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Amor ou Paixão em Clarice Lispector

No meu tempo de academia tinha uma professora que dizia; “a melhor maneira de se começar uma discussão é definir a palavra ou conceito em questão”.
Amor ou Paixão em Clarice Lispector

No meu tempo de academia tinha uma professora que dizia; "a melhor maneira de se começar uma discussão é definir a palavra ou conceito em questão". Mas, ainda isso não é tudo. Mesmo definindo bem às palavras que se vai usar, encontramos uma interrogação? O que é interpretação? Em lingüística interpretação é a atribuição de um sentido a uma estrutura profunda (interpretação semântica) ou a atribuição de traços fonológicos e fonéticos, a uma estrutura de superfície (interpretação fonética). Para Freud a interpretação é o método técnico central da psicanálise que visa decifrar o conteúdo inconsciente oculto por trás de manifestações conscientes, como os sonhos, atos falhos, chistes (piadas) e sintomas neuróticos. Nesse sentido, percebe-se que ela a interpretação não busca apenas um sentido preexistente, mas realiza discursivamente o que estava reprimido. Bem, essa é a interpretação de Freud na vida onírica, mas, e no estado da vigília como fica a interpretação? Se o sonho é visto como uma realização disfarçada de um desejo reprimido, no estado de vigília encontramos uma "via régia" (estrada real). "O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa". As divagações de uma pintora solitária que durante toda narrativa faz uma série de reflexões e digressão, sobre questões existenciais, do ser ou não ser, do poder das palavras. Clarice Lispector, amor ou paixão? Clarice, uma escritora com uma subjetividade refinada, no fluxo da consciência e em conflitos existenciais, bem além do regionalismo vigente de sua época. Como bem nos parece, na obra de Clarice Lispector, o amor, a que as personagens desejam como caminho para descortinar sua existência, é desencontro, impossibilidade de linguagem e expressão chamariz do encontro com outro, sempre especular, e colocando em contratempo a verdadeira alteridade e o ideal do amor maduro, se podemos, falar, assim. Mas o que é amor maduro? Será que existe para todos? Todos chegam a alcançá-lo? Desencontro, impossibilidade de linguagem e expressão, será isso mesmo amor? O impossível encontro: o objeto de amor aquém ou além do ser? O impossível encontro: a alteridade incomunicável; será tudo isso amor mesmo? Se nosso raciocínio for um pouco mais rigoroso e, entendermos que nada acontece na natureza que possa ser atribuído a um vício desta; perceberemos que o "amor" que parece inexplicável em Clarice Lispector, na verdade é "paixão". Quando digo que Clarice Lispector, tinha uma subjetividade refinada é essa capacidade de engajar o leitor ativamente, movendo-o da posição de consumidor passivo de informação para a de um participante critico que analisa, questiona e conecta o conteúdo à sua própria existência. Tão pouco, nos importa aqui o que Clarice Lispector entendia por "amor" ou "paixão", e, se tivesse interesse em demonstrar essas afecções, - que, como dizia Espinosa: "aumentam ou diminui a potencia do corpo de agir"-, mas a possibilidade que nós da de interpretar o que é uma coisa ou outra. A definição mais lógica que encontrei até hoje de "amor" é que: "o amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior". A ideia de amor parece ser subjetiva, ou seja, cada um tem uma ideia, mas, quase todos atribuem "amor" a "paixão; o amor é uma espécie de paixão, mas, positiva. Logo, alegria, tristeza, e, consequentemente, as afecções que destas são compostas ou delas derivam, são paixões. Se seguirmos por essa vertente que o "amor" é a alegria, fica claro onde se encontra ou nasce as "paixões" em Clarice Lispector. Uma nuvem introspectiva parece sempre pairar sobre Clarice Lispector. Tenho uma foto dela, sentada, com á maquina de escrever sob as pernas, segurando uma xícara de café, observa a bebida como se visse um oceano de letras flutuando sobre o café. Prossigamos, então, pela "via régia" de Clarice Lispector. "Eu escrevo sem esperança de que o que escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabbrochar de um modo ou outro". Em Clarice Lispector, encontramos uma percepção simples da realidade, se a teoria da percepção parte de uma intuição cega um conceito vazio em contrapartida, em Clarice, encontramos essa sensação pura, até cândida que recai em uma função geral de ligação indiferente aos seus objetos, e que transparece ser uma