais pressuposto, passou a investigar todo espaço físico da propriedade com um método ordenado e interpretação de evidencia empírica, essas categorias de analises lhe davam mais seguranças do que os conceitos dos enunciados relatados pelo senhor Diogo Bernardes, não que fossem desconsiderados, mas via uma necessidade de suplementariedade, visto o tempo dos acontecimentos degenerar de uma certa forma as lembranças, fazendo, assim, que uma simples interrupção de uma fala seguida de uma retomada por outro falante ou de um silencio durável possa dar sempre um signo impreciso, desse modo entendia que, as questões de fato ou a questões de caráter pessoal seguem uma necessidade da utilização de uma ambientação do testemunho do senhor Diogo Bernardes, considerando, portanto, todas as circunstancias que o acompanham, internas ou externas, essa última era como se estivesse fazendo um trabalho de campo numa investigação intensa e minuciosa, em todos os pontos que visitava colhia dados que assumiam um aspecto particular ou concreto, nem que não descobrisse nada de novo, mas, tudo parecia preencher um modo de representação que vinha se encaixar no que ele julgava ser a constituição de fatos ordenados, todas as tardes quando estava com Elvira no jardim, informava-lhe ás conclusões positivas que iam se formando e, claro, sem deixar o afeto e o carinho que compartilhavam, Elvira desde que chegara a casa de seus pais vivia numa espécie de idealismo transcendental, era perceptível que seu mundo interior havia um eu real, verdadeiro principio de uma felicidade absoluta de tudo, contudo, não desviava sua atenção, o empenho virtuoso de Camilo em esclarecer-lhe o que tanto sempre desejou saber, e, dando importância a maior parte da felicidade que a duração do presente realmente mostrava, numa dessas tardes junto ás figuras mitológicas do jardim, enquanto Camilo explicava-lhe a diferença entre denotação e conotação um azulão cantava suavississimamante numa castanheira próxima, Elvira olhava para o espelho d'água como se ali refletisse tudo que estava ouvindo, "Elvira, meu amor, estas me ouvindo", "Ah, ah, sim, tenho algo a lhe dizer", ainda olhava para o espelho d'água, suspira e volta-se com sua beleza tão maravilhosa que não existe palavras para expressá-la, "Estou muito feliz por tudo, pelo seu empenho em esclarecer os fatos, por estamos aqui, pelo amor que tenho por vós e a felicidade de saber que vamos ter um filho em breve", ás últimas palavras tomaram uma forma a unidade natural e antepredicativa que existe no mundo em nossas vidas, Camilo pela sua expressão deva ter sentido algo que é a própria importância do sentimento como característica essencial da existência humana, seu olhar tornou-se lúbrico, aproximou a mão do ventre de Elvira e sorriu, "És, um momento muito feliz, como se tudo que construí encontrasse sua unidade na imagem de uma existência, e, que essa imagem antecipada é a própria felicidade".
A primavera havia chegado, tudo coroado de flores, bromélias e orquídeas espalhavam-se pelo bosque nos mais variados tons, nas margens dos riachos, cachoeiras as flores apresentavam pares de marcas de antonímias, se as línguas são feitas para serem faladas e, a escritura serve somente de suplemento a fala, a natureza é de fato a imagem da sabedoria, mesmo se nos situarmos no ponto mais alto de nossa consciência para em seguida tentarmos representá-la pouco a pouco, não teremos mais do que sensações inertes e fragmentadas, contudo, quando olhamos á em sentido perceptivo ela representa sistemas ideográficos onde cada morfema é constituinte imediato da coisa, tudo nos parece de fato signos icônicos, á medida que o tempo ia passando, Elvira sentia a hora de conceber,
agora já acostumada á nova vida engendrava em seu espírito uma nova relação e referencia, pela suas palavras podíamos perceber que modelara seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, nesse universo continuum de transformação o que a acompanhava inseparavelmente e intocável era seu sentimento, o amor por Camilo, seguia através da vida, recordava seu refugio nas horas solitárias em que seu espírito lutava com a existência, e quando tudo pareceu se resolver como num monólogo os empregados da casa cativados pela nova ama, preparavam a casa para receber uma nova existência, bastava breves palavra para aqueles que conviviam com Elvira percebesse seu relacionamento com a vida, sua visão seu mundo, tudo ao seu redor era família e não classes, tanto os nativos e, em face da sua insuficiência ou da sua deficiência antes de cultura que de capacidade física, tanto os africanos e seus descendentes puros ou misturados com os nativos, cada um para ela possuía seus próprios valores, era a mais pura simpatia, tão espontânea que não parecia haver extremo entre os senhores e escravos, e esse alcance de vivacidade contagia todos os serviçais, permaneciam admirados com a agradável imagem e alegria que a ama lhes passava, procedimento natural que fruía totalmente oposto à metáfora e a ilusão sobre os quais se baseia sobremodo o entretenimento e o prazer de agudez que incidem tão vivamente sobre a fantasia, sendo, em Elvira aceita por todos, porque sua beleza aparece à primeira vista e não necessita de esforço do pensamento para examiná-lo do ponto de vista da verdade ou da razão, quando via que tudo estava de seu gosto, sentava-se na cadeira de balanço da varanda, e, através da brisa fresca da tarde extraia sensações de uma futura mãe acalentadamente acaricia seu ventre, olhava-o, sentido, imaginando como é a concepção de uma vida, a felicidade a nutria, suspira e seu olhar parece perder-se na vista de alguma árvore muito longe, sobre a qual se encontra, Camilo empenhando-se, mais e mais em suas investigações, além do esboço firme da constituição do espaço físico da casa e do relato cristalizado do senhor Diogo Bernardes que formam o esqueleto, além dos dados referentes à vida que circunda toda a propriedade e seu comportamento habitual que são, por assim dizer, a essência, encontrara um arroio de águas cristalinas, pela estreita vereda que descera cortara uma folha de bananeira, dividindo-a em dois ficou com o pedaço menor, dobrou-o numa espécie de concha e bebeu a água fresca como educado na existência andeja do sertanista, depois, ascende um charuto e segue por um atalho que ele mesmo havia aberto, além de explorar toda região que circunda a propriedade, Camilo fazia um relato minucioso da latitude, desenvolvimento, amplitude, clima, tudo era anotado, entendia que se deve estudar além dos atos conspícuos da vida - tais como o receptor que fala, interpreta, ou seja, os fenômenos da consciência, o sujeito relacionando-se com a vida mesmo construindo uma forma de interpolação dentro do mundo dos fenômenos -, devemos considerar também os detalhes e o tom do comportamento da natureza, e não exclusivamente o simples esboço dos acontecimentos, assim, dava a seu espírito um método muito mais judicioso e claro de prosseguir refletindo sobre os atos que o impelia, ou seja, as três formulas equivalentes (o tempo que transcorrera dos acontecimentos, o cenário e conjuntamente o relato do senhor Diogo Bernardes), entendia ainda que, a importância dessa co-relação ia assegurar-lhe um proceder inteligente e de mentalidade aberta superando em plasticidade e vividus um simples relato mesmo sendo estritamente conjuntivo, no primeiro caso o tempo quando se trata de investigar coisas materiais, mesmo considerando o homem do ponto de vista biológico, isto é, em sua estrutura somática, em suas relações com o ambiente, deveria usar reflexões cautelosas para não ir de encontro a erros, no segundo, porém, dava-lhe assegurado á verdade do juízo, uma vez que pouca coisa mudara para seguir o que o entendimento representasse como melhor sem é claro de excluir os fatos imponderáveis da vida real, e, terceiro, por fim, o relato do senhor Diogo Bernardes que dava uma conexão intuitiva formando uma espécie de silogismo, Camilo andou ainda por quase uma hora por uma mata baixa e densa que crescia num emaranhado de plantas entrelaçadas, nessa região que fica mais ao sul da casa, onde quer que estejamos, o caminho é sempre ladeado por duas paredes verdes, que não apresenta variedade alguma, nem permitem que se tenha uma vista mais ampla da superfície terrestre. Mais tarde, sobre a seção longitudinal da laje maciça feita em forma de junção que recobre boa parte da superfície posterior da casa, Camilo e o senhor Diogo Bernardes andavam, conversavam, discernimento, objeções, num determinado ponto pararam; "Essa região tanto para norte como para o sul é constituída de mata e vargem, restinga, encontrei um mapa que com certeza foi usado pelo marquês para chegar até um antigo engenho de ferro situado na Vila de Santo Amaro, me parece por razões suficientes que tinha interesse econômico por esse estabelecimento", "Sim", respondeu o senhor Diogo Bernardes, "comprou várias ferramentas dessa fabrica e me lembro que um dia ele falou que tinha intenção de comprar o engenho e as minas uma vez que os trabalhos não corriam a contento, compareceu perante os camaristas, mas, me parece que a obrigação que lhe fora imposta de dar o ferro produzido à razão de dois mil-réis o quintal, que ele julgava valer o dobro desse preço, o que o motivou a abandonar a ideia", "Se seguirmos por essa reserva de mata que fica ao oeste conseguimos chegar até as minas de ferro", perguntou Camilo, "Certamente que sim, a primeira mina fica a umas duas léguas do rio Pinheiro", "No mapa mostra haver três minas de ferro o senhor se lembra em qual delas o marquês encontrou o Mongongô", "Não, naquele dia que o marquês visitou as minas eu não estava com eles, sei que há duas minas bem próximas uma da outra cerca de meia légua, a outra segue junto ás vargens do rio para o sul mais distante", "Sim...exatamente como mostra o mapa," disse Camilo arrastando as palavras entre as baforadas de seu charuto de Cuba, continuou, "Estava lendo uma edição do jornal da época onde diz que as circunstancias relacionadas com o caso haviam sido cuidadosamente reexaminadas, mesmo ouvindo as testemunhas, sem que chegassem a nenhum resultado satisfatório, por ai percebemos que o que houve aqui por mediante interrogatórios tão superficiais não seria possível descobrir um meio de encontrar um indicio de verdade, mas, se usassem um método mais cuidadoso em suas diligencias o qual devidamente implicava o caso é possível que chegassem a resultados obtidos, através de uma grande exibição de medidas a conclusões mais adequadas, me parece senhor que as buscas de campo se deram nas direções erradas", Entendo perfeitamente onde o senhor quer chegar e concordo plenamente que existe essa possibilidade, o oficial de justiça apesar de ter-se empenhado, ao meu ver não era a pessoa apropriada, experiente para o caso, não dispunha de uma inteligência devidamente educada a circunstâncias, pode ter acertado em alguns pontos, mas errou em outros que eram essenciais, o primeiro, existia que o assassino entrara na casa pela mesma porta que sairá, e que esta fora deixada propositadamente aberta por alguma pessoa da casa, segundo, o rastro de sangue que nos mostrou evidentemente a direção em que o assassino seguira, o arroio que se forma na época das chuvas, estava convicto que o assassino tomara a direção contraria à que corre as águas, ou seja, ele subiu ao invés de descer na direção da represa", "Quais as razões que faz o senhor não acreditar que poderia ser diferente", "Venha comigo", o senhor Diogo Bernardes seguiu para uma estreita escada de quatro degraus, Camilo seguiu-o, supondo que alguma coisa lhe serviria para persuadir que seus exames poderiam estar na direção certa, seguiram, descendo, contornaram as maciças paredes da casa até alcançarem a frente da torre, o senhor Diogo Bernardes parou diante da espessa porta, "Vou entrar agora e destrancar essa porta, veja o que acontece", tão logo dito isso, encaminhou-se pela varanda até entrar na casa, Camilo, permaneceu inalterável, com o olhar fixo na grande porta de jacarandá, alguns minutos depois o senhor Diogo Bernardes exclamou através da grande porta, "Agora vou destrancá-la", e, no mesmo instante, se ouviu o áspero som do trinco e, automaticamente sem fazer qualquer ruído e sem sofrer qualquer impulso, a porta abriu-se, convergindo, implicando seu peso para esquerda, a dimensão externa foi bem considerada que o senhor Diogo Bernardes pode transpô-la tranquilamente sem esbarrá-la, "Naquela noite antes de sair só estavam os patrões na casa,os empregados já haviam se retirado eu mesmo os vi quando saíram, como fazia todas as noites, verificava se todas as portas estavam trancadas só mesmo os patrões poderiam abri-las, ou eu mesmo, pois ficava com uma copia da chave da cozinha, era eu que á abria todas as manhãs para os empregados, o assassino pode ter saído por essa porta, mas, não entrou por aqui, se alguém tivesse deixado o trinco aberto, a porta ficaria exatamente como está agora, o senhor percebe, e consequentemente eu teria visto, o rastro de sangue foi nessa direção, venha senhor", seguiram agora por entre canteiros feito de conchas de mariscos, andaram uns trinta passos, "Foi exatamente aqui", disse o senhor Diogo Bernardes apontando para o chão junto ao declive, "Isso não é um arroio natural, foi construído com a finalidade de proteger a casa das fortes chuvas, são cordões em contorno uma espécie de camaleão distribuído em toda extensão da área casa o espaço vertical e horizontal faz que toda água dessa canalizando-se em direção a represa, nesse ponto senhor que encontramos as últimas nodoas de sangue, naquela noite havia uma correnteza muito forte a vala estava toda tomada pelas águas, "O senhor acredita que quem quer que fosse atravessou esse fosso", disse Camilo com expressão que vinculava um caminho, "Não senhor, não acredito que naquela noite alguém conseguisse atravessar essa vala, seria arrastado, ás perspectivas não nos dá nenhum preenchimento, não me arrisco em afirmar nem uma coisa nem outra, me lembro perfeitamente do som das águas arrastando tudo um barulho assustador do outro lado tanto nessa direção como para baixo e para cima num raio de mil metros não encontramos nenhum sinal de sangue, poderia imaginar algumas situações, mas...", "Prossiga senhor", disse Camilo pensando em existir algo e que esse algo é feito de uma certa maneira, "Cerca de duas semanas após as buscas terem sido encerradas, numa tarde como hoje, estive aqui, esse ponto é para mim efetivo ou possível da direção que o assassino tomará, não sei se vivo ou morto, o regato estava como hoje, seco, desci,e, fui andando por dentro da depressão, seguindo seu curso, um denso emaranhado de galhos, folhas, pequenos troncos, tudo que o curso das águas fazia se acumular, segui seu trajeto, serpenteando pela vegetação entremeada em alguns pontos pelo afloramento de rochas de granito e micaxisto, andei uns duzentos passos com muita dificuldade afastando como já disse, galhos, troncos com espinhos em alguns pontos a matéria orgânica se misturava a água acumulada formando atoleiros, tendo andado uns sento e cinquenta passos, já podia avistar as águas da represa esgueirando-se por entre a vegetação o regato começava a se nivelar ao nível da represa, fazendo, assim, a depressão se tornar alagadiça o solo nas bordas da represa é mais poroso consequentemente a vegetação mais baixa em relação ás partes altas, mais alguns passos na direção norte fica o alpendre de grossas paredes de pedra, dando frente à represa, umas duas semanas antes de ocorrer o incidente com o filho do marquês, o Mongongo havia escavado o tronco de uma canoa, deixou-a, quando terminou ao lado do alpendre, à esquerda, protegida por folhas de palmeira, aproximei-me da entrada, o pátio estava quase tomado pelo mato, depois de olhar tudo dentro do prédio, notei no lado de fora às folhas secas das palmeiras junto à parede, e, a canoa, desaparecera, fiquei parado olhando para onde deveria estar a canoa com estranheza, "mas desde quando...", pensei, não há sinal que tenha sido arrastada nas últimas horas, nos últimos meses estávamos tão ocupados em descobrir uma pista que levasse ao assassino, e parecíamos fadados em geral, a identidade objetiva pertencente sempre ao mero é, o seu desaparecimento foi para mim o caso de uma inclusão, como que uma intenção pudesse ser preenchida em um ato que continha mais do que o necessário para seu preenchimento, o senhor me entende". "Sim, o senhor acredita que o Mongongo possa ter fugido na canoa", disse Camilo no sentido mais comum da palavra". "Evidentemente que não posso afirmar, mas, não se exclui a possibilidade uma vez que só eu e ele sabíamos onde ela estava". Embora o predicado das palavras do senhor Diogo Bernardes desse uma assertiva á interrogativa, faltava-lhe um complemento, uma vez que, era desconhecido o ato atemporal, ou seja, o tempo exato em que a canoa sumira, a tudo Camilo assimilava como categorias inconscientes que ordenavam seu universo investigativo, uma totalidade integrada de significações a coleta e ordenação das informações permitiam o procedimento analítico consciente da investigação da realidade, essas ideias iam-lhe fornecendo uma luz acerca da natureza do ocorrido e, julgara que se estivessem sidas consideradas com um pouco de mais atenção, por meio das quais as ordens de coisas são distinguidas aos acontecimentos que precederam ao crime, havia concordâncias significativas, de sorte que, comparadas a termos concreto, mostrariam uma direção certa a seguir, muito embora houvesse incertezas uma antinomia, havia fatos pré-existentes que davam possibilidades que o mero fato de que a imaginação viesse a ser substituída por orientações seguras, como que uma essência pairasse no ar, e, fosse quase palpável, "Seguindo a restinga o senhor disse que há possibilidades de chegar até as minas de ferro, e se navegássemos pela represa conseguiríamos também alcançá-las", reiterou Camilo numa expressa comparativa de igualdade, "Sim, seguindo o mato a beira da represa levaríamos de três a quatro dias para alcançar a primeira mina, navegando dois dias se a nevoa não interferisse, nos meses de maio até fins de setembro os vapores aquoso e denso é muito intenso nessa região, a falta de clareza fica reduzida a menos de dois metros, a obscuridade com certeza nos impediria de prosseguir", concluiu a senhor Diogo Bernardes com uma mera impressão de compreender a intenção de Camilo. "Venha senhor, quero mostrar-lhe algo", disse Camilo olhando para o cume da grande torre que sobressaia por entre ás árvores. Havia um estado consciente que Camilo via projetar-se, a adequação dos fatos mais a realidade presente ia-lhe fornecendo elementos necessários como se constrói uma casa com pedras e imaginava uma química mental que faz os materiais se fundirem em um todo compacto, procurava constantes que não fossem extra-perceptiveis, assim, como numa regra S N → D + S, os símbolos D S são tratados como constantes; por exemplo, em dois enunciados que só variam em certos pontos, é constituído pelas partes do enunciados que não mudam: o assassino bebeu água e o assassino viu água, diremos que as constantes são assassino e água ( se nos ativermos à analise interpretativa o sentido seria; o assassino fora arrastado pela correnteza da vala e bebeu muita água; ver água é o momento em que seu corpo é jogado na represa, a consequência desta maneira de ver, ia-se tornando uma estrutura que Camilo julgara se definir por uma série de relações entre os elementos, embora, alguns construídos indefinidamente, mas, pode-se dizer que existe auto-regulação, o senhor Diogo Bernardes até que podia captar uma fração desse conjunto de dados, contudo, a inferência que Camilo seguia elevava-se a um grau determinado de complexidade que designar a totalidade era para ele mais que um desafio, era um dever.
