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A estranheza de ser eu mesmo

Naquele dia, fui tomado por uma angústia tão avassaladora que senti como se me rasgasse o peito, atravessasse meu coração e revolvesse, sem clemência, tudo aquilo que eu julgava conhecer a meu respeito. Foi uma peleja íntima, uma contenda feroz comigo mesmo, daquelas em que a alma parece se debater entre o que se é e o que, por tanto tempo, se tentou sufocar. Doeu. E doeu profundamente. Houve um instante em que já não me reconhecia; olhava para dentro de mim e me deparava com um estranho, alguém que eu próprio parecia desconhecer.

Não sei precisar quanto de mim precisou ser confrontado naquela batalha, tampouco quantas amarras invisíveis precisei romper para não continuar prisioneiro de mim mesmo. Sei apenas que lutei. Lutei contra meus medos, minhas contradições e tudo aquilo que, de alguma maneira, me impedia de ser quem eu verdadeiramente era. Foi uma luta árdua, quase brutal, mas necessária. Como se eu precisasse atravessar meus próprios escombros para encontrar, sob eles, a parte de mim que ainda ansiava por liberdade.

E, quando aquela tormenta enfim amainou, algo havia mudado. A angústia já não me devorava, e o que antes parecia me dilacerar dera lugar a uma sensação de inteireza que eu mal sabia nomear. Senti-me mais vivo, mais forte, mais senhor de mim. Não porque tivesse saído ileso daquela peleja, mas porque, de algum modo, saí dela mais próximo de quem eu era. Havia em mim uma força nova, nascida não da ausência de dor, mas da coragem de enfrentá-la.

Hoje, ao recordar aquele instante, compreendo que nem toda batalha travada contra nós mesmos nasce do desejo de nos destruir. Algumas nascem da urgência de nos libertar daquilo que nos aprisiona por dentro. Naquele dia, lutei contra mim mesmo para, enfim, poder ser eu. E talvez tenha sido justamente nesse embate entre a dor e a liberdade, entre o medo e a coragem, que comecei a compreender que ser fiel a mim mesmo exigiria, por vezes, a travessia dos meus mais sombrios abismos.

Texto escrito dia 2 de janeiro de 2020.

ESCRITO POR Jorge Lannes Júnior 11 K leituras
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