força psíquica revelável por seus efeitos. Ela parece também colher uma ideia de coletividade, conjugação verbal (agente está querendo desabrochar de um modo ou de outro), ela procura demonstrar que a ação de expressar não é um fenômeno isolado, único, mas compartilhado. Ao analisarmos suas palavras temos quase a certeza que a conquista formal surgi como ao acaso, algo nada premeditado um estilo de narrar que na sua manifestação heterodoxa, lembra o vôo de gaivotas pela praia. A espontaneidade, deliberação em compor alcança sempre a originalidade em vista, seja no conto na crônica ou no romance. Clarice é fonte de interesse tão evidente e tão facilmente alcançável tanto no material semântico como no espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise. Quando começamos a emergir do regionalismo, á primeira fase do modernismo adentramos numa via introspectiva, linear uma nova formalidade dentro da literatura. "Perto do Coração Selvagem"; o elemento estrutural começa a mostrar traços compartilhados um estilo, desigual nascido não sei de onde da técnica imanente do escritor. Sem influencia, definido como um não sei que, constitui a marca da individualidade do sujeito, e na tese é perfeitamente explicável quando alguns críticos á associa as influencias de Clarice Lispector as técnicas de Joyce d Virginia Voolf. Depois, revelada pela própria Clarice, que sequer havia algum dia lido Joyce, mas apenas se encantara com uma frase que lhe parecera pura harmonia com o tom de seu primeiro romance e tão pouco sabia, então, da escritora chamada de Virginia Woolf. Desse modo além de Clarice derrubar fronteiras, perguntamos: de onde nasce o gênio? O "um não sei que" i.e., o estilo. A onde fica o limite entre fronteira e realidade e construção real? Entre o fato e versão do fato, entre mundo interno e mundo externo? Os traços psicológico em Clarice Lispector são como nos sonhos nós proporcionam vislumbre ocasional de profundeza e recessos de nossa natureza; como dizia Kant: "os sonhos parece existir para nos mostrar nossa natureza oculta e no revelar não o que somos, mas o que poderíamos ter sido se tivéssemos, sido criados de maneira diferente". A criação literária faz da interioridade subjetiva e, como dizia Hegel: "antes de ser uma realidade tangível e visível, tem de amadurecer na subjetividade criadora, no gênio e no talento que lhe dão a forma definitiva. Em Clarice Lispector, esse produto do espírito parece já ter nascido acabado. Dir-se-ia que se pretende adquirir uma receita, arranjar uma regra que indicasse o que é preciso, fazer, quais as circunstancias e condições conveniente para produzir algo desse gênero. Sua palavra escrita ultrapassa instrumentos determinado, submissão do mundo, onde após numa espécie de pasmo pergunta-se: "quem ela puxou"? Além desse estilo inovador, Clarice teve dentro da velocidade cognitiva uma motivação e ajustamento espetacular para sua idade uma maturidade e experiência que, em muitos, prolonga-se á manifestar. Vejamos o texto: Perto do Coração selvagem; Clarice Lispector explora os recursos que a língua dispõe o sentido implícito sob o sentido aparente, ou seja, aspectos fonéticos como a onomatopeia, tac-tac-tac, o silencio arrastou-se zzzz. O conto de consciente do emissor utilizando-se dos aspectos sintáticos como espécie de silepse: das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer". É esse comportamento lingüístico que acompanha toda a narrativa do romance retirando aquela expressão nascente que causou estranheza nos gêneros existentes até então. Num primeiro esboço a estrutura significativa na obra nos dá a perceber como a palavra é sempre motivada, seja porque existe uma relação natural entre a forma acústica e a coisa significante (onomatopéia, exclamações), ou seja, porque haja uma relação intralingüística entre as palavras que a autora usa. Ação – A primeira parte do romance é constituída de nove células dramáticas que, como a segunda que são dez possuem a virtude especifica de se organizarem harmoniosamente ao logo da narrativa. Lugar – O lugar dos acontecimentos além de uma pluralidade geográfica da uma percepção como situação de um corpo no espaço. Como um limite que circunda o corpo, sendo, portanto uma realidade autônoma. Além da ficcionista, caminhar á vontade tem-se a determinação do lugar que aflora cada conceito à sensibilidade ou vise-versa. Tempo – É a estrutura mais complexa do romance, transforma-o em estrutura de possibilidade. Como se observa, estamos referindo ao tempo psicológico. O