"É uma vista muito bonita aqui de cima", disse Camilo, contemplando a serena atmosfera daquele cimo circular que a brisa suave se esgarça e se dissolve em pensamentos, "Senhor Diogo Bernardes sabe, ou tem ideia, a razão que levara o marquês a edificar essa torre", "Não sei senhor se havia um só objetivo ou vários outros alheios ao tempo e a qualquer módulo de compreensão", enquanto o senhor Diogo Bernardes falava, as lembranças do passado dava-lhe uma justa posição, os modos impressos em seu semblante transpareciam o quanto tudo aquilo havia atingido sua alma, continuou, "muitas vezes o via aqui mesmo onde o senhor está agora, olhava para o firmamento como se estivesse tendo uma sublime visão, parecia estudando os liames que se mantêm unidos à natureza, quais eram, pois, essas coisas a terra o céu os astros e, todas as outras coisas que percebia, não sei, às vezes, sua contemplação se mostrava enganadora e, concebia-me mui claramente se tratar de uma incansável vigília, embora, não a compreendia de modo algum", Camilo avançou para a borda do vão, lançando, pois, a vista para toda extremidade da torre, "Senhor Diogo Bernardes como o senhor acredita que o Mongongô saiu da torre", "Admito que sumiu, se despencou daqui ou se alguma águia celeste o levou não sei senhor..."respondeu o senhor Diogo Bernardes olhando para as argolas de ferro, logo, volta-se para Camilo e, não o vendo mais, sobressalta-se, "senhor...senhor", com uma expressão equivocada, aproxima-se da borda da torre julgando a queda evidente de Camilo, estende os olhos com pasmo para baixo e, nada vendo que indicasse sua suposição fica ainda mais abismado. "Procuras por mim senhor", pronunciou em voz alta Camilo que se achava suspenso na parte externa da torre, "Agora veja o senhor mesmo como é possível descer daqui sem usar as escadas", o senhor Diogo Bernardes só pode responder por meio de um olhar, e, admirado lançou outro olhar inopinado que parecera despertar ainda mais a sagacidade de Camilo, e com movimentos ágeis deliberou a descer manejando as mãos e pés sobre os vão da torre, "Nos encontramos lá em baixo senhor úhum..." ; "Vá com cuidado senhor", bradou o senhor Diogo Bernardes vendo o corpo de Camilo deslizando por entre os vão da torre, "se eu não o conhecesse diria que o senhor é louco", e tomando um assentimento imediato o senhor Diogo Bernardes sinalizou para o céu como se as coisas que excedem sua compreensão fossem de uma certa forma, elucidar-lhe outras ainda mais complicadas, desceu apresado as escadas. Ao atravessar o portão da torre, ora olhava que seguia, ora olhava para o alto da torre, assegurando-se que Camilo ainda não havia descido, com uma expressão de consideração procurava o melhor ângulo e depois de ter avistado-o, que gradativamente já passara do meio da torre, ficou a olhá-lo, cada vez mais fixamente, "Meu Deus, como não havia pensado nisso", disse para si com voz entrecortada, Camilo não precisou mais do que dois minutos até alcançar a última seção dos vão, olha para baixo considerando a altura em que se encontrava, e percebendo que não ultrapassava o tamanho de um homem alto, fez um movimento dobrando o corpo até assumir uma postura considerada para dar o bote, então, com um salto livre, caiu, em pé ao lado do senhor Diogo Bernardes, "Muito bem", aplaudiu o senhor Diogo Bernardes vendo Camilo expungir a roupa, "valha me Deus, confesso que nunca imaginara que isso seria possível", e sob essa estimulante influencia que cada vez mais parecia elucidar os juízos Camilo disse, "Senhor, agora vamos ver a outra parte, e vejamos então se a combinação engendra algo mais, não pode haver outra maneira que o Mongongo possa ter deixado a torre", o senhor Diogo Bernardes fez um sinal de assentimento igual a uma raposa quando fareja um ninho com ovos repletos e suculentos. Durante o caminho, observavam as inúmeras azinhagas sombrias e atalhos apartados que entrecortavam o caminho como a conversação versasse sobre uma suposta direção que o Mongongo havia tomado logo após sair da torre, Camilo patenteava que um homem que conhecesse tão bem a floresta não haveria de errar volteando ora para um lado, ora para outro nem menos ainda deter-se num sítio, mas, caminhar sempre o mais reto possível para uma mesma direção e não mudá-lo por fracas razões, mesmo que só o acaso talvez haja determinado sua escolha, e como suas ações não pudesse ter qualquer delonga é natural que devesse seguir para o mais longe possível, mesmo que ainda num estado bem debilitado não se camuflasse pelos caminhos mais árduos, em pouco tempo acercaram-se da parte de trás da casa, Camilo olhou para toda a dimensão da torre, era fácil de perceber pela sua fisionomia a extensão da compreensão que o entendimento mostrava-lhe e, servia-lhe para persuadir que corretamente esse meio adequado tinha uma proporção e se ajustava á demonstrações precedentes, aproximam-se ainda mais, "Pois bem, cabe-nos agora, tratar da forma que o assassino entrou na casa", declarou Camilo olhando expressivo para a torre, "Considerando se tratar de um ser pensante que embora não nos dê uma razão clara e distinta acondicionada a suas ideias, esse ser sobe mui apropriadamente como penetrar pela parte do fogo que menos queima", "Não entendo o que queres dizer", disse o senhor Diogo Bernardes. "Parece minhas palavras confusas e obscuras, esforçar-me-ei para ser bem claro senhor, o que quero dizer-lhe é que homem algum pode perceber pela vista o que está fora do seu campo visual, mas pode olhar uma coisa diretamente sem percebê-la, se observar bem nitidamente o lume de uma vela perceberas que ele é dividido em três partes; a primeira de baixo para cima é formada por uma tonalidade azul esfogueada, segue-se a segunda numa tonalidade lívida amarelada translúcida e, por fim, á última que constitui o cimo da chama, tem um fulgor amarelo bem mais denso das que das partes precedentes, e se observar ainda mais aplicadamente verá com nitidez, um delgado invólucro de tonalidade celeste que abrange toda a extensão da chama". "Confesso senhor, que nunca percebi esses pormenores, a, ainda não o entendo". "Se pegarmos, um fino graveto, e, verticalmente aproximarmos bem vagarosamente de cada uma dessas partes da chama e, não oscilando nem para um lado nem para outro, verás com uma necessária atenção que a extremidade do graveto tem uma combustão mais rápida e sensível na primeira e na terceira parte da chama, portanto, senhor, notaria que essa segunda parte que é o meio da chama, é necessariamente a mais branda, enfim, o que quero dizer com isso é que o assassino, ao penetrar na casa, ele conhecia exatamente o ponto mais vulnerável e de menor resistência, o senhor entende agora". "Sim", concordou o senhor Diogo Bernardes, como se agora, com certa dificuldade, avistasse uma ponte até então encoberta por densa mata. "Muito bem senhor, sejamos agora bem objetivo, prosseguiu Camilo, apontando para uma glicínia que havia crescido bem junto a uma das colunas da torre, "Vê aquela trepadeira, pela densidade de sua haste parece estar ali á muito tempo senhor". "Se dúvida", concordou o senhor Diogo Bernardes, com um olhar conceptivo, "Tem quase a mesma idade da casa". "Como eu havia pensado". O que Camilo considera era que esse era uma meio possível a qualquer pessoa dotada de seus membros perfeitos atingir o topo da torre, e, penetrar em seus aposentos, a haste principal é rígida, mesmo considerando-a vinte anos atrás e, pelo arranjo que faz em volta do cimo pode-se no presente caso calcular toda a sua fase inicial de crescimento, é provável que o oficial de justiça, como Camilo, tenha examinado essa parte da casa, porém, não o fez com certa propriedade, a esse detalhe no sentido de sua altura, como se supõe que tenha feito, não percebeu a sua verdadeira possibilidade, ou de qualquer modo, deixou de considerá-la devidamente, e, tendo-se convencido de que a entrada não poderia ter sido efetuada por esse lado, o oficial de justiça, naturalmente, realizara nesse ponto um exame bastante ligeiro, para Camilo considerando de maneira cuidadosa o cenário mais a narrativa do senhor Diogo Bernardes, ficara uma possibilidade evidente de sua suposição estar certa. As objeções de Camilo se contradiziam com as afirmações que o marquês havia sido morto no mesmo aposento onde foi encontrado o corpo da marquesa, seu propósito agora, era comparar as condições em que o corpo do marquês fora encontrado e, não julgou, a possibilidade remota do assassino remover o corpo para outro aposento a fim de esquartejá-lo, logo o teria feito ali mesmo. "Senhor Diogo Bernardes, observe como é possível uma pessoa escalar a torre da casa, subindo por essa trepadeira, e, a fim de concluirmos o que penso ser o meio pelo qual se deu o assalto, pois, vou pedir-lhe que tão logo entre para dentro da torre, siga o senhor para os cômodos da casa e, vá para o mesmo aposento em que o senhor disse ter visto o marquês pela última vez, e, quando lá estiver, sente-se calmamente na mesma poltrona em que o viu naquela tarde, de fato, vamos tentar conceber os momentos que se antecederam ao crime, mantenha-se sentado e, então, quando ouvir algo como um som agudo e singular, deves atribuir a atenção necessária e consequentemente sem se ocupar com mais nada, vá a seu encontro, o senhor me entendeu perfeitamente". "Sim senhor". No extremo superior da laje em que estavam, Camilo não precisou muito passos para alcançar a hera e o musgo que se enlaçavam às grossas colunas da torre, e, agarrando-se com firmeza as duas mãos à haste da trepadeira, bastou-lhe um impulso projetando seu corpo para cima, assim, firmando os pés de encontro as paredes, começa a escalar a torre. Naquela tarde amena de março, abrandado pelo vento sul que agitava mansamente a vasta folhagem do bosque, o senhor Diogo Bernardes como um espectador imparcial contemplava a intrepidez de um homem ilustre, cujo o caráter radicalmente voltado para o que se apresentava obscuro e confuso, que deliberando com uma maneira precisa de raciocinar, organizava uma coesão perfeita entre o corpo a e alma para obter uma ideia clara e distinta do que julgava obscuro até então, e, que o conduziria a vértice de algo seguro dos acontecimentos passados, assim, ia subindo, em alguns pontos encontrava certa dificuldade em se desviar dos galhos que se misturavam a uma outra planta com espinhos, após uma pausa, olha para o alto, considerando faltar muito pouco, retoma os movimentos com extrema agilidade e, não bastou mais que alguns instante até alcançar a extremidade onde a haste da trepadeira circula toda a extremidade da torre, logo, firma uma das mãos no parapeito e, com um impulso preciso, arremessou-se para o interior do aposento. Foi tão absorvente o pasmo do senhor Diogo Bernardes e tão grande sua perplexidade, que poderia ter ficado na mesma posição, até que Camilo voltasse, se não fosse seus sentidos redirecionar-lhe as faculdades representativas que fora designado, então imediatamente , dirigiu-se até a entrada casa, passou pela varanda, fez uma observância de assentimento para Elvira que estava na rede e, dirigiu-se para o interior da casa com uma fisionomia que expressava ansiosa curiosidade, atravessou portas e salas, subiu para o aposento que fora designado, num instante parecia-lhe as recordações trazer-lhe de volta aquela noite como se cada objeto, cada angulo fossem significações expressivas de algo terrível que iria encontrar, era tão nítido aquele espanto, nesse momento para, olha para a janela , e temporalidade da presença é a mesma daquela noite, raios, trovões , os clarões dos relampados seu corpo molhado uma origem existencial que parece nunca ter acabado, a única diferença agora era que seu consciente tinha uma distinção do nexo intratemporal, quando olha para a janela a representação que tinha era aquela noite terrível, ao voltar- se para qualquer ângulo do aposento era o presente ocupado por algo que não entendia ao certo a similitude do silêncio de agora e a de outrora era associada apenas a mudança do dia para noite e dos fenômenos naturais da tempestade, tudo mais era silencio os passos do senhor Diogo Bernardes o trouce de volta para a realidade, sentou-se concernente na poltrona, ai, sim pode perceber, um som agudo, embora débil em sua propagação, contudo, era perfeitamente nítido da onde provinha, o piso superior, sentiu um arrepio subir-lhe pelo corpo até espalhar-se pela base da cabeça, era como se algo se cravasse em algum objeto duro, em intervalos relativamente pequenos, voltava-se a repetir, insistentemente, como denotasse um chamado....venha....venha...venha....impressionante, o senhor Diogo Bernardes se fixou em sua direção, e, mesmo sabendo se tratar da manifestação de Camilo, aquele som tinha uma acústica assustadora, seus sentidos pareciam atraídos como uma íman ao se aproximar do ferro, ao chegar junto a escada o som inalterável era ainda mais nítido, foi subindo, procurando com o olhar a origem do som, não deveria estar muito distante agora e, foi o que constatou ao abrir a tampa do alçapão, ao passar de uma escada a outra, o sinistro som ficara ainda mais real, e, se não fosse o ângulo em que se encontra quase que dava para descobri-lo, assim, excedendo-se mais um pouco para a escada superior, e avançando mais alguns degraus, até por fim, avistar nitidamente bem a sua frente, no patamar de chegada, com uma expressão de espanto, um gládio, movimentando-se fantasmagoricamente, subindo e descendo num movimento precisamente retilíneo, de forma que sua extremidade aguçada toda vez ao jogar-se ao centro do patamar, crava-se, assustadoramente, o que de fato resultava aquele som, e tão bem cronometrado com as leis gravitacionais, que ao se mover era a mais pura representação de um pictograma egocêntrico, o senhor Diogo Bernardes, manteve-se paralisado, movia apenas o olhar, fixo, no indefectível objeto, "Senhor Camilo", bradou, algo perturbado, mas fingindo não dar importância ao caso, "Senhor", tornou, sem nenhuma resposta, enquanto o gládio ainda extraordinariamente se movimentava, uma espécie de interjeição manteve a alma do senhor Diogo Bernardes suspensa, sua expressão era como se refletisse algo antetemporal, até, que o objeto, parou, repentinamente cravando-se no centro do patamar e, trousse de volta o senhor Diogo Bernardes, não sei se com mais curiosidade ou espanto, avançou, aproximando-se do misterioso objeto, admirado, olha-o com atenção e, não vendo nada que pudesse subtrair a forma com que aquilo se movia, e, teve um sobressalto ainda maior, quando uma mão tocou-lhe por trás no ombro.... "Por Deus", articulou, virando-se e, suspirou arfante ao ver Camilo, "Oh...o senhor...como...", a última articulação consonântica parou com uma expressão enfática, "Desculpe-me, senhor se o assustei", disse Camilo, "essa demonstração foi necessária e importante, através dela percebemos como o assassino atraiu sua vítima até aqui, o ângulo em que o senhor se encontra agora, era o mesmo ou quase o mesmo em que o marquês estava ao ser atingido com o primeiro golpe, naquela noite não havia nenhuma iluminação nesse aposento, um fato proposital, ou simplesmente acidental, mas, mesmo em quaisquer situação, no ponto onde eu me encontrava quando o senhor entrou, eu como o assassino seriamos imperceptíveis, a forma pentagonal do aposento e, sendo bastante espaçoso, a claridade na face sul do pentágono é prejudicada pela escada que se prolonga para o andar superior, veja o senhor mesmo, o senhor está me vendo agora", disse Camilo e afastando para a face sul, e, tão logo se afastou, tornou a repisar o mesmo espetáculo, o gládio subia e descia ainda mais apavorante, o senhor Diogo Bernardes circunvolveu os olhos, mas sem aquele receio anterior, agora, parece ter assumido uma curiosidade possessiva, com o se compreendesse por meio da imaginação, embora, pensava ser aquilo muito estranho e, considerando mais ponderadamente, aproximou-se, até descobrir a maneira que Camilo manejava aquela ação, pois, que havia uma fina linha de pesca, quase que invisível sua distinção a uma determinada distancia, "Incrível", balbuciou o senhor Diogo Bernardes, até o presente momento Camilo fora capaz de bem deliberar e, dotado de um discernimento nobilitante, descobriu através de provas evidente, as ações referentes a uma contraprova, tudo o mais que faltara nas investigações passadas, e, contundentes seriam ainda mais suas investigações se tivesse chegado horas depois dos crimes, "Efetivamente, senhor Diogo Bernardes", disse Camilo, dirigindo-se para o centro do patamar, com a linha presa a mão, "os princípios das ações que praticamos estão na finalidade a qual elas visam, mas pessoas desgastadas pela imprudência ou pela irreflexão fracassam inteiramente quando se trata de discernir qualquer destes princípios básicos, perceba esse pequeno orifício aqui, bem junto ao gládio cravado sobre o piso de peroba", Camilo, abaixando-se e, com uma das mãos puxou o gládio, enquanto que com a outra mão patenteou com o indicador, envolvendo, cuidadosa demonstração como a extremidade daquele objeto pontiagudo agasalhava-se perfeitamente no orifício, de modo a deduzir que aquela pequena abertura já existia havia muito tempo, "E como é claro por si só que isso indica", prosseguiu Camilo, levantando e, apontando triunfante para uma viga de suporte que, pela sua posição perpendicular coincidia ao alinhamento exato e grau de ação do gládio, "e por conseguinte, aquele grampo preso a viga, serve de apoio para a linha, perfeitamente de acordo com a necessidade, o senhor Diogo Bernardes olhou para o objeto indicado, deforma curiosa, ele mesmo confirmou com as próprias mãos a ação-resposta, olhou para Camilo com concordância. "Pois, se para serem assim", continuou Camilo, "eu mesmo poderia os ter arranjado para manipular a ação, contudo, acrescentando-lhes uma observação mais aplicada, percebe-se seguramente o tempo que esses objetos estão ai, as primeiras comparações partiram através das letras escritas a ponta de faca", afirmou apontando para o penúltimo degrau da escada, "por semelhante motivo, passei a examinar atentamente todo o piso superior, assim, consequentemente sem nenhuma dificuldade, cheguei até esse orifício, dai, então, foi só mais um passo para constatar o encadeamento das coisas, preso ao grampo havia uma linha de pesca, dando a tudo uma conexão lógica e aplicando um pouco mais o método, finalmente cheguei a uma causa determinante, embora, pudesse revelar uma infinidade de coisas contingentes, mas não que pudesse resultar tão claramente como gládio que ornava a parede, e mais denotativo ainda, a linha presa à sua extremidade, como uma expressão perfeita do encadeamento necessário ao que liga uns aos outros os teoremas da geometria". "Indubitavelmente toda essa ação deve ser atribuída a uma mente habilidosa", constatou o senhor Diogo Bernardes. "Temos certeza que sim", disse Camilo, "embora não tenha se preocupado em deixar as pistas evidentes, mas, esse detalhe para ele, o assassino não faria importância alguma, é bem manifesto que seu intento era matar o marques e, a morte da marquesa parece ter sido puramente acidental, ou seja, ela entrou em seu caminho, e, pouco lhe importou o que ficaria para trás, como se isso fosse a coisa mais importante de sua existência, suas razões emotivas, mais a habilidade que empregou para pôr em prática seu intento, nós dá a certeza de se tratar de uma criatura de ações e características ordenadas, metódica, paciente como um leão ao avistar sua presa, elementar em atrai-la, dotado de um hábito ou inclinação natural, ousado e tem uma espécie de coragem que dispõe a alma à execução ordenada". "Eu sempre pensei, senhor Camilo, disse o senhor Diogo Bernardes com ponderação, "que os argumentos utilizados pelo oficial de justiça tinham uma certa semelhança entre o irreal e o real, não precisava ser um homem com as vossas qualidades para perceber isso, eu sempre contestei quanto a enunciação que o marques havia sido morto lá embaixo, sua conclusão não passara de uma hipótese puramente aparente, o marques era um homem de extrema argucia, diria ser quase impossível que fosse surpreendido como o oficial de justiça afirmara, penso ainda, que ao descobrir que estava sendo atraído até aqui, como um cão raivoso imitia saliva ao ver a comida, de modo que tenho ainda minhas dúvidas que foi realmente o marques que recebeu o primeiro golpe, ele era muito astuto para ficar de gosta para um perigo eminente". "Concordo com o senhor", ponderou Camilo, "A certas coisas que nunca saberemos ao certo, não descarto a possibilidade de terem entrado em combate antes de qualquer desfecho e, confesso senhor, haver uma probabilidade grande entre aquele que fugiu da torre e o que praticou o crime, se usássemos a compreensão, certamente que chegaríamos a um acordo bastante equilibrado sobre os meios de fuga que o Mongongo usou para fugir da torre, e aquele em que o assassino aplicou para penetrar na casa, e, se considerarmos ainda os motivos pessoais, a voluntariedade preencheria todas as nossas deduções, em virtude desse princípio não me é dado absolutamente o direito de recorrer à imaginação, pois, tudo que compreendemos por esse meio será excluído pela dúvida, e, até aqui, nossas considerações e demonstrações foram, como acreditamos compreender, mais distintamente fundidas em fatos concretos, talvez, senhor, nossas investigações terminem aqui, eis que insensivelmente cheguei aonde queria, já que as coisas presentemente conhecidas por nós, propriamente falando, foram concebidas pelos corpos e pela faculdade de entender em nós existente e não pela imaginação e, reconheço com evidencia que prosseguir adiante é trilhar árduos caminhos, onde o tempo decorrido e a constante transformação da natureza desfazer-se-ia em objeções que tornaria nossas conclusões caducas. Amanhã, vamos assar um cabrito, relaxar um pouco, conversar sobre outros assuntos mais agradáveis". Ao finalizar, Camilo vai até a abertura numa das extremidades da torre, onde se deteve e comtempla, com o semblante muito calmo, a escuridão que se derramava num espaço de território que ele julgava ocultar a concepção de uma causa.
XI
A primavera chegara, a paisagem era a mais exuberante, viçosos tons da natureza se fundiam por todos os lados, maciços de flores produziam uma inflorescência simultânea, ao redor da casa as lamelas se destacavam com tons púrpura, branco e roxo, abelhas solitárias zuniam sobre as muito perfumadas flores brancas com densas mácula amarelas, salpicadas de marrom avermelhado, canários da- terra estralavam ao redor da casa, o condizente som da natureza misturava-se a um pleno sol que rompia a nevoa da manhã, o orvalho transparecia sobre a relva, a não ser nos lugares de sombras profundas onde as árvores de cachos dourados agrupavam-se as inúmeras folhagens, também atraentes e decorativas cuja existência persiste através das estações formando pequenas e graciosas moitas eretas, o ribeiro descia em cascata rumorejando por entre as pedras e serpejava à sombra das bananeiras, Camilo, na varanda da casa, sentado numa velha poltrona em estilo Luis XV, sentia o emanar desse doce arborescer, a uniformidade e simplicidade de seu caráter permitia intercepta-lo facilmente, suas lembranças enaltecia-lhe o espírito, incitando a virtude e alentando a alma a seguir determinante, outrossim, seus olhos demasiado profundo contemplava a natureza com uma conformidade e dava-lhe uma coisa como é em si, buscava essa justificativa de um princípio, não importando que fosse interior, mas que fosse necessário assim entre eles haveria alguma conexão, ou sequência de um por outro, o que ele pensava ser o princípio, e, via em tudo isso um grau de perfeição ao conceito da existência da natureza, pensava que se houvesse, portanto um fim visado em tudo que fazemos, este são os bens atingíveis pela atividade, e a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, quando se descobre que fazemos parte dessa natureza.
Por estar com uma pequena indisposição, essas que antecedem o momento da concepção, Elvira não descera para tomar o café, entrementes, deitada em sua suntuosa cama de lençóis de seda, sentia uma esperança e essa dava-lhe a disposição da alma em persuadir de que adviria o que tanto desejava na qual causava um movimento particular do espirito, destarte, esse aprazimento que sempre trazia consigo e a virtude que foi sempre hábito de sua alma, dava-lhe a tranquilidade e o descanso da consciência, Camilo propriamente sentindo o desejo de que aconteça o melhor bem possível, ordenou a um criado que fosse até a vila ver um médico, e, que pela circunstância, viesse o mais rápido possível, depois olhou para a casa com satisfação toda a aparência que se via dava-lhe uma definida aproximação, a clareza e imponência de sua arquitetura culminara como os corpos que têm um lugar distinto junto a natureza, perfeitamente constitui-se, tal como vemos, nenhuma intenção é necessária para explicar sua edificação, contemplativo, encaminhou-se até a cocheira, ao transpor a cancela, avistou logo o senhor Diogo Bernardes, amontoando os fardos de feno, com seu chapéu de abas largas, apresentava uma série constante de movimentos sem que se preocupasse com alguma causa ou pretexto discernível a sua volta, Camilo foi se aproximando, sentido o aroma suave e penetrante do feno, logo o odor da cavalariça que misturava-se as centenas de canteiros de flores de íris, que ao redor impregnava todo o ar, cedros de um verde escuro, cintilavam o orvalho matutino, como pedras preciosas em sua filiforme folhagem, os pássaros cantava como se cada gota luzente fossem para eles uma efluência do ser onipotente, Camilo sentiu essa atmosfera com um devaneio encantador, "Como é bom sentir o cheiro da cocheira, que bela manhã senhor Diogo Bernardes", saudou suspirando ao se aproximar da abóbada onde se encontrava o senhor Diogo Bernardes, "Bom dia senhor", respondeu o senhor Diogo Bernardes, "Pelo visto temos poucos animais por aqui", indagou olhando para dentro da cocheira, "Nada mais do que nossas necessidades até então, senhor, uma parelha de cavalos, uma égua, uma mula e essa vaca de leite", respondeu o senhor Diogo Bernardes, no aprisco uma caracu ruminava absorta, o senhor Diogo Bernardes, avançou e começou expondo expressivamente a rusticidade da raça, "É um gado que se adaptou muito bem ao nosso clima, forçosamente deixei um belo animal na Bahia, tenho a intenção de comprar outro por aqui, São Paulo tem fama de ter os melhores animais da colônia". "Sim", considerou o senhor Diogo Bernardes, "todas as segunda-feira pela manhã temos uma feira de animais em São Bernardo, na próxima, agora, se o senhor desejar podemos ir lá". "Certamente que iremos", respondeu Camilo. O senhor Diogo Bernardes, prestativo e com a energia que caracteriza não só seus atos de um excelente empregado, mas, sobretudo, suas ações particulares desse grande homem, conduziu Camilo até o prado onde os animais ficam, explicava para Camilo até onde ia a extensão do terreno, pois, o marques sempre ocupando-se em considerar os limites que lhe eram prescritos pela natureza, nunca avançou mais do que um espaço necessários para os animais correrem soltos felizes como qualquer outro ser.
Á noite, às vinte e uma horas e trinta minutos, Elvira dava a luz a um lindo bebê, a terceira criança que nascia na casa da família Launay. Camilo ao lado da janela da sala, cujos postigos se achavam encostados à parede e, por onde se descortinava, para além das árvores do jardim e do bosque sombrio, silencioso, a represa refletia através das árvores que alceavam a escarpa, o brilho delgado da lua que se esgueirava entre as nuvens, a figuração, o arranjo das ações da natureza dava um reconhecimento construído num parangonar do espectador que enredam tão bem os movimentos simultâneos da vida, tudo parecia gozar de uma paz maravilhosa, Camilo sentia breves lapsos de ansiedade e os movimentos do coração, e que percebia haver nele mais calor do que em qualquer outra parte do corpo, e esse calor sentiu aumentar ao perceber o médico descendo as escadas. Camilo caminhou até o centro da sala. "Correu tudo bem, senhor", disse o franzido médico se aproximando, "é um belo garoto". "Oh", exclamou Camilo como se a expressão e os traços de ansiedade se transformasse numa composição de alegria, "Meu caro senhor, vós fostes muito prestativo, aceitas um licor", o médico aceitou um cálice de licor de muito bom grado, Camilo, cavalheiro, sempre muito gentil em tratar com as pessoas, e nesse particular, reconhecendo o tão eficaz trabalho do médico, retribui-lhe, dando-lhe cinco moedas de ouro, que o homem sentiu-se extremamente privilegiado num conceito estatístico, julgando ser impossível ganhar aquela soma até o final da vida.
Elvira com os cabelos soltos dispersos no encosto, emoldada por uma face cansada, mas que em nada lhe tirará a beleza natural, com uma dispersão que lhe era peculiar como seu extinto de combate voasse sobre a fraqueza da alma e, conhecendo essa pré-disposição, naturalmente vencia com facilidade as ações contrárias, Camilo, observando essa força e energia de expressão que tão eminentemente o acompanhava, sentia a satisfação florescer ainda mais na alma, comprazia-se, sobretudo com a certeza e a evidência da continuidade da estirpe, extraordinária assistência que a natureza nos presta, nos ensina muito a conhece-la, e amiúde o que chamam com o nome tão belo é senão uma insensibilidade, que as verdades reveladas parecem em acima da nossa razão, o recém-chegado Luís Carlos, assim, como Elvira o nomeara, provou a força da cada um dos dois órgãos respiratórios num choro natural, recente àqueles que descobre as partes sensitiveis do mundo exterior, ressoou além da janela do quarto que se descortinava, propagando-se, até atingir os sombrios arredores da casa, aquela soar foi como um sussurro, uma expressão que parece ter envolvido, despertado uma sombra ou um espectador, que ressurgia como as folhas do outono que se espalham pelo chão, como as formigas e as rãs que vivem em torno de um pântano, garantindo como uma voz silenciosa das fontes ocultas da sua existência, diferentes entre si pela forma e pelo tamanho, para onde concorreram e se juntaram água, vapor e ar, junto a essas representações havia um movimento como um sopro, um espectro ou não sei o que tentando esterilizar ou imobilizar a criação, parecia espreitar a casa por entre as árvores sob o negrume do céu, onde só a luz vinda do quarto, pura, perecia fazer parte da abóbada celeste, onde fica os astros e, a borra precipitada no éter aglomerava-se numa cavidade da terra. Uma sombra enigmática despertou a atenção do cão Rott, quando passou como uma leve brisa pela estreita ponte que corta o arroio, Camilo ocupava-se no gabinete em escrever e ao molhar a pena no tinteiro, percebeu algo que incomodava o cão no bosque, sua pena traduzia os impulsos do coração e aquele barulho não lhe pareceu mais do que um ruído que chegara aos seus sentidos, até, considerar que aquilo se prolongava, e, deduziu se tratar de uma perseguição, a uma raposa, coelho, sua atenção voltava-se para o que escrevia, de quando em quando, conforme o sopro do vento que a ele se ligam e fazem o mesmo, o ladrar do cão indômito, segundo o terreno que atravessava, olhou pela janela com um olhar inquisitivo, e, sem perceber nada mais que densas trevas, então, evitou a vela, e tornou a olhar com tranquilidade, até voltar-se para mesa, afinal devagar, aparentemente absorto na mais profunda meditação.
Na manhã seguinte. Encontramos, Elvira com os cabelos soltos, constantemente abundantes e sedosos, apanhados pela sedutora espáduas, o rosto que voltara a assumir sua juventude atrativa e que fazia destacar ainda mais seus belos olhos cativantes, encontrava-se diante da cômoda de cujas gavetas entreabertas guardava alguma coisa, uma criada de pé ao lado da cama segurava o pequeno recém-chegado os modos de Elvira, destacava-se aos cuidados de uma mãe zelosa que tranquilamente irradiava saúde e boa disposição parecia quebrar um costume muito difundido juncava que as crianças brasileiras de peito alimentada inconvenientemente aos seios de uma ama de raça africana ou indígena, no geral mulheres sujeitas a moléstias crônicas de pele, ai preferia ela mesmo amamentar sua prole, embora, todo esse aparato não lhe desse em nada nenhum tipo de excesso que sua inexperiência aplicava ao caso, ao ouvir os passos de Camilo, deteve-se e olhou para a criada que segurava a criança e, numa grande satisfação alegrou-se ainda mais, dava-se conta de encontra-se tão disposta quanto aquele momento, ademais, a progênie fazia-a sentir uma afeição natural por sua prole, e a prole a cada segundo, minuto, hora, pelos progenitores, um belo exemplo de uma família patriarcal, mas, sem as características do regime que faz o homem fazer da mulher uma criatura tão diferente dele, para Camilo isso o máximo de diferenciação que poderia fazer era no plano fisiológico que distingui um homem de uma mulher, quanto ao sexo forte entendia que era ele determinado por estar junto de uma grande mulher, ela em nada possuía fraqueza, o sexo nobre era belo pela concatenação de duas famílias acedentes, Camilo parecia trazer um germe de como tomar a essência genérica do homem para uma sociedade onde as relações sociais que as pessoas se insere sejam mais mediatas para um conceito igualitário. "Elvira", disse Camilo com sua voz tranquila, tocou-a nos ombros nus, sensibilizante suas mãos irradiaram o calor da boa disposição da mulher num relance Camilo, percorreu todo seu corpo cheio de vigor e vitalidade, Sente-se feliz e satisfeita, pensou, em seus olhos refletia a verdadeira definição de cada coisa que exprime a existente felicidade da natureza, dilatou os lábios e, comum leve mover dos músculos da face, beijo-a. "Pretendes cavalgar", disse Elvira numa voz singela e prenunciava, como tão era capaz de reter e receber o assentimento imediato da visão, adquiria, assim, uma ação inconfundível à sua natureza nobilitante, "Sim meu amor", respondeu Camilo no tom mais sereno. Antes de terminarem o café, Elvira apresentou a Camilo cartas que encontrara de sua família, eram cartas ainda escritas na França das quais uma do seu avô materno, vinha dentro de um envelope, preso a uma fita azul, redigida em francês pelo próprio punho de seu avô o duque de Kératry, a carta, sobretudo revelava as transformações políticas, sociais que a França atravessava, interioridade desvendada pelos diversos sentimentos morais, "Esse senhor", dizia a carta do Duque, dirigida ao marquês d'Argenson, "Pretende com sua nova filosofia, tirar a alma da França, ingrato com a aristocracia que o valorizou, tirando-o de uma caverna para a plena luz da fama, e tendo a encontrado mostrou-se tão significativo em não saber viver com ela". A carta como as outras mostrava todo o sentimento como instrumento de penetração na essência da interioridade de uma família que defendia o absolutismo veemente rechaçando qualquer concepção de forma política que fosse essencialmente democrática, e dessa forma malograr qualquer vinculação com o povo em sua totalidade, contudo, a história não tomou esse rumo desejado. Em todas as cartas, Camilo encontrou essa análise das sensações e ideias contra qualquer liberdade e da afirmação da pessoa humana como sujeito e o direito inalienável à exigência essencial da própria natureza espiritual do homem. "Essas cartas demostram claramente como eram contra que o povo se libertasse da tirania, contudo, a submissão à vontade geral, possuidora de inflexibilidade que nenhuma força pode superar, conduz a uma liberdade que resguarda o homem do vício e a uma moralidade que o eleva até a virtude", comentou Camilo, a janela entreaberta da sala ocasionou a imagem do senhor Diogo Bernardes atravessando pela varanda, "São cartas muito significativas meu amor, examinarei mais detalhadamente", Camilo levanta-se vai até Elvira, beija- a na fronte e, sai em seguida, Elvira corta uma fatia de bolo, passa manteiga, olha para Luís Carlos que dorme suavemente nos braços da criada, "É uma criança calma", disse a criada jovialmente, Elvira retribuiu com um olhar de assentimento o angélico sono do filho. Uma brisa fresca movia calmamente as cortinas entreabertas como expostas à continuidade da casa que parece estimular a ideia sobre ela, lá fora o vento sobra de um céu cinzento agourento, ventilava toda a terra movendo a natureza que se estendia além dos dados da memória ou dos sentidos, naquele momento Camilo, no eirado, acercava-se do senhor Diogo Bernardes que ocupado em distribuir esterco nas azaleias que plantara na véspera, "Bom dia", disse Camilo no seu tom expressivo, "Bom dia senhor", respondeu o senhor Diogo Bernardes, movimentando a pá para que a muda de azaleia se sustentasse, então, endireitou-se, encostando a pá no esteio e fitou Camilo com entusiasmo, "O tempo aqui muda bruscamente senhor", disse Camilo, observando a instável atmosfera da serra, "Sim, hoje teremos nevoa bem cedo, considerou o senhor Diogo Bernardes, Camilo ao mesmo tempo pode comprovar isso, pois, sinais exteriores de massas de nevoa já se movimentavam com flexibilidade misturando-se as partes que encerram as árvores mais sombrias, formando um torvo de influência, sensações que nunca se desfaz inteiramente. "Rott, amigão", disse Camilo aproximando-se do cão que estava deitado ao lado de um banco, "a noite passada parece ter sido agitada amigo", indagou para o cão afagando sua cabeça, o cão parecia entender-lhe as palavras, olhou inquisitivo para Camilo como desejasse-lhe dizer algo, em suas pernas e no tórax havia indícios de uma lama já seca que grudara em seu pelo, "Ontem à noite latiu muito, e como podemos ver parece ter perseguindo alguma coisa, o senhor também ouviu?". "Sim ouvi", observou o senhor Diogo Bernardes, "estava sentado na porta de casa, quando acendia o cachimbo, notei que Rott não estava onde costuma ficar, comentei com Florinda se o havia visto, disse-me que estava ali a pouco, passando alguns minutos ouvi que ele latia ao redor da casa grande, a princípio considerei que estava desse lado", apontou com a mão a direção, "nada mais de anormal até então, mas, quando os latidos se tornaram alterados e propagando-se de lugares diferentes em tempos diferentes, ai, sim, comecei a prestar mais atenção, O que poderia ser senhor", perguntou Camilo segurando a grande pata do animal', "Sei quando ele late para um coelho um lobo ou uma raposa, mas, de onde estava não percebi se tratar nada disso, esses animais são comuns por essas bandas, mas a abordagem é diferente, o som dos latidos são análogos a determinados animais, o de ontem eram mais agudo com uma predominância das frequências mais elevadas, temos jaguatiricas, ariranhas e onças que vivem por essas serras, mas, muito raramente investem por essas bandas, considerou o senhor Diogo Bernardes", O senhor acredita que possa ter sido uma onça", ponderou Camilo, "Não, não acredito que tenha sido um felino", disse fitando o cão o senhor Diogo Bernardes, "já o havia examinado antes do senhor chegar não há sinal algum de luta, ele perseguiu algo que não conseguiu alcançar e, isso que me deixou intrigado, olhei cuidadosamente em volta da casa e não encontrei nem um vestígio de pegada, a não ser a do cão Rott, desci na direção da casa, mas o barulho subia na direção da charneca, caminhava rápido quase correndo, percebia a ofensiva do cão mais feroz, como se tivesse ao um palmo da presa, a partir daí parecia-me impossível alcança-los, pois, quanto mais meus esforços e movimentos percorriam a planícies da charneca, eles se apresavam em direção a floresta, o céu encoberto tragara a lua trazendo um denso negrume, meus esforços, agora, eram mais pela audição que pela visão, foi uma veemente perseguição, como se a presa não corresse, mas, voasse por entre as árvores, penso, ser a razão do cão não tê-la alcançado, quando cruzei a parte do bosque e atingi o extremo onde se principia o ervaçal percebi que meus esforços haviam sido em vão, pois, o trilho, ou melhor a direção que avançavam é por tal modo formado por uma vegetação inextricável e terrivelmente escarpada, desprovido nas circunstâncias de uma penetração humana, permaneci parado até onde pude chegar, ouvindo, igual àquele que anuncia ao caçador, pelo estalar dos galhos e uivar dos cães, a aproximação da caça, súbito, para baixo irrompiam o cão e o ente, este, em desespero tamanho que na fuga rompia os obstáculos como podia, e o cão implacável o acossava, logo atingiram o pântano e, aquilo que mais parecia-se com uma alma perseguida, arremessou-se a ele, o cão como uma chuva de fogo, tombava em cima, ágil como um leopardo, veloz, implacável, feroz deixando a seu talante, foi a maior aproximação que tive deles, se não fosse pela obscuridade, com certeza os teria avistado, e pouco a pouco a ambiguidade daquele som a cortar o pântano, gradualmente penetrava em meus sentidos como que se guiasse por toda a ínvia paragem infernal". Enquanto o senhor Diogo Bernardes narrava o acontecido, Camilo parecia produzir as impressões que ele mesmo havia experimentado naquela ocasião em que olhava pela janela na noite anterior, a inferência dava-lhe ao próprio espírito ensejo para conjeturar ou imaginar qual era aquela conexão, porém, com efeito, esta última, a ordem da existência, não dava outra coisa senão denominações extrínsecas, relações, relações ou, quanto muito, circunstanciais, coisas que estão longe de constituir a essência intima da coisa, para frente estendeu o olhar enquanto o senhor Diogo Bernardes admirava a impavidez do cão. "O que o senhor pensa que poderia ser", indagou Camilo, como que verificando primeiramente a influência da causa sobre os órgãos do corpo. "Pela aparente energia", volveu o senhor Diogo Bernardes, dirigindo novamente a atenção de Camilo para o cão, "o poder situado causa, unindo-se ao efeito produzido e o sulco que abriu no pântano e fazendo de um a consequência infalível da outra, deixa-me deveras intrigado". "Continue", disse Camilo olhando gravemente para o senhor Diogo Bernardes, "Venha comigo senhor", disse como se soubesse a origem e os fins de algo. Camilo endireitou o chapéu e saiu a passos largos, seguindo o senhor Diogo Bernardes e o cão que voluntariamente os acompanhou. Logo que subiram pelo estrito caminho que fica atrás da casa e passado a pequena ponte de pedra, alcançaram uma desenvolvida paineira, o senhor Diogo Bernardes, deteve-se diante do robusto tronco e, tão logo isto feito, o cão que parecia vir no encalço de algo preexistente, lançou-se sobre a árvore ladrando com uma significada ostensiva olhando, pulando para o alto. "Muito bem, o que tem nessa árvore amigo", disse o senhor Diogo Bernardes, observando o comportamento do cão que farejava ao redor, Camilo olhou para o alto da árvore como se lá encontrasse alguma resposta, "O que podemos deduzir com segurança", prosseguiu o senhor Diogo Bernardes, "é que alguma coisa subiu nessa paineira, como penso, certamente, e deve ter sido a pouco tempo o seu cheiro ainda está aqui, nós não podemos perceber, mas o cão sim, seria incerto, portanto, da minha parte se considerasse essa ação limitando-se apenas nessa parte, contudo, e sob esse pretexto verificaremos como eu próprio o fiz, que esse rastro estende-se, seguindo, a mesma tendência do acossado da noite passada, de maneira que me leva a considerar que a possibilidade, que aquilo que possa ter subido nessa árvore e, o que era perseguido pelo cão pelas demais veredas, eram um e só, a mesma coisa". Camilo examinava a árvore passando a mão sobre o queixo, "Mas o que poderia ter subido nessa árvore sem deixar vestígio, veja o tamanho desses espinhos", disse tocando ás enorme farpas e, observando ainda mais de perto, "se algum animal impelido pela perseguição do cão houvesse subido, é natural que deixasse algum sinal em sua casca, pelos nos grossos espinhos, contumaz o que o senhor ouviu cortando o pântano, como o senhor mesmo disse, haveria de ser algo pesado, não acredito que antas subam em árvores, um quati, jaguatirica ou mesmo uma onça, com certeza deixaria as marcas das unhas, com essa conformação ereta, que ser humano, por Deus, subiria no primeiro galho sem o auxilio de uma escada ou corda, não vejo nem uma possibilidade, muito menos se tratando de uma ação súbita". Camilo observou incansavelmente ás circunstância que julgara indispensável que o caso implicara, e não achando necessário prosseguir num caso que fixa limites tão estreitos ao entendimento, disse, "Não hesito jamais entre uma existência perniciosa e um mero fato comum, mas, nesse ponto, parece termos chegado ao limite em que as circunstâncias e os objetos que nos cerca". Contudo, as reflexões de Camilo iam além daquilo, ter sido um fato comum, não era o sobrenatural que lhe cercava o pensamento, mas suas ideias se deparavam com alguma ambuiguidade e obscuridade intrínseca dos acontecimentos que produziam uma concatenação imanente que levava de encontro a seu escopo. Pouco tempo depois, Camilo a cavalo, percorria o caminho das aranhas, o animal andava segundo a vontade de seu condutor, o cão Rott os acompanhava em atento silêncio, a fisionomia de Camilo do cavalo e do cão, expressava uma cuidadosa observação a tudo, uma densa nevoa encerrava toda atmosfera, assim, cada árvore parecia um vulto flutuando numa refração sombria, e uma úmida solidão emanava como se a natureza toda estivesse adormecida, a sensação que dava a cena era que algo como um predador não dorme, contempla o momento esperado, tirando de cada objeto a imagem insensível e juntando-a aos movimentos de força do animal, algo que se excita pelo calor e necessidade de atacar, o efeito do silêncio e, de quando em quando, a natureza, por si mesma, poucos sons engendrava e, o trinar de um pássaro que vinha das partes espessas do bosque que por trilha alguma era cortada, suas frondes verdes, outras escuras, seus ramos lisos, outros nodosos, dos quais uns balouçavam frutos, porém, outros, farpas venenosas. E, um pouco mais a frente tais árvores nidificam aquela enigmática torre que as propriedades de sua extensão encobertas pela névoa induz, a quem deita os olhos sobre ela, anunciando-lhes crudelíssimos perigos, Camilo estendeu o braço e de um galho arrancou um ramo, e, no mesmo instante como se o tronco clamasse, ouviu um aiar dolorido, mas não alcançava vislumbrar o que assim volvia. Deteve-se, como se sua imaginação fosse o puro movimento da natureza, anterior a toda reflexão, o cão também parecia entender seus pensamentos, considerava a vigilância, lançou um torvo olhar para uma senda que entre as árvores se escondia, e farejando conforme, acendeu a guia e persuadido penetrou na mata tenebrosa, Camilo o seguiu partindo os ramos da emaranhada trilha sobre o peito do cavalo, impedido de correr, o animal rompia os obstáculos e, seu condutor curva-se em seu lombo, acompanhando seus movimentos que iam rompendo as entranhas do mato, o sábio animal parecia entender que não era para perder o cão de vista, e, num empenho constante seguia em frente até onde sua capacidade de locomoção pode alcançar, ai, deve-se, junto a uma funesta escarpa, Camilo ainda tentou alcançar com os olhos a direção que o cão seguia, apeou, rápido, mas já não pode mais avistar o cão que se consumiu na intrigada mais da escarpa, num instante lembrou-se do pântano de taboas mencionado pelo senhor Diogo Bernardes, avistou bem a sua frente num anglo oblíquo ao lado da escarpa, então, coberto pela densa névoa em forma circular que se estendia sobre a borda da mata, parecia acolhido, numa tal letargia e numa tal melancolia, que dava inevitavelmente ao espirito ficar mergulhado, mas, o que chamara a atenção do cão, e, como pode ter sumido tão rápido, que direção tomara, Camilo, pensava, acreditava ter usado a percepção no passo e grau certo da direção, e, isso o deixou ainda mais perplexo, voltou os olhos e murmurou para si mesmo, "Algo de estranho encerra esse lugar, ou simplesmente o cenário me faz pensar assim", perante sua perplexidade, seu coração batia mais forte, e todos seus sentidos pareceu se dissolver com o vapor da névoa que já encobria o cimo das árvores. Passando alguns dias desse episódio, numa manhã de segunda-feira, o dia da feira de animais, o sol se apresentava radiante num céu sem nuvens azulado, muares saíam das estrebarias e cortavam as pacatas ruas do bairro de São Bernardo do Campo, por entre uma poeira fina um vendedor de jornal caminhava, nutria-se com uma grossa fatia de broa, andando ao acaso, utilizando suas mãos como o fazemos com as nossas, levando seu olhar para todos os lados como se medisse a vasta extensão da rua, acrescentemos por onde esse ser passava, outros que interpunham-se em seu caminho, pessoas atentas ao bem, algumas apressadas outras pareciam sem destino, os comerciantes começavam a abrir suas