motivo de críticos dizerem que Perto do Coração Selvagem exista uma dinâmica associativa é que tempo como ordem do movimento é uma totalidade presente porque toda ordem pressupõe a simultaneidade de suas partes, de cuja recíproca adaptação ela nasce assim, essa consciência aflora a superfície das reflexões ou das sensações. Contudo, penso como o tempo é uma percepção subjetiva e emocional, do mesmo modo que difere do tempo cronológico, também difere do tempo subjetivo de cada um. Pense, se ele o tempo psicológico é fluido, sendo influenciado por sentimentos, memórias e intensidades das experiências, logo que essa dinâmica associativa que os críticos atribuem ao romance em questão não é só essa ordem de movimentos, uma vez que subjetividade é o conjunto de pensamentos, sentimentos experiências, valores e perspectivas individuais. Mas, se pensarmos se os críticos chegaram a esse conceito, pois, deva ter havido um consenso. Assim, mesmo, penso não alcançar um conceito fidedigno, esse só mesmo o autor poderia nos dar uma ideia. James Joyce, certa vez foi entrevistado por um editor de uma revista literária; o senhor, sentou na frente de Joyce, abriu uma caderneta de anotações, cruzou às pernas, e começou a entrevista; "Bem, vou começar perguntando-lhe, o que o senhor entende por tempo", Joyce, respondeu, com um olhar fixo e profundo, "O tempo é um modo de pensar". Uma resposta curta e objetiva, para quem se preparava para escrever uma dissertação, a resposta foi tão conclusiva, que o editor não ousou lhe perguntar outra vez sobre o tempo. Sempre pensei que, os críticos são profundos, e o erro é serem profundos demais. Personagens – Poucos personagens visto que o eixo da ação passa pelo eu da personagem central. A personagem redonda obedece primordialmente aos impulsos interiores, colocando-se à margem ou acima das coerções sociais. No fluxo de um pensamento movente, fica a questão que a personagem central só se compreende só se conhece o que se pode em alguma medida reinventar. E a maneira humana de pensar faz com que a sombra da autora seja um personagem que transcende o que ela assinala como existencial, ou seja, a personagem é lançada para uma sub região que o leitor tenha começado a apreciá-la, consequentemente, a compreendê-la como uma espécie de consciência-reflexo; na medida, que o seu pensamento e seu comportamento se conservam como determinantes a autora engendra um universo que o envolve como o personagem humano. Linguagem – O monologo interior direto é uma das manifestações que se desenvolve com perfeito acabamento e Perto do Coração Selvagem, a não interferência do ficcionista, a comunicação direta, mas que pressupõe ausência dum interlocutor, mais o emissor, o receptor, o tema (topic) da mensagem e o código utilizado dá um acordo consubstancial entre o que a autora diz e o modo empregado, para dizer evidentemente, não significa uma apologia da forma do estilo, mas os fatores fundamentais da narrativa metodológica. O estilo e a estilística no romance seguem além do inventario das potencialidades estilísticas da língua um natural tom dando a obra seu próprio modelo de referencia. Sobre a trama e a composição falaremos a seguir como o objetivo geral; uma vez que a nossa determinação é uma abordagem como um todo, isto é, o conjunto dos enunciados lingüísticos submetidos à analise. Passemos agora, a outro gênero literário que Clarice Lispector sob explorar muito bem; o conto, Laços de Família, foi muito bem recebido pela critica uma vez que a autora se manterá fiel as suas primeiras conquistas formais como: Devaneio e Embriaguez; Amor, Uma Galinha, A Imitação das Rosas, Feliz Aniversario, A Menor Mulher do Mundo, O Janta, Preciosidade, Os Laços de Família, Começo de uma Fortuna, Mistério em São Cristovão, O Crime do Professor de matemática e O Búfalo. Todos começam com a consideração de um efeito. Como dizia Poe: [...] Dentre os inúmeros efeitos, ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência, ou, mais geralmente, a alma qual irá o leitor na ocasião, escolher? [...] Em todos, trata-se, pois, de uma narrativa unívoca onde a autora faz combinações de tom e acontecimentos, que melhor lhe auxiliem na construção do efeito. O conceito de estrutura em Laços de Família; seguem os cognatos exatamente no plano em que as unidades do conto exigem, ou seja, a narrativa curta a unidade de ação, condicionado as demais características. A noção de espaço segue imediatamente a de tempo, seja o presente ou passado; Clarice procura ir mais longe