portas, alguns discutiam a discórdias que reinavam entre eles, procuravam compelir os outros a fazer o que julgavam justo, mas não se dispunha a fazê-lo, discutiam circunstâncias como se elas fossem irracionais, algumas pareciam amistosas com seus devedores, outras apenas com o desejo de estar seguras em relação ao que esperavam obter de volta, ao lado, numa dessas estrebarias onde fica a rua principal, reunia-se todas as segundas-feiras pela manhã, a feira de animais, famosa em toda a região, vinha negociantes até de São Paulo com suas éguas Argentinas, um amplo pátio achava-se ocupado nessa ocasião por uma grossa tropa de muares que acabara de chegar de Sorocaba, vendedores, compradores se misturavam como carrapatos em meio a tanto pelo, Camilo e o senhor Diogo Bernardes andavam por entre a turba, Camilo com os olhos atentos examinava os animais que lhe agradavam, estava admirado com a quantidade de ofertas, o senhor Diogo Bernardes o acompanhava explicando-lhe da onde vinha tantos animais, "Parece muito boa essa mula baia, pelo de rato", disse o senhor Diogo Bernardes, passando a mão sobre o lombo do animal, "É de boa raça, mas, falta-lhe um pouco de milho". Camilo observava tudo com entusiasmo, Camilo curvou-se para olhar mais de perto os cascos do animal e, nesse momento, enquanto considerava a conformidade que julgava proveitosa avistou, não muito longe, por entre pernas, membros e sons indivisíveis que os brutos emitem, dois pares de membros inferiores de um animal preto como veludo, vigoroso, ágil, cada uma das hastes virava e revirava-se com compassos celeremente frenéticos, Camilo, ergueu-se, olhou na direção de um pequeno cercado individual, na fisionomia de Camilo pareceu um esboço do que tinha em mente, foi andando naquela direção e, o senhor Diogo Bernardes o seguiu, ao aproximar-se do cercado, onde também alguns negociantes se avizinhavam comentando sobre o belo animal que se movia nervoso, balançando aristocraticamente a cabeça, a crina ligeiramente, cai-lhe sobre a fronte dando uma imponência majestosa, "Senhor Diogo Bernardes", chamou Camilo junto ao cercado, "Estou aqui senhor", acudiu o senhor Diogo Bernardes aproximando-se, "Veja que belo animal", disse Camilo, "É um potro senhor, preto como a parte mais escura do céu, nunca vi nada igual na corte", "Quem é o dono desse animal", bradou Camilo para todos que estavam ali, os senhores voltaram-se examinando Camilo com frieza, "Alguns do senhores ai é o dono desse animal", repetiu Camilo, agora num tom mais contido, um deles, gorducho, segurando uma corda, indicou, com o dedo um homem deitado sobre uma carroça, o homem indicado encontrava-se alguns passos, Camilo aproximou-se da carroça, olhando com curiosidade, o homem deitado na carroça parecia entorpecido, com o chapéu sob o rosto, parecia, de quando em quando, muito calmamente, abrir um dos olhos e, tornava a fecha-lo com o mesmo cuidado, com as pernas esticadas e as botas ao lado, permanecia negligentemente nessa posição, "Senhor', chamou Camilo, aproximando-se ainda mais, de maneira a ter um sentimento de aprovação ou de censura, por conseguinte a convocação pareceu suscitar os modos vitais do homem, que parecia não se preocupar muito com o mundo exterior, "Ahhh", emanou o homem como ressurgisse de um sonho, seu espirito parecia ainda completamente indiferente e inativo, endireitou um pouco o chapéu com uma das mãos particular do caso, e disse com uma voz rouca, "O senhor gostou do animal, tem muito bom gosto, é um potro inglês de no máximo 3 anos, nunca foi montado, é veloz como o vento e rápido como um raio, tem compreensão perfeita, hábil, eu diria que só falta-lhe a razão, a antecipada consideração do homem, com efeito, produziu em Camilo uma certa perplexidade, "Ao onde conseguiu esse animal senhor", indagou Camilo com ponderação", o homem que ainda se mantinha na mesma posição, respondeu, com certa entonação, "É compreensível que o senhor pense que um homem como eu, com uma aparência grotesca e condição social desfavorecida, não seja dono de um animal como esse", pronunciou o homem, agora com uma voz mais acentuada e grave, "pois, me parece que não são todos os homens que tenham nascidos moldados para adquirirem coisas que a natureza tão bem criou, algo ostentoso, às vezes, é confundido com vulgaridade de alguns que conduzidos pela mesquinhez, não sabem discernir prodigalidade e a avareza, e, concernente a pergunta do senhor, posso responder-lhe que é, como o senhor mesmo vê, não sou um homem de bens materiais, entretanto, a natureza parece ter me revestido com uma certa parcela de sorte, á mais ou menos duas semanas, estava no litoral, pescando com uma linha, como fazia todas as tardes, naquele dia o mar estava muito revolto, pois, na noite anterior havia dado uma tempestade, as ondas e o forte vento, fazia que eu me desequilibrasse, mudando de lugar constantemente, em um desses movimentos, quando ergui o braço para arremessar a linha, avistei, algo, a uns cinquenta braços de onde estava, bem atrás da primeira rebentação, não tinha uma visão favorecida, com água quase no peito, meu corpo balançava, mas, procurava não perder aquele ponto de vista, poderia ser um peixe, a barbatana de um grande tubarão, não sei, a distância não me dava nenhuma definição ainda, em seguida veio uma sequência de ondas grandes, me jogou para trás, me encobrindo, quando emergir, mau pude abrir o olho e outra sequência de ondas fortes, agora, senti o corpo ser arrastado bem para trás, em seguida puxado fortemente para frente, até um ponto que não dava mais pé, elevei-me e comecei nadar na direção da praia, quando fui atingido por outra onda ainda mais forte, ao emergir novamente tinha que sair de onde eu estava, minhas forças estavam exaurido, foi, então enquanto nadava, bem ao meu lado, percebi um vulto preto, que não se limitava ao comando das ondas, meu corpo estremece, como se visse o próprio Poseidon, de olhos brilhantes, a cabeça levantada, nadando com a forças de uns cem remos, esse animal senhor que aqui está, a princípio pensei estar sonhando, mas meu coração batendo forte e o sol brilhando sobre minha cabeça, sinalizava que eu estava vivo e bem acordado, a supremacia que o cavalo nadava fazia que meus sentidos o acompanhasse, como se ele falasse não desista amigo, me siga, depois de mais duas ondas senti, com a ponta do dedo do pé a areia do fundo o animal, já bem a minha frente ao invés de nadar, agora, lançava impulsos na direção da terra firme, quando sai do mar é que pude vislumbrar o belo animal, seu olhar brilhava como uma estrela no fundo de um céu escuro, parecia exausto, mas, seus membros se assemelhavam como colunas de pedras, da boca e das narinas escorria, abundante, a água do mar, sem folego, mas, com vontade de viver, depois de alguns instantes e, tendo recuperado o folego, é que pude considerar o animal como nunca havia visto, um potro inglês como se o próprio Netuno o tivesse enviado, levei o animal para casa, e por onde passava, despertava grande curiosidade, ao falar como o havia encontrado, respectivos olhares de desconfiança se formavam em minha volta, passado uma semana apôs encontra-lo, ouvi de uns pescadores que um navio inglês havia naufragado perto da costa, a princípio não imaginei um conjunto de relações, até o pescador informar que havia um homem que eles encontraram boiando quase sem vida, esse homem fazia parte da tribulação do navio, e, era possível que ainda estivesse na vila, pois, se tratando de um falante estrangeiro não foi difícil acha-lo, o complicado foi comunicar-se com ele, um funcionário da câmara de São Paulo que tinha conhecimento de língua inglesa foi quem nos ajudou, o marinheiro o único sobrevivente, nos relatou o seguinte, "Na noite que se seguiu o naufrago, estávamos bem próximos da costa, o "Symbols Grow", esse era o nome da embarcação, seguia para às ilhas britânicas ao sul, à irredutibilidade do tempo nos obrigou a uma aproximação perigosa da costa, "o Symbols Grow", era jogado de um lado para outro como se fosse um parquinho de papel em uma banheira, a tensão entre a tribulação aumentava a cada instante, essa incomoda situação nos arrastava, até ouvir um grito, "Grandes pedras a esse bordo, grandes pedras a esse bordo, repetiu-se a voz e, uma onda enorme nos içou, em seguida nos atirou ao fundo, num desses balanços, houve um forte impacto e um barulho que quase nos partiu ao meio, pensei que tivéssemos atingido a morada definitiva, fomos todos jogados ao chão, bem a minha frente avistei o capitão, tinha batido violentamente a cabeça nos mastro, aproximei-me junto dele, escorria muito sague de sua cabeça, amparei-lhe a cabeça, e consegui dizer apenas, "Solte meu cavalo...solte....", e um rolo de água nos atingiu, quando me recuperei, percebi que a embarcação estava a pique, com a proa afundando rapidamente, uma dessas ondas me arrastou para trás, foi então quando pensei, "fui enviado a terra para servir um imortal", ao meu lado relinchando com bravura, vi o cavalo do capitão, entalado na baia, aprisionado com o corpo inclinado para frente, tentava equilibra-se nas patas traseiras que vacilavam no piso escorregadio, seu peso era todo convergido para frente, num esforço sobre humano, alcancei um machado, endireite-me, próximo da tramela, deferi um golpe, outro, quando no terceiro quase que instantaneamente, outra enorme onda nos atingiu, senti apenas um solavanco, contínuo de morte e ressurreição, desse momento em diante, não me lembro de mais nada, apenas, meu corpo sendo içado como se eu viesse do inferno". "Bem, agora sabe como consegui esse animal", disse o homem, coçando o olho esquerdo com a mão esquerda, houve um instante de intervalo, enquanto o home falava Camilo parecia em orbita das operações sensíveis, julgamento, avaliação, aquele cavalo era para ser seu. "Quanto o senhor quer pelo animal", perguntou Camilo, o homem levantou-se, enfim, e sentando na extremidade da carroça enquanto acertava o chapéu sobre a cabeça, disse, "Para mim ele fale muito mais que dez escudos, mas, para o senhor eu vendo por esse preço, dez escudos", os senhores que ali estavam e que muito atenciosamente ouvia a conversa indignaram-se com o valor, e, é bom lembrar que aqueles cavalheiros também havia se interessado pelo animal, Camilo sacudiu afirmativamente a cabeça e disse, "fechado", Camilo se aproximou do cercado, olhando com satisfação para o belo animal, "Eu pago quinze", disse um senhor com ar arrogante, adiantando-se a frente, "Desculpe, senhor, mas, acabei de vender para esse senhor", disse o dono do animal em tom definitivo, "Vai mesmo deixar de ganhar cinco escudos a mais", ponderou o homem estranho num sotaque lusitano, "Sim vou", o insinuante cavalheiro despiu um profundo suspiro, fitou os olhos ameaçadores no rosto do opositor, durante alguns minutos, estremeceu melodramaticamente as mãos e, de subido, afastou-se, Camilo, aproximou-se entregou o dinheiro e disse apertando a mão do homem, "Obrigado senhor", o homem contou o dinheiro na mão e, deixou-o cair, moeda por moeda, no bolso, havia quinze escudos. Antes, porém, de deixarem a vila, o senhor Diogo Bernardes, disse a Camilo, como que evidenciasse algo adicional, "Venha até aqui, quero que ouça algo", o senhor Diogo Bernardes apontou para um homem que tinha um aspecto de caçador, o homem que trajava roupas apropriadas para andar na mata, estava sentado num caixote junto a entrada da estalagem, rodeado de alguns curiosos que ouviam atentamente seu relato, parecia cansado e, nos intervalos de uma frase a outra, tomava com veemência um gole de aguardente, demonstrava conhecer muito bem a Mata Atlântica, assim, organizava o princípio aos desígnios do que lhe sucedera, "Quando aproximei-me da árvore caída é que pude vê-lo melhor, o selvagem, assim, que passei a chama-lo, ofuscado pela luz, pareceu calmo, retirava mel do tronco da árvore, seus sentidos ficava nessa direção, ai, bem lentamente aproximei-me, segurava em uma das mãos uma espécie de tocha apagada, que produzia apenas uma fina fumaça, não tinha pele peluda, exceto na face, onde uma densa barba excluía qualquer delicadeza, essa criatura robusta mantinha-se entretido em retirar mel do troco, até que percebeu a aproximação do meu cão, um animal não passaria sem inquietação próximo de uma criatura tão estranha, dai, os latidos ofensivos, fez que a criatura se irritasse profundamente, mostrou-se tão violento que morderia a própria carne, e estrangularia a si próprio se não fosse num golpe rápido e preciso, aprisionar o pobre cão que como uma besta feroz arrastou o arrastou da azinhaga, estraçalhando com os dentes assassinos seus membros e rasgando com as unhas as entranhas palpitantes do animal, que agitação tremenda experimentei naquele momento, uma angústia percorreu meu corpo, sem poder fazer algo que não colocasse minha própria vida em perigo, afastei-me o quanto pude, angustiado com a infelicidade de um amigo, enquanto ouvia os horríveis sons que a criatura produzia, parecia meus sentidos congelados e segurando minha arma como se não soubesse usá-la, as forças que subsistia em mim, pareceu abandonar-me, deixando apenas meu corpo inerte, uma criatura que tinha uma semelhança de um ser humano, embora, seus modos selvagens não demonstrava ser da nossa espécie, até, aprofundar-se na mata soltando um ruído assustador, afastei-me na direção oposta a sua, então, chegando em baixo de uma grande copa de árvore, acendi uma fogueira e, ansiosamente esperei o dia clarear". "Há quanto tempo ocorreu isso senhor" , o homem depois de tomar um cole de aguardente, respondeu fixando olhar em quem o interrogava, "Não mais que duas semanas atrás, senhor", "O senhor já o havia visto antes, ou ouvido falar a respeito de tal criatura", era perceptível que Camilo procurava a conexão, inferência ao que sucedera ao homem e, adicionar suas ações passadas fixando limites claros ao entendimento, "Se o tivesse visto antes", respondeu depois de tomar mais um cole e pousar suavemente o copo sobre o caixote, "e, agora, o visse pela segunda vez não me detinha em pensar em que consistia aquela alma, ou, se o fazia, imaginava que era algo extremamente raro e sutil, como um vento, uma flama ou um ar muito tênue que estava insinuando e dissipando nas minhas partes mais grosseiras, não senhor, nunca havia visto antes, e não duvido de maneira alguma de sua natureza, a uns quinze anos antraz ouvira a história de um negrinho, que atravessando a mata da serra, parará, em um certo ponto, quando, acendendo a fogueira, e tendo assado umas batatas, voltou-se para o lado para dormir, deparou com uma estranha criatura de pé bem a sua frente, seus olhos brilhava mais que o fogo, naquele momento, contava o negrinho, seu corpo ficou paralisado, sua alma parecia ter sido arrebatada, tinha medo até de respirar, eu quando vi aquela criatura, lembrei-me do que o negrinho havia relatado, um tipo meio agreste, uma cabeça pesada, quase sem pescoço, peludo, meio pardo, meio cinzento, como se sua cor se misturasse na paisagem da vegetação, quando vi a criatura, lembrei-me do relato do negrinho, ressaltou que em nada fosse violento, visto que trazia consigo alimentos frutas e castanhas que com uma certa sociabilidade dividiu com ele, disse, ainda que nessa curta passagem, a criatura não imitiu qualquer tipo de som, nem uma palavra, ou distorção de ruído, se comunicava por sinais e, que a rusticidade do moleque não compreendia, e, passando algum tempo, quando nutridos os sentimentos de fome e de sede, a criatura subiu como um orangotango para cima da árvore, construiu uma espécie de teto que o protegia da chuva, na manhã seguinte, quando o moleque despertara com os raios do sol batendo-lhe no rosto, hesitava em compreender se fora quimera, pesadelo ou real o que se passara, ao seu redor única evidencia era uma tênue fumaça da fogueira e a árvore onde o mostro subirá, onde nada mais havia do que sua formação natural, no chão, as cascas das nozes e o resto das frutas que tão real comera, posso estampado em seu rosto a veracidade do contato que devido ao sono o fez duvidar". Quando terminou, o homem espraiou o olhar em derredor daqueles que ali estavam presentes e sisudo mais do que nunca, saiu, andando, coçando a cabeça com se quisesse lembrar de algo, precipitou-se pela rua. Camilo, permaneceu cônscio durante toda a narrativa, a ideia que conjeturou, a concepção à primeira vista, parecia não muito distante de uma origem, possa ser que um escrutínio minucioso derivasse dela, ou não, permaneceu parado, pensativo, olhando a maneira que o homem se afastara, tudo parecia de primacial importância, coesão no desenvolvimento, como numa novela, mas, ínvios caminhos que se possa tomar e, para não se perder em inverossimilhança decorrente da faculdade que se arroga, aqui a onisciência e a ubiquidade deveria ser ponderadas, talvez, se conversasse mais com o homem, mais perguntas, uma vista em casa, ou já ouvira o necessário, o necessário não é necessário em quanto não for o fato em si, contudo, o contraste ou a contrariedade serviam para ligar as ideias, do que ouviu, o conjunto das comparações era uma mistura de causalidade, semelhança suficiente, mas, ainda não necessárias para se afirmar algo. "Sabe senhor", disse o senhor Diogo Bernardes enquanto voltavam para casa pelo caminho tranquilo e arborizado, "enquanto o homem contava sua história pareceu-me na minha mente as circunstância de algo passado restitui minhas lembranças, não sou muito bom em me expressar nisso, mas, sabe quando parece que alguns atos ficam ao alcance das nossas faculdades e parecem oscilarem entre a falsidade ou verdade", "Continue", respondeu Camilo, examinando o potro que que vinha atrelado. "Então", continuou o senhor Diogo Bernardes, "há uma curiosa circunstância que me lembro, logo que começamos a derrubar a mata para construir a casa do marquês, havia um ato voluntário e muito incomum entre um dos homens, embora, a ação desse indivíduo não fosse nada comum, pelo menos o que me pareceu, sendo os modos tão alheios desse homem, e algo despertava nossa atenção, sua conduta, que tão natural adotava de dormir em cima das árvores, e que se relacionava tão bem com a natureza como se ela, a natureza fosse sua única mãe", Camilo, olhou-o, fez um gesto de intercompreensão, "Como já disse", continuou o senhor Diogo Bernardes, "algumas vezes, meus sentidos são demasiado estreitos para dissipar, por meio das luzes da razão, as trevas nas quais envolvem a natureza, por outro lado, minha memória se recorda de coisas remotas que se passaram em minha infância, e tão bem as trago na mente que se parece aumentarem diariamente, parece estranho, pelo menos até aqui é o que entendo, um pouco antes de chamar o senhor para ouvir o relato do homem, a partir do ponto que pareceu interessar, foi o momento em que o homem falava que, andando para as bandas das restingas, e, atraído pelo frondoso bosque que as margeiam, encontrou-se em pouco tempo nele embrenhado, enquanto o homem falava, parecia as formas e imagens se esboçar em minha mente como se eu mesmo as tivesse visto, ou melhor, vivenciado, uma imaginação clara e distinta, da mesma forma que as compreendia, pareciam ser concebidas com coisas ligadas a ela, não sei se estou me expressando de uma forma que o senhor entenda, mas, pense em algo que traduz um grande nível de semelhança, puxa, parece ser isso, e, ademais, tudo juntando aos ocorridos dos últimos dias, deixa-me ainda mais pensativo, não sei explicar o que de fato significa as sensações, se são algo para nos persuadir, não sei, mas, seguramente de ter alguma causa". Camilo parecia examinar cada palavra, o avanço do cavalo pelo caminho era como um deslizamento de sentido, considerava cada palavra e o legitimamente se podia deduzir, sabia a importância que se relacionara o caso, a concatenação se manifestava a quem prestasse atenção, contudo, acima de tudo devia procurar o conhecimento, conquanto se entendia de modo afirmativo, "Parece nossos pensamentos se coordenarem", observou Camilo", e, deixemos que a razão postule, investiguemos como temos feito até agora, se existe algum ser, e ao mesmo tempo qual é, que seja a causa que procuramos, a fim de que sua essência objetiva seja também a causa de todas as nossas ideias, temos um ponto importante que favorece nossas propriedades, requisitos necessários, que é a semelhança de causa, a primeira nos dá a ideia da extensão e do corpo, a segunda, os modos, os objetos, reproduzindo pela natureza no máximo grau possível, eu, então, senhor, relembrando algumas coisas que minha mente se aplicou, formo definições delas", "Não tenho a mente brilhante como o senhor", disse o senhor Diogo Bernardes com interjeição, "mas, entendo o que quer dizer". A segmentação dos fatos, em alguns pontos, pareciam oscilar, Camilo, lembrara das palavras que encontrará nos degraus da torre da casa, "Destruíras da terra a sua posteridade, e a sua descendência entre os filhos dos homens", "O senhor tem conhecimento se o Mongongo, sabia ler, ou escrever, se cultuava alguma religião", "Que me lembre, não senhor, era um homem rude, que parecia só conhecer a força física, se expressava muito bem por sinais, mas, nunca o vi perto de um livro", outro ponto que Camilo tentava descodificar, era as palavras do marquês, "Se eu não encontra-lo, ele me encontrará", até que ponto o marquês conhecia aquele homem. Nesse ponto avançavam, circundando a restinga, o céu repleto de nuvens que bordejavam deixando brechas do âmago azul, misturando-se ao brunir do sol que lançava brandos raios por ângulos obtusos, os arcanos celestes dessas paragens derramavam em pouco tempo o brusco transitório na atmosfera, notando, porém, que do recesso do bosque, tão depressa a turva água da restinga cingia as margens, a tarde pronunciava-se transtornando o resplendor da viva luz num espaço nublado espesso e pungente. Durante três semanas, em dias alternados, Camilo empenhou-se em domar o potro que havia comprado, aplicava o mesmo método que seu avô paterno ensinara seu pai, e, este como um excelente adestrador, ensinou, pormenorizadamente a Camilo, "Lembre-se meu filho, os potros mais generosos, vivazes e fogosos dão as melhores cavalgaduras quando domados desde novos, mas, que se se descuida de amestra-los, tonam-se respingões e podendo até serem imprestáveis, assim, Camilo, com esmero, ajustava o integro animal de uma singular inteligência, era como que as sensações e impressões do cérebro os unissem num só pensamento que concluía facilmente a necessidade que os ligava. No trigésimo dia, pela manhã, Camilo arreou o animal, enfim, pela primeira vez iria montá-lo, estava ansioso, fora um mês inteiro de preparo e dedicação que julgara indispensável, "Não sei quem está mais ansioso, se é eu ou você, amigo, vamos dar uma voltinha", disse alisando o pescoço do animal, e, sem dar tempo a mais nada, Camilo, meteu o pé no estribo de couro, com um movimento ágil, vigoroso, deixou-se cair suavemente na sela, mal enfiou o outro pé no estribo, igualou entre os dedos as rédeas e deu-lhe a direção desejada, com uma precisão e celeridade, rompeu com as patas numa marcha branda, porém, contida, Antares, esse era nome que Camilo havia lhe dado, estendeu o pescoço, esticando as rédeas e, tomou o caminho como impelido por molas, balançado suave o cavaleiro em seu dorso, o animal experimentava uma sensação nova que o deixava ainda mais excitado, como se procurasse a razão que seu cavalheiro não lhe dava a rédea necessária para experimentar seu galope, Camilo mantinha o bridão firme, num abrir e fechar da mão, "Calma amigo, sei que quer correr", dizia Camilo sentindo o frenesi do animal, quando subiram pelo caminho atrás da casa, Elvira os viu através da janela de seu quarto com o pequeno Luís Carlos nos braços, acenou para Camilo, quando, de súbito, este olhou e retribuiu quase simultaneamente, ainda, sorriu, e não deu tempo para mais nada, como um raio transpôs a pequena ponte, a sensação que a estreita passagem causou no animal deu-lhe ainda mais ímpeto, avançando, agora pelo caminho das aranhas, Camilo, num segundo, abrandou as rédeas e, o potro com uma arrancada veloz atingiu a charneca, "Que animal espetacular", pensou Camilo, percorrendo o caminho as aranhas, Camilo o mantinha num trote contido, como se pisasse na ponta dos cascos no intuito de a qualquer momento voltar ao que de fato gostava, movimentos céleres de galgar o caminho que se descortinava a sua frente, Camilo, a fim de seguir o método racional de doma, e tão bem sabendo os limites do primeiro galope, e percebendo já o calor de sangue do animal, adiantaram-se até a torre e retornaram pelo mesmo percurso. Nos três dias consecutivos ao primeiro galope, gradualmente Camilo ia aumentando o percurso e o tempo, e cada galope o potro adquiria mais vigor e uma habilidade de movimentos que só as variações orgânicas favoráveis mais a busca de integridade que a necessidade se iguala à índole do animal, fazem atingir um fim desejável, no quarto dia o potro já estava dominado por inteiro, um instinto nervoso, imponente, marchava nobremente, com movimentos precisos, ao soltar-lhe as rédeas, a arrancada era eminente, nada ao acaso, que causasse desequilíbrio, uma ação interativa entre o homem e o animal precisa, tão veloz que deixava o cavaleiro extasiado, cortavam bosques e transpunham riachos como o vento aprofundavam-se por caminhos repletos de barreiras, e o animal com que zombasse delas, saltava com a maios destreza, deixando tudo para trás, como se tivesse nascido para correr, seguia avante como se elevasse nos ares, Camilo, percebia como os objetos passavam rápidos sobre eles, somente o céu, a terra os acompanhavam, sentia todo esse espaço junto a um ribeiro que paralelamente seguia o caminho, a ideia de liberdade se acrescentavam as perfeições que tão bem os seres inteligentes procuram. À tarde, no jardim da casa, sob um céu encoberto por densas nuvens lilás, o fulgor do sol incompleto produzia encrespados tons na cúpula, Camilo, Elvira e uma criada que trazia o pequeno Luís Carlos, andavam prazerosamente por essa atmosfera tranquila, as guirlandas estavam exuberantes sobre os canteiros que se seguiam em segmentos alternados, "O gosto que sinto por esse lugar", dizia Elvira com aquela liberdade original que havia nascido, "parece-me nutrir-me com os alimentos comuns que a natureza nos oferece, como é agradável conviver com tudo isso, como se a cada manhã o vigor do corpo fosse revigorado, "O maior bem é o conhecimento da união que a mente tem com toda a natureza, sabias as palavras do filósofo de Amsterdã", lembrou Camilo com uma expressão profunda, "Parece que tens se saído muito bem com o potro novo", disse Elvira com absoluta asseveração, "Sim, o animal é fantástico, nunca havia montado em algo parecido, tem uma absoluta assiduidade em seus movimentos, um cavalo enviado pelos deuses", disse Camilo com entusiasmo, "Que bom, aproposito, deixe-me contar o sonho que tive essa noite", disse Elvira com seu espírito brilhante e extraordinariamente fecundo, seu jeito jovial, vestindo o um vestido de linho branco os cabelos soltos, suavemente dourados, arranjados naturalmente, o colo adornado por um colar de esmeraldas, cuja a cintilação das pedras lhe resplandeciam nos belos olhos verdadeiramente enigmáticos, ajustados em airosidade num modo envolvente de raciocinar, segura a mão de Camilo e sentam-se num banco, "Não sem ainda", começou Elvira, "se os sonhos são originários de resíduos do dia anterior, ou uma força motivadora de algo inconsciente, bem, não sei, mas, muito gostaria de estudar isso", enquanto falava acompanhava com o olhar atento a criada e o pequeno Luís Carlos que balbuciava, próximos, "o fato é, que a disposição parece sempre estar lá, ás imagens, lugares estranhos, naufragosos, aparências de um mundano, nada que seu conteúdo fosse realmente aflitivo o tom de sentimento que me causava, isso que é interessante, como seu sentisse o sonho e pudesse controla-lo, como um diretor de teatro inconsciente, você me entende, de modo que me dá claramente perceber e, não prova, evidenciando que esses lugares fossem conclusivos para provar que o prazer não é um bem de forma alguma e que ele não é tampouco o bem supremo, bem, examinando melhor as imagens, percebo o poder da mente em imaginar, criar coisas que jamais havia visto antes, muito embora, já às tivesse lindo em narrativas, o que para mim basta para afastar qualquer ideia sobrenatural, o interessante que normalmente quando acordamos, as imagens do sonho parecem ficar encobertas por alguma coisa, parecem fugirem das lembranças, porém, esse sonho foi diferente, quando acordei ainda estava vivo em minha memória", "Uma descrição dessa espécie não pode deixar de despertar grande curiosidades entre nós", disse Camilo como seu entendimento estabelecesse um confronto das representações, "prossiga", "Esse sonho", continuou Elvira com entusiasmo, "me parecia como um arauto, percebia uma coesão onde homens e mulheres se fundava numa felicidade e prazer dos sentidos, como num eterno encadeamento de amar e ser amado, um desejo que se estendia do presente para séculos passados com breves lapsos de retratos e costumes, desejos, necessidades e formas morais que contribuíam para se perceber diferenças, via as galanterias o desejo de agradar, a onde dizia uma voz num suntuoso jantar de um suntuoso palácio, "Que esse desejo não é o amor mas delicada, a volúvel,, a perpétua mentira do amor", uma voz inclinada à brandura à humanidade, por mais que me esforçasse não conseguia ver seu rosto na estendida mesa, voando dali, meu espirito parecia circundar diferentes nações em cada século, e o amor sempre se inclinando fazendo suas distinções, agora via prados rodeados de sombrios bosques onde duelos eram o espirito de galanteria como precisasse adquirir forças, mostrava-se uma cidade da Lombardia, onde os campeões tinham consigo ervas próprias para feitiço, juízes enfáticos e reis despóticos obrigavam e oprimiam muita gente, e suas leis estribadas na opinião comum, trazia o medo e, esse parecia engendrar outras tantas coisas que fazia a classe oprimida imaginar espécies de influências, destarte, os duelos eram frequentes, violentos, os cavalheiros armados de todas as peças, com armas pesadas, ofensivas e defensivas todas de certa têmpera e de força representavam vantagens infinitas como se suas espadas fossem encantadas, tiravam suas donzelas presas, enclausuradas nas torres de góticos castelos, maravilhoso sistema da cavalaria cortava as planícies, eu, como uma alma montando um cavalo alado, percorria o curso ordinário do tempo, os romances paladinos, grecomantes, fadas, cavalos dotados de inteligência, espectros de homens, mágicos, preceptores que se interessavam pelo nascimento e educação de grandes personagens, e ainda palácios encantados e desencantados um em particular que tinha um grande lago cercado por espessa ponte e que parecia guardar o que de fato procurava, assim, enquanto observava aquela fortaleza, sentia o vento forte que vinha do oriente como se contribuísse para estabelecer a convicção fundada numa ideia de amor ligado à uma força de proteção, num instante, as estruturas da poderosa ponte pareciam ruir e, precipitou-se a arriar, sustentada por enormes correntes a ponte foi pouco a pouco se estendendo até arrimar suas extremidades a parte superior que separava o foço, um arrepio percorria meu corpo, de dentro do palácio ouvia-se o retumbar de trombetas tão forte como trovões, olhei naquela direção em que vinha o espantoso som, concentrando a atenção, não sendo noite e não sendo dia, percebi um estrugir de cavalos que se precipitaram da fortaleza, três pomposos cavaleiros traziam um maravilhoso sistema de cavalaria armas de combate, um em particular que montava um cavalo negro como a parte mais profunda da noite, ao passar perto de mim, olha-me, com galanteria e faz um comprimento, pasmada, mantinha os olhos fixos, levava consigo o broquel e um cetro e como usava o elmo pude ver apenas um olhar brilhante, as espáduas, o peito, boa parte do ventre e, além das costas, ambos os braços, cobertos pela forte armadura, pouco adiante desses prados os guerreiros despojavam suas qualidades, encontrei-me no luxo prodigioso de uma cidade, onde se incentivava a ideia dos prazeres e dos sentidos, nesse lugar parecia ter nascido a galanteria, homens extraordinários vendo a virtude unida a beleza, como se levados a se expor, por ela, dos perigos e a ser gentis nas ações triviais da vida, enquanto me inclinava por entre uma escarpa e o planalto, duma singela vereda que conduzia ao vale da cidade, encontrei-me com um ancião encostado a um rochedo, estupefato, disse-me numa voz profética, "Vai-te daqui, uma perniciosa alma a procura, a sua sede experimentada por uma coisa passada incita-lhe o desejo de saciá-la eternamente, vá, vá enquanto a tempo", e dito isto, o ancião afastou-se de mim como se eu tivesse um doença terrível, tentei ainda uma palavra, mas, demasiado tarde no mesmo instante em que transmontando o sol pelo caminho ao redor da montanha, avistei uma estranha criatura que montava um assustador cavalo vermelho e, sob um galope enfurecido pôs-se em minha direção, impressionada e assustada, pus-me a correr sobre um monte de pedras soltas, os pés, resvalando em terreno tão íngreme, cai, e a criatura se aproximava com fúria, o cavalo como um mostro afundando suas enormes patas sobre as pedras, vendo meus sentidos se dissiparem, colocando-se bem junto a mim, pude olhar a face daquela criatura, onde parecia a natureza humana se unir a natureza animal, tentando reagir com um movimente quase sub-humano, foi arrebatada de modo que meu corpo abandonou-se a impotência e ao desespero sobre o dorso do enfurecido cavalo, pouco adiante, observei, meio desfalecida, que abria-se vales fechado por montanhas cujos os picos cobertos de neve pareciam tocar os liames do céus e no cume de uma dessas montanhas, erguia-se um assustador castelo, edificado com quatro torres, sendo duas norte e duas na direção oeste, cada uma delas com alturas diferentes, a soma das situações fez que meus sentidos desfalecesse, até ouvir uma risada escarnecedora, em pouco tempo, atingimos a entrada do castelo, as barbaças assemelhavam-se a olhos escuros, aguardavam silenciosas se atenuando como ocultando almas pelas cavidades do muro, bem à frente, o grande adarve de pedras fazia impor o malogro de qualquer ofensiva, então, sob o crepúsculo de um céu nórdico, penetramos nas entranhas do castelo, um silêncio hediondo absorvia todo o átrio quebrado apenas pelo ecoar das pisadas firme do cavalo, seu interior era todo formado por fantástica arquitetura gótica, até onde podia perceber estava sendo levada na direção de um postigo, nesse momento tudo parecia ter-se apagado aos meus sentidos, percebia apenas fortes braços transportando-me, pôr o que parecia ser uma escada, não sei por quanto tempo permaneci naquela posição, visto nos sonhos, o tempo nos parece subtrair os sentidos, mas, apenas, minha alma parecia existir com um vista única do mundo, assim, percebia a força me impelido cada vez mais para cima, até, perceber que estava sendo trancada num espaçoso quarto, depois aquela mesma voz assustadora deu uma estarrecedora gargalhada, percorri o aposentos com olhar assustado, havia delgadas janelas em arquivoltas, surpreendia-me ao vagar os olhos por esses vãos e, percebi, que me encontrava no cume de uma das torres mais altas, as frias paredes dava um sentido de objetos hostis, um desvanecer mórbido de ver-me enclausurada onde parecia mais lento o giro das estrelas, durante toda a noite permaneci com o olhar fixo lá do alto, foi quando, volteando a vista para um lado, pude perceber, tênues listas que branquejavam as bordas do oriente, deixando indícios de algo mui grande vindo em nossa direção, e, pouco a pouco aquilo elevava-se como uma chama e alimentava toda a matéria que encontrava em seu caminho, como se aclamasse sua liberdade e fome devoradora, então, no pré-amanhecer, quando o rouxinol principiava a emitir tristes soluços, pondo talvez em suportar o passado de lembranças, avistei, então, proeminente uma grande turba de cavaleiros que marchavam sobre o crepúsculo, como formigas devoradoras apressavam-se diante do castelo, nesse momento em volta da torre, pairava um falcão como a anunciar-me algo que estava para vir, suas asas aberta, planava suavemente e ao mesmo tempo emitia um som que para mim era um pressagio tão tranquilizante como as brumas do céu, pensava, que bem pode ocorrer que tal ave tenha seu ninho aqui, depois de descrever algumas voltas, pousou no vão de uma das janelas, como se procurasse dizer-me algo, seu olhar fixo em mim, gorjeou como um guardião celeste, das fundações do castelo fortes abalos de suas muralhas até onde avistava, labaredas elevavam-se a cada bola de fogo que atingia, o piso tremia com o intrépido de tremores, decorrido algum tempo desse crepúsculo assustador, a porta do aposento onde me encontrava enclausurada, foi bosta abaixo com um único golpe, naquele instante perturbações ainda maiores surgiram, surgindo com o fulgor da chamas uma armadura, a fumaça mais as agitações interiores de meu corpo, obscureceram ainda mais minha visão, com a ressalva que já estando com os órgãos dos sentidos entorpecidos a ponto de nenhum novo objeto os poder dominar, permaneci imóvel diante daquela imagem que avançava em minha direção, ao se aproximar, tal como a imaginação me apresentava, percebia, mesmo que fosse de forma muito tênue, que já o havia visto anteriormente, essas mesma sensações parecia ter também a ave que corajosamente como um guardião permanecia sobre o vão da janela, dessa maneira, tal como a bondade natural causa desejos quando estamos despertos o misterioso cavaleiro ergueu a viseira e, com entusiasmo súbito e uma distinção clara, reconheci ser o nobre cavaleiro do palácio que montava o cavalo negro, seus olhos e até onde conseguia enxergar os traços eram idênticos aos seus Camilo, pegou em minha mão e, quando nos preparávamos para sair, aquela terrível criatura, surgi das chamas, inflamadas como se flamejassem sobre seu corpo untando com gordura, "Sai da nossa frente", bradou o denotado cavaleiro desembainhando a espada, mais ainda cresceu a fúria de execrável criatura e, com impavidez o cavaleiro parti-lhe em cima desferindo duros golpes que vibraram sobre a poderosa espada do demônio, pressurosamente me protegi num canto, a criatura defendia com destreza a cada golpe e como que zombasse, aplicava golpes poderosos até atirar o cavalheiro ao chão, o cavalheiro recuou até onde o permitiu a parede da sala e, apoiando-se em um dos braços, como que fosse levantar, com os olhos fixo no inimigo, difere um golpe e, que se não fosse pela rapidez da criatura o teria arrancado a cabeça em seguida outro golpe que atingiu a grossa parede tirando estilhaços de pedra, engolfados nessa mortal batalha, arremessaram-se, avançando pelas escadas da torre com bramido impetuoso do aço das armas, os alicerces do castelo pareciam tremer, receei não ter fim aquele assalto, até desmoronar tudo, não ficando pedra sobre pedra, enquanto mirava o fundo do pélago, observei que a criatura avantajava-se com força extraordinária, firmou um dos pés sobre o pescoço do cavalheiro que afundava num desvão e, antes que lhe pudesse dar o golpe fatal, voltei, olhando ao redor e vi, bem atrás de mim sobre a parede de grossas pedras uma grande lança, sem hesitar, peguei segurando-a firme, avancei até o extremo do patamar e, tão habilmente projetei-a no dorso da criatura, o mostro forte e feroz, virou-se, rosnando, e, antes que desse tempo de chegar até mim, o cavalheiro deferiu-lhe um golpe veloz abrindo-lhe o peito, falseado para trás, bradou, abrindo mais o esfacelado seio, e, o cavalheiro, acertando-o com precisão jogou-o no pélago de chamas, percebendo que as paredes começavam a ruir, exclamou o cavalheiro, "Vamos sem demora", no mesmo instante a ave abandou as paredes do castelo, exultante com o voo, começou a elevar-se para alcançar o céu. Já então, afastado daqueles terríveis domínios, percebia que as fendas da terra parecia sorver o ruinoso castelo na distanciada planície e, sendo dia claro, íamos nós afastando sobre o magnânimo passo do cavalo negro, sentia o calor o prazer sensível daquele corpo que me levava suas maneiras meigas, simples, contudo, a força de seu gênio parecia tudo arrastar, assim, sob um céu azul, brando vento, seguíamos por campos cobertos por murtas, planando sobre nós com júbilo, o falcão acompanhava-nos sob o espaço infinito". "Foi esse o meu sonho, embora, assustador, mas, no epilogo, enaltecia meus desejos de agradar que deram a uma parte da Europa aquele espírito de galanteria, e, mais emocionante ainda, que aquele que ali tinha unido pela força de tal singular imaginação era o único e eterno homem que amo, vós", "Que belo sentimento, me sentido deverás feliz de compartilhar tão nobre afeto", disse Camilo, segurando ás mão de Elvira e, beijou-a suavemente nos lábios, "percebe como o estimo das causas exteriores nos faz contemplar o mundo através dos sonhos, entendo que não é uma contemplação real, mas nos faz conhecer tão bem o objeto sensível que submetido a nossas ideias nos transporta ao curso do tempo". Era naquele banco de jardim, onde quase todas as tardes o marques passara horas com a marquesa que, agora, Elvira e Camilo, inconscientes disso, expressava a maior felicidade de um seguimento ramo de felicidades, ali, junto á natureza estética de um belo jardim, onde o ente eterno e infinito era concebido pela alma pelo fato de ser uma coisa pensante, o movimento evolutivo era de fato uma coisa simples, ideias livres que produzem a mais sublime contemplação, não de algo ostentoso de uma soberania absoluta, mas o profundo silêncio que era referenciado como a verdadeira libertação de tudo o querer na presença de uma grandeza pura no espaço e no tempo, um contentamento parecia se espalhar sobre o passado e a distância dava um tão maravilhoso encantamento, acontece, porém, que Elvira em especial as lembranças súbitas de cenas passadas davam-lhe a compensação e a elevação da consciência, o impulso do desejo e do temor, e todo o sofrimento do querer eram imediatamente apaziguados de modo suave, Camilo que conhecia tão bem a super simplificação de seus sentimentos os comparava à natureza, a consideração de seus pensamentos de um ângulo mais próximo, dava-lhe a verdadeira definição, à cerca do belo e do sublime, examinava ambos simultaneamente na natureza e em Elvira, ela acreditava, no fundo do coração, nas metamorfoses de Vishnu, e desde que pudesse arranjar um pouco de água sagrada do Ganges para fazer suas abluções, considerava-se a mais feliz das mulheres, Elvira, mostrava a estrada pela qual que felicidade deveria seguir. O efeito de todas as noites, Camilo, em seu gabinete redigia uma arquitetura de causas e palavras, que lhe permitia uma satisfação inerente a sua tendência, atua continuamente, enquanto a rigidez, igualmente objetiva da vontade resiste á revelação, a imagem, conformidade do espaço, a percepção de uma encantadora mulher deitada sobre finos lençóis de seda dando a simetria de seus traços ardentes, lascívia, um desejo exaltado que concomitantemente o levava a exigência da impetuosa vontade de amá-la.