dramatiza, fertiliza o solo das afecções humanas. O lugar geográfico por onde às personagens circula interligam-se a moralidade e a semântica das forças primárias das ações humanas. Os personagens de Clarice na concepção existencialista é nada mais, do que ela faz de si mesmo. A estrutura narrativa que Clarice segue no conto vai da realidade concreta a uma estética que há acompanha em sua totalidade, isto é, o interior em si disposto em volta de um centro que expressa uma formula simples; o ser é o que é. Os personagens como decorrência natural das características do conto são bem limitados. Em Devaneio e Embriaguez Duma Rapariga existe um âmbito estreito entre o mundo psíquico da personagem e o mundo exterior que a cerca. É fato que a linguagem no conto oferece "traços distintos" acham-se agrupados em feixes limitados, ocorrem literalmente e funcionam realmente na comunicação falada, ou seja, em laços de Família o dialogo exige uma consideração em primeiro lugar. Mesmo o dialogo (ou monólogo) interior obedece à teorização da comunicação que – pode-se dizer – domina o campo da informação fonematica, semântica e lingüística. Clarice utiliza uma formalização rara, eficaz mostrando um requintado expediente formal. Os contos de Clarice Lispector, nos da à oportunidade de estudar relações entre o pensamento e a língua, nos oferece, ainda como o a autora tenta (mesmo que seja involuntariamente), penetrar o comportamento psíquico do sujeito falante e ver como a linguagem reage às suas disposições pessoais (adesão, apreciação, vontade, automatismo...). De modo que, podemos inferir seguramente que quanto à elaboração e exploração dos dados psicológicos que tem relação com a linguagem, forma um capitulo importante da ciência que nos propusermos a tratar. Outro ponto importante para se explorar e de assaz importância na narrativa é a linguagem como fato social, isto é, sua linguagem é a meu ver, uma condição de base de investigações e um dos meios essenciais de que dispomos para levar a bom termo o estudo dos grupos sociais. Só para assinalar que aquele que me parece ser um ponto a mais da atividade dentro da obra de Clarice Lispector; a semântica, com efeito, dentro de uma concepção histórica literária fica o texto da autora para o estudante motivado pelo processo de evolução da língua, encontrara um enfoque essencialmente da evolução do sentido; quando as motivações psicológicas que tentam dar conta dos diferentes processos de mudança do sentido. Dentro da estrutura narrativa de Laços de Família, encontramos outro ponto que merece nossa atenção à descrição; em sua estrutura diríamos que a autora tem uma motivação compensatória, a descrição dos protagonistas refletem uma visão interior precursora e corroborante como um retrato que reside num ato de exteriorização e de ajustamento a sociedade. Ou seja, Clarice através da representação estrutural das frases, dos morfemas, que constituem as frases dos fonemas que constituem os morfemas e das regras sobre o possível e o real, sobre o tempo e sobre o espaço, sobre a espiritualidade e a materialidade, ora em discurso direto, ora na interiorização e antecipação do futuro e do passado. "A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara de tempo de orfanato". No dialogo, digamos, pois, que sua consciência age unindo o que foi e o que será arquitetando uma materialidade descritiva sutilmente limitada. Para finalizarmos consideramos mais um ponto dentro da filiação inovadora de Clarice Lispector; a que gênero literário pertence à Hora da Estrela? Seria uma novela? Um romance? Ou um conto? Se optarmos pelo primeiro gênero observa-se que Clarice instala o livro num gênero literário tanto ambíguo; ao analisarmos o conceito e estrutura da obra, i.e. , à forma conteúdo e composição, observamos que a autora coloca possibilidades e variedades de um modo de escrever, ou seja, textos fragmentários e simultâneos e introduz no gênero prosaico características secundárias novas, isto é, concebe uma nova espécie literária, não obstante, de serem os tipos de formas de conteúdo e composição, com que, todos os artistas em todos os tempos têm trabalhado e tem de trabalhar. E, como em Clarice Lispector evidencia-se que o gênero literário não é só uma realidade objetiva, porque tem sua estrutura real, mais ainda uma realidade que persiste ao processo criador do artista, e, como todo processo dá possibilidades para novas investigações.
ESCRITO POR Josemar luis Camargo 3 K leituras
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