XIII
"Causa-me uma satisfação grande em ver tudo novamente quase igual à outrora, em certos momentos quando estou por ai tenho as mesmas impressões quando aqui chegue pela primeira vez, á vida trazendo à tona, o obstinado desejo do homem de arrostar-se com a primordial natureza, da casa dos patrões novamente emanando o sopro da vida, como essa adicionada a reciprocidade na mesma base e uma retribuição exatamente igual, é essa reciprocidade proporcional que me mantém unido a este lugar, e também, é claro, nossa afetiva recíproca nunca ter se afastado de nós, figo muito feliz de ter você ao meu lado todos esses anos". Essa cena passava-se na casa do senhor Diogo Bernardes, cercado por uma mobília modesta, variada ao gosto da mais simples comodidade, respirava lenta e profundamente para chamar as recordações, acentuava suas observações com o indicador em riste, sublinhando cada linha de um vaso de lousa chinês, percebia que a alma se assemelhava a uma lousa vazia e que ao receber os traços de uma figura era como se começasse perceber as próprias ideias, sentado junto à mesa, inclinava-se nessas distrações, o esforço de sua percepção ressaltava ainda a reflexão que constituía outra coisa, senão uma atenção clara, do tom calmo da voz, da testa clivosa em que as sobrancelhas formavam a base, o senhor Diogo Bernardes, com seus olhos penetrantes, franzia a testa numa irrefutável penetração no objeto que observava, a ponderação realçada pela forma com que mordia levemente os lábios inferiores, com dentes ainda alvos e firmes e, pelos cabelos desenvoltos em torno de uma leve calvície, assim como pela camisa xadrez, braços longos e ombros largos de uma visa de trabalho bruto, e também, assim, a eficácia de um espírito dotado de pretensão de conhecer as coisas, no sentido de atenuá-la á seu caráter, nunca exagerá-la, pois entendia que tal atitude seria mais compatível com a conveniência uma vez que todo exagero é desagradável, um homem de bem e sua espécie, tornavam a ressaltar a propagação de suas palavras, "Mesmo nós vivendo isolados nessa casa, a disposição da alma não têm nos desamparado, felicidade, minha querida, nada mais do que felicidade, é o que nos faz viver", enquanto o senhor Diogo Bernardes falava, a senhora Florinda preparava muito prazerosamente o café, o cheiro exalava do aposento contínuo e, observava, de quando em vez, a disposição inata do marido, sorria com o sensível que tocava seus ouvidos e olhar, a senhora Florinda avançou até a sala e, num aprazimento que lhe era próprio, serviu o café, "É meu velho, tu e essa disposição de persuadir que me fez conhecer o que á alma tem de melhor a oferecer", disse, pondo uma das mãos sobre o ombro do marido, "Lembro-me que depois que o conheci, demorei ainda para perceber, compreender que vos não era um glutão e um beberrão, mas, um homem de espírito brilhante", " E parece meus esforços não terem sido em vão', disse o senhor Diogo Bernardes com um sorriso nos lábios segurando a mão da mulher carinhosamente, isso fez o tomar um gole de café, apreciou o saboroso gosto que a cada dia parecia renovar-se como a bela manhã que se descortinava pela janela, declarava que a vida não precisava elevar-se acima de seus fundamentos mais simples, bastava seus fundamentos naturais para sermos felizes, refletiu os raios de sol que permaneciam sempre estimulantes de uma imagem viva, saiu, vagarosamente, a senhora Florinda concentrou-se por trás da janela, ficando a olhar a maneira que ele se afastava, "Parece seu espírito inabalável", disse consigo, sorriu absorvendo a vida em seu nível mais simples. O senhor Diogo Bernardes nunca fora um homem de letras, esse adjetivo, contudo, não lhe afastava atinente à doutrina ética, seguia o que consagrava e administrava aquilo que mais gostava de fazer, e julgava ser mais útil, e, por isso, às coisas mais simples era para ele sempre cercadas de esplendor e considerações. Os dias que se seguiram deste a chegada dos novos patrões era com que sentisse sua satisfação avivada, seu estado de espírito limitado às ideias complexas não lhe afastava o encadeamento das circunstâncias simples e lhe apresentava algo prazeroso em tudo que torrente incessante desejo atingia, continuamente a força adiante, a partir do pouco que entendia da complexidade da natureza, introduzia em sua verdadeira apercepção, todo o restante, desfilando por si assim quase todos os quadros da vida, enquanto andava com um leve movimento do corpo, percebia o eixo do universo, sempre se revigorava ao sentir em cada manhã a suave indolência que a natureza o unia a este estado selvagem, o senhor Diogo Bernardes sempre acreditou que para conhecer a verdadeira natureza era preciso viver junto a ela, conhecer seu estado na uniformidade de uma vida isolada, não é perder seu lado sociável, mas conhecer sua própria origem, disciplina e leis que mutuamente nos transforma em seres racionais, essa parte da razão nutria o espírito do senhor Diogo Bernardes, enquanto percorria com os olhos as copas das grandes visgueiras entrelaçadas como que dançassem a suave valsa da natureza, o vento dando-lhes o ritmo o puro espaço como o mais belo salão e a orquestra tão bem ritmada dos pássaros compondo as mais sublime das canções, sentir todo esse espaço representava absolutamente indicativo de si mesmo, algo que o senhor Diogo Bernardes não compreendia muito bem, mas, que dava a certeza de existir, a consciência de não ser apenas mais um ser opaco para si mesmo, mas, inteiramente preenchido por si mesmo e sem nenhum vazio, dentro dessa perspectiva o senhor Diogo Bernardes percebia esse seu lado sensível, era-lhe um tanto incomum, já que seus modos, acostumados a nada considerar, senão imaginando, que uma forma particular de pensar, as coisas materiais, que tudo quanto pudesse imaginar fosse algo prático que estivesse ligado aos objetos particulares e, que as diversas ações de seu corpo permitia julgar facilmente, as considerações que fazia do próprio sentido foram-se atenuando à medita que começou a perceber os traços da casa que se aproxima, dando a descomposição da luz, esboçada pela opulência das sombras das árvores formando proporções misteriosas como desenhos aprofundados nas cores primitivas, seguindo o caminho que o leva até o jardim, o senhor Diogo Bernardes caminhava com seu ar pensativo até ouvir palavras que vinham da varanda, erguendo os olhos um instante, avistou Elvira, sentada, sorrindo, enquanto Camilo, em pé, ensaiava os primeiros passos do pequeno Luis Carlos, "Vamos", dizia ele para a criança, mantendo-o entre as pernas, enquanto que com as mãos equilibrava-o para frente, "Que belo menino, hei, já quase anda sozinho", Camilo entusiasmava-se examinando o filho e, num desses movimentos, avistou o senhor Diogo Bernardes, cumprimentando-o com gesto do braço e, seguidamente fez-lhe um sinal com a cabeça para que se aproximasse, o que libertou o corpo do interpelado da postura em que estava, " Bom dia, senhor, senhora, "disse o senhor Diogo Bernardes se aproximando, " Tanto Camilo como Elvira, responderam-lhe com acatamento, " Escutastes o barulho essa noite ", perguntou Camilo, antes, porém, de dirigir sua atenção mais pormenorizada a este último, que, intuído de entregar o garoto para Elvira, esperava pacientemente o pequeno soltar-lhe de suas calças que segurava firme com às mãozinhas, " Venha com a mamãe agora", exclamou Elvira, pegando-o no colo. O senhor Diogo Bernardes sorriu à afável cena, como se esmaltasse em seus sentidos a inferência que o influxo do regozijo atingia aquelas almas e, num instante, enquanto o entendimento se voltara para si mesmo e refletia sobre suas próprias operações, formulou com atenção o que Camilo havia dito e, num instante, lembrou-se que ainda não havia visto o cachorro desde que saíra de casa, essa consideração o fez movimentar o corpo como que buscasse com a vista as solicitações dos sentidos, " A noite passada, algo inoportuno parece ter nos visitado novamente ", disse Camilo com uma conduta de sinal, como se a situação o incomodasse, "Logo após o jantar, deitei-me, e dormi tão profundamente como não fazia à muito", respondeu o senhor Diogo Bernardes, pareço ter caído num labirinto de sonhos, não ouvi nada senhor", " Então, o mesmo ocorreu", continuou Camilo, andando como se algum objeto estivesse ao alcance de sua retina, parou, " quase no mesmo horário, quando me preparava para deitar, começou o cachorro latir, dessa vez do outro lado da casa, por aqui, nessa direção que vai para o jardim, a mesma forma de repelir, os latidos de impugnação, agora ainda mais implacáveis, a coisa que era molestada parecia dessa vez ter sido mais audaciosa", enquanto Camilo falava, o senhor Diogo Bernardes mantinha-se atento às palavras como se sua imaginação reproduzisse um nexo existente consigo próprio, avançaram até a extremidade da casa, onde o estreito caminho de azaleias leva ao jardim, "Foi nessa parte que o cachorro começou a latir ", disse Camilo olhando ao redor, " bem aqui", a grama estava pisada e havia indícios que algo seguira pelo caminho, não era possível afirmar seguramente a direção que as pegadas seguiam, visto boa parte da vereda estar coberta por folhas, " Seja o que for não é algo sobrenatural senhor, desta vez parece ter sido ainda mais ousado, naquele momento, desci até aqui, e conforme a direção que avistei o cachorro, foi está, fui adiante, até o jardim, mas, como antes, quanto eu mais me aproximava, tanto mais tomavam a dianteira, tenho a impressão senhor que de fato há algo de pernicioso nesse lugar, e, parece nossa presença incomodar, como se nós fossemos veiculado exclusivamente à discordância de uma identidade, uma existência real que constitui o predicado, ou seja, e aquilo que não sei o que deva ser, tem uma noção ligada à ideia de que se trata, havendo conexão entre estas duas noções, de modo que, somos então, a sua presa". "Não sei o que conjeturar senhor", disse o senhor Diogo Bernardes como se olhasse para as obras do pensamento, "uma coisa é certa, um símbolo é alguma coisa que se apresenta no lugar de outra e presentifica algo que está ausente", É elementar senhor". Dali a pouco, enquanto o senhor Diogo Bernardes podava algumas touças de lobélias que adornavam a pequena avenida do jardim, descobriu por acaso uma pegada peculiar que o fez de subido fixar nela o olhar, a daquilo parecia discernir algo que até então duvidara, "Não pode ser", exclamou, e no mesmo instante uma palidez estampou em seu rosto, os traços da pegada era de um pé, o formato que esboçava aquela pegada, era de um pé humano que o senhor Diogo Bernardes julgara conhecer tão bem mesmo estando privado do conteúdo próprio, ao menos que sua memória-fluxo-de-duração-pessoal, estivesse encanada, voltou a deliberar, e fixou o olhar naquilo, e num instante a observação pareceu trazer-lhe de volta aos sentidos á imagem de uma sagaz criatura que só andava descalço; "Meu Deus,", disse e, volveu o olhar ao redor, ao longe, depois perto, então, ergueu-se, procurando uma concordância necessária com um fluxo temporal, e, não encontrando uma disposição intermediária para colidir com suas sensações, virou-se e, com um sobressalto deparou-se com o cão Rott, sobre o verde esmaltado da relva enternecidamente sentado com os olhos tardos imparcialmente estático; "Por onde andou rapaz," exclamou o senhor Diogo Bernardes olhando-o com impassibilidade percebendo uma lama argilosa conjugada ao pelo do ventre do animal, "que belo instinto de coragem meu rapaz, parece ter retornado das profundezas do inferno, e isso nem lhe incomodar um pouco, é meu rapaz tudo indica a alma que você persegue ainda não encontrou descanso, vamos para casa amigo vou lhe preparar algo para comer", concluiu o senhor Diogo Bernardes enfático olhando para as sombras do enfesto bosque.
Não diria o costume, mas uma necessidade é o grande guia da vida humana, é o que nos leva ao princípio, ao meio, o fim, através dela nos faz conhecer o presente nossas ações, talvez, prever o futuro, não somos mais do que meros acidentes numa natureza eficaz onde a razão nos determina os fatos que relata, portanto, essa necessidade, em um âmbito de influências e relações dá a continuidade de imagens que possam avivar os sentidos do espirito, afastando transições dessemelhantes que mostra-se, imperfeitas com essa realidade possam influenciar as ideias com as quais se assemelham, era nesse plano de expressão, que Elvira e Camilo absorviam toda essa extensão de fenômenos que a natureza lhes apresentava, a cada manhã, a cada tarde, outrossim, nas belas noites de céu claro, mediante ao movimento suave e sensível das constelações do hemisfério austral, onde os laços que unem entre si são os pensamentos que engendram a série regular de reflexão e ideias insondáveis que, em maior ou menor grau se realizam entre os homens. Ora os encontrávamos nessas cenas, ora em crepúsculos induzidos na direção de um novo dia, como se percorressem o tempo numa dissolução de infinita felicidade onde o entendimento e sua faculdade originária de ligar o múltiplo da intuição, ou seja, de submeter-se a percepções para eternizar cada momento, esse ponto, que de maneira sútil, Camilo explicava para Elvira, os momentos propícios, dizia ele, para perceber, que se nos distinguirmos cuidadosamente não os momentos em si, mas os infinitos modos de pensar, e essas ações, segundo ele, que emoldavam cada dia e, por meio dessa mera análise inteiramente alcançada pela sensibilidade á alma unida e ligada pelos modos que exprimem a natureza de uma maneira certa e determinada percebe o nexo existente que nos uni. E, assim, se procedia, uma série de consequências prazerosas, uma das quais, numa tarde de verão, quando Elvira e Camilo, desciam até as inúmeras cachoeiras que aprimoravam as serras, uma em especial os encantava, junto a uma escarpa da quase impenetrável Mata Atlântica, vertia seu opulento volume de água branca com as nuvens celestes, pelas quais descia entre centenas de pedras untuosas que como esferas luminosas uma a outra embelezava entrecruzando, o vapor da água umedecia tudo a sua volta e um vento brando dava o impulso de uma fantasia criadora que só nos contos mitológicos parecia existirem, sobre o véu da majestosa cachoeira formava-se um arco celeste que determinavam as cores primordiais da natureza e, quanto mais o sol usava tingir com seus raios a virtuosa atmosfera, mais alimentava esse esplendor, na base da penha formava-se um pequeno lago, magnífico, de águas transparentes, onde a magia que os reflexos do sol proporcionavam, encantava a própria natureza, banhavam-se, ali, nus, tais como vieram ao mundo, á sensação gostosa, livre de sentir o corpo deslizando na água, excitava-lhes a volúpia, submergiam, volteando, contornando as entranhas do lago como peixes enleados de membros humanos, ai, quando retornavam à tona, uma voluptuosidade os envolvia num amor ardente, o sol havia descido alguns degraus e, através das árvores que se fincavam na escarpa, seus raios frouxos eram cortados e as sombras se projetavam sobre as águas do lago, transluzindo uma astenia de reflexos alternados como os quilates de um diamante, então, nesse cenário da mais pura beleza é que o tempo ia transcorrendo, dando a mais perfeita felicidade da contemplação da natureza.
O verão começava a chegar ao fim, ia dando lugar a um outono precoce com uma amenidade de temperaturas, o vento que vinha do sul ainda estava úmido e constante, as tardes eram mais curtas e o céu tornava-se mais nuvioso e sombrio, as andorinhas começavam a migrar para o norte, bandos de irerês cortavam as esplanadas seguindo uma espécie de flecha lançada no vazio do céu, uma juriti solitária, veloz, percorria o âmbito de seus domínios, com seu voo batido e sinuoso, ora mergulhava no espeço bosque, ora emergia na direção das planícies, prosseguia cortando o céu, expandindo-se pelo espaço como a divagar entre primícias de prazeres eternos, até, pousar suavemente em seu pinheiro predileto, eis que em frente a esse pinheiro ficava a casa do senhor Diogo Bernardes e, sob a vista deste que prazerosamente sentava-se na varanda da casa a fumar seu cachimbo, a ligeira ave posicionada no galho da frondosa árvore, tornava-se brilhante sobre seus ramos.
Uma manhã de maio ou de começo de junho, por um tempo fresco e de um nevoeiro denso, em que as folhas desvanecidas e úmidas espalhavam-se sobre a relva e nas veredas, em que o céu frio estava inteiramente invisível na atmosfera espessa, embora a luz solar fosse arremessada em todas as direções atingia a superfície muito sutilmente, as gotículas dessa condizente compilação, circundavam, aprofundando em todas as direções e, essa substância atmosférica ia encerrando toda a imagem da superfície, cingindo a sombria atmosfera, descendo, percorrendo ocultas veredas, até avistar partículas escuras, recombinando com o formato de um fogoso cavalo negro, sua respiração formava influxos como fumaça, naquele momento, junto à varanda da casa, Camilo recomendava algumas palavras para Elvira, não que fosse ausentar-se por muito tempo, mas, considerando certos incoativos, discernia alguns por indução, outros por via da percepção, outros pela habitualidade e, outros de outras maneiras, disse ainda, palavras carinhosas, beijo-a demoradamente nos lábios, em seguida nas mãos, Elvira respondeu-lhe passando suavemente a palma da mão em seus rosto, Camilo, então, voltou-se para onde estava o cavalo, pegou a rédeas com a mão esquerda, deixando-as igualadas, a ainda, com a mesma mão usando apenas os três dedos, firmou na crina do animal, e com um ágil salto, assentou-se na sela, fez um sinal de galanteria com a cabeça e partiu, numa arrancada instantânea, Elvira acompanhou-o com o olhar, mas só por um instante, já que a densa névoa dissolveu a imagem igual uma quimera, suspirou profundamente, depois, adiantou-se até a frente da casa, observando a quietude da sombria atmosfera. Troncos, como almas emudecidas que nidificaram os pássaros do verão, agora, induzia uma melancolia, derramando gotas de orvalho de suas poucas folhas quase mortas, como que chorassem a ausência daqueles que cingiam seus ramos, o canto solitário de um surucuá-de-peito-azul ecoava do fundo do bosque um pavó, pousou num ipê bem perto onde estava Elvira, absorvia toda essa atmosfera que pairava em imagens oscilantes, e isto só por uns instantes, até sua circunspeção ser enfraquecida por outro som produzido num castanheiro, alguns passos de onde estava, como se procurasse o conceito abstrato da coisa, adiantou-se alguns passos, fixando o olhar para o alto da árvore com assiduidade, descobriu o causador do atrito continuo, um esquilo à porta de um orifício no tronco, cortava com os dentes uma castanha do verão passado. Mas, voltemos a nossa atenção na estrada em que Camilo seguia; soltando as rédeas para o vigoroso Antares, ai, o animal deglutia cada palmo do sinuoso caminho num galope intensivo, exato e preciso em cada movimento, mesmo com uma visão limitada pela densa névoa que, ora se dissipava um pouco nas partes mais altas, ora cerrava fastidiosa nas partes baixas, mas isso não parecia nem um pouco conter a incomensurável força do animal que seguramente qualificado, avançava como se tivesse um sexto sentido, seguia nesse ritmo, até onde a estrada alcançava o ervaçal, o qual surgiu junto, repentinamente uma carroça; Antares com um reflexo surpreendente arribou-se ao seu lado como se tivesse refração dupla nas quatro patas, a enfática mula que puxava a carroça, surpreendida pela súbita abordagem no meio de seus distantes devaneios, produziu um decidido avanço em resposta, na qual foi contida pelo senhor Diogo Bernardes que a conduzia; "Evidentemente que esse cavalo tem algo de extraordinário", exclamou o senhor Diogo Bernardes, observando Antares com distinção. Camilo fez um gesto de concordância e manteve o animal ao lado em que seguia a mula. O caminho que se estendia até o Rio Grande abria da estranha penumbra, parecia desde que o senhor Diogo Bernardes o conhecia, não ter mudado muito, só mesmo as causas naturais faziam pequenas diferenças, as chuvas do verão passado haviam aberto pequenas erosões, aqui, acolá, nas bordas, como que a própria natureza se encarregasse de reparar o acaso, pequenas porções de terra que deslizaram das chuvas, espalhavam-se pelas fendas, contendo as possíveis erosões que viessem a se formar e comprometer o eixo do caminho, a vegetação nas encostas por sua vez, controlava os deslizamentos, árvores velhas, curvadas, iam dando lugar para outras novas cada estação, dando outras formas, mas, seguindo as ressalvas relativas aos grupos, tudo seguindo um equilíbrio perfeito com o decorrer dos tempos, assim, o caminho, estendia-se até o Rio Grande, Camilo e o senhor Diogo Bernardes os destinatários acompanhavam de forma indissociável todo o trajeto, Camilo com uma acuidade mais detalhada, observava cada detalhe, como se tudo desse um sentido a uma mensagem definida como sendo o conjunto da situação de comunicação, a névoa úmida ainda vagava desterrosa buscando em vão um descanso, no sentido que seguiam, em alguns trechos à direita havia valados onde se avistava uma viscosa e fria névoa, que se propagava com impassibilidade sobre a escura água da ampla represa, tal como as nuvens a vagar em céu sombrio, era densa o bastante para ocultar toda a restinga, apenas em poucos pontos, sobressaia-se nódoas, assim como o mortal é separado e a alma colocada na extensão restante de seu espaço, durante o trajeto, em alguns pontos, Camilo e o senhor Diogo Bernardes conversavam, em outros, conservavam-se calados, abandonados em seus devaneios, Camilo, aprofundava-se em reflexões, que pela suas impressões parecia satisfatória com suas ideias, considerando o projeto que tinha em mente, além disto, para apreciar devidamente a apresentação a ser dada, reconhecia a totalidade da série gradual das ideias que, a vontade se objetivava, já há algum tempo, vinha esboçando um projeto para atividades pedagógicas e pretendia fundar uma escola baseada em uma moderna educação progressiva, nada que havia ainda no império, onde se ensinaria principalmente a geometria, filosofia e as ciências naturais, com esse sopro de desejo, que a circunstância o conduzia até o bairro, já o senhor Diogo Bernardes, ocupava-se da razão em seu destino habitual, o procedimento natural de um homem, onde percorria o espaço vazio do entendimento como uma espécie de base, onde pudesse apoiar-se e empregar suas forças para fazer o entendimento sair do lugar, seguia seu destino usual, concluindo apenas seus deveres e necessidades que lhe dessem apenas incrementos seguros e úteis, já que a esfera da experiência da vida o levara para o impulso de ampliação, onde seu propósito último, muito mais sublime do que tudo alcançara seus limites, assim, conduzia a carroça, pelo menos ia vez por mês até o bairro, refletia sobre esses costumes e se comprazendo com as lembranças da imagem da simplicidade dos outros tempos, "outrora, parecíamos mais ligados com a natureza e, rara, eram às vezes que íamos até o bairro em busca de alimentos, sementes, roupas e outras cousas mais, parece a vida multiplicar-se em comodidades". Depois que cruzaram a ponte que separa a represa dos montes que se alçam numa afluência alcantilada, avançaram pelo sinuoso caminho solitário, e apressando o passo da carroça, em pouco tempo, aproximaram-se da entrada do bairro de São Bernardo do Campo.
Por hora, voltemos para junto de Elvira.
Ao sair do quarto, deu dois passos para descer as escadas, mas recordou-se de algo e, voltou, sentia que o frio parecia aumentar, no quarto, numa poltrona perto da cama, apanhou o gorro do filho, o vento que entrava pela janela do quarto prosperava, fustigando seu interior, em vez de retirar-se, foi até a janela e fechou os postigos, e, num instante, nada mais se movia no quarto, somente o subir do vento oscilava na janela como uma alma clamando pela sua morada, voltou-se observando o aposento como se cada objeto fosse um límpido espelho do passado, de tal modo que tudo se passasse como se existisse unicamente nas lembranças, embora, os objetos ali, fossem os mesmos, o mesmo aposento em que ela havia nascido o cesto ao lado onde fora introduzida como um embrião para que não morresse e se tornasse a continuidade de um desígnio onde teria um dia a consciência plenamente preenchida e ocupada por uma única imagem intuitiva, e como um metamorfose, seu filho ali nascera também, preenchendo esse plano de continuidade da incessante formação da vida, ao voltar com o gorro, Elvira encontrou o menino em frente da casa, vigiado cuidadosamente por uma criada, o garoto corria em volta do alambrado de madeira, voltava, corria ainda várias vezes antes que seus passos mais lentos tivessem alcançado o ponto em que a criada estava parada, depois, sentou-se no talude relvoso, à frente da casa e fez alguns movimentos enérgicos com os pés, ao ver a mãe, a criança sorriu, agitando no ar as mãozinhas ágeis, fazendo considerações de um contentamento que somente a criança com sua consciência de uma representação pura pode exprimir, a mãe sorriu como se tivesse encontrado algo mais para a suprema unidade da felicidade, fornecendo-lhe ao mesmo tempo um beijo, segurando em suas mãozinhas, a que ele se agarrava balbuciando, e o corpo todo palpitante, e era um alimento bastante conveniente para manter o calor do corpo, e que ela o continha em tal quantidade que não havia necessidade de buscar qualquer alimento alhures, que ele colhia, como alimento mais conforme que o comum para ele manter o calor, Elvira tudo fez, pegou-lhe ao colo, fê-lo saltar nos braços, beijou-lhe as bochechinhas rosadas e as mãozinhas nuas de anjo, mas, ao vê-lo, incomodado naquela posição, tornou-o onde estava, sentado, passando a mão para trás de seus espessos cachos louros, em seguida, pôs lhe o gorro, tudo lhe era agradável, os traços de Camilo mesclado com os da família de Elvira, os olhos penetrantes iguais a do avô materno, o perfil sutil e uma perspicácia em agir era pertinente a mãe, a constância e a maneira especulativa era própria a do pai, tudo enchia o coração de Elvira, a felicidade ocupando de tal forma sua alma em considerar o filho amado, que empregava toda sua a faculdade de conceber com rapidez e de enunciar, de um modo engenhoso e gracioso, o motivo de sua alegria, e, ao lembrar de sua infância os momentos de prazeres que passara num espaço tão belo, o encontro a cada manhã com o mar, um estímulo exterior, que preenchia toda a disposição interior, era essa torrente infinita do querer que seu filho sentia examinando-as quando seus pais falavam-lhe, como se contasse um conto de fadas, como teria desejado para seu filho este contentamento que conheceu na infância não que a relação dos objetos que cercava seu filhos não fosse bela, mas, separados pela natureza onde o espaço que agora a memória relacionava, apresentasse uma atmosfera tão mutável que a opulência da bela natureza era estritamente transitória que facilitava e favorecia a solidão e, por mais que afastasse essa sensação, ela ressoava em seu interior, esse ambiente frio, sinistro, estranho e que muitas vezes parecia até hostil, produzia um sentimento frágil de amargura, seja por meio dos objetos presentes, seja por meio dos distantes, porém, essa relação dos objetos era ofuscada pelas lembranças súbitas que seu objetivo tinha apresentado, de modo igualmente puro, sem ser obscurecido por relação alguma que ela não desejasse, o sentimento de suas almas estritamente ligadas a sua, fazia a penetrar em um outro mundo, em que todo reconfortado e alegrado por uma única visão livre de uma natureza, onde pontos luminosos se combinavam em figuras regulares. Depois de confiar o menino à ama, voltou para dentro da casa, a sua emotividade a levou diante do retrato dos pais, a perspectiva que eles assumiam no retrato dava-lhe agora, ao invés da tristeza, um contentamento interior, as imagens do sofrimento eram obscurecidas por uma compreensão onde a beleza, a graça da bela forma corporal era tão real do modo mais vantajoso, como se ele só vestisse o espírito de Elvira, a rapidez que o momento se fixava no quadro, possuía um contato leve, peculiar, o mundo fugidio, transformando-se como um ato real, representativo do todo, sendo captado numa imagem permanente, onde o observador dá uma realização das cores, pela qual essa parecia parar o próprio tempo, Elvira tentava entender essa matéria que permanecia, existia no mundo externo e quando esses objetos chegavam ao alcance de seus sentidos, criada pelas formas de percepção e compreensão, conseguia entender como aquele mundo incognoscível das coisas era-lhe concebível, limitando-se a esse mundo de mera superfície a aparência, além, do qual ele só podia resultar em contemplações ilusórias onde o espaço o tempo haviam obliterado o sopro da vida e, além de qualquer limite por mais que se esforçasse em buscar essa sensação de aparência viva, era levada a conceber algo mais além, interminavelmente, que, no entanto, a própria infinidade era inconcebível aos modos de interpretação e compreensão. Esse isolamento de conceitos e juízos que fora deixada foi suprimido pela intuição, a sensibilidade, a percepção de uma vida real, a voz alegre de seu filho, brincando em frente da casa afetava-lhe por um só e mesmo sentimento, um contentamento íntimo opondo-se a qualquer afecção da alma que viesse a tirar-lhe essa alegria que as causas exteriores proporcionavam, Elvira tornou a caminhar pela casa, algo parecia, deixá-la inquieta, como se o mundo intuitivo desse as funções próprias dos sentidos, o entendimento pensar, isto é, julgar, porém, de uma formar gritante parecia não haver nenhum entendimento, que entrasse em sua cabeça de uma forma inteiramente inexplicável, sentou-se em uma poltrona, em seguida adormeceu, era a primeira vez, em muitos anos, que sentia a alma suscetível de se recolher, de se bastar em seus pensamentos, parecia evidente que, seu espírito se antecipava para desvendar a causa que resulta o lançamento de um dardo, considerado como igualmente provável que trazia consigo um malévolo veneno, que por muito tempo percorria com ele um espaço desdenhoso, imergindo do limiar de um funesto sítio. Eram seis horas quando despertou e, percebendo o quanto o tempo havia passado pensou o tempo como uma paternidade imaginária, subiu até seu quarto, parou diante da porta que se mantinha entreaberta onde Benvinda, de pé, como o pequeno Luís nos braços, cantarolava baixinho, Elvira estendeu o olhar para a criada para procurar descobrir se o garoto já dormira a expressão afirmativa de Benvinda, compreendeu com um leve sorriso, então, voltou-se para a sala, no relógio de parede Elvira notou que já passava das seis horas da tarde, Camilo ainda não retornara, "como está demorando", pensou, imaginou, todavia, não encontrou razão para seu espírito que serve para fortalecer um pensamento, quando parece ter um fundamento que não é bom, não possa fortalecer também, quando o fundamento á apenas uma frieza da alma que lhe supra o poder de resistir algum mal que pensa estar próximo, ora, mas parecia tudo tão quieto, não que o silencio fosse algo de desconhecido, faltava o rugido do mar que se assemelhava-se a de vozes, das aves marinhas e do vento euro como suave voz de um couro, assim ocorria nos pensamentos de Elvira, ficou a procurar na memória, de que provinha tão incomum silêncio, a quietude que absorvia era congênita ao próprio lugar, época, mês e horas, entretanto, não a concebia como tal, algo a levava a buscar uma inquietação, como se nesse ambiente tácito houvesse um ente necessário, olhou para os gongos da porta, aproximou-se com um ramo de flor, como símbolo de suas funções, destinado a afastar das aberturas das casas todo malefício. Com chamada pelos objetos exteriores, saiu em silêncio, e junto à porta encontro o cão Rott, que parecia esperá-la sua observação relacionava-se com a conformidade e os modos de sensação que Elvira produzia, olhos penetrantes fluíam ao fato, seu extinto deparara com muita facilidade para distinguir a variada origem das coisas, com toda qualidade denominadas sensíveis, recebeu com um modo animador a presença de Elvira, considerando a companhia do cão, ofereceu um gesto de carinho, passando a mão em sua cabeça, do qual compartilharam, como que suas mentes pudessem descobrir até onde o entendimento humano pode estender-se com o entendimento animal, Elvira pôs-se a caminhar em frente da casa e seus passos foram seguidos pelo cão, o ar livre que emanava da profunda atmosfera dava a sua ideia a contemplação de um mundo exterior melancólico, mas, ao mesmo tempo, belo, até onde seus sentidos permitiam alcançar, e, descobria inseparavelmente inerente a seu corpo, uma lembrança das muitas horas solenes, que embora seus sentidos não os desse como real, num passado de impenetrabilidade, julgara tão certo ter vivido, como uma luz sulfúrea lançava-a a uma alta expansão de sensações e reflexões, cujo voo sempre retornava depois que percorria os limites do mundo para um vazio incompreensível, era um dia nublado de inverno, obscurecido ainda mais pela perniciosa sombra, que ao mesmo tempo, desprendia-se da solidão do bosque e envolvia todo o âmbito da casa, as paredes adormecidas pela tarde de um céu de tons fúlvidos, um ar frio, onde a quadratura púrpura misturava-se ao cinzento predominante, causando uma mescla merencória, as feições de Elvira, na harmonia da forma e na maciez da pele, embeveciam-se com o ar insensível, permaneceu longo tempo parada, olhando o caminho que julgara a qualquer momento enxergar Camilo, atravessando as muralhas de névoa que com um hálito pestilento envenenava o mundo, o ar tornara-se ainda mais frio, transformava-se em admoestação para os órgãos respiratórios, ainda assim, não dispensava o profundo devaneio que fora entregue, o cão ao seu lado sentado, imperturbável, mantinha-se vigilante, atento, pacientemente aguardando qualquer ação de Elvira ou de outro lugar, a escuridão avançava rapidamente, viu subir, nadando com asas por aquele ar espesso, sombrio, uma figura de tal modo assustadora que ao peito mais destemido e forte causaria espanto, subia, como um anjo que tendo mergulhado nos torvos subterrâneos em que habitam as almas dos mortos, emergia vislumbrando o mundo dos vivos, com um voo rasante e batido, exibindo a brancura de um cisne, passou rápida olhando para Elvira, eis uma ave de aguçadas garras, com a qual captura sua presa, de olhos perspicazes que atravessa a escuridão com agudeza infalível, quando alcançou os domínios da casa, voou em círculos concêntricos até atingir a pétrea margem do topo da torre, pousou o busto, voltando-se e mantendo a cauda no vazio do interior da solida construção, a coruja, então, emitiu um piado fúnebre, assustador, como se pressagiasse o que nos espera a sorte, Elvira, olhou para ela, sem qualquer movimento, concedendo, que a noite chegara e a natureza produzia sons alheios, era evidentemente contrário a todas as regras da analogia raciocinar ali, exposta aos efeitos dos quais derivam sensações e impressões de medo, e, considerando este mundo exterior hostil e a vida presente unicamente como um edifício imperfeito do qual não temos noção alguma de que lado vira o abalo, Elvira voltou para dentro da casa.
Á esse tempo, na vila, em frente á estalagem do Zé Bucheiro, o senhor Diogo Bernardes aguardava, sentado em sua carroça, Camilo retornar, o que haviam combinado era que qual chegasse primeiro nesse ponto de partida, aguardaria para retornarem juntos, já que haviam considerado a noção de quanto tempo demorariam, mas a partir desse momento o senhor Diogo Bernardes parece ter percebido que se ocupou além do tempo que ele mesmo havia previsto, assim, o melhor aspecto que tomara sua consciência foi pensar que, Camilo, uma vez tendo-o esperado e, supondo que a demora se estendia mais que o necessário, considerou, pois, se nenhuma conclusão fora inferida, que o senhor Diogo Bernardes, por uma razão semelhante já havia partido, apoiando-se nessa ponderação, não demorou muito para que a consideração fosse oposta, ao ouvir uma imediata aproximação de um cavalo a galope, e, mesmo antes de se virar para olhar, o galope parou de súbito e, em meio ao ruído de cascos, golpeado o solo batido a voz grave de Camilo soou na escuridão; "Julguei que o senhor já houvesse partido", "Por certo que estava pronto", respondeu o senhor Diogo Bernardes, manobrando a mula para ganhar o caminho, "acreditei que eu é que havia me demorado e, que certamente, o senhor já estaria em casa". E, estirando já a negra noite sobre a terra, puseram-se a caminho de volta. Camilo friccionou às mãos uma na outra a noite estava serrada e fria, tirou da algibeira um par de luvas e, a noção do tempo pareceu num minuto dar lhe uma satisfação de estar voltando como se estimulado pela lembrança de alguém, e foram pouco a pouco sumindo na escuridão. Os globos oculares parecem se movimentar para apresentar às excitações luminosas, quer venham da direita, quer da esquerda, assim, a corda de breu, que ardia com luz vermelha e fuliginosa da carroça, refletia bem no olho do senhor Diogo Bernardes, que consequentemente parecia atribui-lhe tal, pensamento, que a necessidade e o acaso são causas da mesma forma que a razão e tudo que depende do homem, onde cada classe de homem delibera sobre coisas que podem ser feitas graças a suas capacidades e esforços, isto, indicava, portanto, que a consciência do senhor Diogo Bernardes encontrava quase que por acaso, em seus sentidos e, pela primeira vez, inteiramente alcançado o propósito da dedução, e, como que cada ponto da sua retina voltasse para a claridade do archote, iam, pois, a caminho os nossos eminentes personagens, ora conversavam animadamente, ora a circunstância do caminho que se tornava quase que indiscernível a vista os obrigavam a manter a atenção e o silencio, a densa névoa e a escuridão parecia tornar tudo como um labirinto espacial e um labirinto temporal e o par de archotes da carroça tingia a escuridão como um espelho que oferecia mais dificuldade do que um nível propriamente perceptível do que estava à frente, as elipses massas de névoa imputavam, isto é, numa atenção redobrada, ao que ouvia-se apenas o ruído das rodas e o cascos dos animais apossando-se do culto abandono da noite, nisto iam, quando o senhor Diogo Bernardes e toda a estrutura da carroça sacolejou com um abalo que num instante fixou a mula como uma estaca, e que por muito pouco não lhe arrancou os membros, e se o tivesse feito não o seria menos penoso do que a desgostosa posição que fora obrigada a ficar, o que pareceu no primeiro momento fora que a roda esquerda da carroça caíra numa cavidade, do que o senhor Diogo Bernardes ficou intrigado, que nem mesmo em sonho jurará que havia um buraco ali, tentou ainda alguns esforços em vão, fustigando o infeliz animal, que inerte, movia apenas as orelhas como se quisesse expressar seu infortúnio, permaneceu com o lado direito suspenso, enquanto que o outro lado, compreendido entre a espádua e a anca, parecia não aquentar por muito tempo a pressão, o peso que a carroça comprimia seu corpo, num segundo Camilo e o senhor Diogo Bernardes perceberam a gravidade do acidente, no mesmo instante o senhor Diogo Bernardes, atirou-se embaixo da carroça e foi para tentar com seu limitado esforço aliviar o ânimo do pobre animal, Camilo, por sua vez, compreendendo o que sucedera, apeando-se com rapidez e ao chegar junto do varal preso ao seleto de retranca que oprimia dolorosamente o animal, diante da pressão que exercia o varal no corpo do animal, seria impossível que só com as mãos pudessem fazer algo, "Uma faca rápido, o animal não aguentara muito tempo", exclamou Camilo procurando a parte da correia que prendia o varal, com as pestanas erigidas o senhor Diogo Bernardes e numa brevidade necessária, estendeu um dos braços e puxou uma pequena arca de baixo do assento, na qual havia algumas ferramentas, então, apanhou uma adaga, passando-a rapidamente para Camilo, "Ilumine aqui", disse Camilo, procurando com a ponta dos dedos a parte que prendia-se ao varal, a que o senhor Diogo Bernardes atendeu prontamente, e, Camilo foi cortando a dura correia de couro com uma agilidade muito maior que as condições exigiam, e, tão logo a última volta fora cortada, ouve-se um arranco do animal, que, enfim pode endireitar-se como se o peso do próprio mundo o tivesse libertado, juntamente com esse movimento, Camilo observou que nada de grave houvera com o animal, que com muito alívio, considerou ser uma sorte, depois, de terem desatrelado a mula da carroça, voltaram-se a fim de examinar o que de fato ocorrera, o senhor Diogo Bernardes afligia-se, descontente ao ver a carroça naquele estado, diante de seus olhos um acidente que julgara ter evitado, "O senhor não poderia ter evitado", observou Camilo, "Veja", Camilo, inclinando o archote para baixo, descobriu o motivo do acaso, uma legião de formigas subiam pela roda da carroça, o que demonstrava seguramente que a roda passara acidentalmente sobre o formigueiro, o senhor Diogo Bernardes produziu um som oclusivo que viera do fundo da garganta, e, logo subiu para cima da carroça para tirar o que fosse necessário para poder ergue-la, "É preciso uma alavanca para ergue-la", disse Camilo, olhando ao redor.
O vento frio que soprava naquele solitário caminho, também soprava na mesma hora de uma noite escura, nas pétreas faces das paredes externas da casa onde, lá dentro, Elvira, ia de uma ponta a outra da voluptuosa sala, rememorando momentos de sua vida que lhe assomavam as lembranças, o belo mar da onde fora criada, a construção em caracol, os crepúsculos ao lado de Camilo, o sol poete, e num segundo uma propagação "nada de sua volta", a espera, as manhãs que ficava na praia erigindo castelos de areia, a solidão a sua volta, a tia Berta procurando-a entre os rochedos, os banhos de mar, o reencontro com Camilo, o casamento, o voto de uma união duradoura, os momentos de pura alegria na ilha, a longa viagem, o encontro com seu passado, o presente, a significação de uma existência. "Como Camilo está demorando, o que pode ter ocorrido", murmuro para si, então, iluminada apenas pela luz bruxuleante que vinha da lareira, ela sentou-se, pareceu relaxar, na contemplação em cujo interior se revelam ideias, o silencio atribuía os tons baixos e sinistros da noite, ao lado de lareira, debruçado com a cabeça estendida para frente e o olhar aplicado, estava o cão Root. Lá fora, as lôbregas faces das paredes contemplavam cegas, a noite escura, por entre as espessas árvores um vulto de opacidade perniciosa, avançava ao passo tardo que no mundo é próprio nas reuniões ordenados de cleros e fiéis que desfilam no interior de uma nave, sondava o âmbito da casa, a coruja no cimo da torre emitiu um som que se assemelha a uma admoestação do que um pio que os poetas lhe atribuem, Elvira mantinha o olhar fixo na lareira, a espera a colocara numa espécie de introspecção, quando, de repente, observou algum mudar na expressão do cão, levantou a cabeça com o olhar cintilante, e como se enxergasse através das paredes, pois, se levantou, e acuradamente observava, redobrou a atenção, Elvira notou que de forma espantosa, o cão movia a cabeça, como que de fato seus olhos penetrassem as paredes e seguissem algo lá fora, aproxima-se da janela, com a fronte em alternância, agora, rosnando ferozmente, Elvira que já se mantinha apreensiva, sobressaltou-se diante da postura do cão e, erguendo-se da poltrona, entendeu que havia algo lá fora, o que era percebido com certeza, "O que há lá fora, hei Rott ", proferiu num tom apaziguador, o que causou um efeito ainda mais irascível no animal, "Meu Deus", a essas palavras, o cão com intrepidez impingiu-se contra a janela, e, não encontrando passagem alguma por ali, volta-se, veloz como um leopardo, que farejando sua presa predileta não mede meios para agarrá-la, Elvira ainda bradou com insistência, "Não, não vá lá fora, Ro..Rott", contudo, a porta da sala que se mantinha entre aberta e dava a livre passagem para os aposentos contínuos, onde a porta de entrada possui uma pequena tampa horizontal, de acesso exclusivo de saída e entrada do cão, passou, como um raio, e num instante já se ouvia lá fora seu latido, Elvira ficara com a alma suspensa, contida em várias ações possíveis, não dispunha de tempo algum para decidir, correu, fechou a porta da sala, trancando-a com a chave, em seguida voltou-se para o centro da sala como se esse fosse o centro do universo, era impossível saber se estava em repouso num campo gravitacional ou em aceleração uniforme num espaço vazio, imaginava o cão lá fora exposto a um perigo eminente, lutava ferozmente com alguma coisa e, a forma como depunha sua cólera mostrava ser algo poderoso, então, em meio a feroz batalha, ouviu-se um lastimoso e agudo latido, seguido do fatigante manto da cessação da vida, e um silêncio repentino onde se ouvia apenas o tique-taque do relógio parar, então, imediatamente, enviar um sinal a Elvira que algo mortal avia atingido o cão, e, então, nada mais além do tique-taque do relógio e o vento fustigando as grossas janelas, um torpor lhe ganha todos os membros, encostasse sobre a cadeira, uma retenção que tinha adormecida em mente parece despertar, convergindo para ela como se fosse o olho da alma, um medo que permanecia silencioso manifestava-se real, quase visível, as forças de Elvira começam a fraquejar e, prestes a cair, ela invoca seu pai, o marquês Launay: "Ajuda-me, Papai"! Mal pronunciara estas palavras, sobressaltou-se com o ruído de uma porta que se fechava e, como se revestisse de uma força sobrenatural, se dirigiu para as escadas. Nesse intertempo, Camilo e o senhor Diogo Bernardes esforçavam-se para içar a carroça, usando um calho de árvore como alavanca, fixado em baixo do eixo com muita dificuldade era pressionado na extremidade oposta, "Vamos tentar agora senhor", disse Camilo como se algo o fizesse persuadir, "Vamos, agora", e num esforço que parecia enfrentar os esplendores da radiação imortal, congênere, ofereceram uma resistência insuficiente, contudo, a segunda tentativa foi redobrada pelo constrangimento da primeira, e conceberam com sincronia uma robustez e vigor que seus corpos mortais içou, por fim a carroça para o chão firme, "Como a Apolo, a eterna juventude, de forma alguma um só homem conseguiria erguê-la", exclamou Camilo com um suspiro agoureiro e, tão logo disse isso, parece o calor de uma outra chama tomar-lhe a cabeça, ainda que a compreensibilidade do fundamento não fornecia-lhe aos sentidos nada mais que ideias confusas, no tocante a isso que sua alma inquietava-se, como uma unidade subsistente por si, esse agregado de imagens levou-o a considerar um objeto em particular "a glicínia que crescera junto à torre", "Deixamos de fazer algo importante", voltou os olhos para o caminho, que se desdobrava na escuridão, o senhor Diogo Bernardes que arranjava a carroça não entendeu as palavras de Camilo, "Não entendi o que disse senhor", Camilo já montado em Antares, com movimentos céleres e precisos, aparelhou-se junto a carroça e, proferiu estas palavras com o assalto de algo terrível, "Adiantar-me-ei, o senhor venha logo atrás de mim, não demores".....e, dito isto, soltou as rédeas, que o cavalo respondeu com um arranque se lançando a estrada a fora até desaparece como fumaça. Antares livre e atraído pelo espaço que se estendia a sua frente impôs um alto galope que cortava o ar o espaço com uma diretriz e dimensão que a concordância e a força dos seus incansáveis membros pareciam vinculadas tão estritamente com as de seu condutor e, alcançavam tão rapidamente a extensão de um ponto a outro que somente o céu, de modo quase calmo, inabalável em causa e efeito por uma abordagem ampla, correlato na absoluta contemplação os acompanhava, elevando-se, destarte, de uma encosta a outra, e depois planícies rasas ao longo de torvos tronos de árvores que ao dissipar da névoa mais e melhor a visão discerne aquilo que o vapor mantinha fosco, de modo que, a proporção que penetravam a sombria atmosfera, até aproximar-se à borda da taciturna represa, ai, crescia ainda mais o desejo do cavalo e seu condutor em chegar à o objetivo num impulso de opor-se com apatia a qualquer perigo que ousasse cruzar em seu caminho, tentar perceber de onde provinha tal sentimento produzia um anseio ainda maior, talvez a capacidade de imaginação que determina o sentido interno com respeito à relação de tempo, de que forma fosse, Camilo, pensou, "sim, pode ser isso", o vento frio parecia referenciar-se correlacionar conexões que produzia tal estado, a esse tempo, já abordava-se dos limites da propriedade Launay, vendo que a névoa adensava-se na extensão de lugar, diminuiu o ritmo do galope, visto que a visão fora reduzida a poucos metros, Antares fixava-se com tamanha presteza pelo sinuoso caminho, quando por fim, alcançou o portão de entrada, o cavalo teve as rédeas licenciadas, expelindo-se como uma flecha, até, conter-se por si mesmo diante da casa, Camilo, observou o aspecto silencioso da casa, apeou, deu alguns passos, atento olhava a frente da casa como se algo estivesse errado, e, quando percebeu a porta entre aberta da torre, ficou a olha-la, aquilo ao invés de atrai-lo, levou-o a um estado de apreensão, adiantou-se um pouco mais a frente, notou, na extremidade da varanda ( com um elevado sentimento de repulsa ), o que parecia ser o cão Rott, separado entre as vértebras dorsais e as vértebras lombares suas entranhas espalhavam-se ao longo do piso numa poça de sangue, assumiu uma expressão desdita, com repugnância, desviou-se daquela visão, voltou na direção da porta que se encontrava entreaberta, por um segundo passou a acreditar nas coisas imaginadas, como se viesse o pretenso consolidar as ideias que já algum tempo avizinhavam-se de sua mente, ainda, quando penetrou no interior da casa esse sentimento assumiu formas e sensações assaz reais como se uma configuração essencial desprendida do próprio tempo conformava-se com a precisão dos objetos presentes, obviamente que seus membros ficaram rígidos e o coração celeremente ordenado, mas, o espírito lhe trazia de volta a frieza e a cautela de um combate, subiu até o primeiro patamar das escadas, olhava com atenção a tudo, sacou da parede uma pontiaguda espada, sopesou e examinou a grande espada em todos os sentidos e, dirigiu-se impávido para o quarto de dormir, a porta estava aberta, apenas a luz de uma vela quase se extinguindo clareava o aposento, havia sinais que a porta fora violentamente arrobada, ergueu os olhos para dentro do aposento, fez um sinal com as sobrancelhas, articulou as palavras "Elvira", entrou no aposento, armado com o reluzente aço, e, não obtendo resposta, foi avançando com cautela até junto do leito onde deveria estar a criança, seu olhar assumira um traço de ironia macabra, olhou ainda no quarto de banho, ali nada havia que mostrasse algum sinal de desordem, fora a porta do quarto, nada mais no aposento parecia ter sido deturpado, tudo parecia inalterado em seus devidos lugares, rapidamente saiu com a espada em punho e agora tendo em mira outro alvo, mas, de súbito, parou, como se seus sentidos fossem afetados por uma causa passada, tornou para o centro do quarto em sua consciência havia simultaneamente algo singular, dirigiu-se na direção do velho receptáculo, calmamente ergueu sua tampa, e num segundo seu olhar umedeceu-se, descobrindo o pequeno Luís Carlos entregue a um sono tranquilo, o menino fora colocado ali cuidadosamente, provavelmente pelas próprias mãos de Elvira, mas, então o que pode ter havido? Que a criança fora ocultada era evidente, mas do que? O que significava esse vínculo existente entre dois termos, o passado, o pressente, a maneira como o menino fora colocado no cesto e a forma como Elvira foi encontrada na noite em que seus pais foram mortos são muito parecidas, havia uma preocupação em proteger seus filhos, mas, protege-los do que? Mas não havia tempo para pensar isso agora, a onde está Elvira, pensou Camilo conturbado, a relação havia algo quase que palpável, havia um brilho evidente em seus olhos, quase um espelho que retinha a similitude e concordância dos fatos, o vento soprava lá fora produzindo um som apavorante no cume da torre. A criança segurava-se com coragem nos braços de seu pai, enquanto que este celeremente cortava com seus passos a extensão dos aposentos da casa, cruzou as duas alcovas que precediam a sala, abriu á porta, a chama na lareira que clareava a sala estava quase se dissipando. "Sim, ouvi, muito barulho do cão latindo, foi quando resolvi sair para ver o que era não pude, a porta parecia ter sido trancada pelo lado de fora, e se o senhor aqui não houvesse chegado, certamente que ainda estaríamos presas", a criada dava essas informações enquanto gesticulava exibindo a tranca que haviam colocado na porta, enquanto que a mucama de Elvira permanecia de pé com Luís Carlos como se fosse uma estátua cinzelada unicamente para servir-lhe de suporte, "Vão lá para casa e não saiam de lá até que eu volte, tranquem todas as portas", ordenou Camilo e, esperando apenas que entrassem na casa, já montado em Antares, suscitou as rédeas para a direção desejada, e o destro animal como se já soubesse de seu intuito, lançou-se para frente como um raio, dobrando num instante por trás da casa, subindo na direção da torre, arremessou-se pelo caminho das aranhas, e tão velos passou pela charneca que parecia um abalo que vinha das profundezas do centro da terra, e ao mesmo tempo que produzia imagens na memória de Camilo, como se o comprimento do trajeto lhe revelasse a cada metro uma transitoriedade de clareza e distinção que lhe comunicava diretamente, incorporando aos objetos presentes com a mesma exatidão de uma duração real, representações que sonhara na ilha, "a longa escada que subia e, por mais que se esforçasse não conseguia atingir seu fim, a necessidade de alcançar seu término, Elvira, sim, é isso". Camilo era atraído naquela direção como se o instinto sobre as quais unicamente repousa a sua validade objetiva, era a causa disso e por sua vez o fato que a percepção e, com ela o pensamento, precedia toda a possível ordem determinada das representações, o cavalo dobrava com tal agilidade a linha sinuosa do caminho que nem mesmo a densa escuridão dava-lhe qualquer mediação, como se tivesse uma ante-visão, quando já elevando-se entre as árvores de uma ramada, alcançou a parte inferior da torre, lançando, como se diz, chamas pelos olhos, deteve-se, no seu entender desejado pelo condutor, apeando-se de Antares e segurando a espada ponte aguda com firmeza, Camilo pôs-se a olhar para o alto da torre, donde avistou uma claridade que o vento ofendia, porque soprava tão fero, que sua força agitava aquele clarão, acrescido pelo som fantasmagórico que cortava lancinante a torre, aquela visão surgiu como se tivesse imergido do âmago da alma, Camilo avançou para o limiar da torre, levando a espada em punho, quando junto ao portão, notou que estava fechado, mas não trancado, um sustentáculo havia sido introduzido na parte interna, e com acelerada e nunca vista agilidade, começou descarregar cutiladas por entre os vãos, derribando o calço, então, manejou-o com tanta força e destreza, que infundiu pavoroso som ao abrir o portão, passou como um espectro entre as paredes, até as proximidades da escada, iminentemente para se lançar com ímpeto para cima, mas, faz uma breve consideração, olha para o alto com impassibilidade, o clarão assombrosamente bruxuleava as pétreas margens do cimo, não deixava que escapasse qualquer som que chegava a seus sentidos, mas, nada além do que a conversação do vento que transpassava pelas entranhas da torre, a finalidade o impelia a ação, Camilo espiava todos os cantos da torre, pois, sabia que estava na direção de algo astuto, pernicioso, e, adestrando-se a si mesmo, subia, conhecendo a sutileza do seu eu verdadeiro, à medida que foi se aproximando Do terceiro patamar, diminuiu o ritmo da subida, os degraus aparentemente tão bem conhecidos, pareciam-lhes alheios, mantendo os olhos sempre no clarão que cada vez mais tornava-se proeminente à sua frente, era seus passos quem distinguia cuidadosamente a distância de um degrau a outro, agora, faltava pouco, deteve-se com o desejo de ouvir algo, nada, mais além do vento, a sensação de ser surpreendido por uma armadinha fazia de seu corpo uma arma viva, o silencio seguido das fortes lufadas do vento e o archote acesso eram demasiadamente comprometedores, o vento sorvia o suor que mal chegara a brotar-lhe pelos poros, continuou a avançar cautelosamente e, por fim, achou Elvira deitada com as costa sobre a parede inteiramente excluída dos sentidos, caminhou bem devagar em sua direção, dessa maneira, quando estava próximo ao alcançá-la, subitamente e com extrema rapidez uma estranha criatura com um horroroso semblante, atirou-se pelo vão para dentro da torre, Camilo, a essa visão, voltou-se para a criatura com espanto, levantou a espada em sua direção, a horrível criatura fitava-o sem produzir qualquer som, imóvel, como que acossado por irados desejos, trazia uma grossa corrente que segurava ameaçadora com um dos braços, Camilo com o olhar fixo na criatura percebia a horrível performance, parecia agora, fumegar bela boca e olhos, então, qual lobo feroz que fareja sua presa, buscando o momento certo para atacar, começou com fulmínea rapidez, voltear a grossa corrente, ameaçadora, mortal, tudo com uma agilidade tamanha que produzia um som estarrecedor toda vez que completava uma volta sobre sua cabeça, Camilo com diligência maior tomou posição de combate, escandindo com a espada o peito da ameaçadora criatura, a face daquele que mirava, parecia enrubescer logo mais que era ameaçado, com força e eficaz inteligência, Camilo desferiu o primeiro golpe, privando-se desse, tendo o braço veloz o bastante para rechaçar a ofensiva, respondeu a criatura, despejando uma vergastada com a cadeia de rijo laço que, se Camilo não houvesse agilmente esquivado, era certo que haveria de ter ficado sem a cabeça, desse modo, a irada criatura começou a despejar golpes ininterruptos que Camilo esquiva-se como podia, e, mesmo não podendo responder com a mesma eminência, ainda assim, atacava muito rápido, concentrando-se ao máximo na luta, até o ponto onde o demônio, ainda mais veloz, e sendo que maior crueldade demonstrava, encurralou Camilo contra parede de torre, pressurosamente vendo-se em desvantagem, Camilo aponta a espada para o peito do adversário, e investe com fúria, este, porém, vibrando a cadeia, pode com extrema agilidade abster-se do golpe, jogando a espada para o fundo da torre, daquele instante, postos frente a frente, a criatura considerou com escarnecer rosnando-lhe os dentes, pois de pronto, Camilo atirou-se contra ele, por tal modo envolvendo-o numa luta corporal, Camilo, acreditando que com as mãos, alcançar-lhe a garganta, este retorcendo os pés, exibiu uma força tamanha, juntando Camilo com seus fortes braços, erguendo-o tal como um balaio vazio, compôs a fronte com largos sobejos de força, apontou para a parede e, arremessou aquele corpo suspenso que, chocando-se contra parede, caiu como um bagaço.
Á este tempo, o senhor Diogo Bernardes chegara, e na cocheira desatrelava a mula e, nisto, ouviu um galope forte que chegava pela frente, escutando isto, e logo mais atento ainda ouvira o relinchar (que tão bem traduziu aquele som como se o animal lhe chamasse para fora), e considerando dessa forma cercou-se da porta e, vendo nada mais do que densa escuridão, adiantou-se intrigado para fora, ai sim, avistou a presença surpreendente do Antares, arregalou os olhos ao ver o esplêndido animal mesclado á escuridão como uma criatura vinda de uma parte encantada da terra, mantinha-se atrelado ao arreio, o porte elevado, o andar agitado, balançava a cabeça como deseja disser algo empinava com frenesi e, num arrebatamento voltava para a escuridão e, logo retornava num galope veloz, então, repetia os mesmos movimentos e votava-se para a escuridão, rapidamente o senhor Diogo Bernardes compreendeu o significado daquilo, o animal deseja que ele o seguisse. E assim o fez, em pelo montou na mula, de modo que verdascou-a com o intento de pelo menos não perder o rastro do Antares, o esplêndido animal quando abrangia com a inteligência que havia se adiantado muito daquele que buscava perceptivo, parava, com extrema impaciência, então, quando o senhor Diogo Bernardes no melhor galope que conseguia tirar da mula, despontava numa porção do caminho, Antares, percebendo sua aproximação, inclinava-se para dianteira rápido, tomando a cabeceira, o senhor Diogo Bernardes, ora conjeturava uma coisa, ora outra, que estava subindo na direção da torre, isso era certo, de modo, efetivamente negava-se em ter uma ideia clara do que acontecera, a condição formal que melhor se apresentava em seus sentidos, era que Camilo poderia ter caído do cavalo, mas, porque estaria nesse caminho, nessa direção, a esta pressuposição e outras que julgava era-lhe ao mesmo tempo improváveis, com isto, dobrando a cada galope o sombrio caminho das aranhas, até alcançar o âmbito da torre, e refreando a mula, observou com espanto a postura impressionável do corcel, fogoso e cheio de coragem, o ar parecia sobrar de uma região assombrada e contagiosa, o animal exaltava-se relinchando e com expansão empinava com suas poderosas patas traseiras, imponente como um vulto gigantesco, volteava e voltava a empinar como se buscasse alguma coisa no alto da torre, não precisou mais nada para que o senhor Diogo Bernardes entendesse o recado, apeou-se e, com os olhos voltados para o alto da torre, pareceu-lhe aquela visão como algo já presenciado, o dardejar daquele clarão, afigurava-se, descobriu-se, nas bordas, um não sei quê de um caminho findado, ao se aproximar da entrada da torre, o sentimento que o acompanhava, ia desembocar em uma ravina pantanosa e de espesso arvoredo, "Que assim seja", pensou, respirando profundamente, "ao menos, é muito certo que me parece que vi, que ouvi, e que me esqueci, sentir isto, tudo é, se não pensar, agora começo a conhecer o que sou essa luz me dá um pouco mais de distinção do que anteriormente". À medida que o senhor Diogo Bernardes se aproximava do alto da torre a criatura arrastava o corpo de Elvira, com desdém olhava o corpo de Camilo que jazia desmaiado junto à parede, levou o corpo de Elvira até o vão da torre, a criatura balançava a cabeça com extrema satisfação, o vento que atingia aquelas alturas, dava-lhe aos olhos um brilho de fogo, uma satisfação de contemplar a si mesmo e sua capacidade de agir, de modo que supunha seu interior estar voltado para o inferno, encontrava em Elvira o rígido desejo que o incitava-o, uma sofreguidão incontrolável o impelia como se esse dano dependesse sua própria existência.
Tomou os braços de Elvira, que tal ao fazer, esta, despertou e com um olhar obscurecido ante aquela visão à sina de seu mal-aventurado homônimo, desmaia de novo, a criatura exibia um agrado pétreo e, com extrema agilidade, içou o corpo de Elvira para fora da torre, mantinha-se no extremo do vão, mirava o fundo do pélago, escarnecia-se pisando sobre as cadeias que sustentavam o corpo de Elvira, avançava num diabólico estado de alienação mental, ora para fora, ora para dentro, com breves interrupções constantemente voltava á cabeça para certificar-se que aquela que mantinha agrilhoada estava ali, num desses intervalos, recuo assumindo um aspecto ainda mais feroz, pois, acabara de avistar a figura do senhor Diogo Bernardes no patamar; "Mongongô ", proferiu o senhor Diogo Bernardes como se tivesse num sonho assustador, a criatura parece ter lido as palavras produzidas pelo senhor Diogo Bernardes, por um instante parecia refletir com ponderação uma co-pertinência do ser e do nada, o senhor Diogo Bernardes por sua vez parecia duvidar da sua própria consciência, buscando a causa para tal realidade, olhou para o corpo de Camilo, duvidando se estava vivo ou morto e, quando avistou o doloroso estado em que Elvira se achava, adiantou-se, mas, logo contendo-se sob o olhar afogueado da criatura, nada havia de pusilânime no senhor Diogo Bernardes, contudo, a prudência lhe parecia uma formula mais correta, "Mongonô....ainda se lembra de mim", inqueriu o senhor Diogo Bernardes com serenidade, "porque castiga Elvira" ? A princípio a criatura olhou com desdém a mesma expressão que fez o senhor Diogo Bernardes relembrar às vezes que se dirigia a ele no passado, olhou-o o colo virou-se de um lado a outro os lábios parecia quer expressar algo que a força da natureza não o permitia, seu rosto assemelhava-se a uma máscara hirsuta enrugada, sua expressão assustadora começava a ondular-se por um tremor emocional nivelando para o resto do corpo, seus espessos lábios esforçavam-se para expressar algo, mas ao mesmo tempo era impedido parecia entender que fora condenado a não ser compreendido, e, pouco a pouco, aquele embrutecimento, ia dando lugar a uma sensibilidade cândida, o senhor Diogo Bernardes sabia que aquele indômito modo não lhe era inato, talvez acidentalmente adquirido, e com uma maneira acautelada empreendia o timbre das palavras para tentar persuadir o obscuro desejo que havia imprimido em sua alma, e, quem diria que o senhor Diogo Bernardes não o teria conseguido, contudo, naquele exato momento em que o sangue nas veias do Mongongô fluíam de forma branda, foi nesse ponto, que Camilo começou a voltar a suscitar os perdidos sentidos, pôs-se sentado, como se sua mente tivesse atravessado, num instante, os imensos espaços dos céus, e, num momento, recobrou as imagens e a força de seus movimentos, seu olhar procurou pelo corpo de Elvira, assim, não a vendo, de maneira precipitada, levantou-se na direção da criatura, apercebendo-se dessa atitude súbita de Camilo, uma ação de imediata austeridade foi despertada em Mongongô, de modo que, lançando-se com fúria sobre o senhor Diogo Bernardes que se fundiram numa luta, pois não seria possível que fosse de outra forma, agora, Mongongô julgava-se traído, sua ira aumentou ainda mais. Ao passo que Camilo descobrindo a situação de Elvira, nada via que não fosse uma maneira de salvá-la, assim, enquanto esforçava-se para puxar o corpo da mulher para dentro da torre, Mongongô capturando o senhor Diogo Bernardes pelo dorso com os dois poderosos braços, jogou-o por terra, logo em seguida, apoderando-se do pesado grilhão, voltou-se para Camilo, rodopiando com extrema agilidade uma vez tendo em mira a cabeça de Camilo que ainda se empenhava em salvar Elvira e, pronto para soltar o mortífero golpe, foi interceptado pelo senhor Diogo Bernardes que, atirando-se contra o Mongongô, de modo que os dois corpos saíram voando pelo vão da torre, tudo isso se passou num segundo, no mesmo instante que Camilo conseguiu trazer o corpo de Elvira para dentro ouve uma rajada de vendo como se a vida e a morte houvessem se encontrado. "Camilo como dói meus braços", pronunciou os frágeis lábios de Elvira, "Diga-me, foi o senhor Diogo Bernardes que caiu"! Camilo,soltou-lhe as cadeias, e, respondeu com um olhar afirmativo. O silêncio da tenebrosa noite parecia ainda mais aflitivo quando procura-se um recôndito sinal de vida, tendo considerado a direção que fica o vão da torre, Camilo apontou para rumo certo, andou alguns passos dirigindo atenção para algo suspenso numa lasca de árvore, o corpo de Mongongô, estava horrivelmente embalado, o sangue vertia-lhe, gotejante, numa gradação lancinante, um pouco mais a frente, jazia o corpo do senhor Diogo Bernardes, debruço, sobre a relva, Camilo chegou-se junto dele, Elvira que vinha um pouco mais atrás, aproximou-se com apreensão, o senhor Diogo Bernardes mantinha os olhos entreabertos, imobilizados como se tivesse uma visão transitória, completamente imóvel, Camilo, procurando sua mão e, ao segurá-la, sentiu ainda o calor da vida, em seus lábios um filete de sangue se expandia, "Senhor, senhor", disse Camilo com expectativa, as faces do senhor Diogo Bernardes se mantinha plácidas seus olhos permaneciam demasiadamente distantes, fecharam e abriram num instante, apertou com força a mão de Camilo como se aquele esforço fosse um apoio para suas palavras, "Tem algo furando meu peito ", esforçou-se em dizer o senhor Diogo Bernardes, vagueando o olhar e, cada vez que uma palavra era dita, ampliava-se o sague pelos lábios, "Não se mexa senhor, não se mexa," disse Camilo, percebendo que as costelas quebradas atingia-lhe os pulmões, "Vou tira-lo com cuidado, não se mexa", Camilo olhou para Elvira com se buscasse uma resposta, com a mão ainda firme à de Camilo, o senhor Diogo Bernardes tornou com aquele seu espirito ponderado e lúcido, "Estou vendo um magnifico pôr-do-sol, e desse modo uma torrente que, numa margem tudo devasta, deixa na outra....campos onde o olhar percebe, de longe, alguns prados...." ao terminar, sua mão foi pouco a pouco abrandando seus olhos como se enxergasse, agora, o brilho tênue do sol e uma eternidade que não podia ser explicada pela duração ou pelo tempo, Camilo sem poder conter as lágrimas, serrou seus olhos, a fim de ajudá-lo a desprender-se de si, a morte levara-lhe uma parte da alma, a outra que não é absolutamente destruída com o corpo, permanecera ali junto a natureza de Deus.
Dois dias depois da morte do senhor Diogo Bernardes, Elvira, Camilo e o pequeno Luís Carlos caminhavam à beira da represa, Luís Carlos vinha a frente como se procurasse compreender a amenidade daquelas margens, a lucidez das águas que chegava com as delgadas ondas como que impelidas pela própria essência divina, a criança começava a conceber aquele mundo como uma ontologia de fábulas, sempre vigiado pelo olhar atento dos pais, ora corria, ora parava fixando o olhar em alguma coisa falando a sua linguagem certa, obedecendo sua realidade especulativa, era um esquilo que tinha avistado o animalzinho observou-o como se os animais ao mesmo tempo tivessem a verdade humana e a verdade zoológica, quando tentou se aproximar mais e mais o animalzinho solitário fugiu, Luís Carlos recebeu aquilo com aversão, expulsando-o dali, voltou-se para os pais com um olhar de interjeição, obedecendo aos seus desejos, pôs-se a caminhar por entre as águas, o zéfiro de maio sobrava suave, seguiu caminhando desse modo, até avistar uma barca, sem remo sem velas, amarrada a um velho tronco a beira da represa, foi em sua direção, ao se aproximar seguindo seu curso de exploração, pulou para dentro da embarcação percorrendo toda sua extensão olhando a tudo atentamente, até descobrir o banquinho da proa, sentou-se como se fosse o capitão, mexia-se para frente e para trás como se seus esforços fossem movimentar a barca, baixando a cabeça, junto a seus pés, descobriu um pequeno ramo apanhou-o e jogou na água, foi quando descobriu um objeto raro e original, no lugar em que o ramo caíra círculos concêntricos se formaram e foram se espalhando até descobrir sua própria imagem refletida na água, olhou com admiração para a própria imagem, foi quando viu, num instante, como uma aparição emergindo do fundo, uma outra imagem de uma menina, considerando com sua idade, de cabelos loiros e cacheados, olhos brilhantes, o pescoço de marfim, os lábios entreabertos. Baixou a mão, para tentar tocá-la e mergulhou o braço na água para alcançar a bela imagem.
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